Raro é o dia em que estaciono o carro em alguma rua da cidade e não encontro no pára-brisas um papelucho qualquer. Umas vezes é um qualquer sucateiro, ajuizando ser o meu automóvel candidato a um dos artigos que vende, que se oferece como comprador do meu veículo. Outras vezes, na sua maioria, são panfletos de publicidade, sendo os por mim mais odiados, os dos videntes que anunciam possuir a cura para todos os males.
Impotência sexual, doenças de todo o tipo, mau olhado, invejas, falta de dinheiro, amores não correspondidos, tudo cabe no seu cardápio.
Estou farto destes "professores" Karamba, Karajali, Mamadu, Banora, Fofana, Samba, Karrassa e Salimu, dos "doutores" Sídia e dos "mestres" Cardri, Kaba e Bangal, que se dizem astrólogos, médiuns e videntes africanos, dotados de sortilégios de feitiçaria, capazes de sanar todos os males com resultados garantidos.
Triste realidade é a que de facto existem pessoas, seja por ignorância extrema, imensa vulnerabilidade, ou desespero limite, que gastam fortunas, por vezes até a exaustão dos recursos próprios e alheios, na esperança de ver os seus problemas resolvidos.
Quando a racionalidade vacila e a pouca sorte toma conta da vida das pessoas, especialmente as menos instruídas, com um maior grau de exposição à manipulação, facilmente cedem à fantasia de que a solução dos seus problemas reside algures no irreal. E é aí que esta cáfila de feiticeiros parasita, para ganhar a vida à custa do sofrimento e da desesperança dos incautos.
Estes "videntes" africanos não diferem, na sua génese, das seitas que pulsam por todo o país, prometendo milagres a quem lhes fizer oferendas em dinheiro. Ao abrigo da liberdade de expressão e do culto religioso, a sociedade laica não pode reprimir a existência destes flibusteiros, reis do engano e da manipulação, sob pena de coartar direitos constitucionalmente garantidos e poder abrir graves precedentes. Mas a fronteira entre a publicidade enganosa, conducente a graves lesões no património e saúde das pessoas (que pode ser sancionada penalmente) e a liberdade de adesão a tais grupos e/ou pessoas, é ténue. Por vezes só casuisticamente se pode aferir quais os direitos que carecem de proteção e justificam o sacrifício de direitos com menor tutela jurídica.
A simples constatação de que estes indivíduos, sejam particulares ou organizações, existem e prosperam, é por si só alarmante. Se estão atuantes e se publicitam é porque existe demanda. E confrangedor é a existência, no Portugal do século XXI, de pessoas que ainda recorrem a feiticeiros/as e a seitas que lhes prometem milagres; e, como carneiros a caminho do matadouro, placidamente lhes entregam tudo o que têm.




