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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Deixem-me dormir!

Oiço muita gente comentar que vai passar o Réveillon aqui e acolá, em casinos, em hotéis, em discotecas, em danceterias, ou em casa de amigos. Também já escutei algumas pessoas dizendo que vão celebrar o fim-de-ano de forma 'originalíssima': batendo em tachos e panelas à janela, em uníssono com os vizinhos da frente, para que ninguém fique imune à sua esfuziante alegria - fazem-me lembrar aquela celebérrima questão do Juca Chaves: 'A hiena é um animal que, além dos seus próprios excrementos, come carne morta; e ri do quê?'. Ainda não escutei ninguém dizer que planeia passar a noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, da forma serena que para mim mesmo planeei: na cama, aconchegado no calor do edredão de penas e, se possível, acompanhado de um bom livro. O Réveillon é um evento que acontece quando uma cultura celebra o fim de um ano e o começo do próximo. E todas as culturas que têm calendários anuais celebram o "Ano-Novo". Réveillon é um termo oriundo do verbo francês réveiller, que em português significa "despertar". Ora, a mim o que mais me chateia é que alguns foliões possam  efectivamente despertar o meu sono e eu nada possa fazer, já que parece existir uma cláusula de salvaguarda consuetudinária, com respeito à Lei do Ruído, que, nesta data, os absolve do pagamento de coimas. Mas, afinal, vão celebrar o quê? As diabólicas medidas de austeridade, o desemprego e empobrecimento assustador para a população que daí advém? Deixem-me, sim, dormir em paz e sonhar com um novo ano onde nada disso vá acontecer. Essa é a minha grande fantasia para essa friorenta noite que se avizinha.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Porque as cabras abortam

F-16 Falcon Fighter e F-18 Super Hornet (imagens retiradas da Internet)

São pássaros iguais aos que as imagens retratam, que têm vindo a ser apontados como os directos responsáveis por um número crescente e indiscriminado de abortos, e mortes súbitas, entre o gado caprino da região de Leiria. Os voos a baixa altitude e com quebra da barreira de som, indispensáveis para que a rapaziada da Base Aérea de Monte Real, na linha da frente da nossa defesa aérea, esteja preparada para eventuais cenários de conflitos, têm sido nefastos para a pastorícia da região. Não admira,  assim, que o Estado Maior da Força Aérea, provado que ficou o nexo de causalidade entre os voos  rasantes e os abortos espontâneos das donas cabras, se visse moral e juridicamente obrigado a indemnizar os criadores dos ditos caprinos. Usando da jurisprudência entretanto fixada no caso das cabras, serei eu, na qualidade de cidadão trabalhador, com direito ao repouso, quem vai intentar uma acção judicial contra a FAP, por violação da Lei do Ruído e dos regulamentos camarários que proíbem fazer barulho entre as 22h00 e as 07h00 da manhã. Uma vez que, também eu, tenho de provar o nexo de causalidade entre a minha insónia e o ruído provocado pelos aviões, vou pedir ao tribunal que ordene à FAP a remessa dos planos de voos nocturnos, ao menos aqueles que têm o bairro onde vivo por passagem obrigatória em voo rasante. É que  a mim, à semelhança das cabras, também se me aborta a vontade de trabalhar depois de uma noite mal dormida.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Triste-Feia

Há uma terreola muito perto de mim, junto à freguesia de Milagres, no concelho de Leiria, que se chama Triste-Feia; e, confesso, não consigo conceber um nome menos simpático para apelidar alguém no feminino, pois pior do que feia e triste, só mesmo ser cumulativamente antipática e com má índole. Mas são topónimos como este -  com a sua origem perdida na noite dos tempos, que, de quando em quando, algum curioso por estas coisas, voluntarista e estudioso, trás à colação para deleite de leitores não menos curiosos por estes assuntos. O certo é que geralmente trata-se quase sempre de uma moçoila menos bafejada pela sorte que morava para aquelas bandas e a sua presença acabava por funcionar como o elemento catalisador para a origem do nome da terra. E a prova  disto, ou pelo menos o que ajuda a sustentar a minha tese, apesar de nunca ter lido nada sobre a terra em questão, é a existência, mormente nas  freguesias dos Prazeres e Alcântara, ambas em Lisboa, de dois lugares apelidados Triste-Feia, que já mereceram estudos com conclusões congéneres. A analogia parece pois justificar-se. E como amanhã já é segunda-feira e dia de trabalho, arrisco a dizer que me sinto triste e também feio, ao menos por dentro, porque por mais que me tentem convencer que o trabalho dignifica, não existe nada mais gratificante do que trabalhar até à exaustão num projecto que tenha nascido fruto do amor a uma causa escolhida por nós. Contente-Bonito é como gostaria de me sentir na maioria dos dias e vou fazer por isso, ainda que nunca dêem o meu nome a uma terra, a uma rua, ou a um simples beco.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Finalmente a Europa!

Depois de várias tentativas frustradas e após imensas candidaturas rejeitadas, eis que o Madrigal chega finalmente à Europa institucional (mais rápido do que a Turquia!). E, como prova do facto, publica-se o último report do insuspeito Traffic Feed, um instrumento de medida colocado à disposição de todos os bloguistas que o queiram usar, a atestar a inusitada atenção das instituições do velho continente pelas publicações de índole caseira desta folha pessoal. A via escolhida, pasme-se!, foi o motor de busca mais certeiro e utilizado na Internet, o celebérrimo Google, nado e criado em terras do Tio Sam.

Conhecidas as discordâncias manifestas do autor do blogue em relação aos actuais políticos que nos (des) governam, não seria de todo descabido colocar a hipótese de um acto de espionagem, para uma eventual retaliação censória, ou mais grave ainda; mas o mais certo é tratar-se de um acidente netiano,  provocado  por alguém que tem pouco que fazer nas instâncias europeias, e, para não morrer de tédio, navega na Internet.  O desaguo nas águas tépidas do Madrigal, foi com certeza um mero acidente... espero.

[Seja quem for, é bem-vindo quem vier por bem!]



PS. Mas também não conheço ninguém em Mountain View, Califórnia, USA, com excepção do meu amigo, o governador Arnold. Será que a CIA já anda metida nisto?! Será que estou a ficar blogonóico?



Live Traffic Feed
  Lisboa arrived on "MADRIGAL"
  Mountain View, California arrived from google.com on "MADRIGAL"
  Europe arrived from google.com on "MADRIGAL"
  Lisboa arrived on "MADRIGAL"
  Tomar, Santarem arrived on "MADRIGAL"
  Falcão, Evora arrived on "MADRIGAL"
  Coimbra arrived from blogger.com on "MADRIGAL"
  Vialonga, Lisboa arrived on "MADRIGAL"
  Lisbon, Lisboa left "MADRIGAL" via 4.bp.blogspot.com
  Lisbon, Lisboa arrived from google.pt on "MADRIGAL"



segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Vade Retro Twitter(ismo)


Assiste-se, hoje em dia, a uma recente ameaça à existência dos blogs, em parte motivada pela  insaciável apetência das pessoas em cada vez terem um acesso mais rápido a conteúdos informativos, sem perderem tempo com leituras demoradas. O telegrafismo bloguista, uma espécie de transformismo de escrita apelidado twitter, chegou e, em alguns países, tem vindo a tomar o espaço tradicionalmente ocupado pelos blogs. Entristece-me saber isto, em especial porque vejo-me obrigado a dar razão a todos quantos sempre (me) afirmaram que, cada vez mais, há menos gente disposta a ler conteúdos com extensão e/ou qualidade. O "pudim instântaneo da Internet", ao que parece, chegou com a missão especifíca de conceder a morte aos blogs: os tão queridos e desejados espaços individuais de escrita, possibilitados pela democratização do acto de escrever e publicar, que as novas tecnologias vieram colocar ao alcance de todos nós. 

Eu cá por mim continuarei a blogar e não hão-de ser uns passarinhos negros armados em twitters que me vão meter medo. Eles que vão twittar para outras ramagens porque nós, os blogueiros, o que gostamos mesmo é de poder ser escritores, poetas, cronistas, ou o que seja, e não expedidores de telegramas onde a palavra  (por desnecessária) ocupa um espaço diminuto. Queremos, isso sim, dar voz às (nossas) palavras e usá-las como nos aprouver, pois todas as que usamos são necessárias, ou não fossemos nós mesmos a escrevê-las e a entender a  coisa assim.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A frio

E as borbulhas protuberantes que se vêem na cara de alguns transeuntes? Os dentes putrificados, o rosto coberto de varicoses, o ventre saliente como um odre, o cheiro fétido a suor e a vinho que exalam, a roupa suja e maculada de tanta decadência; corpos de nojo, que, sem motivo aparente, ainda riem... Isso sim, mais do que a genialidade, constitui para mim um dos mais insondáveis mistérios da Humanidade.

domingo, 27 de setembro de 2009

De fugida...para Lisboa

Não estou com o melhor dos humores, é certo, mas não quero tornar-me num ser espacial e omnipresente que faz da lamuria uma forma de vida, da narrativa detalhada dos seus males e sofrimentos a única comunicação relevante. E se me alongo neste solilóquio, arrisco a elevar a queixa a uma forma superior de comunicação, transformando-a numa inexcedível e bizarra arte. Um dos meus grandes males tem sido o sofrer de saudade, talvez por não viver tão projectado no advir como seria desejável; e sei que só o tempo, esse careca flibusteiro que tudo ameniza, me pode valer. São estas as parcas palavras que me apetece dizer. Nada mais. Agora vou tomar banho, vestir-me, e viajar até ao Barreiro para ir votar, na esquerda válida e iluminada, obviamente.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Eu quero um Trabant!

Trabant - 2 cilindros - 400 c.c. (made in ex-DDR)
Mercedes E 220 D - 4 cilindros - 2200 c.c. (made in Germany)
Esta coisa dos carros serem uns melhores do que os outros é muito relativo. Por exemplo, neste momento preferia ter um Trabant do que o meu Mercedes Benz, no estado em que se encontra, pois as probabilidades do primeiro conseguir satisfazer as minhas necessidades de deslocação são incomparavelmente maiores do que as possibilidades que revela o segundo. Em Dresden ainda há muitos Trabants: carritos de 2 cilindros, sem air bags, multivávulas, ou injecção electrónica, com uma mecânica tão simples quanto a de um ciclomotor mas, ao que dizem, fiável. O Trabant foi produzido pela Sachsenring, em Zwickau, na antiga Alemanha Oriental, entre 1957 e 1991. Em tradução livre, Trabant quer dizer companheiro de viagem. O Trabi, como era carinhosamente chamado pelos alemães, tem uma carroceria de plástico (não reciclável), similar à fibra de vidro, mas de fabricação mais barata e viável para larga escala e o seu desempenho não é famoso, pois atinge uma velocidade máxima de 100 kms/hora e apresenta consumos na ordem dos 11 litros em estrada e 14 litros em cidade, por cada 100 kms percorridos; isto apesar do seu peso não ir além dos 600 kgs, contra os cerca de 2000 kgs do meu Mercedes - ou do que resta dele.
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Estima-se que ainda existam mais de 200 mil Trabants em circulação e já começam a ser cobiçados pelos coleccionadores de todo o mundo. Por esta e por outras razões, vou procurar o telefone do hotel onde pernoitei em Desden e pedir ao recepcionista que me indique uma forma de adquirir um desses carritos. Não se diz vox populi, e resulta sempre chique? - "Vou buscar um carro lá fora, à Alemanha!" Não estará na hora de moi fazer o mesmo? O meu único medo é que depois me comecem a chamar trabantino, mas isso com o tempo passa.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

"Deus me dê paciência!"

O comportamento assertivo é aquele que envolve a expressão directa, pela pessoa, das suas necessidades ou preferências, emoções e opiniões sem que, ao fazê-lo, ela experiencie ansiedade indevida ou excessiva, e sem ser hostil para o interlocutor. É, por outras palavras, aquele que permite defender os próprios direitos sem violar os direitos dos outros. A assertividade não garante a não ocorrência de conflitos entre duas pessoas; o que acontece é que, se duas pessoas em desacordo comunicam de forma assertiva, é mais provável que reconheçam que existe um desacordo e tentem chegar a um compromisso; ou, simplesmente, decidam manter a sua posição respeitando a do outro. Em todo o caso, só nós somos responsáveis pelo nosso próprio comportamento – se a outra parte do conflito decidir comportar-se de forma não assertiva, o problema é dela. E desde que penso assim assim e pauto a minha forma de acção pela tão aclamada "assertividade", a vida corre-me bastante melhor, em especial no que toca à gestão dos conflitos, motivada pelas clivagens que se formam e existem expontâneamente entre as pessoas que me rodeiam no dia-a-dia, e com as quais tenho de lidar - gente com quem, naturalmente, não escolhi trabalhar ou reunir. [Deus me dê (sempre) a força e a paciência necessárias para que um dia o meu nome não venha a fazer parte dos head lines do Correio da Manhã!]

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Do título

Vivemos num mundo em que a afirmação individual dos sujeitos se faz pelo que têm. Não basta ser inteligente, bonito, elegante, simpático, charmoso, espirituoso, culto, desembaraçado, pleno de sentido de humor, divertido, ou tudo isso em doses massivas. Espera-se que essas habilidades, esses "skills", ou caracteristícas, rendam e dêem frutos e sejam significados pelo meio envolvente como adquiridos de mais-valia. A velha discussão sobre a dicotomia entre o ser e o ter parece, pelo menos por agora, resolvida de uma forma expedita: o ter está ao serviço do ser e o ser é uma abstracção monumental a que muitos poucos têm acesso. Valorizam-se os sinais exteriores e o que serve de moeda de troca numa rede complicada de significações: dinheiro, um título nobiliárquico, académico, um cargo importante, um nome sonante. Não ter é o mesmo que não ser. Logo não ter qualquer coisa com jeito, qualquer coisa que os outros reconheçam e avaliem como boa ou desejável, é a desclassificação suprema. É assim que casar com uma determinada mulher ou homem com caracteristícas seleccionadas é uma aquisição de estatuto. E o problema desta expansão possidente não está na aquisição mas na perda. Ninguém gosta de perder o que quer que seja. E perder pessoas que, para lá do seu valor intrínseco, sejam um leit motiv para a razão da existência, é, para alguns imbecis, igual a perder os sinais exteriores de uma qualquer riqueza que julgavam possuir. Como é difícil admitir que o sentimento de posse em relação a pessoas seja dominante e mais difícil ainda assumir que se quer alguém mais pelo que ela significa do que pelo que ela é, confundem-se a amizade e o amor com outras valências quaisquer que nada têm a ver com a nobreza desses sentimentos. E foi por este motivo, e por outros, que neste final de tarde, dominado por uma persistente má disposição, saí da farmácia próxima à minha casa sem aviar o medicamento que carecia, só porque o funcionário - um tinhoso serviçal de Doutores, Engenheiros, gente importante e afins - descuidou o atendimento de uma velhinha que, coitada, mal se conseguia expressar, só porque entrou no estabelecimento, imagine-se?! Um Doutor! Uma pessoa de título, um médico, a quem ele de imediato fez uma vénia, gesto que lhe acentuou ainda mais a sua pronunciada escoliose - uma doença crónica e progressiva tão caracteristíca de todos os serviçais que atingem o Nirvana cada vez que beijam o chão que os aludidos finórios pisam. P. que o pariu! - pensei, mas, claro, nada disse. Limitei-me a sair sem o medicamento que precisava e ainda mais nauseado do que quando entrei.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Da natureza humana

A causa das irritações é mais do que ambígua. É sempre uma resposta emocional, abrupta, insidiosa, que nos colhe de surpresa, nos tira do sério e que às vezes tem até consequências gravosas. O mais desagradável é mesmo a consciência da desproporção entre o estímulo desencandeador (uma tendência para más interpretações, com recidivas, uma sensibilidade de flor-de-estufa, uma azia momentânea, um pré-juízo) e a resposta dada que nos deixa um enorme amargo de boca e uma desconfiança justificada sobre o suposto bom feitio do nosso interlocutor e das suas boas maneiras. Irritamo-nos por tudo e por nada, todos os dias e várias vezes no mesmo dia e aproveitamos as irritações para dizer coisas desagradáveis, boçais, para dar largas aos aspectos menos simpáticos da nossa personalidade que, noutras vezes, até é supostamente encantadora. "Passamo-nos" porque alguém nos interroga a propósito de um pequeno equívoco, uma pergunta mal colocada, uma ínfima troca de palavras e fazemos desse reparo uma enorme discussão, aproveitamo-la até ao tutano para dar largas às nossas reclamações sobre o não sermos compreendidos. Irritamo-nos e ligamos a irritação à impaciência, a impaciência ao cansaço. A irritação é uma caracteristíca de temperamentos coléricos e há quem faça da irritação, das explosões, gritos e mau feitio que ela propicia, uma fórmula de aliviar tensões e alimentar o equilibrio instável que sustenta as pessoas que se movem neste nosso mundo. Às vezes é bem irritante lidar com pessoas assim. Há pessoas mais amáveis do que outras, mais capazes de desencandear afectos positivos, de serem contidas. E perdoar não é, nem tem de ser, uma possibilidade aplicável a todos os que nos ofendem. Sentir algumas ofensas como definitivas e irremediáveis é fácil quando o ofensor é alguém que não receamos perder, porque não faz parte do círculo das pessoas que reputamos "imprescindíveis". Quanto muito podemos sofrer uma decepção profunda, mas esclarecedora, pelo inusitado da situação criada. E, dos nossos demónios, o único que nos pode conduzir seguro ao mais vexatório desamor de nós mesmos chama-se medo. Medo de perder. E esse, felizmente, no caso em apreço, não existe. Vaya con Dios!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Lisboa em ascensão turística

(In Folha de Curitiba)
Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o poder da palavra, aqui fica, em resenha, mais uma pérola do mau jornalismo brasileiro, porque também existem no Brasil profissionais de altissíma qualidade. Lisboa é deste modo aviltante promovida no Brasil. Como será possivel dizer tantos disparates em tão poucas linhas?! Aqui fica a pergunta para meditação.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Justiça - um desejo para 2009

Peço aos agentes do Direito, a todos quantos possam de algum modo influenciar as tomadas de decisão nesta área, que não deixem a Justiça em Portugal descambar ainda mais. Dêem a todos nós, governados, gente de boa índole e que vive dentro dos parâmetros societariamente aceitáveis, exemplos de moralidade e firmeza na aplicação das sanções aos culpados de crimes infames; por mais "intocáveis" e influentes que os criminosos sejam. Em especial, não deixem impunes os culpados no caso "Casa Pia", por maiores que sejam as pressões politicas, ou as ameaças veladamente a vós dirigidas. Este é, porventura, o maior desejo que gostava de ver realizado em 2009: a severa punição de todos quantos violentaram anos a fio as crianças casapianas; e que essa punição fosse de tal forma exemplar e dura que pudesse servir de exemplo jurisprudencial futuro e desencorajamento para todos os monstros que por aí andam à solta, e apenas esperam a melhor oportunidade para molestar crianças inocentes. Não é verdade o que se escreve e diz (mentiras estatistícas propaladas por "estudos" inverosímeis de Sociologia Penal, Criminologia e tretas afins - que também eu li e estudei), que as sociedades com sistemas penais mais severos têm índices de criminalidade violenta idênticos aos das sociedades mais permissivas. A ameaça de sanções pesadas são, entre outras, medidas eficazes na dissuasão da criminalidade. NB. Já faltou mais para rasgar o (bafiento) diploma que, um dia, me elegeu jurista.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

(Vista aérea do rio que banha a cidade mais linda de Portugal - Dezembro 2008)
O frio aqui pelo nosso país está pela hora da morte e receio que estas temperaturas tão baixas possam ter efeitos nefastos na minha saúde. Acho que vou mesmo seguir as recomendações usuais neste tipo de situações: utilizar roupa quente suplementar, cobrir a cabeça, utilizando um chapéu ou gorro, proteger as mãos com luvas e utilizar calçado adequado para evitar perdas de calor. E como a circulação sanguínea faz-se com maior dificuldade, o melhor é mesmo manter-me activo fazendo pequenos exercicíos com os braços, pernas e dedos, beber bebidas quentes e comer refeições igualmente quentes. Não se admirem pois os utentes da repartição onde trabalho se me virem amanhã, dia nove de Dezembro, entrar aos saltinhos pelo escritório adentro, de gorro na cabeça, expelindo bafos de calor, enquanto ensaio uma espécie de "Dança de São Vito" para não perder a temperatura corporal. Espero que eles, ao menos, sejam pessoas compreensivas ou, no minímo, dotadas de algum sentido de humor. Em nome da saúde, afinal, tudo é compreensível. Quem diria que há pouquíssimo tempo atrás estava eu, em Copabacabana, a sorver por um canudinho uma água de côco gelada?! Coisa de doidos!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Negro

Hoje, já muito cansado do começo das frioleiras deste Outono amarelo e cárneo, onde toda a vida que dantes regurgitava na copa das árvores esmoreceu, senti pela primeira vez que, cedo em demasia, a luz vai-se embora. Lá em cima, o céu cinzento-carregado, quase plúmbeo, como duas mãos desertas de ternura, ameaça quase sempre com sentenças de chuva. São quase dezanove horas e já se vêem os dentes da noite. Noite que dentro de instantes vai fervilhar de gritos, insultos, gargalhadas; e silêncios absurdos, também. Hoje, em especial, a minha cabeça escalda. Tive um dia de extrema contradição. Ainda guardo cá dentro tantas palavras que não saem e me doem. Palavras ou gritos? Talvez gritos, sim, talvez golfadas de protestos. Por vezes sinto que ando a desinteressar-me completamente desta tarefa, árdua e chata, de viver. Depois vejo as coisas sob outro prisma e penso que viver, em em si mesmo, é um acto de grande coragem. Começou a longa noite. O Outono, depois o Inverno, o frio, as chuvadas intermináveis; os dias cada vez mais curtos; a ausência do meu querido Sol. Este tempo tem para mim um riso de feiticeira: A velha história das noites matreiras que matam os dias ainda jovens. As luzes eléctricas ao cair da tarde, a recolher os cansaços da gente que torna a casa; as flores doentes do dia que se vai; as sombras que se estendem no asfalto das ruas, nas paredes das casas; a ausência da cor. Ao morrer do dia, apetece-me por vezes subir bem alto, até ao cimo do castelo, para conseguir ver nos telhados, nalguma água furtada, o fogo do sol que ainda flameja, aqui e além, em tempestades de ouro. A cidade desliza para a noite e em breve virá o luar iluminar-lhe os seios. É quase hora da paragem, do ritual do jantar, que para alguns não existe. Só a côdea do desespero, ou uma vontade indómita de se deitar com o estômago vazio, igual a si mesmo.
[Estas palavras, cor do breu, escaparam-se-me numa mesa de café enquanto aguardava que o crepúsculo reinasse por completo. Fechei o meu caderninho negro da "Âmbar", enrolei-o antes de o meter no bolso, poisei a esferográfica e, por escassos segundos, cerrei os olhos cansados. Do alto da igreja matriz tinha começado o repicar dos sinos. Levantei-me, paguei a conta, e comecei a descer vagarosamente o empedrado da rua, enquanto a morrinha do dia se dissolvia em gotas de luz no negrume lustroso dos paralelos. Mentalmente, trautei uma melodia qualquer, como se fora o assobio do tempo pelo infinito. Sei que entrei no carro e dirigi-me para casa em automático.]

quarta-feira, 30 de julho de 2008

De volta à escola

(Palavra de Pinóquio!)
A conselho de uma pessoa avisada, e que por certo não me deve querer bem, estive quase decidido a matricular-me na FDCoimbra, a fim de "avivar" certas matérias juridicas, seja por à data me terem escapado ao conhecimento, ou porque não lhes dei a devida importância. Por essa razão, aguardo serenamente que a secretaria abra as portas a fim de preencher os formulários necessários à minha (re)candidatura. Tanto quanto sei, não há nada que impeça alguém de fazer o mesmo curso duas vezes, até porque o ensino do Direito ministrado na "Heidelberg" das Beiras é bem diferente das ortodoxias que se propagueiam em Lisboa. Num país onde todos anseiam ser doutores, estranhei não ver mais ninguém à porta da Faculdade!
[A tornar-se verdade o que acabei de dizer, julgo que preferia passar os mesmos cinco anos num Gulag siberiano, a partir pedras a golpes de malho, do que repetir a enfadonha experiência de ter de engolir de novo as prosápias e as sebentas dos ínsignes Doutores! Vade retro a Lex, a Jurisprudência e tretas afins! Deixai vir a mim a poesia, a prosa, as leituras, as viagens, a brisa do mar e o trinar dos pássaros, bem como o amor e o enamoramento, e todas as demais coisas prazenteiras da vida. Se ainda não ofereci os catrapásios amarelecidos e gastos que me ocupam espaço em demasia nas estantes da sala, foi pela simples razão de saber que eles não iriam ser úteis a ninguém, tanta a incorrespondência com a realidade e o débito de palavreado inútil que encerram. Dos direitos que tanto estudei só uma máxima retive: vence quase sempre a razão do mais forte e poderoso e só assim não acontece quando a alma é maior do que a pessoa.]

Fac.Direito - Coimbra

(Torre junto à Faculdade de Direito - Coimbra - Julho 2008)
Haverá porventura alguma alma caridosa, com arte e engenho para estas coisas, que se ofereça para estudar as recentes alterações ao Código do Registo Predial, no âmbito do SIMPLEX, reunindo-as posteriormente num livrinho com dizeres simplistas, de preferência com bonecos, e mo ofereça? Prometo uma recompensa, não em alvíssaras, como antigamente se propagandeava, já que não as possuo, mas noutro género qualquer; talvez mostrando a minha mais profunda gratidão. É que já lá vão tantos anos quando eu estudava leis, dia e noite, e tanto o vento que, desde então, passou pela minha minha cabeça, que a capacidade e a veia juridíca varreram-se-me. Hoje, tudo o que vá para além da leitura de romances, poesia, crónicas, revistas e livros policiais, são demasias para mim. Ou estou ficando velho, ou farto, ou se calhar ambas as coisas. Defino-me como estando acossado por uma estirpe rara do "Síndrome Garfield".
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NB. Outro dia, precisamente na Fac. de Direito de Coimbra, queriam-me cobrar dinheiro pelo ingresso na "Sala do Capêlo". Ora isto faz-se a um correligionário só porque estudou em Lisboa?! Discriminação, a merecer uma queixa das grandes! Quando algum coimbrão for à biblioteca da FDLisboa, vou propôr à Associação de estudantes a cobrança de uma "taxa moderadora" (mais não seja para moderar o ímpeto golpista para sacar dinheiro a velhos-pobres-ex-estudantes só porque se formaram na moirama e não na "Heidelberg" portucalense)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Os sábios e os sofistas

(Oiçam-me, candidatos a sofistas do SIMPLEX!)
Face à intensa ciber-revolução que se encontra a decorrer na Admnistração Pública, com o intuito, aparentemente benigno, de tornar mais céleres os procedimentos para os cidadãos, aumentando a sua eficácia e diminuindo prazos e documentos anteriormente exigidos, criaram-se, no âmbito do SIMPLEX, uma série de aplicações informáticas, cujas siglas encerram vocábulos misteriosamente semelhantes - SIRCOM; SIRP; SIRIC - que se vieram juntar a outras já existentes. A palavra de ordem para os funcionários (ainda não demissionários) é a seguinte: independentemente da qualidade da formação que lhes seja dada, ou ainda que na ausência dela, urge cumprir objectivos previamente traçados para cada serviço e também para cada funcionário individualmente considerado. A sanção mais grave para o incumprimento dos mesmos (que são sempre objecto de informação subjectiva das chefias - daí a celebérima "graxa" ter ganho, agora mais do que nunca, um papel fundamental em todo o processo - é, sem peias ou eufemismos, um despedimento "com justa causa" - Os temidos "patins" colocados nos pés dos funcionários, acompanhados por um generoso empurrão nas costas para ajudar ao avanço. É um espectro que paira sobre todos nós. Mas as aplicações informáticas enfermam de erros graves: o "sistema" cai a qualquer momento, muitas vezes sem pré-aviso, inviabilizando os almejados céleres procedimentos "on line" e o público desespera e suplica pelas velhas práticas "à mão", mas a resposta que ouve é sempre a mesma: "Essa prática já não existe e é impossível fazê-lo de outra forma. Sem sistema não podemos fazer nada." Sabe-se de casamentos que não se puderam realizar no dia marcado porque o sistema informático do Registo Civil estava off e não lhe apetecia de todo ficar in - o contrato mais importante do Direito Civil depende dos caprichos de uma máquina! - bem como de muitos outros procedimentos, que seria suposto acontecerem no momento, ficarem sem realização. Imagine-se um acto judicial, praticado por um magistrado em plena audiência de julgamento, ficar por realizar só porque o sistema está off! Parece-me estar a imaginar um juiz a falar mais ou menos assim: "Tenham paciência. Levem de novo o recluso para a cela e telefonem-me antecipadamente para saber se o sistema está in, para que eu nessa altura possa ter acesso aos dados informáticos que me permitem decidir qual a medida que devo tomar. Entretanto, mais uns dias "à sombra" nenhum mal lhe farão. Com certeza que o recluso vai entender que as aplicações informáticas ainda não são totalmente fiáveis e é tudo uma questão de tempo até que os técnicos do ITIJ afinem as melhorias necessárias ao bom funcionamento do sistema, a não ser que ele seja uma pessoa desrazoável e nesse caso levarei isso em consideração. Vá, vão embora agora que tenho mais que fazer e não se esqueçam de, antes de o trazerem de novo, telefonarem para saber se a internet está a funcionar!"
Se cuidarem de me "fazerem a folha" - não conheço no nosso vernáculo outra expressão com um sentido mais preciso - tornar-me-ei indigente, sem-abrigo, descuidado, poeta a tempo inteiro, pedinte, irresponsável, caloteiro; enfim, um porco, feio e mau, tout court. Penso deixar crescer as barbas, abolir os banhos diários, assim como qualquer tipo de higiene, e farei como tantos outros já o fizeram: junto todos os meus marcadores coloridos, rascunho uns cartazes de tamanho gigante e prego-os ao longo das árvores que ladeiam o Liz. Nessa altura, sentar-me-ei num banco de jardim, estendendo a mão à caridade. Espero que, ainda que por gozo ou comiseração, algum trauseunte mais paciente, pare e leia os meus escritos repletos de súplicas, zangas, escárnios e maldizeres. Entretanto, os dias sucedem-se, o tempo avançará inexorável e, com a chegada das chuvas, a tinta vai esborratar todos os meus escritos. Nesse tempo já ninguém me encontrará sentado no tal banco do jardim, pois tenho a certeza de que já estarei noutro lugar - que, por acaso, até já o tenho escolhido, mas por ora não vos digo aonde fica.