terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Cai o pano

É com uma certa mágoa que abandono a escrita no Madrigal, mas as circunstâncias não me deixaram outra alternativa. Nunca gostei do nome do blogue. Sempre o achei pretensioso e evocativo de alguém que em tempos se julgou capaz de ser poeta. No entanto, com o rodar dos anos,  fui-me habituando a ele, como se fosse uma segunda pele, um espaço mimoso, um jornal, o meu diário possível de ser partilhado, a minha catarse. Sempre cultivei outros espaços de escrita, anónimos, com outras temáticas, mas nunca com impressões tão pessoais. Com este, já é o terceiro blogue que abandono no espaço cibernético, para que fiquem quietos, apenas pairando, como testemunhos silentes dos textos que neles publiquei - pelo menos enquanto o blogger não os erradicar.  É muito esquisito e triste escrever um post de despedida, mas a minha partida é, neste caso, plena de reticências, uma vez que não tenciono abandonar uma coisa que há muito faz parte de mim: a escrita. Saio apenas do Madrigal, discreta e calmamente, neste dia  timidamente ensolarado onde as sombras se infiltram pelas brechas da minha alma, e o melhor caminho é sentar-me no chão e absorver o ar envolvente. Vou ali como quem vai até ao jardim ver se o orvalho já secou nas pétalas das flores, e quando voltar já será com certeza noutro lugar... 

A todos os que aqui algum dia me leram -  a grande maioria pessoas cujas vidas ignoro em absoluto - deixo o meu muito obrigado e um abraço fraterno.

Jorge

domingo, 16 de janeiro de 2011

Uma vida a correr...

Ocupamos de tal maneira o tempo que passamos na vida, que ficamos com a sensação de que ele não chega para nada. Nunca temos tempo suficiente para fazer tudo aquilo que queremos. No entanto, quando ousamos parar um pouco, talvez, no fundo de nós, algo nos pergunte: Para quê esta pressa, esta necessidade de fazer tantas coisas? O que é que, afinal, isso me traz de importante?; e, sobretudo, onde é que acaba por  me levar? Uma das grandes preocupações do nosso "estilo de vida moderno" é não perder tempo. Aproveitar ao máximo todos os minutos. Chegar a tempo, ganhar tempo, mesmo sem saber de quê nem para quê. Quando não havia electricidade, aquilo que fazíamos era mais comandado pela luz do sol do que por outras pressões exteriores ou obrigações a cumprir - embora muitas das criações mais geniais da literatura universal tenham sido escritas à luz de candelabros de velas ou de lamparinas de azeite. Mas é um facto que o dia era mais vivido enquanto tal, e a noite mais sentida como noite. E o facto de cada um desses tempos opostos e complementares nos permitir descansar do outro trazia-nos um certo equilíbrio. 

O computador veio tornar possível elaborar muitos mais textos do que quando usava a máquina de escrever,  ou a caneta. E esta máquina fabulosa, quando ligada à Internet, pode dispensar-me de qualquer contacto real com os destinatários dos meus textos. Hoje em dia, com a automação de muitas tarefas e o facilitismo que era suposto elas nos proporcionarem, em vez de ganharmos tempo para o lazer, o ócio, passamos o dia, a semana, o tempo todo a acelerar, a produzir. Em vez de desfrutar da vida, que é só uma, irrepetível, com termo incerto, consumimo-la. Acontece que o tempo não se perde nem se ganha, ele simplesmente passa e a única coisa que nos convida é que o aproveitemos, não no sentido de fazer o maior número de coisas possíveis, mas no de o gozar. O respirar. O viver. O deleitarmo-nos preguiçosamente e com detalhe numa actividade, fica muitas vezes prejudicado pelo afã de fazer muita coisa. E às vezes esta necessidade frenética de nos mantermos sempre ocupados, mais não é do que uma forma sub-consciente de anestesiarmos pensamentos, infelicidades, ausências, e/ou colmatarmos carências de outra ordem. O melhor que temos a fazer é aproveitarmos para dar um novo rumo à nossa vida, esquecendo que ela é finita, e concebendo os nossos sonhos como concretizações ainda capazes de ter lugar na réstia do tempo. Mas para tal é necessário apelar à coragem, à incomodidade, pois sem estes atributos a funcionarem em pleno não conseguimos mudar seja o que for.

"How To Break Up" Tales Of Mere Existence

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Madrigal em Quarentena

Aldeia do Piódão - Novembro de 2010
Fiquei curioso como uma simples frase, escrita por um pensador romano há mais de mil anos, possa ter gerado tanta polémica. Talvez o sentido actualissímo da questão - a eterna questiúncula entre optar por ter uma reacção maior do que a provocação ou, pelo contrário, mostrar superioridade através da imperturbabilidade - tenha atiçado as nossas mentes. Mas de facto é algo que não deixa de ser verdadeiro e que nos acompanha na maioria das interacções que estabelecemos no quotidiano, seja no local de trabalho, na escola, no hospital, na universidade ou, inclusive, num mero espaço de lazer entre amigos. São demasiadas as mulheres que se queixam amiúde do avanço da idade, porque que lhes rouba a beleza, porque lhes trás rugas, peles moles, porque faz com que se sintam menos atraentes aos olhos do sexo oposto. Os divãs dos psicanalistas enchem-se de musas e de homens, incapazes de lidar com a voragem do tempo, frustres,  sem conseguir tirar partido daquilo que a meia-idade tem de melhor: o ganho em capital de experiência, a possibilidade, única, de conseguirem, finalmente, fazer sínteses e súmulas da vida; a previsibilidade das coisas; e, sobretudo, o domínio do saber-mor da ciência: o conhecimento da causa-efeito, para prevenir, para não descuidar, para não sofrer. Desperdiçamos grande parte da nossa energia com coisas que pertencem ao passado ou investindo tudo no futuro. Entretanto, o único tempo real que existe é o presente, apesar de fugaz, imparável, incapaz de ser sustido, como uma lufada de vento numa  destas manhãs enevoadas. Mas aquilo que se está a passar no preciso instante em que aqui estamos - o agora - é o que mais importa; e é apreciando-o bem que vamos podendo estar contentes com o que somos e temos. Ou seja, felizes na medida do possível. Bem-estar interior é um passo em frente no caminho da mudança para melhor, então porquê levar uma vida carregada de azedumes, exponenciando cóleras, reagindo a atitudes primatas de comparsas que o que esperam de nós é a desorientação para, com mais sucesso, nos atingirem, logo que exponhamos o flanco?

Muito mais do que um mero gesto de cortesia que, desde pequenos, nos é apresentado como fazendo parte da "boa educação", agradecer aquilo que a vida nos dá torna mais fluída a energia que existe no interior de nós mesmos. E esse sentimento de apreciação grata, relativamente aos benefícios recebidos, é uma expressão da alma. Por mim falo. A cólera aumenta os níveis de colesterol, dilata a possibilidade de se vir a padecer de um acidente vascular cerebral, ou de um enfarte do miocárdio. O inevitável, mais do que tudo, é uma verdade semântica; então para quê consumirmos as nossas preciosas energias com seres medíocres que outra coisa não pretendem senão despoletar-nos uma reacção: o estímulo (provocação) - resposta (cólera). Porque não contrariar o efeito (por eles) desejado e deixar que um sorriso daviniano anoiteça no nosso semblante? Eu não quero a guerra, muito menos se estiver instalada dentro de mim. E há sempre muito a fazer para evitar ou amortizar um conflito. Afinal o que mais importa é a forma como nós nos vemos, não as considerações que os outros tecem sobre nós. Se a nossa estima estiver bem cuidada, com uma roupa bem engomadinha, uns sapatinhos a condizer, ou um perfume delirante, tudo é mais suportável. E no dia em que as coisas não forem assim, é sinal que está na hora de mudar, nem que para isso seja preciso pedir ajuda. Agora vamos todos ver uns landscapes. Vá, fechem os olhos, façam uma forçazinha! 

Por uns tempos, cai o pano sobre o Madrigal. O blogue entrou logo no inicio deste ano em quarentena.
 

domingo, 2 de janeiro de 2011

Minutos antes...

Aveiro - 1 de Janeiro 2011 - minutos antes de me atirar à água...