O e-mule - o mesmo vocábulo que dá o nome à simpática criatura nascida do cruzamento de um cavalo com uma burra, e vice-versa - é uma aplicação informática há muito utilizada por todos adolescentes e graúdos para "sacar músicas da net" e passá-las de seguida para os mp3, mp4, que, para gáudio dos otorrinolaringologistas, são os maiores responsáveis pela futura geração de surdos que se avizinha. A "mulazinha" já era há muito minha conhecida, mas nunca me tinha passado pela cabeça fazer download da mesma para piratar que fosse o que fosse. No entanto, um destes dias decidi-me a instalar o e-mule no meu lap top para, também eu, "sacar" umas quantas músicas e filmes. Como não lhes vou dar qualquer utilidade comercial, apenas um consumo próprio, e uma vez que, de uma forma ou de outra, há muito tempo que desistira de comprar cds, achei que estava a cometer um delito menor, para mais se comparado com aqueles com que todos os dias nos deparamos na abertura dos noticiários.
Tudo o que me apeteça dizer sem exclusão de temáticas ou conteúdos, através de textos que tanto podem ser crónicas, contos, poesia, ficção, diários, ou meros pensamentos surgidos no momento.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Eu cá... (Diálogos 6)
"Apetece-me nada. Sabes o que isso é?"
"Sei, é não ter vontade de coisa alguma"
"Nada disso! É apetecer uma coisa: nada. Não te esqueças de que há vontade!"
"Isso é um trocadilho de palavras só para me baralhares. Estás desmotivado, não queres fazer nada, ou o que existe à vista não te dá prazer?"
"Talvez tenhas mesmo razão. Sinto-me desmotivado, o que os meus olhos vêem não me interessa, nem tão pouco a pobreza que a minha imaginação consegue de momento engendrar, mas continua a apetecer-me nada"
"O que é o nada?"
"Sei lá, pergunta ao Sartre, mas penso que seja a ausência total, o antónimo de tudo"
"Parecemos dois sofistas da Grécia Antiga!"
"Eu acho que parecemos mais dois parvos sem nada de mais interessante para falar"
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Moto-Rali Turistíco
Este fim-de-semana vou participar no 7º Moto-Rali Turístico do Moto Clube de Leiria. "Pelo Coração de Portugal", é como se intitula a prova. Trata-se nada mais nada menos do que um rali-paper, só que com motas. O início vai ser em Vila de Rei, logo às 09h00 da manhã, no Centro Geodésico de Portugal e, depois de um prometido lauto pequeno-almoço, às equipas entretanto formadas, será fornecido um road-book com o percurso: Vila de Rei - Palhota - Ponte dos Três Concelhos - Zaboeira - Penedo Furado e chegada ao hotel com jantar e animação. Pelo caminho haverá provas que têm de ser realizadas pelos participantes.
Pretende-se impor uma velocidade máxima - se for ultrapassada somos desclassificados - e regras de conduta obrigatórias, pois o espírito da coisa é mesmo a confraternização, o que não vai ser fácil para aqueles que não gostam de perder nem a feijões.
No Domingo, a partida é de Milreu com destino à Quinta das Laranjeiras, onde haverá lugar a um almoço com todos os convivas.
Espero que a chuva não venha estragar esta aventura pelo "Coração de Portugal", mas motociclista que se preze nunca se deixou intimidar por diluvianos dias e possui fatos à prova de água - pelo menos que aguentam um certo tempo até encharcarem por completo.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Triste-Feia
Há uma terreola muito perto de mim, junto à freguesia de Milagres, no concelho de Leiria, que se chama Triste-Feia; e, confesso, não consigo conceber um nome menos simpático para apelidar alguém no feminino, pois pior do que feia e triste, só mesmo ser cumulativamente antipática e com má índole. Mas são topónimos como este - com a sua origem perdida na noite dos tempos, que, de quando em quando, algum curioso por estas coisas, voluntarista e estudioso, trás à colação para deleite de leitores não menos curiosos por estes assuntos. O certo é que geralmente trata-se quase sempre de uma moçoila menos bafejada pela sorte que morava para aquelas bandas e a sua presença acabava por funcionar como o elemento catalisador para a origem do nome da terra. E a prova disto, ou pelo menos o que ajuda a sustentar a minha tese, apesar de nunca ter lido nada sobre a terra em questão, é a existência, mormente nas freguesias dos Prazeres e Alcântara, ambas em Lisboa, de dois lugares apelidados Triste-Feia, que já mereceram estudos com conclusões congéneres. A analogia parece pois justificar-se. E como amanhã já é segunda-feira e dia de trabalho, arrisco a dizer que me sinto triste e também feio, ao menos por dentro, porque por mais que me tentem convencer que o trabalho dignifica, não existe nada mais gratificante do que trabalhar até à exaustão num projecto que tenha nascido fruto do amor a uma causa escolhida por nós. Contente-Bonito é como gostaria de me sentir na maioria dos dias e vou fazer por isso, ainda que nunca dêem o meu nome a uma terra, a uma rua, ou a um simples beco.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Eu cá ... (Diálogos 5)
"Nunca mais a viste?"
"Não, nunca mais"
"E não sentes saudades?"
"Uma perda é sempre uma perda, mas o rolar do tempo mitiga qualquer perda. O tempo tudo amortiza e cobre de folhas as réstias de qualquer saudade"
"Sim, tens razão, daí a expressão «tempus fugit»
"Não sei se os latinos a empregavam com tal sentido, mas não há dúvida alguma de que o tempo é fugaz, impossível de ser aprisionado, tal como o voo de uma andorinha no alvor da primavera. O agora é uma mera ficção. Existe, sim, passado e futuro"
"Pondo de lado a filosofia, torno a perguntar-te: não sabes nada dela?"
"Não, absolutamente nada. Desde que a soube com aquele furriel italiano, não imagino se continua com ele se decidiu mudar-se para outra patente"
"Irónico como sempre..."
"Tu sabes, eu sei, que vós as mulheres procuram sobretudo duas coisas nos homens: segurança e afecto"
"Tens razão. Tenho de condescender que percebes bastante da natureza feminina e talvez por isso te movas tão bem no seio das mulheres - se quiseres, com o sentido metafórico e o menos metafórico da afirmação"
"Vês-me como um Casanova, uma espécie de predador de mulheres incautas. Para ti sou um mero coleccionador de troféus, mas a maior cobardia de um homem é despertar o amor de uma mulher sem ter intenção de a amar"
"Essa frase vale para ambos, já não há mulheres incautas e tu também sabes bem disso. Não te culpabilizes..."
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Desiderata
Caminha placidamente por entre o ruído e a pressa, e lembra-te da paz que existe no silêncio. Tenta, na medida do possível, estar de bem com todos. Exprime a tua verdade com tranquilidade e clareza. Escuta quem te rodeia, inclusive as pessoas desinteressantes e incultas; também elas têm uma história para contar. Evita gente conflituosa e agressiva que tanto mal faz ao espírito. Se te comparares com os outros poderás tornar-te amargo ou arrogante, pois haverá sempre alguém melhor e pior que tu. Regozija-te com as tuas conquistas e os teus projectos. Mantém vivo o interesse pela tua carreira por mais humilde que seja; é um verdadeiro bem, nesta época de constante mudança. Sê prudente nos teus negócios – o mundo está cheio de armadilhas. Mas não feches os olhos à virtude que existe em teu redor, nem às pessoas que defendem os seus ideais e lutam por valores mais altos – a vida está cheia de heroísmo. Sê tu próprio. Acima de tudo, não sejas falso, nem cínico em relação ao amor que, face a tanta aridez e desencanto, se mantêm perene como uma haste de erva. Aceita com serenidade a passagem do tempo, sabendo deixar graciosamente para trás as coisas da juventude. Cultiva a força de espírito, para te protegeres de azares inesperados. Mas não te atormentes a imaginar o pior. Muitos medos nascem do cansaço e da solidão. Mantém uma autodisciplina saudável mas sê benevolente contigo mesmo. És um filho do Universo, como as árvores e as estrelas. Tens todo o direito ao teu lugar no mundo. Poderá não ser claro para ti, mas a verdade é que o Universo está a evoluir como previsto. É importante, assim, que estejas em paz com Deus, seja qual for a tua concepção d’Ele, e em paz com a tua alma, sejam quais forem os teus anseios e aspirações no ruidoso tumulto da vida. Apesar de todos os enganos, dificuldades e desilusões, vivemos num mundo bonito. Alegra-te. Luta pela tua felicidade.
Desiderata
1927 Max Hermann
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Eu cá ... (Diálogos 4)
"Imaginas o que me sucedeu?"
"Eu não! Porque raio haveria de imaginar?! Não me deixes ansiosa, conta lá!"
"Parei no Rei dos Frangos para comprar aquela comida pronta-a-comer que eu tanto gosto e, como não podia deixar de ser, arrumei o carro à balda. Não tardou muito tempo, ouvi buzinar e sai a correr. Uma moça estava com o carro entalado pelo meu e ainda por cima com pressa de sair"
"E tu, tiraste o teu carro?"
"Escuta-me até ao fim. Meti as mãos nos bolsos da gabardina e nada de chave do carro. Voltei à loja e pus toda a gente de rabo para o ar à procura de uma chave no chão. Entretanto, a rapariga buzinava. Voltei à rua e expliquei-lhe que tinha perdido a chave e estava à procura dela"
"E a moça acalmou-se?"
"Sim, imagina, veio para a loja ajudar a procurar a chave, pois era impossível eu tê-la perdido num trajecto tão curto"
" E achaste a chave?"
"Sim, achei-a. Onde achas que tu que ela estava?"
"Diz-me tu!"
"Dentro da gabardina havia um pequeno orifício e ela tinha-se infiltrado para dentro do forro. Foram duas senhoras que conseguiram ajudar-me a retirar a chave. No fim, toda a gente riu - de mim, claro - e uma das senhoras emitiu uma exclamação que, ainda agora, não sei se posso considerar simpática ou não: «O Sr. é tão cómico! Nunca pensou em fazer algo como comediante? Até as lágrimas me vieram aos olhos, palavra de honra!»
"E tu achas que és algum palhaço? Eu acho que essa gaja estava era a atirar-se a ti!"
"Lá estás tu com o teu mau feitio. Na tua óptica, todas as mulheres querem atirar-se a mim, como se eu fosse o Alain Delon. Não é a primeira vez que alguém me acha graça...e nem será certamente a última"
"Quem é o Alain Delon?"
"Olha, nem te vou responder...."
"Quem é o Alain Delon?"
"Olha, nem te vou responder...."
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Eu cá....(Diálogos 3)
- Está tudo tão caro! Mas, se reparares, isso é uma frase feita, um lugar comum. Dantes, há vinte anos atrás, quando a inflação rondava níveis muito superiores e os juros bancários eram verdadeiramente insuportáveis, é que a vida era mesmo complicada. Lembro-me de receber o ordenado em géneros alimentícios.
- Tu deves estar mesmo a ficar velho. Só falas de coisas antigas!
- Hás-de lá chegar, à minha idade, e se tiveres essa sorte é porque a vida te sorriu em termos de saúde.
- Sim, nisso tens razão, mas tens de manter um espírito novo, liberto, virado para o presente e para o futuro e não viver com os olhos postos em águas passadas. Sabes daquele ditado? «Jamais a mesma água passa por debaixo da mesma ponte!»
- Sim, claro que conheço, mas não te esqueças que tem de chegar um momento qualquer da vida em que temos de ser capazes de fazer sínteses, súmulas, estancar períodos, fases, por forma a perceber a nossa própria evolução e concluir que há constantes em nós, coisas que se repetem.
- Olha, a conversa está a desencaminhar para o intelectual e eu disso não percebo nada .Não queres antes ir tomar um copo?
- Não bebo, mas vamos, estou com fome e estes pensamentos ainda me abrem mais o apetite. Parece que não como há 50 anos! Mas ainda voltando às súmulas...
A Toupeira, o Sr. Dr. dos Olhos, Bach e os meus gatos
1.As lentes dos meus óculos já não são uma mais-valia quando tenho de estar a verificar as certidões enfadonhas e toda a sorte de papeleta que inunda diariamente o meu serviço. Desta vez, a julgar pela pitosguisse que me aflige, o "efeito toupeira" parece que me quis tomar de assalto de uma forma avassaladora. Duas dioptrias e meia em cada vista, foi a sentença, com trânsito em julgado, que o Sr. Dr. dos Olhos ainda agora me ditou. Enquanto fazia a dilatação das pupilas, para melhor poder ser observado, e à revelia do indicado pelo médico, tentei ler uma revista, mas só consegui ver umas senhoras em fato-de-banho, muito libelinhas, por sinal; as famosas do jet set no Castelo da Caras; e a Duquesa Isabel de Herédia, o esposo e os respectivos rebentos, todos muito compostinhos numa praia para os lados de Sintra. Com as letras, mesmo com as maioritárias, nem algo que se assemelhasse a uma frase simples consegui compor. Foi só mesmo ver os bonecos até entrar para a sala das sentenças. Depois de sair do gabinete do médico, assustei-me quando me olhei no espelho da casa-de-banho, pois, de tão dilatadas, as minhas pupilas mais pareciam os olhos azeviche de um espectro nocturno qualquer. Mas o susto já passou e os meus glaucos olhos voltaram ao normal.
2. Dizem que o meio centenário é uma espécie de segunda infância ou, pelo menos, o ensejo de providenciar a realização de sonhos que, ou por falta de oportunidade, ou de tempo, nunca antes puderam ser concretizados. Quero, um destes dias, conseguir tocar a Toccata and Fugue in D minor de Johann Sebastian Bach, ainda que seja só o trecho principal, as notas mais simples.Gostava de o conseguir fazer num órgão simples, eléctrico, ou mesmo num sintetizador. São tantas as vezes que recordo as noites de verão passadas no Convento de Mafra, a escutar, de olhos bem fechados, as composições para órgão de Bach. A música clássica, intemporal, entranha-se-me como uma segunda pele. Gosto de música popular, canções românticas, jazz, country, música de fusão, inclusive, mas a música clássica possui uma mística e uma beleza impossíveis de atingir por outros géneros. Ao escutar música clássica, em especial Bach, de longe o meu favorito, se cerrar os olhos, consigo viajar no sentido literal da palavra. Posso inquietar todos os meus sentidos, todas as minhas emoções, rir, chorar, dormir, ou pura e simplesmente encapsular-me como um gatito enroscado sobre si em estado de hibernação.
3. Descobri com imensa gratidão que o Ruca e o Teco depois de castrados ficaram um pouco mais calmos, mas o seu apetite se já era voraz, agora atinge inconcebíveis: devoram uma lata de atum em menos de 5 minutos. Ando a tentar fazer com que gostem de música calma, pois garantiram-me que os animais não são insensíveis aos timbres musicais e certas músicas são, inclusive, benéficas para o seu bom humor - no sentido psicológico do termo, claro. Assim eles fossem pro-activos como eu na educação do ouvido à música de qualidade. E música de qualidade para os meus gatos só mesmo música clássica; e porque não escutarem o Prelude in C minor de J.S. Bach enquanto devoram uma saqueta de whiskas ou um paté de flambé para gatos lactentes? Se a terapia musical é boa para mim, porque não para quem vive comigo, neste caso os gatitos?!
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Ivo Pessoa - Uma vez mais
Complicado é conseguir esquecer o concerto ao vivo de Ivo Pessoa no Rio de Janeiro, um dos momentos mais românticos da noite - as velas e os isqueiros acesos e um coro de vozes afinado. Esta coisa de ser romântico é mesmo um karma para o resto da vida. Podem crer...
Eu cá....(Diálogos 2)
"Sabes, estou sempre com sono."
"Mas não dormes o suficiente? Andas nas noitadas?"
"Não, acho que tenho sono da vida, o que é uma coisa muito mais complicada."
"Sono da vida?! Agora é que não te entendi em absoluto."
"Viver dá-me sono. Às vezes penso que a morte é uma espécie de sono eterno, repleto de sonhos, e do qual jamais se desperta; e se assim for, morrer não seria tão mau assim."
"Não digas disparates porque o teu mal é mesmo sono. Vai dormir. Mas olha, não durmas para sempre porque eu gostava de te tornar a ver e, de preferência, desperto. Fazes-me falta - acordado"
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
A beleza está na força?
Quando eu indaguei se o meu Peugeot 106 com 65 HP tinha força suficiente para puxar a minha Aprilia etv 1000 (220 kgs), com um reboque atrelado, caso a quisesse levar para alguma lado, a LPM de Leiria, com a cortesia que já lhe vai sendo habitual, enviou-me uma foto que, na sua óptica, vale por mil palavras.
Férias vos desejo!
As saudades das férias e do descanso são tantas que ando a ponderar começar a gozá-las mais cedo e, quem sabe, num destino onde nesta altura do ano o verão aperte. Se há coisa de que tenho imensas saudades é de, num passado recente, ter tido a felicidade de gozar dois verões num ano. A sombra de um chaparro, com a planície alentejana ao fundo e um calor de estalo é, para alguns, a imagem mais parecida com o descanso merecido. Mas descanso não significa apenas dormir. Descansar é, sobretudo, fazer algo de diferente e fugir da tormenta das rotinas que nos machucam e esmagam, rejuvenescendo-nos com o salutar do fazer diverso. É mesmo disso que ando a precisar, talvez já neste Carnaval ou na próxima Páscoa.
Eu cá... (Diálogos 1)
"Amas-me porquê?"
"Amo-te porque sim. Porque os teus olhos parecem dois favos de mel; porque as tuas mãos são ternas e quentes; porque o teus cabelos são macios como fios de seda; porque o teu sorriso é lindo e cativante; porque, na fímbria do teu olhar, e em ti em geral, descubro sempre coisas que me fascinam."
"E és sempre assim complicado a explicar porque amas alguém, isto é: tens sempre que dar grandes explicações e não és capaz de dizer apenas: amo-te porque simplesmente gosto de ti!?"
"Não, e acho que isso já faz parte da minha natureza, esta forma insurrecta de complicar coisas convencionalmente simples e derramar palavras como se fossem jorros de água a brotarem de uma nascente."
"És poeta?"
"Não, porque perguntas?"
"É que a forma de te expressares... parece que tens muitas palavras dentro de ti que tens necessidade de as trazer cá para fora. Gostava de saber chorar como tu choras. Eu sou muito dominada do ponto de vista emocional. Acho que não choro desde criança."
"Mas, e se eu fosse poeta, tal mudaria alguma coisa? Gostavas que me comportasse contigo como o fazes comigo. Com uma ternura austera que me prende mas nem sequer desafia? Às vezes rio-me do que dizes. Pareces-me ingénua e irracional e pergunto-me: por quanto tempo serei capaz ou poderei continuar a sentir-me apertado, como se toda a atmosfera me comprimisse contra mim mesmo, pela tua imagem, pelo teu egocentrismo, pela forma como encaras o mundo: é ele que gira à tua volta e não tu que gravitas em torno dele."
"Cada pessoa é única e eu sou como sou, assim como tu és como és. O que interessa, ao cabo e ao resto, é que cada um de nós seja feliz na sua forma peculiar de ser.
"Amo-te porque sim. Porque os teus olhos parecem dois favos de mel; porque as tuas mãos são ternas e quentes; porque o teus cabelos são macios como fios de seda; porque o teu sorriso é lindo e cativante; porque, na fímbria do teu olhar, e em ti em geral, descubro sempre coisas que me fascinam."
"E és sempre assim complicado a explicar porque amas alguém, isto é: tens sempre que dar grandes explicações e não és capaz de dizer apenas: amo-te porque simplesmente gosto de ti!?"
"Não, e acho que isso já faz parte da minha natureza, esta forma insurrecta de complicar coisas convencionalmente simples e derramar palavras como se fossem jorros de água a brotarem de uma nascente."
"És poeta?"
"Não, porque perguntas?"
"É que a forma de te expressares... parece que tens muitas palavras dentro de ti que tens necessidade de as trazer cá para fora. Gostava de saber chorar como tu choras. Eu sou muito dominada do ponto de vista emocional. Acho que não choro desde criança."
"Mas, e se eu fosse poeta, tal mudaria alguma coisa? Gostavas que me comportasse contigo como o fazes comigo. Com uma ternura austera que me prende mas nem sequer desafia? Às vezes rio-me do que dizes. Pareces-me ingénua e irracional e pergunto-me: por quanto tempo serei capaz ou poderei continuar a sentir-me apertado, como se toda a atmosfera me comprimisse contra mim mesmo, pela tua imagem, pelo teu egocentrismo, pela forma como encaras o mundo: é ele que gira à tua volta e não tu que gravitas em torno dele."
"Cada pessoa é única e eu sou como sou, assim como tu és como és. O que interessa, ao cabo e ao resto, é que cada um de nós seja feliz na sua forma peculiar de ser.
" Nisso tens razão. Fiquemos então por aqui..."
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
In memoriam
Soube hoje pela minha mãe da morte da tia Bé, aos 77 anos de idade, vitimada por um cancro que há muito lhe minava o corpo. A tia Bé, única irmã do meu pai, era uma amiga de infância da mãe. Recordo a sua face. Os óculos de lentes grossas, a cara pequena e uma voz de menina, emitindo risinhos por tudo e por nada. A tia Bé era o verdadeiro exemplo daquelas pessoas para quem as tragédias fazem parte da vida e nunca são motivo para parar de sorrir. Sempre a vi a sorrir, ainda que fosse um sorriso triste, quase a custo. Por coincidência quase crepuscular, corria o ano de 2003, o tio Humberto, marido da tia Isabel, morria no mesmo dia do famigerado actor José Camacho Costa, com a mesma maleita, e pelos mesmos motivos. A tia Bé partiu no mesmo dia em que a querida e talentosa actriz e escritora, Rosa Lobato Faria, subiu ao céu, e igualmente em virtude do mesmíssimo mal. Desejo que a terra seja leve a ambas e que estejam no mesmo Paraíso - caso ele exista - pois, a delas, foi daquelas mortes que nos amputam um pouco a vida; e essas deixam sempre marcas.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Read all about it!
1. No próximo fim-de-semana vai ter lugar uma actividade cultural intensíssima, digna da atenção das mais prestigiadas figuras da intelectualidade do nosso país. Estou a referir-me, como é evidente e não podia deixar de ser, à Expomota, na Exposalão- Batalha. Se for como no ano passado, desta vez vou levar um medidor de decibéis para avaliar o ruído do enxame que se vai aglomerar no estacionamento principal que se situa às portas do evento. As compras vão ser poucas - espero não sucumbir à tentação demoníaca de gastar mais de 300 euritos numas botas Dainese de cano longo e ficar-me por um par de luvas impermeáveis e um lenço à Yasser Arafat - porque estamos em época de crise. Digam-me lá em que é que um ser fica menos glorificado, ou culturalmente mais arrediço, só porque em vez de ficar com olhos de carneiro mal-morto a olhar para pinturas disformes, opta por contemplar belas máquinas a luzir sob os holofotes de uma ribalta qualquer? Esta é a intelectualidade possível. Lamento os desapontamentos, mas também sou mesmo assim boçal: motas & coiratos.
2. No próximo fim-de-semana, e porque nem só de motas vive um homem, o Ruca e o Teco - agora que tanto se fala na possibilidade do casamento gay - vão perder os tubaros e ganhar um miado e um andar diferentes, embora cá em casa exista também o Bento que, juntamente com os outros dois, perfaz uma tríade diabólica, capaz de destruir toalhas de cozinha, partir jarros e sujar em menos de nada uma divisão inteira. [Lembrei-me agora de uma piada sexista que, por certo, vai chocar os gays tout court; ao menos aqueles que não têm fair play para se aguentarem com uma gracinha, e que passo a contar: - Que nome se dá a um homem casado depois da morte da sua mulher?..........viúvo, muito bem! - Que nome se dá a uma mulher casada depois da morte do seu marido?.................viúva, muito bem! - Que nome se dá a um homem casado com outro homem depois da morte do seu companheiro?..............Não sabem? Bicha solitária!]
O Ruca e o Teco, estava eu a dizer, vão à Drª Liliana para lhes serem extraídos os ditos...
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