segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Fernando Pessoa



Fernando Pessoa morreu de cirrose hepática aos 47 anos, na cidade onde nasceu. A sua última frase foi escrita em Inglês: "I know not what tomorrow will bring... " ("Não sei o que o amanhã trará"). Estava um dia frio e húmido de Novembro, tal como hoje, e o poeta deu último suspiro no antigo Hospital de São Luís. Como grande admirador de um dos maiores vultos da letras portuguesas, achei que a melhor homenagem que lhe poderia fazer, seria transcrever a notícia da sua morte, publicada no Diário de Notícias, passados que foram 74 anos.



NOTICIA NECROLÓGICA DA MORTE DE FERNANDO PESSOA

[tal como foi publicada no Diário de Noticias de 3-12-1935]





Registando as palavras de Luís de Montalvor






MORREU FERNANDO PESSOA
Grande poeta de Portugal






Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se tem escrito, foi ontem a enterrar.


Surpreendeu-o a morte, num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite.


A sua passagem pela vida foi um rastro de luz e de originalidade. Em 1915, com Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro e Ronald de Carvalho - estes dois já mortos para a vida - lançou o Orpheu, que tão profunda influência exerceu no nosso meio literário, e a sua personalidade foi-se depois afirmando mais e mais. Do fundo da sua «tertúlia» a uma mesa do Martinho da Arcada, Fernando Pessoa era sempre o mais novo de todos os novos que em volta dele se sentavam. Desconcertante, profundamente original e estruturalmente verdadeiro, a sua personalidade era vária como vário o rumo da sua vida. Ele não tinha uma actividade «una», uma actividade dirigida: tinha múltiplas actividades.


Na poesia não era só ele: Fernando Pessoa; ele era também Álvaro de Campos e Alberto Caeiro e Ricardo Reis. E era-os profundamente, como só ele sabia ser. E na poesia como na vida. E na vida como na arte.


Tudo nele era inesperado. Desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.


Inesperadamente, como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele idealizada e vitalizada, correu a notícia da sua morte. Um grupo de amigos conduziu-o ontem a um jazigo banal do Cemitério dos Prazeres. Lá ficou, vizinho de outro grande poeta que ele muito admirava, junto do seu querido Cesário, desse Cesário que ele não conhecera e que, como ninguém, compreendia.


Se Fernando Pessoa morreu, se a matéria abandonou o corpo, o seu espírito não abandonará nunca o coração e o cérebro dos que o amavam e admiravam. Entre eles fica a sua obra e a sua alma. A eles compete velar para que o nome daquele que foi grande não caia na vala comum do esquecimento.


Tinha 47 anos o poeta que ontem foi a enterrar. Quarenta e sete anos e um grande amor à Vida, à Arte, à Beleza. Quando novo, acasos do Destino, a que ele obedecia inteiramente - Fernando Pessoa teósofo, cristão, que conhecia todas as seitas religiosas e as negativistas, pagãos como só os artistas o sabem ser, Fernando Pessoa obedecia cegamente ao Destino - levaram-no para a África do Sul. E na Universidade do Cabo cursou o inglês. E de tal maneira estudou a língua que Shakespeare e Milton imortalizaram que, anos passados, apresentava nos cercles literários da serena Albion quatro livros de poemas - English Poems, I, II, III, IV; Antinous e 35 Sonnets. E num concurso de língua inglesa alcançou o primeiro prémio.


Depois, uma vez em Portugal, a sua actividade literária aumentou. É de então que data a sua colaboração na Águia, onde o seu messianismo metafísico, num célebre e elevado estudo, anunciou o aparecimento do Super Camões da literatura portuguesa.


1915. «Orpheu». Movimento intenso de renovação. Entretanto, colabora no Centauro, Exílio, Portugal Futurista, Contemporâna. Começa a ser amado e compreendido.


1924. Funda com Rui Vaz a revista Athena. Depois, de então para cá, a sua actividade multiplica-se. Colabora em revistas modernistas, como Presença, Momento e, há um mês ainda, no Sudoeste, que Almada Negreiros fundou com notável desassombro. Traduziu Shakespeare e Edgar Poe. Estas são, em linhas muito esquemáticas e gerais, as obras que definem a sua personalidade. Quem o quiser compreender folheie a sua obra vasta e dispersa. Começará a amá-lo.


Da capela do Cemitério dos Prazeres, para jazigo de família, cerca das onze horas de ontem, partiu o corpo do grande poeta. Alguns amigos de sempre acompanharam-no. Foram eles, pelo Orpheu, Luís de Montalvor, António Ferro, Raul Leal, Alfredo Guisado e Almada Negreiros; pela Presença, João Gaspar Simões; pelo Momento, Artus Augusto e José Augusto; e Ferreira Gomes, Diogo de Macedo, Dr. Celestino Soares, António Botto, Castelo de Morais, João de Sousa Fonseca, Dr. Jaime Neves, António Pedro, Albino Lapa, Silva Tavares, Vitoriano Braga, Augusto de Santa-Rita, Luís Pedro, Luís Moita, Manuel Serras, Dr. Boto de Carvalho, Rogério Perez, Celestino Silva, Telmo Felgueiras, Nogueira de Brito, Dante Silva Ramos, Carlos Queirós, Mário de Barros, Dr. Rui Santos, Marques Matias, Gil Vaz, Luís Teixeira e poucos mais.


O Sr. Capitão Caetano Dias, cunhado do poeta, representava a família.


Em frente do jazigo que Fernando Pessoa passa a habitar, Luís de Montalvor, seu companheiro de vinte e quatro anos de vida literária, proferiu simples e emotivas palavras em nome dos sobreviventes do grupo do «Orpheu».


E disse:


«Duas palavras sobre o trânsito mortal de Fernando Pessoa.


Para ele chegam duas palavras, ou nenhumas. Preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve a ele e a nós, que é da estatura do seu espírito.


Com ele só está bem o que está perto de Deus. Mas também não deviam, nem podiam, os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes, subir, ganhar as linhas definitivas da Eternidade, sem anunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da sua partida.


Não podiam os seus companheiros de «Orpheu», antes os seus irmãos do mesmo sangue ideal da sua Beleza, não podiam repito, deixá-lo aqui, na terra extrema, sem ao menos terem desfolhado, sobre a sua morte gentil, o lírio branco do seu silêncio e da sua dor.


Lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodigio do seu convívio e da graça da sua presença humana. Somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e ao seu poder criador, a esses deu-lhes o Destino uma estranha formosura, que não morre.


O resto é com o génio de Fernando Pessoa. »



Os serviços fúnebres estiveram a cargo da Agência Barata.













quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Morre lentamente...






"Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!”



Pablo Neruda

Rio 2016 - As olimpíadas




O Rio de Janeiro, onde já estive por diversas vezes, é uma cidade lindíssima e é também a urbe mais perigosa que alguma vez conheci. A sensação de perigo eminente é uma constante em qualquer lugar para onde se vá, uma vez que as favelas crescem como cogumelos em todos os morros do interior da cidade. À falta de espaço para se expandirem, existem agora as "favelas de asfalto" que, como o próprio nome indica, situam-se nas zonas baixas da cidade. Aos poucos, os habitantes das favelas vão descendo dos morros e ocupando as áreas habitacionais anteriormente pertença da classe média. Após bastantes conversas com cariocas há muito radicados na cidade maravilhosa, os mesmos confirmaram-me que a tendência é exactamente essa: ao invés de diminuírem, as favelas tendem a propagar-se cada vez mais e a misturarem-se de ano para ano com áreas anteriormente "livres de favelas".

Sem querer ser pessimista, mas antes realista, e pelo que me foi dado a observar com os meus próprios olhos, não creio que o problema da criminalidade, do excesso populacional e da corrupção, tenham um fim à vista no Brasil. Este grandioso país, malgrado estar em vias de figurar na lista das nações mais ricas do mundo, é também aquele onde in loco pude constatar o inconcebível: as gritantes desigualdades sociais quase a raiarem  a caricatura; e ainda estão vivas na  minha memória a visão dos arranha-céus do Rio, com helicópteros blindados a aterrarem no topo dos edifícios, e jipes americanos de vidros escuros a entrarem nos condomínios privados da Barra da Tijuca, fortemente guardados por seguranças armados com pistolas metralhadoras. Em quase todas as habitações, sejam elas rasteiras ou situadas em andares cimeiros, existem grades nas janelas e em muitas delas cercas electrificadas que ostentam a caveira "perigo de morte".


No Brasil, os bens patrimoniais sempre foram mais valorados do que a vida humana, já que esta se multiplica a uma velocidade próxima do absurdo. Todos os anos dezenas de crianças morrem electrocutadas ao tentarem escalar as habitações para as assaltarem ou simplesmente grafitarem as paredes. O epíteto "cidade maravilhosa", com que o Rio de Janeiro se pavoneia pelos meandros do turismo, mais não é do que publicidade enganosa, muito igual às medidas circunstanciais que o exército e as autoridades policiais tomam sempre que os desfiles de carnaval se aproximam, agora anunciadas em força com a futura realização dos Jogos Olímpicos em 2016. Há que proteger os gringos, os turistas, porque são eles que trazem euros e dólares à cidade, enchendo os hotéis e os restaurantes e trazendo divisas frescas. Caso o exército não proteja os milhares de visitantes que vão afluir ao Rio, uma onda de violência assassina e assaltos nunca antes vista terá certamente lugar.

A solução para o Rio de Janeiro, e para o Brasil em geral, seria certamente mais gravosa e desumana do que as medidas paliativas que todos os anos as autoridades teimam em anunciar. Um Brasil livre de brasileiros veria certamente o epíteto "cidade maravilhosa" estender-se a uma das nações mais belas do mundo, aquele que poderia ser o verdadeiro país das maravilhas. E essa é a realidade, pois são os seus habitantes que tornam um país  melhor ou pior e não o contrário.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Limpezas periódicas



Sem contar com o ZX Spectrum que se ligava à televisão e servia quase exclusivamente para funções lúdicas, em especial jogos, a minha experiência com computadores é demasiado recente. Foi há menos de 15 anos que comecei a utilizar regularmente aquilo que é hoje uma ferramenta diária,  tornada indispensável quer na minha vida profissional, quer na minha vida pessoal. E uma das coisas que maior fascínio me causou foi a possibilidade de, por via do desenvolvimento da Internet, poder interagir em tempo real com outras pessoas, estivessem elas perto ou a muitos milhares de quilómetros de distância. No final dos anos 80 do século XX, a Internet e a Informática ainda eram para mim realidades demasiado herméticas e inacessíveis. O Messenger, disponibilizado com o sistema operativo Windows, foi talvez a  ferramenta que maior deslumbre me causou, tantas as horas que passei a teclar. Depois vieram os e-mails (as cartas instantâneas), os downloads de músicas e de filmes, e finalmente os blogues. Hoje a actividade bloguista é talvez a única paixão que ainda não esfriou, pois o resto, como quase todas as novidades quando deixam de o ser, já não me merece a atenção de outrora e tendo a ser mais parcimonioso na utilização da Internet e a perder menos tempo com zappings que dantes me consumiam muitas horas de atenção.

As limpezas querem-se periódicas e esta regra também se aplica à lista dos contactos (que deixaram de o ser na acepção da palavra) bem como a todas as situações em que exista um espaço que deva ser regularmente actualizado e depurado de coisas inúteis. Por isso, e sem sentimentalismos inglórios, decidi a partir de hoje eliminar do meu Messenger todas as pessoas com as quais já não mantenho quaisquer contactos, ou em que tal acontece tão esporadicamente que não vale a pena lá as manter. Depois de eliminados os "contactos  fantasma", tenho a certeza de que não vou ficar surpreendido quando verificar que, afinal, as pessoas com quem  ainda mantenho conversas regulares são pouquíssimas. Mas urge, e para mim é um imperativo de verdade, encarar a realidade e assumir com coragem a eliminação irreversivel  dos contactos de pessoas que, faz imenso tempo e por motivos que desconheço, nunca mais demonstraram interesse em dizer um simples "olá!". Tenho quase a certeza de que esta minha atitude, pela sua coerência, far-me-á ver com maior verdade as linhas com que me coso, impedindo-me de conservar por mais tempo fogos fátuos de amizades que já não existem, ou  que porventura nunca existiram. O site, por todos nós conhecido, "Vê quem te eliminou ou bloqueou", também veio trazer algum ácido e ajudou à decisão, mas prefiro, por uma questão de ombridade, deixar como (última) mensagem instântanea às pessoas em questão a clareza das  minhas intenções.  

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Coisas da vida



1. Quando a luz do óleo do motor está permanentemente acesa, tendo o automóvel óleo no cárter, tal  só pode significar uma coisa: a bomba do óleo tem uma avaria e não faz a necessária lubrificação. Resultado: deve-se parar de imediato o carro e chamar um reboque para que o mesmo seja levado para a oficina. Diagnóstico final: avaria na válvula da bomba de óleo não permitindo uma lubrificação em quantidade suficiente. [Ainda assim, percorri alguns quilómetros nessas condições e levei o carro a trabalhar até à oficina. Foi  mera sorte não ter gripado o motor. O 106, desta vez, escapou com vida].

2. Uma dor aguda no baixo-ventre e um ligeiro inchaço nas partes pudibundas fez-me ir ao hospital. Depois de  quase seis horas a escutar gemidos, queixas e conversas tétricas sobre doenças e morte – discutia-se quem tinha tido mais doenças e glorificavam-se alguns médicos, como se eles tivessem  poderes miraculosos  sobre a vida e sobre a morte –, lá se decidiram fazer-me análises ao sangue. Tornaram a apalpar-me – penso que, mais do que confirmar um diagnóstico, já era mais pelo prazer de me ouvirem de novo gritar – e chegaram à conclusão de que tenho uma hérnia inguinal, a confirmar por ecografia. Na opinião do cirurgião que me assistiu, há um conflito de espaço entre um bocadinho do meu intestino, que se resolveu aventurar fora do seu habitat natural,  e o canal seminal. "Fez algum esforço exagerado? Pegou em pesos? Praticou algum desporto violento?" [Não achou muita graça quando lhe perguntei o que entendia por  "desportos violentos" mas, com excepção feita ao Eduardo Barroso, haverá algum cirurgião português com sentido de humor?] Se for esse o diagnóstico e as coisas piorarem não há outra solução senão a cirurgia, mas  não quero sofrer por antecipação e passo esse prognóstico para adiante.

3. No próximo fim-de-semana vou almoçar com um grupo de arqueiros e besteiros numa pequena cidade ribatejana. Aprendi - eu ignorante me confesso - que o vocábulo Besta se pronuncia tomando o "e" por sílaba tónica,  mas com o som de uma vogal aberta.  Foneticamente acentua-se a vogal como se lá estivesse um acento agudo: 'Bésta' e não 'Bêsta'. O tiro com Besta, desde então, perdeu para mim algum encanto,  pois toda a vida fantasiei os arqueiros e besteiros medievais como sendo umas verdadeiras bestas, capazes de infligir,  nas hostes inimigas, perdas humanas num número imensurável. Durante o serviço militar, e já depois de graduado - nunca fui grande atirador, apesar de ser essa a minha especialidade - , as armas nunca exerceram sobre mim qualquer fascinío. O mesmo não se diga de alguns camaradas meus que tinham verdadeiros extâses sempre que lhes era dada a oportunidade de fazerem fogo com  armas diversas. Recordo uma ocasião em que nós, sargentos e oficiais, e porque as munições estavam a acabar o prazo de validade, fomos convidados para fazer tiro na Carreira de Tiro do Destacamento Militar da Serra da Carregueira. Um sortido de armas nunca antes visto foi posto à nossa disposição - o exército português durante as guerras ultramarinas apreendera armamento do tipo mais diverso. Foi a primeira vez que vi tantas armas ligeiras juntas e tive oportunidade de fazer fogo com estes brinquedos que por certo fariam as delicías do pessoal da Cova da Moura e bairros afins: HK 41 (kalaschnikov), Agalil, Uzzi, Walther, Browning, Winchester, Beretta, Mauser, colt 45,  incluindo-se as nacionais G3 e a pistola metralhadora FBP. Estou certo de que alguns camaradas meus tiveram nesse dia os momentos mais felizes das suas vidas, mas eu fiquei surdo com tanto tiro e nauseado do cheiro da pólvora. Para além de uma enorme dor na cabeça e de uma luxação no ombro direito, não guardo outra memória desse dia. Mas cada um gosta do que gosta e parafraseando o Herman José, "eu é mais motas".

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O tamanho importa?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Em busca do amor





Ela sempre pensou em desenhar o futuro. Vestia a sua dupla infalível calça-jeans-camisete-preta e saía para a rua em busca de um novo relacionamento. Podia ser com qualquer um, desde o amigo ao engate fortuito de fim-de-semana, com a condição de que lhe mostrassem um novo conceito de amor. Queria juntar o máximo de idéias e conceitos de amor, quem sabe assim um dia ela poderia senti-lo. Havia gente que se ria envergonhada, sem sentir-se apta a definir o amor. Mas havia outros que, ao ouvir a pergunta, faziam brilhar os próprios olhos com lembranças infinitas. Quem nunca amou que atire a primeira pedra. Ou páre de atirar pedras aos outros, talvez essa seja uma forma de conhecer o amor. E seguia todos os dias no céu azul que ela mesma seleccionava de entre as cores da sua imaginação. Em busca do amor desenhado, ela descobriu que, para adentrá-lo, teria primeiro que sair de si mesma.

Do valor da amizade



Muito em breve vou necessitar de três testemunhas por causa de um processo que corre em tribunal e no qual sou autor; e é nas alturas de maior carência - a prova só pode ser testemunhal, uma vez que não existem outros meios de prova susceptíveis de servir no caso em apreço - que sabemos quem são os nossos verdadeiros amigos. Na amizade, e também no amor, de pouco valem as juras e as palavras se não forem acompanhadas das correlativas acções que as confirmem. A  experiência de vida tem-me ensinado algumas coisas e uma delas foi seguramente a distrinça entre amigos e conhecidos. Sempre achei estranhissímo ouvir dizer a certas pessoas que têm montanhas de amigos. Os amigos, na verdade, são quase sempre poucos, e é natural que assim seja, pois para lhes dedicarmos atenção, juntamente com os nossos afazeres pessoais,  o trabalho e a familía, não podem ser em número exagerado. Penso que não estarei a fantasiar ao afirmar que os dedos das mãos, quase sempre, chegam para contar os nossos verdadeiros amigos, aqueles que gostam efectivamente de nós, pensam em nós e preocupam-se connosco. Não é quando tudo está bem com a nossa vida, quando temos alegria esfusiante para oferecer, estamos super divertidos e somos uma companhia agradável, que descobrimos que afinal a pessoa X ou a pessoa Y não eram verdadeiros amigos. É necessário que surja uma situação incómoda, que precisemos de um grande favor, para que nos apercebamos com clareza quem são aqueles que estão dispostos a quebrar o seu muro de egoísmo para, sem hesitações ou desculpas, se prontificarem em nos ajudar.

Mesmo que os amigos sejam para as ocasiões, fica cada vez mais difícil definir quais são as situações em que se deve, e pode, apelar aos amigos e quais os amigos que se prestam, e têm disponibilidade, para acudir nessas dadas ocasiões. Parecendo do mais trivial, a amizade é um tema dos mais discutíveis e uma das relações mais escorregadias, ainda que presentes, nas nossas vidas. E é nas situações agudas que descobrimos, às vezes com desconfortável surpresa, que o ditoche popular "os amigos são para as ocasiões", ao menos, serve para uma coisa razoavelmente boa: depura os falsos amigos e confirma-nos  os que o são na verdadeira acepção da palavra.

Notícias do maluquinho das motas


Aprilia Caponord ETV 1000


"Não tento explicar às pessoas porque é que ando de mota.
Para os que compreendem, nenhuma explicação é necessária!
Para os que não compreendem, nenhuma explicação é possível..."


Edgar Morris



Nem só o Ideafix, o cão do saudoso Astérix, era de idéias fixas pois, ao que parece, aqui o maluquinho das motas também não lhe fica atrás; e, para fazer jus à sua paixão pelos veículos de duas rodas, resolveu antecipar a prenda de Natal. Vai daí,  decidiu trocar a sua BMW F 650 GS por uma 1000 bicilindrica: a  Aprilia Caponord  ETV 1000 (igualzinha à da foto, até na cor!). A nova eguazinha, para além de ter sido considerada, por todas as revistas da especialidade, a melhor Trail/Enduro do seu segmento, alia  ao pujante motor de 98 cavalos um conforto invulgar, o que a torna apetecível  tanto para o mototurismo como para  os percursos por estradas sem asfalto. Boas curvas! (me desejo).

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sonhos e pesadelos




Há os sonhos e os pesadelos, assim como existe o doce e o amargo, o belo e o feio, o bom e o mau, neste mundo de antíteses em que nascemos, vivemos e morremos. Dos sonhos, muitas vezes, a nossa recordação é frágil e quando se trata de recordar como foram, os pormenores insólitos multiplicam-se e deslizam na nossa memória quase sempre na margem da bizarria. Quando os sonhos se transformam em pesadelos, estes por vezes nem têm enredo, nem formas distintas para contar, apenas uma sensação de sufoco, de perigo eminente e inexprimível. Às vezes fica só o medo informe, a sensação de que dormir é mau, que algures na noite nos aguarda um terror qualquer. Dormimos embrulhados num manto, por vezes doce, outras vezes maléfico, e o contínuo dos dias vai tecendo no nosso subconsciente a matéria-prima de que os sonhos e os pesadelos se forram.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Razões de ser






 (Catavento - S. Pedro de Moel - 2009)



O amor à poesia não se aprende.
É fruto de um contágio, da estesia, 
um sentir que só se acende, 
quando, dos trilhos da vida,
já só se espera a fantasia...







Barreiro 2003


Desejos de um Plebeu



(Janela andaluz
Fonte: Internet)




Na hora mais púbere da madrugada,
Vejo o recorte da sua silhueta à janela,
Pedaços de tule esvoaçando na amurada,
Frémitos que são os espasmos por ela;


Sinto-me a morte-cor de uma aguarela,
Gangrenado no pastiche dum artista,
Uma moldura d'oiro que recusa a tela,
Obcecado por um desejo de conquista;


Deito-me a sonhar e acordo pensado.
A minha vida é este avernal de sortes:
Morgadete, só de leituras avultado,
Pecúlios que mal dão para os portes;


A janela fecha-se e com ela a luz,
Febre nérvea de a possuir sem me ater,
Trajada de sevilhana ou moira andaluz,
Nos odores de Córdova ao alvorecer.


Andaluzia 2002

Madalena


 
No rosto columbino, atraente, de lírio,  não lhe vislumbro o mester dos dias:  a dissoluta que, aos arfares em delírio,  dos mil vasos seminais alija as heresias.  A testa semita, o cabelo oiro fingido,    compondo uma face bonita, temporal; o nariz meio adunco e o lábio fendido,  não fazem adivinhar a profissional. O seu sorrir não condoído, sereno e feliz,  as vestes de bom gosto, de mulher actual,  revelam a Madalena que quis ser meretriz,  por uma vontade ciente, para além da moral.
 
Meretriz, actriz, puta, cortesã, tolerante,  sinónimos tantos como os do ancião Lucifer, que foi eleito fervente militante, compère,  dessa multissecular profissão complacente.  Tornando à Madalena, jovem puta, mulher,  que também é filha, mãe, choro, riso, e cama, onde será que podemos escrever um drama,  apor-lhe o ferro-estigma que ela não quer?  Terá sido essa forma muitíssimo assumida  de ser puta, mercante dos prazeres,  que originou o epíteto de mulher banida,  na encíclica sempiterna dos maldizeres?      
[Pensem lá o que lhes aprouver  que eu continuo a pensá-la mulher!...]  
Barreiro 2003

A teoria da cloaca (seguida de um remate à Freud)




Crença comum entre
gentes muito ignotas
dos assuntos do ventre,
disseminada por idiotas,


de que o nascimento
se processa através
do ânus (um tormento!)
da mulher, ao invés,


de pela porção distal,
do aparelho reprodutor,
da dama: o tal canal
que liga o útero ao exterior.


A vagina, cuja morfologia
é, por si só, capaz de sustentar
mimetismos e idolatria ímpar,
que lhe alimentam a autofilia,


com jactâncias que não visam
senão mitigar pulsões sexuais,
inconformáveis, animais,
de onanismos que já não bastam...


[Este fligt of ideas convida
à suspeição de que a libido, afinal,
está mesmo no cerne de toda a vida
humana... por casualismo amoral?!]


Barreiro - 2003

Retorno



 (Serra da Arrábida - Maio de 2009)




Claro, o sol brandamente desponta,
na formosa colina ainda fresca,
camuflada com um belo verde, arisca.
Leve, sopra a brisa que a face afronta,
e rara beleza natural se esconde,
nesta serra de amores que o meu coração,
salpicado de nova vida, reluz contente,
na viagem às profundezas da emoção.



quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Noite de Pergaminhos





Hoje, nesta noite de pergaminhos,
fadário de vácuos sem estrelas,
penso que ainda vives só no teu catre de rendas,
trajada de branco, entre os nardos e os jasmins,


E ainda oiço, na minha memória, o repuxo fresco
do teu jardim japonês e o débil trinar do canário d'oiro,
que ao final da tarde recolhias antes de chegar o frio.


Destas memórias, que me doem como charcos de agonia,
vejo-te nua numa alva mortalha de silêncios,
onde o meu corpo balsâmico um dia viveu proclamado.
E, passado que foi este tempo, é tão difícil dizer que te amo…


(Barreiro 2006)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

16 Recordações - com mais de 40 anos




Memórias, sem cronologia obrigatória ou critério, de tempos  por mim vividos há mais de 40 anos. Foram tempos doirados que, de um modo ou de outro, marcaram para sempre o alvorecer da minha meninice. 

Nas fotos pode-se ver o "Olho Vivo" - Maxwell Smart, da popular série televisiva dos anos 60; um autocarro double deck, da British Leyland, dos anos 40, que compunha a frota da Carris e um grupo esfusiante de jovens alunas liceais, com a roupa e o penteado da moda.



(Memórias soltas)

1. As reuniões da Tupperware, sempre acompanhadas de chá com scones, ou fatias de bolo de mármore, e uma multidão de senhoras sentadas em círculo, com o cabelo armado e óculos de massa, ávidas por receber o tão esperado brinde;

2. O Bonanza, aos sábados, depois do almoço, na televisão com caixa de madeira, a válvulas - de quando em quando tinha de levar umas pancadas para estabilizar a imagem - acompanhado de papas de milho com açúcar e hamburguer com ovo e batatas fritas;

3. A roupa da avó que cheirava sempre a naftalina;

4. O gravador estereofónico, comprado a um preço módico no prego da Caixa Geral de Depósitos, e o microfone com o formato de um gelado com o qual a família ensaiava aos fins-de-semana os dotes de canto coral;

5. A árvore de natal, displicentemente cortada com uma machada bem afiada numa das matas das praias da Caparica – a ecologia, à época, ainda era ainda uma ciência hermética - e o presépio com luzes, musgo, terra, pratas a imitar lagos, e toda uma sorte de adereços anacrónicos;

6. A gata Fô a fazer as necessidades no presépio e a subir em velocidade turbo a árvore de natal, derrubando as fitas, as estrelas, e os conjuntos de lâmpadas coloridas;

7. A criada com farda às riscas rosa e branco e as campainhas de pêra que, quando premidas, disparavam na cozinha o número correspondente a uma certa divisão da casa. Um sistema útil para pedir leite com chocolate e pão com marmelada, enquanto se devoravam livros dos Cinco e dos Sete, à média de um por dia;

8. As grades de leite com chocolate Ucal que desapareciam a uma velocidade estonteante;

9. O Neil Armstrong a dar os primeiros passos na lua, em 21 de Julho de 1969, tudo visto em directo através da televisão a preto e branco com caixa de madeira;  

10. A enceradora Electrolux que fazia um barulho ensurdecedor, mas espalhava uma cera que deixava um cheiro muito agradável que durava quase uma semana;

11. O Salazar, ao longe, no Estádio Nacional durante as cerimónias do 1º de Maio:

11. As "Conversas em Família" com Marcelo Caetano, ao serão, na televisão, e a proibição paterna (incompreensível) de se poder "fazer uns cornos" sobre a cabeça dele;

12. Os reclames do Ajax, da pasta medicinal Couto, do Junkers e do restaurador Olex;

13. Os movimentos dos hippies/maconheiros contra todas as guerras – que eles nem sabiam de quem eram  - manifestando-se por todo o mundo. Uma série de carros virados ao contrário e incendiados nas ruas de Paris - Maio de 1968;  

14. Um barbudo, numa ilha longínqua, com  o mesmo nome dos charutos que vinham dentro das caixas de madeira que o tio Humberto fumava - e que depois de vazias serviam para guardar cartas, botões e mariposas secas - depõe o general Baptista e assume o poder. As conversas e as notícias sobre o assunto são proibidas. Não interessa saber porquê; 

15. No Cais de Alcântara, o adeus ao primo direito, que segue empoleirado na balaustrada do Vera Cruz rumo a Angola. São tantos os soldados que acenam lenços brancos que não se sabe se o navio vai conseguir chegar à barra do Tejo sem afundar;

16. Nas ruas da Baixa de Lisboa, das fabriquetas instaladas em alguns cafés de maior importância, o cheiro agradável dos queques e dos pastéis de nata acabados de cozer que se desprende através dos respiradouros que dão para a rua. Os autocarros ingleses de dois andares, dos anos 40, que compõem a frota da Carris, roçando na copa das árvores da Avenida da Liberdade sempre que páram. O motorista, em dias de maior calor, aproveitando o tempo da entrada dos passageiros para deitar água no radiador frontal do veículo, servindo-se para o efeito de um jerry can verde azeitona, à data, a eterna cor dos autocarros de Lisboa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O som da lira


Óh, quem dera a mim que fosse teu o som da lira,
que entontece os planos nevados onde me sento,
harpejos de cristal tão belos que eu nunca ouvira,
nesta tundra inóspita, irmã germana do vento;


Esta música que entranha os meus anosos sentidos,
como um gerânio sensual, ou uma trégua na neblina,
diáfanas notas, soltas no silêncio do Vale dos Caídos,
que ressoam para lá do céu e fenecem em surdina;


Sinto-te mas não te vejo. Oiço apenas esse canto,
que embala e estremece o meu corpo espúrio e nu,
que anseia, com a sofreguidão de quem quer tanto,
o momento há muito ensaiado de sermos eu e tu.

A solidão - um sentimento pré-fabricado



(O vaso azul - tela de Lídia Almeida)

Uma das perturbantes circunstâncias das metrópoles e do nosso quotidiano é a solidão que parece descer sobre as vidas de muitos de nós: os sem família, ou apartados dela, ou que viram as sua uniões afectivas um dia desfeitas;  nuns casos, ambas as coisas. A voracidade dos dias, o trânsito caótico o trabalho desgastante, e que nos consome recursos em demasia, o corre-corre de um lado para o outro, as discotecas com filas à porta e as noites a acabarem ao meio-dia, os relacionamentos fugazes, as seduções que, terminadas, encontram o eterno vazio de que se forraram, parece que tudo isto amplia o sentido de isolamento, ao invés de conceder a esperável esperança de companhia e agradabilidade. São demasiados os que se queixam de um enorme sentimento de estarem sozinhos no meio da multidão e afirmam que é difícil encontrar alguém disponível para uma conversa amena; do quão complicado é chegar à fala com pessoas interessantes e da quase impossibilidade de desenvolver relações fortes com conhecimentos recentes. Mas, a maior parte das vezes, por mais que façamos de conta que os motivos são outros, e são dos outros, basta olhar à nossa volta para ver com atenção o muro de isolamento e ostracismo que construímos no que às relações sociais respeita. E às vezes são anos e anos de deliberados distanciamentos ou então de focagens excessivas, quando não obsessivas, numa única relação, não permitindo que alguém partilhe o bunker do relacionamento bilateral em que nos metemos. É verdade, sim, que há pessoas mais propensas a socializarem do que outras; é verdade, sim, que muitos de nós não gostam dos conhecimentos em multidão e da possibilidade de se poderem gabar: "tenho uma montanha de amigos"; é verdade, sim, que as necessidades de isolamento e de interacção divergem consoante a personalidade de cada um, mas não podemos eternamente ficar instalados nos nossos maniqueísmos do costume, querendo respostas simples e fáceis que expliquem tudo isto de uma forma linear. A personalidade de cada  um de nós é o resultado estrutural de uma construção que durou quase metade da nossa vida, daí ser quase impossível operar mudanças radicais;  e a medida do  que está correcto, aplicada a tudo, é a dose qb, a harmonia e temperança nas decisões e na consequente acção, salvaguardado o consenso e conflito da nossa identificação, que se quer ímpar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Nada. Foi apenas uma brisa que passou por aqui...



Tempos houve em que a verdade era mais que o antónimo da mentira. Já se acreditou, inclusive, que a verdade era uma espécie de quinta essência, um âmago de sentido, que justificava uma busca grandiosa, que tornava o caminho da vida num percurso de aperfeiçoamento e crescimento em direcção a uma qualquer transcendência que faria de todos nós seres maiores e melhores. Acontece que, nesta época feérica em que vivemos, o desgaste do conceito atinge tais proporções que uma mentira, se dita vezes sem conta, acaba por se tornar verdade. Nos nossos dias, deixou de ser preciso dizer a verdade e as elites que nos governam, aqueles que têm nas suas mãos o poder de escolher os desígnios e as políticas que nos vão reger, são os que em primeiro lugar nunca dizem a verdade. Passámos a encarar as mentiras de um alto governante, de um deputado, de alguém com responsabilidades sociais intensas, como algo natural, normalíssimo até. Já não acreditamos em intenções vitalícias e é (quase) lícito prometer uma coisa agora e no dia seguinte quebrar o compromisso assumido. E esta falência da verdade é correlativa à emergência da disfuncionalidade aflitiva dos órgãos de cúpula que nos regem, que toleramos e com os quais nos habituámos a viver,  não desperdiçando mais do que um simples encolher de ombros quando alguém nos pergunta se, ao menos, nos questionamos: "O que hei-de eu fazer?".  Lírico eu? Talvez, mas a História prova-nos que só as revoluções conseguem operar as rupturas necessárias para extirpar os cancros do tecido social. Se assim é, venham elas!

"There is Kaos in the Kitchen" - main artists: Teco & Ruca


Teco & Ruca, agora amigos inseparáveis, decidiram um destes dias explorar melhor o lugar onde se fabrica a "comida para humanos" que eles tanto gostam. Depois de muito cheirarem, e após insistentes miados, chegaram à conclusão de que a "comida para humanos" só existe quando o dono está na cozinha e não quando eles muito bem lhes apetece. Vai daí, resolveram, a título de "vingança feliz", lançar o Kaos in the Kitchen, pulverizando de pêlos as bancadas, lambendo restos de comida, metendo o focinho em tudo o que lhes apeteceu, deixando atrás de si um rasto de sujidade e desarrumação. O Teco, por  ser mais pequeno, chegou ao desplante de entrar dentro de uma panela para melhor explorar o seu interior. Mas é ao Ruca  que cabe a maior dose de culpa, pois é o mais crescido e  não devia incentivar no outro este tipo de  incursões.

Enfim, quem tem gatos tem de estar preparado para estas gatisses ou não fosse a curiosidade uma das características peculiares destes pequenos amigos de quatro patas.  

Teco & Ruca crescem todos os dias a olhos vistos e tornaram-se uns perfeitos omnívoros, pois além da comida para gatos em crescimento, gostam, sobretudo o Ruca, de pizza, pão com manteiga, sopas variadas, leite, fiambre, queijo, frango, latas de conserva e, imagine-se, bolachas dietéticas! Não tarda, têm de ir ambos a uma consulta de nutricionismo para gatos gulosos, uma espécie de Clínica Dr. Tallon para felídeos tipo Garfield, que sei também existem algures por aí.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Somewhere Over The Rainbow - Ray Charles


Uma das mais bonitas versões da célebre balada. O timbre jazistíco da voz de Ray Charles é inconfundível. Os mentores de "The Wizard of Oz" e Judy Garland, a sua primeira intérprete, nunca imaginaram o estrondoso sucesso que a canção teria, nem que estava predestinada a tornar-se uma balada intemporal. As músicas, bem como todas as expressões artistícas, quando belas, ganham esse prime que se chama imortalidade.

Tarde cárnea



Raiava uma tarde cárnea de Setembro,
Quando sentado num banco de pedra branca,
Sob a copa das árvores de avoengo,
Vi surgir a flor mais linda que me encanta.


Demorei-me uns momentos a mirá-la,
Quis imaginar o odor do seu perfume são,
Vê-la sem ser visto, imaginar amá-la,
Ela, a flor eleita do meu coração.


Uma luz cúmplice que fulgiu no olhar,
Seguido de um sorriso pleno de amor,
Fez-me logo desejá-la sem sequer imaginar,
Que seria ela a fonte da minha dor.


Amámo-nos tanto, mas tanto, tanto...
Que até o céu ficou de um azul mais puro,
As nuvens prometeram guardar o pranto,
A lua e o sol prometeram-nos um futuro.


Deste amor fugaz pouco sobejou de sorte,
Senão a saudade da memória que soou,
E já perto de sentir a cor da nossa morte,
Continuo a viver dela aquilo que restou.




terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mania de Escrever



1. Uma pessoa que me é muito querida decidiu-se num destes dias empreender uma tarefa que eu julgava  enfadonha, não pela extensão, mas antes pelo tédio que deve provocar ler coisas sem o mínimo interesse - que estou certo ter escrito e publicado aqui nestes últimos dois anos. O interesse e a qualidade daquilo que escrevemos, tem muito a ver com a inspiração do momento e com o tempo que dedicamos aos textos. Sobretudo, creio que é necessário haver disponibilidade e disposição: dois ingredientes necessários para que a escrita flua e algo apetecível de ser lido possa surgir. E esse é um sentimento que, presumo, é  comum a todos quantos gostam de escrever. Infelizmente para mim, não sou escritor, nem  possuo qualidades para tal, e, tal como quase todos os bloggers, encaro a escrita como o eterno part-time do qual já não me consigo libertar.

2. Depois de ter concluído em tempo recorde a árdua tarefa de ler o "Madrigal" de fio a pavio, e porque me conhece pessoalmente, a paciente leitora informou-me categoricamente que entre as temáticas dos textos, os conteúdos, e a personalidade do autor, não há surpresas de maior nem divergências de monta; ou seja: por mais que ficcionemos histórias, façamos ensaios, criemos poéticas, com musas inverosímeis, o Eu  de quem escreve subjaz como uma marca indelével no tecido da escrita. Já Pessoa, com a sua clarividência inimitável, dizia que toda a escrita é autobiográfica.

3. A maioria de nós, bloggers, escreve por catarse, por uma necessidade imperiosa de nos expressarmos, e nos fazermos "ouvir" - mais não seja a nós mesmos. Acima de tudo, queremos mostrar que estamos vivos! Efectivamente trata-se de uma actividade de criação que em maior ou menor grau nos satisfaz a todos, pois é um produto de nós próprios e uma forma de legar aos outros mensagens, opiniões e ideias próprias. Escrever é, sobretudo, um acto de comunicação e quanto melhor o fizermos melhor será a nossa capacidade de sermos compreendidos da forma que o pretendemos ser - ainda que a sombra de umas quantas falácias  fique a pairar sobre aquilo que acabei de escrever. 

4. Não tenho a mínima dúvida de que as leituras, as boas leituras, de preferência literatura portuguesa, ajudam imenso quem gosta de escrever, mas redigir com regularidade, creio, é tão ou mais importante do que ler bons textos. E outra coisa que há muito aprendi foi a ler em voz alta aquilo que escrevo, pois só assim se consegue ter uma percepção mais nítida das falhas na pontuação, das incongruências e da repetição das ideias, erros tão comuns a todos quantos escrevem. Evitar os lugares-comuns é  também um sinal de maturidade de escrita, mas aprender com os melhores é e continuará sempre a ser a melhor receita.

5. De seguida, publico as Sete Regras de Oiro do Bem Escrever - uma espécie de Arte de Cavalgar em Toda a Sela, adaptada à nobre arte da pena -  vocacionada para a escrita em blogues, da autoria de Marco Lopes, ele mesmo um grande escrevente. Creio que as suas palavras são sábias e, se lidas com atenção, estou certo que farão um bom proveito a todos quantos partilham comigo esta paixão pela expressão escrita. Eu nunca me canso de as reler, por pedagogia, e encontro-lhes sempre carradas de razão.


Boas escritas!


Sete Regras de Oiro do Bem Escrever

1. Frases mais curtas que o teu dedo mindinho.
Frases demasiado longas e complicadas não pegam. A maioria das pessoas chegará ao fim sem se lembrar de como a frase começou. Se pretendes expressar uma ideia, esforça-te para que em primeiro lugar seja bem assimilada. E a única forma de o conseguires é escrevendo com clareza. Outra vantagem de usar frases curtas é não correr o risco de meter água com a gramática e a pontuação. A escrita é um fio de seda nas tuas mãos: pode desenrolar-se com elegância diante dos olhos (e então tudo te parece perfeito) ou embrulhar-se à volta das pernas, fazendo-te cair ao início da tua jornada.

2. Deixa as palavras caras para os ricos.
Como a tua intenção é comunicar ideias e não a riqueza do teu vocabulário, o melhor caminho é escrever com simplicidade e ser autêntico. Escolher as palavras certas é como escolher uma peça de roupa. Para quê usar fato e gravata se te sentes melhor com calças de ganga? Escolhe as palavras que quiseres, desde que em nenhum momento essas palavras te façam sentir que não estás a ser igual a ti próprio. Se na preparação para o teu post aprendeste uma palavra cujo significado desconhecias, então partilha essa descoberta com os teus leitores. A tua sinceridade será apreciada, sobretudo porque não usaste o teu vocabulário para fazer poses.

3. Quando escreves, a pontuação é sempre tua.

Vírgulas mal colocadas são como barreiras em corridas de obstáculos: quebram-te o ritmo e podem fazer-te tropeçar. A dificuldade que possas ter com a pontuação não é por falta de gramática, é por falta de leitura – e sobretudo leitura em voz alta. Só lendo em voz alta mais facilmente te apercebes que a escrita não é diferente da música: a melodia é a ideia que desejas expressar; as palavras, os instrumentos através dos quais expressas a tua ideia. Da combinação desses instrumentos resulta o «arranjo» e a «harmonia» do teu texto. Os sinais de pontuação são os instrumentos de percussão. Assim como os músicos podem tocar de ouvido sem conhecer as pautas, também tu poderás escrever bem sem precisares de enfiar um compêndio de gramática na cabeça.
Faz um exercício ao contrário: procura os sinais de pontuação na própria música. Põe a tocar o teu tema preferido (com bateria) e procura associar os sons. Que poderá significar aquele som «splash» do prato de ataque de uma bateria? Um ponto de exclamação? A que atribuirás o som ritmado de um prato de condução suave? Às vírgulas?
Se leres muitas vezes em voz alta – os teus textos e os dos outros – começarás «a ouvir» as vírgulas e a sentir a «respiração» das frases com a mesma naturalidade com que bates o pé quando ouves música.

4. Não tentes «escrever bem».
Escrever é um processo de descoberta de ti próprio e dos teus limites. Usar chavões, metáforas ou analogias é um recurso óptimo que enriquece a tua escrita – desde que sejam os teus chavões, as tuas metáforas e as tuas analogias. Se te lembras apenas de figuras de linguagem que se lêem todos os dias nos jornais, mais vale apagar e seguires a regra número 1: simplificar a comunicação e ser igual a ti próprio. Não te preocupes: o que tu és agora não é forçosamente o que serás amanhã – e se a tua escrita for autêntica, acompanhará essa mudança com tanta naturalidade que os teus leitores notarão a evolução primeiro que tu.

5. Tu tens qualidades, só falta seres capaz de as reconhecer.

Melhorar a escrita exige muito trabalho, mas a maior tarefa de todas consiste em remover todos os obstáculos entre o teu pensamento e a folha em branco. Quanto mais te afastares de ti próprio e do que tu és, mais dificuldade terás em obter fluidez na tua escrita. Descobre as tuas próprias qualidades e investe o teu tempo e esforço a desenvolvê-las: não percas tempo a desejar qualidades que reconheces nos outros mas que tu não tens. Nem todos os bloggers podem ser escritores e nem todos os escritores podem ser bloggers. E não te esqueças: através da tua escrita estás a criar uma presença na Web. Nenhuma presença é sustentável sem uma identidade. É através da escrita que a consegues, não através de um avatar.

6. A escrita não é para preguiçosos.
Tudo o resto que possas fazer para melhorar a tua escrita depende da tua capacidade de trabalho. Estuda gramática. Consulta o Prontuário Ortográfico. Instala um corrector ortográfico. Aprende com os erros que dás. Revê os teus textos. Revê-os em voz alta. Quando estiveres cansado e achares que já chega, revê outra vez. Antes de publicares, volta a ler o teu texto em modo Rascunho.
Lê. Lê muito. Lê jornais, revistas, livros, sobretudo livros. Quanto mais se lê, melhor se pensa; quanto melhor se pensa, melhor se escreve – trabalha e esforça-se até chegares a um ponto em que o pensamento te surge na cabeça como se fosse uma frase que escreves sem mãos. Estás disposto a apagar a televisão ou o computador em nome desse objectivo?

7. A regra de ouro.
Chegará o dia em que quebrar todas estas regras será quase uma questão de estilo. Quando isso acontecer, parabéns, pois terás conquistado o direito à subversão! Nunca te atrevas é a quebrar a regra número 6.

Marco Lopes