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domingo, 16 de janeiro de 2011

Uma vida a correr...

Ocupamos de tal maneira o tempo que passamos na vida, que ficamos com a sensação de que ele não chega para nada. Nunca temos tempo suficiente para fazer tudo aquilo que queremos. No entanto, quando ousamos parar um pouco, talvez, no fundo de nós, algo nos pergunte: Para quê esta pressa, esta necessidade de fazer tantas coisas? O que é que, afinal, isso me traz de importante?; e, sobretudo, onde é que acaba por  me levar? Uma das grandes preocupações do nosso "estilo de vida moderno" é não perder tempo. Aproveitar ao máximo todos os minutos. Chegar a tempo, ganhar tempo, mesmo sem saber de quê nem para quê. Quando não havia electricidade, aquilo que fazíamos era mais comandado pela luz do sol do que por outras pressões exteriores ou obrigações a cumprir - embora muitas das criações mais geniais da literatura universal tenham sido escritas à luz de candelabros de velas ou de lamparinas de azeite. Mas é um facto que o dia era mais vivido enquanto tal, e a noite mais sentida como noite. E o facto de cada um desses tempos opostos e complementares nos permitir descansar do outro trazia-nos um certo equilíbrio. 

O computador veio tornar possível elaborar muitos mais textos do que quando usava a máquina de escrever,  ou a caneta. E esta máquina fabulosa, quando ligada à Internet, pode dispensar-me de qualquer contacto real com os destinatários dos meus textos. Hoje em dia, com a automação de muitas tarefas e o facilitismo que era suposto elas nos proporcionarem, em vez de ganharmos tempo para o lazer, o ócio, passamos o dia, a semana, o tempo todo a acelerar, a produzir. Em vez de desfrutar da vida, que é só uma, irrepetível, com termo incerto, consumimo-la. Acontece que o tempo não se perde nem se ganha, ele simplesmente passa e a única coisa que nos convida é que o aproveitemos, não no sentido de fazer o maior número de coisas possíveis, mas no de o gozar. O respirar. O viver. O deleitarmo-nos preguiçosamente e com detalhe numa actividade, fica muitas vezes prejudicado pelo afã de fazer muita coisa. E às vezes esta necessidade frenética de nos mantermos sempre ocupados, mais não é do que uma forma sub-consciente de anestesiarmos pensamentos, infelicidades, ausências, e/ou colmatarmos carências de outra ordem. O melhor que temos a fazer é aproveitarmos para dar um novo rumo à nossa vida, esquecendo que ela é finita, e concebendo os nossos sonhos como concretizações ainda capazes de ter lugar na réstia do tempo. Mas para tal é necessário apelar à coragem, à incomodidade, pois sem estes atributos a funcionarem em pleno não conseguimos mudar seja o que for.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Madrigal em Quarentena

Aldeia do Piódão - Novembro de 2010
Fiquei curioso como uma simples frase, escrita por um pensador romano há mais de mil anos, possa ter gerado tanta polémica. Talvez o sentido actualissímo da questão - a eterna questiúncula entre optar por ter uma reacção maior do que a provocação ou, pelo contrário, mostrar superioridade através da imperturbabilidade - tenha atiçado as nossas mentes. Mas de facto é algo que não deixa de ser verdadeiro e que nos acompanha na maioria das interacções que estabelecemos no quotidiano, seja no local de trabalho, na escola, no hospital, na universidade ou, inclusive, num mero espaço de lazer entre amigos. São demasiadas as mulheres que se queixam amiúde do avanço da idade, porque que lhes rouba a beleza, porque lhes trás rugas, peles moles, porque faz com que se sintam menos atraentes aos olhos do sexo oposto. Os divãs dos psicanalistas enchem-se de musas e de homens, incapazes de lidar com a voragem do tempo, frustres,  sem conseguir tirar partido daquilo que a meia-idade tem de melhor: o ganho em capital de experiência, a possibilidade, única, de conseguirem, finalmente, fazer sínteses e súmulas da vida; a previsibilidade das coisas; e, sobretudo, o domínio do saber-mor da ciência: o conhecimento da causa-efeito, para prevenir, para não descuidar, para não sofrer. Desperdiçamos grande parte da nossa energia com coisas que pertencem ao passado ou investindo tudo no futuro. Entretanto, o único tempo real que existe é o presente, apesar de fugaz, imparável, incapaz de ser sustido, como uma lufada de vento numa  destas manhãs enevoadas. Mas aquilo que se está a passar no preciso instante em que aqui estamos - o agora - é o que mais importa; e é apreciando-o bem que vamos podendo estar contentes com o que somos e temos. Ou seja, felizes na medida do possível. Bem-estar interior é um passo em frente no caminho da mudança para melhor, então porquê levar uma vida carregada de azedumes, exponenciando cóleras, reagindo a atitudes primatas de comparsas que o que esperam de nós é a desorientação para, com mais sucesso, nos atingirem, logo que exponhamos o flanco?

Muito mais do que um mero gesto de cortesia que, desde pequenos, nos é apresentado como fazendo parte da "boa educação", agradecer aquilo que a vida nos dá torna mais fluída a energia que existe no interior de nós mesmos. E esse sentimento de apreciação grata, relativamente aos benefícios recebidos, é uma expressão da alma. Por mim falo. A cólera aumenta os níveis de colesterol, dilata a possibilidade de se vir a padecer de um acidente vascular cerebral, ou de um enfarte do miocárdio. O inevitável, mais do que tudo, é uma verdade semântica; então para quê consumirmos as nossas preciosas energias com seres medíocres que outra coisa não pretendem senão despoletar-nos uma reacção: o estímulo (provocação) - resposta (cólera). Porque não contrariar o efeito (por eles) desejado e deixar que um sorriso daviniano anoiteça no nosso semblante? Eu não quero a guerra, muito menos se estiver instalada dentro de mim. E há sempre muito a fazer para evitar ou amortizar um conflito. Afinal o que mais importa é a forma como nós nos vemos, não as considerações que os outros tecem sobre nós. Se a nossa estima estiver bem cuidada, com uma roupa bem engomadinha, uns sapatinhos a condizer, ou um perfume delirante, tudo é mais suportável. E no dia em que as coisas não forem assim, é sinal que está na hora de mudar, nem que para isso seja preciso pedir ajuda. Agora vamos todos ver uns landscapes. Vá, fechem os olhos, façam uma forçazinha! 

Por uns tempos, cai o pano sobre o Madrigal. O blogue entrou logo no inicio deste ano em quarentena.
 

domingo, 31 de janeiro de 2010

A propósito de uma frase de Pessoa...


“Uma criatura de nervos modernos, de inteligência, sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia”

In “Crónica da vida que passa...”

1915 – Fernando Pessoa


Acaba por ser uma não necessidade tomar consciência que finalmente estamos sós, ainda que avistemos alguém ao longe, mesmo que seja apenas um pequeno ponto prestes a confundir-se com a linha do horizonte. Um fio de cabelo longo, castanho escuro, preso na manga da camisola, é, por vezes, tudo o que resta. O mais são memórias, episódios mentais cada vez mais fugazes, esvaecidos e debilitados pela roda imparável do tempo. Esquecer para viver, porque prosseguir é um imperativo; e é, talvez, a única razão plausível quando se trata de nos interrogarmos sobre qual o sentido da vida – “The meanig of life”, tão expressivo quando dito na língua da velha Albion.

Toco-me. Olho-me no espelho. Sinto-me envelhecer em cada dia que passa. A neve já não se limita aos cumes. Não sinto nenhum grau de genialidade, antes pelo contrário, apenas elementos de diferença, idiossincrasias que jogam contra mim no tecido social – algumas delas facilmente decifráveis, outras nem tanto. Tal como não consigo explicar porque é que as lágrimas me afloram a face sempre que escuto algumas músicas de Bach, também não consigo entender-me com tantas outras coisas. E enquanto estes pensamentos me amargurarem – como sempre – consolo-me com filosofias e com a tomada de consciência da desnaturalidade de avistar o navio cujo rasto é apenas um fumo que tolda o horizonte, tomando por certas as minhas máscaras de adolescente e poeta-prosador brejeiro. O resto é a vida, a subsistência, o Eu que não sou eu, mas que é aquele que os outros querem que eu seja.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Diz-me o que tens sobre o criado mudo e dir-te-ei quem és

Um hábito terrível do qual nunca me consegui livrar. Ando a ler vários livros em simultâneo. Desde muito jovem que tem sido sempre assim. A avidez da leitura, a curiosidade irreprimível, levam-me a não conseguir esperar pelo fim de um livro sem começar outro; e então resolvo-me por ler vários ao mesmo tempo. Faço os possiveis para que não sejam todos do mesmo género, pois ser-me-ia difícil não misturar os personagens de diversos romances e o desenlace de histórias intrincadas, mas é com facilidade que leio um livro de contos, um romance de grande folgo, um livro técnico, uma biografia, um romance policial, uma resma de poesia.

Neste momento na minha mesa-de-cabeceira - criado mudo, como lhe chamam no Brasil - estão empilhados um Maigret, o penúltimo romance do Lobo Antunes, poesia de Drummond de Andrade, as crónicas da Guidinha, de Luis Sttau Monteiro e poemas ingleses de Fernando Pessoa. E a vantagem de me munir deste leque tão variado é um pouco como o sortido de camisas que enganalam o meu roupeiro: uma por dia, a combinar com as restantes peças de vestuário; e para não fartar, claro.

E o esforço maior é não sucumbir à tentação de comprar outros, quando ainda me restam tantos livros para ler, pois pior que ler muitos livros em simultâneo é certamente morrer sem os ter lido.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Do valor da amizade



Muito em breve vou necessitar de três testemunhas por causa de um processo que corre em tribunal e no qual sou autor; e é nas alturas de maior carência - a prova só pode ser testemunhal, uma vez que não existem outros meios de prova susceptíveis de servir no caso em apreço - que sabemos quem são os nossos verdadeiros amigos. Na amizade, e também no amor, de pouco valem as juras e as palavras se não forem acompanhadas das correlativas acções que as confirmem. A  experiência de vida tem-me ensinado algumas coisas e uma delas foi seguramente a distrinça entre amigos e conhecidos. Sempre achei estranhissímo ouvir dizer a certas pessoas que têm montanhas de amigos. Os amigos, na verdade, são quase sempre poucos, e é natural que assim seja, pois para lhes dedicarmos atenção, juntamente com os nossos afazeres pessoais,  o trabalho e a familía, não podem ser em número exagerado. Penso que não estarei a fantasiar ao afirmar que os dedos das mãos, quase sempre, chegam para contar os nossos verdadeiros amigos, aqueles que gostam efectivamente de nós, pensam em nós e preocupam-se connosco. Não é quando tudo está bem com a nossa vida, quando temos alegria esfusiante para oferecer, estamos super divertidos e somos uma companhia agradável, que descobrimos que afinal a pessoa X ou a pessoa Y não eram verdadeiros amigos. É necessário que surja uma situação incómoda, que precisemos de um grande favor, para que nos apercebamos com clareza quem são aqueles que estão dispostos a quebrar o seu muro de egoísmo para, sem hesitações ou desculpas, se prontificarem em nos ajudar.

Mesmo que os amigos sejam para as ocasiões, fica cada vez mais difícil definir quais são as situações em que se deve, e pode, apelar aos amigos e quais os amigos que se prestam, e têm disponibilidade, para acudir nessas dadas ocasiões. Parecendo do mais trivial, a amizade é um tema dos mais discutíveis e uma das relações mais escorregadias, ainda que presentes, nas nossas vidas. E é nas situações agudas que descobrimos, às vezes com desconfortável surpresa, que o ditoche popular "os amigos são para as ocasiões", ao menos, serve para uma coisa razoavelmente boa: depura os falsos amigos e confirma-nos  os que o são na verdadeira acepção da palavra.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A solidão - um sentimento pré-fabricado



(O vaso azul - tela de Lídia Almeida)

Uma das perturbantes circunstâncias das metrópoles e do nosso quotidiano é a solidão que parece descer sobre as vidas de muitos de nós: os sem família, ou apartados dela, ou que viram as sua uniões afectivas um dia desfeitas;  nuns casos, ambas as coisas. A voracidade dos dias, o trânsito caótico o trabalho desgastante, e que nos consome recursos em demasia, o corre-corre de um lado para o outro, as discotecas com filas à porta e as noites a acabarem ao meio-dia, os relacionamentos fugazes, as seduções que, terminadas, encontram o eterno vazio de que se forraram, parece que tudo isto amplia o sentido de isolamento, ao invés de conceder a esperável esperança de companhia e agradabilidade. São demasiados os que se queixam de um enorme sentimento de estarem sozinhos no meio da multidão e afirmam que é difícil encontrar alguém disponível para uma conversa amena; do quão complicado é chegar à fala com pessoas interessantes e da quase impossibilidade de desenvolver relações fortes com conhecimentos recentes. Mas, a maior parte das vezes, por mais que façamos de conta que os motivos são outros, e são dos outros, basta olhar à nossa volta para ver com atenção o muro de isolamento e ostracismo que construímos no que às relações sociais respeita. E às vezes são anos e anos de deliberados distanciamentos ou então de focagens excessivas, quando não obsessivas, numa única relação, não permitindo que alguém partilhe o bunker do relacionamento bilateral em que nos metemos. É verdade, sim, que há pessoas mais propensas a socializarem do que outras; é verdade, sim, que muitos de nós não gostam dos conhecimentos em multidão e da possibilidade de se poderem gabar: "tenho uma montanha de amigos"; é verdade, sim, que as necessidades de isolamento e de interacção divergem consoante a personalidade de cada um, mas não podemos eternamente ficar instalados nos nossos maniqueísmos do costume, querendo respostas simples e fáceis que expliquem tudo isto de uma forma linear. A personalidade de cada  um de nós é o resultado estrutural de uma construção que durou quase metade da nossa vida, daí ser quase impossível operar mudanças radicais;  e a medida do  que está correcto, aplicada a tudo, é a dose qb, a harmonia e temperança nas decisões e na consequente acção, salvaguardado o consenso e conflito da nossa identificação, que se quer ímpar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Nada. Foi apenas uma brisa que passou por aqui...



Tempos houve em que a verdade era mais que o antónimo da mentira. Já se acreditou, inclusive, que a verdade era uma espécie de quinta essência, um âmago de sentido, que justificava uma busca grandiosa, que tornava o caminho da vida num percurso de aperfeiçoamento e crescimento em direcção a uma qualquer transcendência que faria de todos nós seres maiores e melhores. Acontece que, nesta época feérica em que vivemos, o desgaste do conceito atinge tais proporções que uma mentira, se dita vezes sem conta, acaba por se tornar verdade. Nos nossos dias, deixou de ser preciso dizer a verdade e as elites que nos governam, aqueles que têm nas suas mãos o poder de escolher os desígnios e as políticas que nos vão reger, são os que em primeiro lugar nunca dizem a verdade. Passámos a encarar as mentiras de um alto governante, de um deputado, de alguém com responsabilidades sociais intensas, como algo natural, normalíssimo até. Já não acreditamos em intenções vitalícias e é (quase) lícito prometer uma coisa agora e no dia seguinte quebrar o compromisso assumido. E esta falência da verdade é correlativa à emergência da disfuncionalidade aflitiva dos órgãos de cúpula que nos regem, que toleramos e com os quais nos habituámos a viver,  não desperdiçando mais do que um simples encolher de ombros quando alguém nos pergunta se, ao menos, nos questionamos: "O que hei-de eu fazer?".  Lírico eu? Talvez, mas a História prova-nos que só as revoluções conseguem operar as rupturas necessárias para extirpar os cancros do tecido social. Se assim é, venham elas!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Palavras III

Não é extraordinário sermos semelhantes? Conhecendo a minha pessoa, conheço-te, porque és como eu. Toda a fonte de delicadezas e sentimentos, que não se podem definir porque são alma, e que estão dentro de mim, equivale à mesma que tu tens. É por isso que nos compreendemos perfeitamente. Por este motivo os nossos pedidos são nulos, porque as nossas vontades estão sempre satisfeitas. Assim, sem nada dizeres, compreendi que estavas triste, porque essa mágoa também era minha.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Palavras II

Começa hoje para mim outro combate com a vida, comigo mesmo. Os últimos dias têm sido de prova, prova cruel e amarga, mas realmente prova, que suportei com uma coragem - deixa-me dizer - de herói. Deixei de possuir, por momentos, o melhor de mim mesmo, mas ainda assim sinto força suficiente para recomeçar. Sei que iremos juntos, eu pelo caminho da claridade dos teus olhos e tu pelo caminho do meu suplício. Se assim for a tua vontade. Fui, para ti, como um entre tantos desconhecidos que encontras pelo caminho, em que por isso não reparas, embevecida com os teus pensamentos. Já sei que irei deixando nesta hora tudo o que resta da mocidade. Talvez, quando me abrires os teus braços e me ofereceres todo o mel da tua boca, só reste de mim uma ruína de todos os sofrimentos e de todas as agonias. Sem o ar do céu não posso respirar, e tu és o meu ar e a minha luz e o pensamento do meu pensamento. Nada importa, porém, se ainda me restar um pouco de voz para te dizer que te quero!

domingo, 12 de abril de 2009

Palavras I

Foram nestes dias que tomei consciência aguda de muita coisa. Voltou a mim aquele silêncio que tem sido meu companheiro toda a vida. E eu, desesperado porque dei conta disso, pus inconscientemente outra gota de fel no meu coração. É tão triste ver-me triste e não poder remediá-lo! Verás que chegarei a ser o homem que tu queres que eu seja:alegria nos olhos e alegria no coração. Deixa, no entanto, que sofra ainda um pouco, ou muito; que tenha bastante fortaleza para não demonstrar que sofro.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Sob o peso das nuvens

(Montemor-o-Velho sob o peso das nuvens - Janeiro 2009)
Quando dou passeios, tento estar sempre desperto para a possibilidade de me deixar encantar. O encantamento é inerente a cada instante, se podemos ter essa perspectiva e segurá-la carinhosamente contra o coração. O que me surpreende e me toca é que ainda, apesar de tudo, estou preparado para me deixar encantar. Posso guiar por uma estrada de campo e ao fazer uma curva observar uma bela garça a elevar-se de um paul solitário até ao sol-poente. A subida vagarosa das suas asas até ao céu corresponde a uma profunda inalação da minha própria respiração, uma expansão dos meus pulmões e do meu espiríto para um espaço de satisfação. É, afinal, muito daquilo que procuro em todas as viagens ou meros passeios: a evasão, o encontro com o desconhecido, a surpresa. E a exigência constante que faço dos cenários que vou encontrando pela frente é pedir-lhes que me surpreendam.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Escrever

Hoje em dia, neste estado de decadência da literatura, dos hábitos de leitura, e do desprezo generalizado pelo cuidado no escrever, ainda há pessoas que redigem de modo descuidado, como se o mero exercício de debitar palavras, quantas vezes vazias de qualquer sentido, ou plenas de vulgaridade, a que se juntam atropelos à sintaxe e à semântica, não fossem alarvidades desnecessárias, mas antes um tesouro que valesse a pena preservar. Escrever é o exercício legítimo de um direito democrático, seja por catarse, por génio criador do escrevente, ou porque motivo for. Todos as causas que levam alguém a escrever são válidas. É, também, para alguns, onde eu me incluo, um mal/bem necessário; mas quem escreve de maneira displicente confessa com isso, antes de tudo, que ele mesmo não atribui grande valor aos seus pensamentos. Pois apenas a partir da convicção da verdade e importância dos nossos pensamentos, surge o entusiasmo que é exigido para buscar sempre, com incansável perseverança, a expressão mais clara, mais bela e mais vigorosa. Acontece isso na prosa e por maioria de razão na poesia. Entristecem-me os ditoches que vejo publicarem-se todos os dias, as aparências de obras literárias, os textos falhos da mínima qualidade, como se o grande afã de algumas pessoas fosse publicar algo escrito por si, por forma a deixar rasto ou, quem sabe, cumprir em vida um dos três mandamentos populares: plantar uma árvore, fazer um filho ou escrever um livro. Há uma certa concessão ao narcisismo - ou carência de aditivo na auto-estima - no que à necessidade de escrever, publicar e, posteriormente, receber os aplausos, respeita. Felizmente que, também, no universo bloguista, ainda se encontra gente com imenso talento e a crítica dirige-se com maior propriedade para as gerações mais novas: aqueles que preferem “comer os alimentos já mastigados por outrem”. Talvez eu esteja a ser demasiado severo, mas a experiência ensinou-me que sempre que baixamos a fasquia das exigências, que para connosco nos propusémos, aumenta a distância entre nós e a qualidade. Exigir sempre mais, nunca se dar por completo de contentamento e nunca perder a necessária humildade, é uma rota que me proponho prosseguir. Que outros, se quiserem, me julguem ou vaiem por isso, mas não creio que vá arrepiar caminho.

domingo, 2 de novembro de 2008

O velho saudosista

("O velho saudosista" - Sociedade Recreativa Centenária - Tomar - Outubro 2008)
Empurrando-nos para lá daquilo que julgamos serem os nossos limites e do que nos rodeia, a experiência da vida expande-nos a consciência. Revela-nos que somos habitados por algo maior do que nós. E que, à nossa frente, existe uma infinidade de caminhos possíveis e nunca um único - ensina-nos a gastar com mais parcimónia o tempo precioso. E, assim, poder escutar a voz do silêncio. Olhar para as várias circunstâncias da vida, ou para aqueles com quem nos relacionámos ou cruzámos pelos caminhos da vida, sem ficarmos retidos em quaisquer preconceitos, rancores, ou juízos de valor inúteis. A maturidade ajuda-nos a descobri a alma e acolher os mistérios que nos fazem ser o que somos e acontecer-nos o que nos acontece. Estou esforçadamente a aprender a meditar, coisa diferentissíma de pensar. Meditar é como que estar a dormir profundamente mas com a consciência perfeitamente desperta. Eu medito naquilo que verdadeiramente merece preocupação. Trata-se de uma espécie de reciclagem de pensamentos e emoções que me conduzem à triagem das essencialidades.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pelo sonho é que vamos?

Há imagens, situações, pessoas, que nos fazem sonhar. E frequentemente é dessas de que mais gostamos. Pelo encantamento que nos trazem ao dia-a-dia. Mas, além disso, na medida em que nos levam a acreditar que não há impossíveis, despertam-nos a intuição, a criatividade, a confiança na vida, tornando-nos mais capazes de realizar os nossos objectivos. Pablo Neruda, poeta chileno que desde muito cedo admirei, definia o sonho como sendo "a doce aprendizagem do esquecimento definitivo". E a "triste alegria diária com que nos conformamos", nada mais do que "semente vã da flor do sonho".
Em geral diz-se que as crianças é que sonham - com aquilo que irão ser ou ter, com o que irão poder fazer - e que os adultos têm mas é de olhar para a realidade e de se conformar com a triste realidade do dia-a-dia. Errado! Para que, qualquer que seja a nossa idade, o futuro continue sempre a aparecer-nos como um livro em branco - que, mesmo quando já não tenha mais do que uma página, nos convida a que a preenchamos -, nunca podemos permitir que a capacidade de sonhar seja sufocada. Só assim a vida continua a aparecer-nos como podendo ser significativa. Eu, em definitivo, recusei o papel de mero espectador da minha própria vida e assumo que devo ser, na medida do possível, o actor principal da curta/longa metragem no centro do plateau em que ela se desenrola. E quando, por vezes - e todos nós, mesmo os mais racionais e cartesianos, temos desses momentos -, sentimos que a nossa vida é uma travessia no deserto, a melhor coisa que podemos fazer é olhar profundamente para dentro de nós mesmos, que é, porventura, o único lugar, por muita que seja a chuva ou o mau tempo, onde podemos sentir que há sempre um amanhã. É, afinal, sonhar que nos permite o encantamento necessário para sentir que a vida eterna existe. Que haverá sempre algo que podemos fazer, ver, aprender. Algo por descobrir e, sobretudo, ter a plena consciência de que o mal que hoje nos assola podia ser ainda bem pior. E, por incrível que pareça, depois desta quase apologia do individualismo como cerne do sonho, continuo a achar que a felicidade maiúscula atinge-se com a partilha amorosa, pese embora tenhamos de cuidar em primeiro lugar das rosas do nosso jardim. Se nós próprios não estivermos felizes, como poderemos fazer feliz alguém? É que essa coisa da tristeza pega-se. É aflitivo mas é verdade!

domingo, 26 de outubro de 2008

Messieur de La Palice (revisitado)

Creio ter feito uma descoberta: A felicidade não vem dos outros nem de nada exterior a nós, mas sim do nosso bem-estar interior. Há formas de pensar, falar, agir, que nos ajudam a estar bem connosco e com o mundo e outras que nos provocam precisamente o efeito contrário. Saborear a vida é uma aprendizagem solitária. A felicidade é, acima de tudo, estar atento às coisas simples da vida, aproveitar o instante que passa; embora seja tão difícil, impossível, até, colocar em prática evidências lapalicianas que, quase todos nós, maduros, sabemos de cor e salteado. Tão facilmente caímos na recidiva, sucumbimos de novo, apesar da pesada obrigação de termos aprendido bem todas as lições capazes de nos fazerem cambiar o rumo. O que mais me assusta mesmo é quando alguém me diz: "Faz-me feliz!" - como se coubesse em mim essa responsabilidade absoluta! Atirar para o colo de alguém esse tremendo ónus, como se um outro pudesse ser o apêndice de uma pessoa integral - com capacidade para ter sentires e emoções próprias. [Eu, que há quase cinco décadas todos os dias me reinvento e faço os possíveis e os impossíveis para que a felicidade pese mais na balança dos meus quotidianos do que o sentimento contrário!] Quero aclarar a minha actual noção de felicidade, bem-estar, ou o que se lhe quiser chamar. Trata-se, sobretudo, de assumir como firme a atitude de tentar tudo o que estiver ao meu alcance para que os sonhos e as coisas que me dão prazer se materializem. Tão simples quanto isso! Não digo, claro, que vou conseguir concretizar tudo o que tenho em mente, até porque obstáculos de ordem prática, parecidos com o impossível, a isso me impediriam; mas vou consagrar-me, tal como uma criança que sonha com um novo brinquedo, a viver cada dia como se houvesse sempre um amanhã, ainda que tal seja uma tremenda mentira. Haverá outra forma menos dolorosa de encarar o viver?

sábado, 25 de outubro de 2008

Palavras na madrugada

Em princípio, actividade é o contrário de passividade. Fazer com que as coisas aconteçam, numa atitude oposta à de esperar que os acontecimentos se desenrolem. A nossa vida oscila entre estes dois tempos. E, enquanto não percebermos que a oposição só existe à superficíe, paira no ar uma tensão. É, porém, possível conhecer a tranquilidade que para lá dela se encontra. De manhã à noite somos obrigados a fazer coisas. Sem parar. Sem apreciar aquilo que fazemos. Nem avaliar se vale a pena fazê-lo. Vivemos um dia-a-dia compartilhado em momentos agradáveis e outros desagradáveis, sem consciência do fio condutor que, ligando-os uns aos outros, nos permite um distanciamento em relação ao que vamos obtendo. Uma noção da pouca importância absoluta de qualquer desses momentos - que, no entanto, na altura em que os estamos a viver, sempre nos pareceram eternos. E, numa sociedade em que nada fazer é sinónimo de preguiça, de falta de sentido de responsabilidade ou de competência, não ter o tempo preenchido traz para muita gente ansiedade. Quantas vezes não agredimos a vida e perguntamos-lhe porquê, querendo à força encontrar uma explicação, alguma justificação, para algumas das nossas dores sem tamanho? Deixar fluir a vida, não significa de maneira nenhuma ficar por sistema à espera que alguém nos resolva os problemas. Só que, por vezes, há pesos que nos caem em cima e que nos obrigam a entregar as armas. A única coisa que, nesses momentos difíceis, nos é pedido é que, mesmo sem muitas vezes compreender o porquê do que está a acontecer - e logo a nós! -, o aceitemos. Apenas isso...
Sem noite, o dia seria menos luminoso e sem dia, a noite demasiado silenciosa. Palavras geradas por pensamentos como estes, fluem-me às 5.48, porque uma insónia, que me habita há já alguns anos, fez-me compulsivamente ligar o computador, abrir uma folha do Word, e começar a rabiscar, quase em automático, coisas que se avolumam na minha mente e que só esperam a oportunidade para se fazerem ouvir. Quem sabe, algumas delas, são directamente responsáveis por, nesta madrugada lenta, por estas horas ainda tão tenras, através da janela do escritório mergulhado em silêncios, ver-me na companhia de uma lua timída, sozinha, destoando na imensidão de um céu demasiado escuro e vácuo de estrelas. Resta-me concluir que a visão do mundo é tão limitada pela nossa mente que é improvável que nos consinta ver o absoluto. Agora vou apagar as luzes, desligar o PC, e tornar ao quarto de dormir. Pesam-me os olhos. Talvez se devorando mais algumas páginas da biografia de Alexandre O'Neill, o sono se abeire novamente de mim.
PS. Logo à noitinha muda a hora e, desde então, de manhã, vamos poder ficar mais uma hora no aconchego da caminha.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Sobre a função dos (meus) óculos escuros

Os ósculos escuros cumprem maravilhosamente duas funções: protegem-nos a vista do sol e escondem-nos as emoções. À parte os exageros do Pedro Abrunhosa, que raiam o obssessivo, creio que não será demasiado afirmar que os óculos escuros fazem parte dos meus adereços diários, tanto como qualquer objecto fundamental, quer se trate das chaves do carro, do telefone, ou da carteira recheada por uma generosa colecção de cartões - muitos deles completamente inúteis. Possuo uma vasta quantidade de óculos de sol, alguns caros, de marcas consagradas, mas a maioria de reduzido valor. Os óculos de sol, funcionam em mim como uma espécie de filtro que, julgo eu, me protegem contra os predadores de emoções alheias. Não gosto que me olhem e se ponham a adivinhar o que me vai cá dentro só porque alguém um dia ditou que os olhos são (sempre) o espelho da alma. Admito que isso até possa ser verdade, pois não vejo melhor forma de tentar ler as entranhas espirituais de um sujeito que não seja estudando-lhe o olhar. Apenas acho que as nossas emoções, caso não as consigamos reprimir ou esconder de olhares menos benignos, deveriam estar sempre protegidas por um escudo que nos tornasse invisiveis aos olhos do mundo: o mundo que não queremos que nos veja por dentro. Na rua, sem óculos escuros, não devo ser eu, mas sim outra pessoa; ou então posso, sim, ser eu, mas certamente estugando o passo para subir até casa, porque me esqueci dos óculos na mesa do corredor.

sábado, 26 de julho de 2008

A missiva que não seguiu

(Praia do Norte - Nazaré - Julho 2008)
Propícios vão os dias para a fruição da natureza, para a redescoberta de prazeres que só a despreocupação ousada de um fim-de-semana permite. As férias recordam-me precisamente o descanso, o regalo das sestas, o "dolce farniente", as sombras acolhedoras dos pinhais, o ânimo de uma merenda ao ar livre; e, sobretudo, a praia deserta ao cair da noite, o marulhar das ondas na rebentação, o pio avulso das gaivotas, a solidão que convida à reflexão. Neste tempo tão só meu, feliz ou infeliz, esquecendo e afastando as maleitas do inverno da minha vida, o cansaço do trabalho, a harmonia das rotinas desgastantes, sinto que a comunhão com a natureza, no seu estado mais vestal, favorece um maior encontro comigo mesmo. Não havendo receitas válidas para a serenidade do espiríto ou para a felicidade constante, um objectivo devo seguramente tentar alcançar: estar e sentir-me bem e confortável com a vida. Diria mesmo, agradecido. Quando alguém nos profetiza que, afinal, ainda não é chegada a nossa hora de arrumar a bagagem e partir, essa nova deveria funcionar como um impulso suficientemente válido para nos amenizar o espiríto e saborearmos o verdadeiro valor da vida. As minhas oscilações de humor estão para durar, já que nem sempre há uniformidade na minha reacção aos estímulos, pois uns são mais passiveis de me provocar reacções adversas do que outros. Mas, hoje, este momento a sós não cuida do meu espanto com a visão de mares argênteos, poentes fulgurantes com o céu salpicado de fogo, nem tão pouco de areias solarengas ou do estremecimento formidável que o calor do sol provoca em todo o meu corpo. Trata-se de usufruir da praia, no sentido mais espiritual da expressão, no momento em que todos os humanos já partiram e deixar-me ficar sentado à beira-mar, com os pés enterrados no areal e o olhar para além do zénite; e procurar, através de uma nova leitura das coisas mais simples, um maior enriquecimento, admitindo a inevitabilidade do cansaço próprio de um limitado urbano como eu, a quem foi adiada uma viagem sem regresso para a terra de nenhures: uma missiva que, afinal, não seguiu.

sábado, 28 de junho de 2008

Sobre o sofrimento cá dentro

"O Grito" - Munch
As pessoas que se automenosprezam e se degrinem a si mesmas, fazem-no frequentemente por se não sentirem capazes de viver à altura dos seus próprios ideais e por exigirem de si mesmos, em absoluto, nunca errar. Isso pode acontecer tanto no que concerne à vida profissional como ter incidência numa determinada relação pessoal. Em qualquer dos casos, a autodepreciação que poderá ocorrer após o malogro em conseguir um bom desempenho, ou mesmo em conseguir um desempenho excepcional, conduz frequentemente à depressão. Se desejarmos ou possuirmos uma forte preferência por alguma coisa - tal como conquistar a aprovação ou o amor daquela pessoa que escolhemos tomar como importante na nossa vida, única, insubstituível - não seria suposto inquietar-nos tanto com a possibilidade de tal nunca vir a acontecer e a atitude mais positiva a ter seria: "Tentei. Se falhei, falhei! Não é o fim do mundo". Importa, sim, descobrir onde escorregámos e, caso essa análise seja resulte frutuosa, quem sabe de uma próxima vez consigamos eliminar os erros que nos levaram ao fracasso. Mas, ai de nós! Porque somos demasiado humanos, é fácil ir para além de fortemente desejar atingir um desempenho à altura dos nossos ideiais e conquistar a aprovação das pessoas que são importantes para nós. Facilmente caimos na irredutibilidade: "Ou é aquele/a ou não é mais nenhum!" - mas o facto de desejar fortemente uma coisa, ou uma pessoa, não implica que tal nos seja concedido. Essa pode ser a nossa lei, a nossa convicção inabalável e irrevogável, o que não prova, de modo algum, que o universo pretenda submeter-se a ela. Pode-se viver razoavelmente feliz, apesar de todos os malogros e da perda do amor ou aprovação daqueles que gostariamos de ter impressionado, acreditando nas nossas capacidades e na existência de um outro mundo para além daquele que julgamos ser único, uma vez mais, fruto das nossas enfabulações e obsessões. Não sei ao certo donde me vêem hoje estas palavras, talvez devido ao adiantado da hora, mas certamente a propósito de alguém em especial - por quem nutro um enorme sentir - a que se junta a maturação de experiências pessoais por mim vividas; e também da constante observação de persistências comportamentais que raiam o redondo e o obssessivo. Uma vez mais, como não poderia deixar de ser, a explicação das coisas - no meu parco entendimento - é coisa simples. Seria quase como uma "Explicação dos Pássaros", parafraseando Lobo Antunes. A vida é um pavio curto que não cessa de diminuir de tamanho. A certa altura, seja por falta de estearina, por defeito do pavio, ou por outro motivo qualquer imprevisto, a vela apaga-se. A metáfora é useira e vezeira, mas a única que me ocorre. Viver até ao centenário é uma probabilidade estatisticamente remota, sendo mais provável que a morte nos ceife muito antes disso. Vamos tentar pensar na relatividade da vida, no milagre de, por ora, todos os dias podermos sentir o calor do sol e escutarmos o trinar dos pássaros na copa das árvores.

domingo, 22 de junho de 2008

Azulando-me cada vez mais...

(Azul, Azur, Blue, Bleu, Blau, Blu, Blauw...)
Como seria viver numa dimensão monocromática onde o azul fosse a única tonalidade admitida? Seria, talvez, habitar um mundo onde a ditadura de uma cor se impusesse sobre as demais tonalidades impedindo-as de existir. Será que as cores primárias poderiam arrogar-se desse direito, impedindo desse modo a mesclação e a formação de cores derivadas? Como seria um universo totalmente azul? - São tão estranhas as minhas interrogações quanto desajustadas e, admito, pouco interessantes, se consideradas sob um ponto de vista meramente objectivo. Sabe-se, no entanto, que há doenças neuro-oftalmológicas que provocam nas pessoas uma visão monocromática com carácter irreversível; e, inclusive, há animais (creio que são os leões...) que só vêem a preto e branco. Dizem alguns peritos, arvorados em Morfeus da Medicina, que todos sonhamos a preto e branco, mas eu, raios me partam se não é verdade, estou certo de que os meus sonhos - pelos menos os bons - são a cores! É estranho como o ar relativamente abafado desta noite de Verão, a primeira assim desde há muito tempo, no findar de um fim-de-semana recheado de aventuras multifacetadas, onde estiveram presentes desde os passeios de bicicleta, às caminhadas pelo campo, com passagem obrigatória pelo aéro-clube de Leiria, a piscina e a praia - fazem-me sentir que todos esses momentos se me ocultam, tal como se não tivessem existido. A mim acontece-me pensar que amanhã já terei de ser "a outra pessoa" - a mágoa desse imperativo - e está tudo combinado para me calar (por uns tempos) destes desrazoados que a ninguém importam. Isso dói-me, a falta do meu espaço dilecto. E neste espaço de tempo entre mim e a morte, sinto, tantas vezes, que tão mal gasto a minha longa despedida em coisas que nenhuma felicidade me trazem. Por isso espalho tantas palavras na fímbria do mar, em folhas brancas sem culpa, e quero imaginar que no meu mundo tudo é azul. Um mundo onde eu e tu fossemos apenas dois pássaros brancos, voando errantes sobre a espuma do oceano, rente às escarpas aguçadas que ditam o começo da terra. Seria, sem dúvida, um mundo belo; e o azul envolvente, no mar e no céu, bastaria para nos fazer felizes...