Desde criança, sempre tive uma enorme fascinío por bruxas. A imagem clássica da bruxa montada numa vassoura, trajada de negro, com um chapéu amarrotado em forma de cone enfiado na cabeça, feia como o breu da noite, desdentada, com o cabelo em desalinho, cheia de verrugas e emitindo um riso situado algures entre o maléfico e o escárnio, condiz com os mais precoces imaginários da minha infância. Lembro-me de que em todos os contos de fadas que li a antinomínia - o Bem contra o Mal - usava imenso da metáfora: a fada boa acaba sempre, no final, por vencer a bruxa má. No entanto, não era o apelo do mal que me cativava. Era antes um misto de medo e de curiosidade pela personagem e também uma certa atracção pela ideia contra-corrente de que neste tipo de histórias temos de gostar sempre mais da personagem lindinha e boazinha. Os lugares sombrios onde as bruxas moravam, repletos de morcegos e outros animais nocturnos; os pântanos a feder a enxofre; as florestas inexpugnáveis que quase sempre existiam em redor das suas casas, tudo isto aliado às imagens de filmes como "A Branca de Neve e os Sete Anões" ou "Hansell e Gretel - A Casinha de Chocolate", entre outros, ajudaram a formar em mim um fascinío por esses seres fantásticos.
No que respeita às bruxas, há bastantes ditos populares que ainda remontam aos tempos medievais. Estes, retirei-os de um livro de Michelet e achei curioso enumerá-los:
1º - A criança que chorar três vezes no ventre da mãe ficará fadada com poderes sobrenaturais e poderá ser adivinho, benzilhão ou bruxa.
2º - Quando se passa por alguém que se julgue com poderes de bruxaria, devem cruzar-se os dedos indicador e médio.
3º - Se chove e faz sol estão as bruxas a pentear-se.
4º - Depois da meia-noite é perigoso passar por um cruzamento: é lugar de encontro de bruxas e lobisomens.
5º Para fazer fugir uma bruxa cruzam-se os dedos de uma das mãos e diz-se: -Tu és ferro, eu sou aço, tu és o diabo e eu te embaço.
6º - Nas encruzilhadas, os cruzeiros e as cruzes afugentam os demónios, as bruxas e outras assombrações.
«Certos estudos Antropológicos defendem que a bruxa foi em tempos encarada como um ser sobrenatural, uma espécie de vampiro ou mais concretamente um «succubus» que à noite invadia o lar das pessoas, fosse na forma de um gato negro, ou de uma traça, ou de neblina, para ter relações sexuais com um ou mais dos humanos daquela casa, extraindo assim as forças vitais desses humanos para seu próprio alimento. A bruxa, enquanto ser espiritualmente infernal e vampiresco, muita das vezes poderia actuar para beber o sangue ou extrair o esperma das suas vitimas, ou noutros casos, apenas alimentar-se da sua energia vital, o que causava um estado de grande debilidade, falta de forças e fraqueza generalizada das suas vitimas. É desse tipo de lenda que nasceram diversas superstições que ainda hoje perduram, como superstições relativamente a gatos negros ou a traças. Julgava-se na Idade Media, que o gato negro era na verdade uma bruxa que tinha assumido a forma daquele animal, e julgava-se que ao aparecer a uma pessoa, a bruxa na forma de gato negro estava anunciando que essa pessoa havia sido embruxada. Dai que nos dias de hoje, se julgue que à má sorte ver ou cruzar com um gato negro. Com as traças passa-se o mesmo. Em muitos locais, ainda se diz que ver uma traça dentro de casa é sinonimo de bruxaria. Tal superstição advêm das crenças medievais, nas quais se dizia que a bruxa entrava nas casas das suas vitimas sob a forma dessa insecto, para depois atacar as pessoas dessa casa enquanto elas dormiam. Colocar uma vassoura ao contrário atrás de uma porta, ainda em certos locais é uma superstição que supostamente afasta pessoas indesejáveis de entrar naquela casa. Também essa superstição tem raízes na bruxa, pois acreditava-se que as bruxas tinham a capacidade de usar vassouras para se deslocarem até à casa da pessoa que iam atacar. Ao inverter uma vassoura junto da porta, estava-se no fundo querer influenciar o voo do ser nocturno, (a bruxa), invertendo-o a afastando o voo daquela residência. De qualquer das formas, na antiguidade o bruxo era tido não como apenas um mero ser humano, mas sim um ser humano possuído por um espírito demoníaco, o que conferia a essa pessoa poderes sobre - naturais. Uns acreditavam que a bruxa era invadida pelo demónio através de um pacto infernal, que era geralmente consumado através de união sexual entre a bruxa e o diabo. Segundo tais versões, as bruxas na Mitologia Cristã e segundo a visão dos manuais de Inquisição na Idade Media, eram conhecidas por manter relações sexuais com o demónio, e por essa via obterem os poderes do diabo para poderem praticar todo o tipo de acções sobrenaturais ou acções mágicas. As visões teológicas medievais que assim o ditavam, encaravam as bruxas como consortes do Diabo, muitas das vezes apelidando as bruxas de «prostitutas do Diabo», ou «amantes do Demónio...»
(In Trabalhos Esotéricos. Magia Branca. Magia Negra - Estudos de Jorge Reinard)
Seja como for, a heroína do meu imaginário de criança era a bruxa que passava voando, com os cabelos brancos em desalinho, frente a uma lua cheia, vestida de negro, montada numa vassoura, com sapatos de fivela e chapéu preto em forma de cone que, ainda petiz, muitas vezes, gostava de ter visto através da minha janela, um nadinha antes de dormir. Pena é que só as tenha vislumbrado nos meus sonhos nocturnos e, não raro, de manhãzinha acordava molhado.
Os galegos, mormente em Santiago de Compostela, onde passei férias há uns anos atrás, acreditam piamente em bruxas. A bruxinha, montada numa vassoura é, aliás, um dos ex-libris da região e pode ser comprada nas "tiendas de recuerdos", um pouco por toda a parte. A famosa frase: «Eu não creio em bruxas, mas lá que as há, há!», dita em galego ganha sempre outro sabor.