quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Uma concertação sem conserto ou um diálogo às avessas

- Gostas de ler?
- Que pergunta mais tola. Claro que gosto! Não me digas que também és daqueles que acha que ler enfraquece o cérebro?
- Não, não sou desses. Apenas perguntei por perguntar. Será que já não se podem fazer-te perguntas?
- É que por momentos julguei que pertencesses àquele género de pessoas que pensa que só os imbecis perdem tempo com a leitura.
- Pensas sempre coisas erradas acerca de mim.
- Pronto. Desculpa. Está bem. Concedo. Fui impulsivo e desadequado.
- Ok. Não vamos falar mais disso. Será que não conseguimos manter um diálogo sem cair na contenda?
- Não sei... Sabes, noutro dia li algures que cerca de 5,7 milhões de portugueses não entendem ou têm dificuldade em lidar com a informação escrita. Ou seja: entre nós existe uma maioria de pessoas que pouco mais consegue ler além das legendas na televisão. E um quinto da população percebe, mais ou menos, a literatura incluída nas caixas de remédios. A isso chama-se "analfabetismo funcional", iliteracia, e outros palavrões congéneres.
- Sim, mas a pergunta que te fiz foi meramente casual.
- Gosto imenso de ler e não imagino a minha vida sem livros. No entanto, cada vez mais me convenço que é o acumular das nossas vivências o que melhor nos prepara para a vida. Ou seja: sacrifico as leituras - a vida vista através dos olhos dos outros - em prol da minha experiência pessoal das coisas.
- Porque será que és sempre complicadinho nas respostas? Não és capaz, uma vez que seja, de ser conciso e simples?
- Olha, se não gostas das minhas respostas porque raio me interpelaste?!
- Acho que vamos discutir outra vez. Decididamente não nos entendemos!
- A educação deixou de ser um privilégio de classe, porque é um direito adquirido nas democracias dos países civilizados. Cada vez vejo menos desculpas para a ignorância. Há saberes acumulados em quantidade, como vemos nos concursos de televisão, mas é miníma a capacidade de conversar, de pensar sobre as coisas, de entender que o mundo tem múltiplas dimensões de verdade.
- Creio que és demasiado complicado. Acho que complicas as coisas de propósito, mas ainda não descobri qual é mesmo o teu propósito...
- Com essas tuas frases, arrisco-me a pensar que te falta formação e sensibilidade, coisas que a leitura dá e tu, pelos vistos, não tens.
- És insuportável e mal-educado. Não falo contigo nem mais um minuto! Odeio-te!
- .............

Quando o espiríto do Natal invade a gramática da língua portuguesa

(Fonte: internet - extraído de um teste de língua portuguesa)

Dos diálogos e do silêncio

- Estás aí?
- Estou, claro!
- Apetece-te falar ou nem por isso?
- Se é para me vires de novo com as prosápias habituais, mais vale ficares calado.
- Bem. Já vi que começamos mal.
- Eu não comecei coisa nenhuma, aliás, não fui eu quem quebrou o silêncio.
- Silêncio, silêncio... às vezes o silêncio é mais ruidoso e pernicioso do que as palavras. O teu silêncio.
- Tens alguma coisa contra o silêncio?
- Não, claro que não. Apenas acho que o silêncio é uma forma de (não) comunicação que, por vezes, diz mais do que quaisquer palavras.
- Achas que esta conversa nos leva a algum lado? Afinal o que queres tu de mim?
- Não quero nada. Aliás, nunca desejei nada de alguém que o próprio, de livre vontade, não se dispusesse oferecer-me.
- Então presumo que apenas queres falar nem que seja sobre nada, trocar vocábulos, encher o ar de caracteres gráficos, mesmo que não tenham qualquer significado.
- Sim, talvez. E daí? A comunicação tem de ter necessariamente um rumo e um conteúdo precisos? Nunca te ocorreu que apenas carecesse de ouvir a tua voz, de te sentir, ainda que fosse tão só isso?
- Não. Não conhecia essa tua necessidade.
- Conheces-me mal. Acho que nunca terás oportunidade de saber quem eu sou.
- Sabes?...
- Sim?..
- Acho que te entendo melhor do que aquilo que julgas mas... queres que seja franco? Habituei-me a lidar em monólogo com as minhas dúvidas existenciais. A partilha de interioridades, quase sempre, têm sido para mim fonte de perenes desilusões. Aprende-se muito através da auto-análise, sabias?
- Sim, sei disso.
- A sociabilidade, mais ou menos intensa, é uma necessidade que cada qual deve de si mesmo aferir. O meu lema sempre foi: amigos, poucos e bons. Nunca me dei bem com grupos, heterogeneidades, multidões opinativas. Nesses momentos, prefiro o silêncio do que a contradita. Sofro de agorafobia social. Detesto os grandes espaços e sei que a minha génese é imutável e não há nada em mim que possa ou deseje mudar.
- Mas eu gosto de ti como tu és. Aceito-te. Amo-te, com os teus defeitos e virtudes. Só não queria que o hiato se instalasse entre nós com carácter de eternidade.
- .............
- Estás aí?
- ............
- Já foste e nem sequer te despediste?!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Natalidades incomuns

Nesta época é comum escrever-se algo sobre o Natal, já que é sem dúvida a festividade mais importante do ano e, por excelência, a festa da família. O meu Natal de 2007 vai ser festejado bastante longe daqui, numa cidade tropical, perto de pessoas que me querem bem e me proporcionam felicidade, e estou certo de que vai ser uma experiência inolvidável. Este ano é a segunda vez que torno ao Brasil e não me canso de o repetir, talvez pelo efeito terapêutico/apaziguador que tal provoca em mim. Desde o ano transacto que fiz uma jura a mim mesmo: nunca mais passaria um Natal longe das pessoas com quem seria suposto estar ou, pior, ansiando estar com quem, por motivos injustificáveis, não estaria disponível para me partilhar em tão importante momento. Às vezes há males que vêm por bem e mensagens de lucidez derramam-se sobre nós, sem que as tivéssemos sequer encomendado, reposicionando-nos nos trilhos mais certos da (nossa) vida, ajudando-nos a ver as coisas por outros prismas. Refiro-me a factos que cegueiras momentâneas, originadas pela recusa subconsciente da negação da realidade, nos impedem de parar e tentar ver as coisas tal qual elas são.
O Natal é a festa da família, mas para além da família parental - para quem com ela mantém laços de normalidade e afecto, como é de esperar - por vezes também se geram ligações afectivas com pessoas que não partilham do nosso sangue nem da nossa genética. No campo dos afectos, os laços de consanguinidade não têm necessariamente de "falar mais alto" e é possível amar-se mais a presença de pessoas com quem não comungamos empatias biológicas, do que o que seria normal esperar. Este é certamente o meu caso e não faço muita questão de o esconder ou negar.
Não enjeito a nostalgia dos refogados da minha mãe, a carne estufada no forno, os doces, as azevias, as criadas vestidas a preceito a servir-nos, a família toda reunida à volta de uma mesa enormíssima escutando músicas de Natal; a mãe a industriar as empregadas acerca de como melhor fazer os apuros, os molhos e os temperos certos a acrescentar às iguarias; os bolos e as tortas que, quinze dias antes da grande festa, já começavam a congestionar as prateleiras da despensa; a árvore enorme que cortávamos na Mata dos Medos, lá para os lados da Costa da Caparica, à revelia dos guardas florestais, e colocávamos na mala do carro. [Nos anos sessenta era comum ir-se à mata munido de uma machada bem afiadinha, cortar o dito pinheirinho e enfiá-lo na mala do carro. Era giro ver o enorme desfile de automóveis que circulavam com o habitual pinheiro a sair da bagageira. Não é como nos tempos de hoje (ecológicos) em que se compram pinheiros de plástico no AKI ou no LIDL para depois se besuntarem de luzes psicadélicas, bolas psico e neve de afeitar a barba. Até o musgo para o presépio era apanhado no campo, juntamente com terra fresca, pinhas minúsculas e maiúsculas, tudo para os enfeites.]
O Natal, lá em casa, era uma festa que começava com um mês de antecedência e prolongava-se para lá do Dia de Reis. Digo, sem medo de errar, que esses foram os tempos mais felizes da minha vida. Relembro com saudade a minha gatinha branca, a Fô, que - coitada morreu tragicamente fechada no interior de uma máquina de lavar, depois de se ter refugiado lá dentro para dormir a sesta - entrava no salão e subia pelo pinheiro de natal a uma velocidade estonteante, deitando as fitas multicolores todas ao chão. Além do mais, adorava fazer as necessidades na terra do presépio, mesmo frente à cabana onde pontificavam José, Maria e Jesus, este último, nuzinho como veio ao mundo, deitado nas palhinhas, com o burrinho e a vaca a contribuirem com o bafo para o aquecerem. Para além do sacrílego de tudo isso, o comportamento da Fô acabava por fazer despoletar a risada geral. Mas tudo tem um tempo e um modo e o pretérito não volta mais. A vida é construída de momentos fugazes que não se repetem e cabe-nos a nós procurar a felicidade noutros lugares, caso ela já não more perto de nós, porque ela efectivamente existe e apenas espera que tenhamos a coragem necessária de lhe chegar e agarrá-la firmemente com ambas as mãos.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Fora da auto-estrada - a caminho da casa que será o meu mundo

Este trajecto useiro e vezeiro que dura há mais de um ano e meio já me enfada e cada vez mais sinto que andar nas estradas é tão perigoso quanto fazer uma viagem a um país em guerra. É isso mesmo. Há uma guerra civil nas estradas portuguesas e, pelos vistos, ainda ninguém notou?! Trata-se de um conflito patricída que opõe gentios contra gentios, onde a fúria do acelerador, a vertigem da velocidade, a sensação bestial de se estar na posse de um automóvel dotado de incorporações tecnológicas capazes de nos transformar em deuses alados, indestrutíveis, aptos a planar sobre os acidentes, incrementa-se nas mentes de muitos. Há tanto tempo que viajo pela A1, e são tantas as vezes, que já nem meço as estações do ano, como se o tempo fosse um rio e as distâncias nunca tivessem sido mar, na minha vida. Hoje, com mais tempo, vim pela estrada nacional, ainda que demorando o dobro do habitual. Passei por algumas terras com nomes, uns a raiar o infâme, outros o bizarro: "Sacavém"; "Arruda dos Vinhos"; "Venda de Raparigas"; "Vale de Judeus"; "Ota"; "Benedita"... Topónimos tão antigos que cada um deles daria um livro grosso de explicações, pleno de ramificações para outros assuntos. Hoje decidi fugir da A1 e corri atrás das aves, pelos bosques, atrás dos pachorrentos tractores agrícolas, cuja silhueta é sempre a de um homem com boné, em traje de trabalho, sentado entre duas rodas gigantes. Viajei em velocidade de recato, observando as vinhas imensas, tornando-se cárneas sob o sol frio do Outono, já com cara de Inverno. Atravessei aldeias, vilas, cidades, vi gentes a trabalhar nos campos, a montar a cavalo; prostitutas à beira da estrada, armadas de vestes reduzidas e sentadas em banquetas para suportar as longas esperas; vi senhoras carregadas de luto de braço dado com alguém; parei para comprar cerejas, a primeira vez este ano; ultrapassei homens anosos, aprestados com o famosissímo "penico" branco pérola, com uma listinha GTX nos bordos, enfiado no cimo da cabeça, dirigindo motorizadas ruídosas, a maioria com mais de 30 anos, as celebérrimas "Famel Zundapp", "Sachs V5" e várias "Casais", que desconhecia que ainda se atrevessem a rolar; passei por caravanas de ciganos, já perto de Porto de Mós; atravessei o Parque Eólico e, apesar da imensidão de moinhos, àquela hora aproveitando a força do vento, nem por isso me senti com energias para me arvorar em D. Quixote de La Mancha e os enfrentar de lanceta em punho. Passadas muitas horas, por fim, lá avistei o castelo altaneiro que serve de matriz à minha cidade e a visão desse naco de civilização, dessa graciosa dádiva, como se fora um oásis no meio da ruralidade imensa do postal que eu houvera atravessado, fez-me sentir, de um modo quase imperceptível, beijado nas faces. Era um beijo de uma outra civilização, nem melhor, nem pior, talvez só mais parecida com a minha, o beijo que eu queria sentir.
Quando em Janeiro trocar definitivamente o Sul pelo Centro, vou sentir saudades das poucas fragatas à vela que ainda se vêem à solta no Tejo, dos dias luminosos que parecem criar uma auréola especial sobre Lisboa, do azul puro e por vezes violento que na Primavera e no Verão tingem o céu da grande cidade e sobretudo das deambulações que me levavam sem destino pelas ruas. Olho para o calendário à minha frente, neste dever de me situar no tempo da escrita, no cuidado de saber de que terra sou e que mundo me é dado, e tomo consciência que não acompanho Tagore quando ele afirmava: "A minha casa é o mundo". Estamos à beira de Dezembro e as minhas decisões foram tomadas. A minha casa não é o mundo, mas sim o lugar onde eu me sinto referenciado, com os meus livros, as minhas colecções de moedas, os meus quadros, os meus escritos, as minhas fotografias - o meu mundo de recordações e de afectos. Aí, sim, nessa casa haverá um mundo, mas um mundo só meu ou feito justamente à minha medida.
[A escrita tem um poder enorme. Ela é a prova viva de que nem sempre a morte derrota a vida, de que continua certo e infalível o ritmo de todas as coisas, que houveram pessoas que um dia pensaram algo e se expressaram. E as réstias dessa expressão poderão perdurar muito para além da pessoa fisíca que as escreveu. Tudo isto me consola e anima.]
Boa noite.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Eu creio em bruxas!

Desde criança, sempre tive uma enorme fascinío por bruxas. A imagem clássica da bruxa montada numa vassoura, trajada de negro, com um chapéu amarrotado em forma de cone enfiado na cabeça, feia como o breu da noite, desdentada, com o cabelo em desalinho, cheia de verrugas e emitindo um riso situado algures entre o maléfico e o escárnio, condiz com os mais precoces imaginários da minha infância. Lembro-me de que em todos os contos de fadas que li a antinomínia - o Bem contra o Mal - usava imenso da metáfora: a fada boa acaba sempre, no final, por vencer a bruxa má. No entanto, não era o apelo do mal que me cativava. Era antes um misto de medo e de curiosidade pela personagem e também uma certa atracção pela ideia contra-corrente de que neste tipo de histórias temos de gostar sempre mais da personagem lindinha e boazinha. Os lugares sombrios onde as bruxas moravam, repletos de morcegos e outros animais nocturnos; os pântanos a feder a enxofre; as florestas inexpugnáveis que quase sempre existiam em redor das suas casas, tudo isto aliado às imagens de filmes como "A Branca de Neve e os Sete Anões" ou "Hansell e Gretel - A Casinha de Chocolate", entre outros, ajudaram a formar em mim um fascinío por esses seres fantásticos.
No que respeita às bruxas, há bastantes ditos populares que ainda remontam aos tempos medievais. Estes, retirei-os de um livro de Michelet e achei curioso enumerá-los:
1º - A criança que chorar três vezes no ventre da mãe ficará fadada com poderes sobrenaturais e poderá ser adivinho, benzilhão ou bruxa. 2º - Quando se passa por alguém que se julgue com poderes de bruxaria, devem cruzar-se os dedos indicador e médio. 3º - Se chove e faz sol estão as bruxas a pentear-se. 4º - Depois da meia-noite é perigoso passar por um cruzamento: é lugar de encontro de bruxas e lobisomens. 5º Para fazer fugir uma bruxa cruzam-se os dedos de uma das mãos e diz-se: -Tu és ferro, eu sou aço, tu és o diabo e eu te embaço. 6º - Nas encruzilhadas, os cruzeiros e as cruzes afugentam os demónios, as bruxas e outras assombrações.
«Certos estudos Antropológicos defendem que a bruxa foi em tempos encarada como um ser sobrenatural, uma espécie de vampiro ou mais concretamente um «succubus» que à noite invadia o lar das pessoas, fosse na forma de um gato negro, ou de uma traça, ou de neblina, para ter relações sexuais com um ou mais dos humanos daquela casa, extraindo assim as forças vitais desses humanos para seu próprio alimento. A bruxa, enquanto ser espiritualmente infernal e vampiresco, muita das vezes poderia actuar para beber o sangue ou extrair o esperma das suas vitimas, ou noutros casos, apenas alimentar-se da sua energia vital, o que causava um estado de grande debilidade, falta de forças e fraqueza generalizada das suas vitimas. É desse tipo de lenda que nasceram diversas superstições que ainda hoje perduram, como superstições relativamente a gatos negros ou a traças. Julgava-se na Idade Media, que o gato negro era na verdade uma bruxa que tinha assumido a forma daquele animal, e julgava-se que ao aparecer a uma pessoa, a bruxa na forma de gato negro estava anunciando que essa pessoa havia sido embruxada. Dai que nos dias de hoje, se julgue que à má sorte ver ou cruzar com um gato negro. Com as traças passa-se o mesmo. Em muitos locais, ainda se diz que ver uma traça dentro de casa é sinonimo de bruxaria. Tal superstição advêm das crenças medievais, nas quais se dizia que a bruxa entrava nas casas das suas vitimas sob a forma dessa insecto, para depois atacar as pessoas dessa casa enquanto elas dormiam. Colocar uma vassoura ao contrário atrás de uma porta, ainda em certos locais é uma superstição que supostamente afasta pessoas indesejáveis de entrar naquela casa. Também essa superstição tem raízes na bruxa, pois acreditava-se que as bruxas tinham a capacidade de usar vassouras para se deslocarem até à casa da pessoa que iam atacar. Ao inverter uma vassoura junto da porta, estava-se no fundo querer influenciar o voo do ser nocturno, (a bruxa), invertendo-o a afastando o voo daquela residência. De qualquer das formas, na antiguidade o bruxo era tido não como apenas um mero ser humano, mas sim um ser humano possuído por um espírito demoníaco, o que conferia a essa pessoa poderes sobre - naturais. Uns acreditavam que a bruxa era invadida pelo demónio através de um pacto infernal, que era geralmente consumado através de união sexual entre a bruxa e o diabo. Segundo tais versões, as bruxas na Mitologia Cristã e segundo a visão dos manuais de Inquisição na Idade Media, eram conhecidas por manter relações sexuais com o demónio, e por essa via obterem os poderes do diabo para poderem praticar todo o tipo de acções sobrenaturais ou acções mágicas. As visões teológicas medievais que assim o ditavam, encaravam as bruxas como consortes do Diabo, muitas das vezes apelidando as bruxas de «prostitutas do Diabo», ou «amantes do Demónio...»
(In Trabalhos Esotéricos. Magia Branca. Magia Negra - Estudos de Jorge Reinard)
Seja como for, a heroína do meu imaginário de criança era a bruxa que passava voando, com os cabelos brancos em desalinho, frente a uma lua cheia, vestida de negro, montada numa vassoura, com sapatos de fivela e chapéu preto em forma de cone que, ainda petiz, muitas vezes, gostava de ter visto através da minha janela, um nadinha antes de dormir. Pena é que só as tenha vislumbrado nos meus sonhos nocturnos e, não raro, de manhãzinha acordava molhado.
Os galegos, mormente em Santiago de Compostela, onde passei férias há uns anos atrás, acreditam piamente em bruxas. A bruxinha, montada numa vassoura é, aliás, um dos ex-libris da região e pode ser comprada nas "tiendas de recuerdos", um pouco por toda a parte. A famosa frase: «Eu não creio em bruxas, mas lá que as há, há!», dita em galego ganha sempre outro sabor.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Aconteceu em Leiria

Ontem de manhã, cerca das 08.30 minutos, estando eu a tomar o pequeno-almoço no sítio do costume, escutei pela primeira vez a triste notícia que corria já célere por toda a cidade: uma jovem com apenas trinta e seis anos de idade, ao que parece, auxiliar de acção educativa num infantário, havia sido encontrada morta no leito do Liz, junto a uma das inúmeras pontes que unem as margens do rio, ao longo do curso fluvial que percorre a zona verde da cidade. Efectivamente, quando passados instantes passei pelo fatidíco lugar, que dista não mais de trezentos metros do meu local de trabalho, deparei-me com um enorme aparato policial. Uma ambulância do INEM, dois carros do Corpo de Bombeiros e vários veículos da polícia, encontravam-se já dentro de um perímetro de segurança, montado em redor do lugar para assegurarem a não perturbação da populaça, que entretanto começava a amontoar-se. Leiria, apesar de ser capital de distrito, com pólos de desenvolvimento industrial com algum relevo, uma cidade em constante crescimento, não está habituada a estes desassossegos, infelizmente tão comuns nas nossas maiores urbes e nas cidades que lhes servem de satélites. Muita gente conhecia a infeliz que foi encontrada sem vida. Por aqui toda a gente se conhece. Só depois da autópsia se poderão apurar as causas da morte, mas o linguarejar do povo, ávido por uma boa novela camiliana - que já cá fazia falta! - tratou de inventar um motivo e uma história com detalhes sórdidos. Fala-se de um crime passional ou de um suicídio por motivos passionais - nos livros policiais de cunho manhoso, o "culpado residente", à falta de melhor imaginação, é, regra geral, o mordomo. Por estas bandas já se formou uma história consistente, com detalhes, considerações e conclusões. O namorado da infeliz abandonou-a e ela, não suportando o desgosto, pôs termo à vida. Sempre que me deparo com suicídios de gente sem idade para morrer, vem-me à memória o exemplo de Camilo Castelo Branco, que teve igual final trágico, mas opcional. Pôs termo à vida com um tiro de revólver por não suportar a cegueira inevitável, fruto da sua vida devassa de vénereo inveterado. Para se compreender o porquê do suicídio da jovem leiriense, é igualmente necessário conhecer a história da sua vida e quem sabe se, de tão conturbada, não lhe terá feito pensar que essa era a única saída? Em 1887, numa carta escrita a Francisco Martins Sarmento, o insigne escritor dizia: «Eu bem queria poupar-me ao suicídio, mas desde os 18 anos que pressenti a necessidade dessa evasiva, sem me lembrar que a cegueira seria o impulsor justificadíssimo da catástrofe...» - Tal era o prenúncio da sua morte. A jovem auxiliar de acção educativa, que não imagino quem fosse - apenas se diz que era mãe de uma criança - tanto quanto se sabe, não deixou qualquer missiva e assim partiu sem apelos nem despedidas. Lamento todas as mortes e, por maioria de razão, aquelas que acontecem quando os próprios põem termo à sua própria existência. A vida, independentemente de quaisquer apreciações de cunho religioso, é o bem mais precioso de que dispomos. Será que não haverá sempre uma opção, uma alternativa, ao invés de abreviarmos o nosso tempo de viver? Creio que sim e, com franqueza, por mais fortes que se apresentem as razões, não concebo tal atitude.

Liz, agora que também és meu

(Liz - reflexos - Leiria, Outono de 2007)
Lá em baixo canta o Liz,
[que agora também é meu]
argênteo de tantos luares,
repleto das folhas cárneas
que choram dos plátanos,
nesta noite tão pouca
que fere a minha mente,
com sopros de sentires agrestes,
como um vento furioso que morde
pálidas sombras que esmaecem

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Pen Friends - all over the world

Houve um período da minha vida, andaria eu pelos meus catorze ou quinze anos, em que escrevia muitas cartas. Eram sobretudo cartas escritas em língua inglesa, feitas de frases simples e standartizadas. Há muitos anos atrás, muito antes da internet ser inventada, ou sequer sonhada, existia uma organização internacional chamada "Pen friends" que oferecia aos seus aderentes a possibilidade de se corresponderem com pessoas de todo o mundo. Creio que ainda hoje, algures lá em casa, numa caixa de sapatos, dentro de uma gaveta, terei guardada a maioria da correspondência que à época troquei com jovens de todos os cantos do mundo. Satisfaziamos as mesmas curiosidades que hoje os novos meios de comunicação nos possibilitam, com a diferença que na altura ansiávamos pela chegada do correio que trazia as almejadas cartas, em envelopes "air mail", vindas dos lugares mais díspares do planeta. Recordo que, para além de ter mantido correspondência com Pen Friends da Europa, também me correspondi com gente do Brasil, da Coreia do Sul, do Japão e do Chile. Trocávamos postais, fotos e, por vezes, juras de amor - soube de casos esporádicos de jovens que chegaram inclusive a conhecer-se presencialmente - tudo dentro do enquadramento caracteristíco do florescimento da adolescência. Nunca conheci em carne e osso nenhuma dessas pessoas, apesar das "juras" que por vezes se faziam e dos "apaixonamentos" long distance. A Internet com as suas salas de chat, os blogues e todas as novíssimas formas de comunicação de que actualmente dispomos, plantará um esgar de sorriso na face dos mais novos - se porventura lerem este texto -, gente que não viveu estas realidades dos anos setenta do século passado. Mas uma coisa é certa: não há nada nos dias de hoje, por maior sofisticação que possua, capaz de substituir a alegria de abrir a caixa do correio e vislumbrar uma carta vinda do outro lado do mundo. Uma carta especialmente endereçada a nós.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Apartamento novo - um gozo tardio mas merecido

Já não é fácil operar grandes transformações num ser acomodado como eu, nem corrigir rotinas viciadas, a não ser que se trate de uma mudança que se traduza num maior conforto e num ganho acrescido de espaço fisíco - o senão de muito em breve ir morar para um apartamento novo, bastante maior do que o meu, num bairro "chique", totalmente diverso do cantinho onde há bastantes anos estava habituado a viver. Brevemente trocarei em definitivo a minha cidade por outra, aquela que hoje me acolhe e me segura o emprego. O Outono hoje chegou com cara de Inverno e as folhas das árvores já o sentiram. Andam pelo ar em tons de castanho queimado, amarelas, cárneas, voando agrestes e revolvidas pelo vento, apossando-se de ruas e passeios e dos próprios jardins. Uma chuva gelada, tocada a vento, enregelou-me os ossos e fez-me pingar o nariz, o que não me impediu de ter ficado por alguns instantes na rua da minha futura casa, observando o espaço circundante, explorando os cafés das redondezas, as lojas, os supermercados, o clube de vídeo, as livrarias e a padaria do pão quente. Gosto do lugar. Fica numa praceta em forma de U, com um enorme Parque Infantil no meio e, dispostos em volta, bancos de jardim para os avós e os pais se sentarem a ler o jornal enquanto vigiam a pequenada. Tem espaço mais do que sobrante para os meus livros, as minhas tralhas antigas, os meus quadros e, ainda que lá não coubessem, possui uma arrecadação enorme no sótão, com varanda, janela Velux e tomadas de corrente eléctrica. No piso inferior, possui uma garagem em box onde cabe o meu Corsa e eventuais primos que o venham visitar. Tem um salão com uma lareira central de dimensões tão grandes que receio ir contribuir para o incremento de um eventual desbaste no Pinhal de Leiria, isto só para aquecer o espaço. Enfim, trata-se de um apartamento T-3 com dimensões generosas, equipado com toda a parafrenália moderna que é suposto fazer felizes os que os habitam. O que mais me cativou foi a área dos aposentos, a centralidade da lareira, num salão de dimensões enormes, e também o facto de possuir uma casa-de-banho privada na suite de casal - para além do aquecimento central a gás, com aquecedores de toalhas nas casas-de-banho, extensivo a todos os aposentos. Consigo imaginar os serões deliciosos de preguiça e lazer que por lá irei passar e confesso-me vaidosinho por isso! Anseio que ambas as escrituras, tanto a da venda da minha casa, como a da compra da nova, não demorem, pois quando voltar do Brasil, ou antes, se possível for, gostava de já estar a morar no meu paláciozinho. O tempo das pessoas e dos seus gestos e decisões, não é, felizmente, uma métrica uniforme. Nunca compraria uma casa com a qual não sentisse uma empatia imediata assim que nela entrasse. Por este apartamento senti um amor à primeira vista e isso pesou na decisão. De aqui em diante os meus fins-de-semana só vão conhecer como tarefas principais, encontrar caixas de cartão e jornais, embrulhar, embalar e empacotar. Já tenho, aliás, garantida a colaboração preciosa de alguém que me é muito querido. Por último, empacotar-me-ei a mim mesmo e partirei para Terras de Vera Cruz por dezoito dias, tentando trocar as voltas a um Inverno manhoso que - pensava ele, coitado! - me ia esfriar por cá o tempo todo, mas engana-se redondamente.

Gaivota

Adoro a voz de Carlos do Carmo cantando este poema de Alexandre O'Neill, uma elegia à cidade de Lisboa, a capital solarenga do sul, a urbe que eu amo: a minha eterna Lisboa, banhada pela luz cristalina do sol. Trovador61, aliás, Madrigal

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Deambulações - I Acto

Na rua estava um frio glaciar. Ainda agora passei junto ao decadente Café Colonial, na Rua da Arquivo e, contra tudo o que é costume, entrei. Trata-se de um pequeno café de bairro, velho ícone da cidade, uma reminiscência dos idos anos cinquenta, frequentado por clientes useiros, sobretudo homens. Verifiquei que quase todos tinham os olhos pregados no televisor para assistir a uma partida de futebol e a vozearia era tão grande que mal conseguia fazer-me ouvir junto da empregada do balcão. Um fumo pesado e plúmbeo empestava o ar. De súbito um das equipas em campo marcou golo. O clima do estádio transbordou do televisor e veio derramar-se sobre as mesas, obrigando os presentes ao automático gesto de se porem de pé. Então, ecos das explosões de alegria soltaram-se no espaço esteticamente incaracteristíco, embora quente, do pequeno café. Um homem de semblante rude e barba de vários dias transpirava de entusiasmo e também dos "finos", certificados pela meia dúzia de copos vazios sobre a mesa, pequena e redonda, como todas as mesas de café, que repartia com dois amigos. Puxou do isqueiro para acender mais um cigarro, já de descompressão, e abriu-se aos companheiros de tertúlia, encomendando uma rodada final para festejar a goleada recente. Fiz um esforço para não inalar o ar rarefeito e cianidríco, paguei a embalagem de "Trident Fruit" e sai. Cá fora o mesmo frio insuportável parecia querer entranhar-se-me nos ossos. Antes de me dirigir ao Mercado de Sant'Ana para jantar detive-me numa igreja. Lá dentro as luzes bruxuleantes das velas desenhavam sombras grotescas nas altas paredes e um intenso cheiro a incenso impregnava o ar. Apesar de me considerar agnóstico, se devo admitir algum rótulo para etiquetar a espiritualidade que a minha mente concebe, nunca perdi hábito de entrar em igrejas. Tudo tem vindo a mudar na minha vida e o profano conquista espaços que, há muito tempo, a educação religiosa ocupou, mais por imposição familiar e enquadramento social do que pelo rigor do convencimento realmente assumido. No entanto, sinto que ainda conservo a matriz íntima da minha formação católica, isso não se perde facilmente e, quando entro em templos, faço-o à procura do silêncio e do repouso da sensibilidade que me proporcionam a riqueza das talhas douradas, das madeiras ancestrais, dos cheiros a mofo e a incenso, do misticismo do lugar. Nunca fui alguém com profundos conhecimentos sobre História da Arte, nem me considero apto a falar de quaisquer tipos de arte em geral, no entanto admiro a talha barroca, sobretudo os trabalhos em folha de ouro, a cor e os reflexos de nobreza do metal, mesmo envelhecido e deteriorado pelo tempo. Confesso, amo este meu hábito, deveras estranho e "ecuménico", de conseguir entrar em antros de fumo e vicío, frequentados por seres muito próximos da bestialidade para de seguida, se preciso fôr, refugiar-me, ainda que por instantes, nos sagrados silêncios de um templo católico seiscentista. Finalmente jantei. Uma refeição tudo menos ligeira para o adiantado da hora: sopa de nabiças seguida de uma omelete gigante recheada de camarões. Com o estômago tão cheio, receio que tão cedo não consiga deitar-me. Tenho vontade que Morfeu me visite e me beije ambas as faces sem deixar marcas. Esta noite quero ter sonhos de ouro, como há muito não tenho, fortes e capazes de escorraçar os fantasmas das preocupações da vida e de enfunar as velas da memória das coisas mais belas com que se possa sonhar. Cada vez mais me convenço de que tudo acontece dentro da nossa cabeça e o segredo está no correcto manejo dos "botões". Talvez eu, há muito, ande carecido de uma "afinação" por testemunhar em demasia diálogos de silêncios - monólogos?! - confidente de mim próprio no registo de factos a que, no geral, os outros não dão demasiada importância. Já não me importa, sequer, resignar-me à sorte que, ao que parece, cisma em me quer traçar um destino porventura cruel. Sei que quando essa altura chegar partirei sem gritos e penso que até condescendente. Tenha eu ainda tempo para poder olhar os sitíos, interpretar a dimensão da luz, sentir o amor e ensaiar as poéticas possíveis para o fluir expontâneo dos meus pensamentos.

Enigma

Imagine esta situação. Estás a pilotar um carro e manténs uma velocidade constante. Do teu lado esquerdo encontra-se um cisne enorme. Do lado direito um grande carro de bombeiros, que mantém uma velocidade idêntica à tua. À tua frente galopa um cavalo, que é bem mais alto do que o teu carro, e não consegues ultrapassá-lo. Atrás de ti vem um helicóptero rente ao chão. Tanto o cavalo como o helicóptero mantêm uma velocidade idêntica à tua. O que fazes para sair desta situação em segurança? Pensa um pouco. A resposta está mais abaixo.******************
Resposta: Sai do carrossel e deixa de beber, que o álcool está a dar cabo de ti!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Sulcos do pensamento à deriva na cidade

Sempre que passeio pela zona histórica da cidade, em geral ao final da tarde, perto do anoitecer, reparo num conjunto de edifícios antigos, uma arquitectura caracteristíca dos finais do séc. XIX, e é quase impossível não mostrar sensibilidade para o seu silencioso chamamento, um quase apelo de alma. Demoro sempre o olhar nas portadas altas e magras das casas, feitas da geométrica repetição de molduras de granito coçado pelo fiar do tempo, onde estou certo terem habitado felizes e atribuladas vidas. Mas é o seu ar abandonado e escandalosamente decadente a que a incúria de alguém não identificado, somado à indiferença corrosiva de quase todos, os condenou, que me motiva a atenção. Alguns dos edifícios ameaçam mesmo ruína, embora o programa Polis, que trouxe à cidade importantes obras de reabilitação urbana, tenha salvo muitas fachadas centenárias da total destruição. A cidade que me alberga durante a semana, tem um casco medieval, barroco e oitocentista notável, que precisa ser mais divulgado para atrair ainda mais gente a visitá-la e a conhecer melhor o seu conteúdo cultural e humano, com a consequente geração de riqueza financeira, indispensável ao emprego a à melhoria das condições de vida dos seus moradores. Não têm conta os momentos que me sento no Rossio e deixo a minha vista aventurar-se pelos horizontes amplos, vencendo os telhados do velho casario, pontuados por clarabóias em tons de verdete, tudo denotando o cansaço dos anos. Às vezes, quando o sol do Outono se assoma timído, junto à álea do jardim principal, consigo escutar a musicalidade da vida a acontecer nas ruas da parte baixa da cidade e imagino-me um daqueles pombos cinéreos que esvoaçam por cima do casario imenso. Nesses instantes, desenham-se na minha mente traços de algum devaneio, invisíveis na geometria mas nitídos no belo dos seus recortes e, confesso, nem sempre em tais momentos me apetecia estar só.

Um destes dias...

O Inverno está a chegar. A minha casa brevemente ficará vazia. Está frio. Os aposentos nus perderão o ar cumplice de antes. Vazios parecerão maiores, preparados para acolher nova gente que os venha a habitar. É preciso fazer alguma coisa para não sucumbir à emoção da visão de um espaço oco. Um destes dias terei de me resignar. Começarei a recolher e a empacotar todos os meus pertences e pressinto que nesse momento o lar que abandono perderá a sua alma. Haverá montes de coisas empilhadas aqui e ali. Será preciso deitar fora muita coisa, meter objectos em caixas, prepará-los para uma mudança de casa. A sala, sem os livros, os quadros e os diplomas a engalanar as paredes, parecerá um corpo esventrado. Mas será mesmo preciso esvaziá-la e prepará-la para acolher novas existências. Pressinto que serão indeléveis as imagens do desaparecimento da minha casa e o fim e a aniquilação de um universo íntimo. O Inverno está a chegar. E a casa em breve ficará vazia. As recordações, as boas e as más, terão de continuar vivas algures na minha mente, ainda que para sempre orfãs da referência do lugar.

As simple as that

Há coisas que vale definitivamente sempre a pena fazer e nunca delas desistir, ainda que para tal nos tenhamos de socorrer da ajuda inusitada de alguns dos nossos semelhantes. Ofertar uma flor, um carinho, dar mostras de afecto e amor por alguém que nos seja querido é, sem dúvida, um desses imperativos. As formas que escolhemos para mostrar o afecto é que por vezes não são as melhores, talvez por serem demasiado enigmáticas, malabaristas, dúbias, ou eivadas de defesas, receosos que estamos por nos deparararmos com a probabilidade da rejeição. Na natureza, ao contrário do que se passa nas relações humanas, a simplicidade sempre impera.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Tempos difíceis

Os últimos tempos não têm sido pródigos em boas noticías para os cerca de setecentos mil funcionários públicos e respectivas familias. O governo socrático/autocrático, formado pela equipa ministerial mais autista e menos sensível, no que concerne aos direitos adquiridos e anseios legitímos dos trabalhadores, de que há memória desde a Revolução de Abril, numa sanha imparável de ataque cerrado aos mesmos que, em completo ludibriamento, os elegeram, prepara-se para: despedir, punir, desclassificar, abolir direitos adquiridos, dispensar, humilhar e deportar um número desconhecido de funcionários do Estado. Tudo isto será feito em nome da "modernidade administrativa", do Simplex e segundo critérios que valoram mais o cariz punitivo do que propriamente a boa gestão administrativa. As primeiras vitímas, como sempre, serão os mais fracos, aqueles que não têm hipótese de se defenderem e que, porventura, face ao seu estado de debilidade mais careceriam de protecção. Refiro-me, naturalmente, aos professores com baixas prolongadas - muitos deles com estados depressivos profundos originados pelo stress da profissão (eu já leccionei e sei do que falo!); aos portadores de doenças oncológicas ou crónicas que os obrigam a faltar; aos "menos empenhados" - um conceito indeterminado que só pode ser entendido como se referindo àqueles que, ou por já terem uma certa idade, ou por não se merecerem das boas graças das chefias, não conseguem acompanhar as novissímas aplicações informáticas que se querem estendidas a todos os organismos públicos. A mais profunda insensibilidade, o abandono completo do Estado Social de Direito, dos valores humanistícos, das conquistas alcançadas, quantas vezes à custa da perda de vidas humanas e anos de prisão, sacrificíos e familias destruidas, é o lavar das mãos - tal como fez Pilatos - deste infâme governo. La revolution est mort. Urge repensar os caminhos que estamos trilhando para que cheguemos à firme conclusão de que o Homem, a sua felicidade, o bem-estar geral, a igualdade possível e, sobretudo, a solidariedade devem ser as notas dominantes na actuação politíca. Os governantes estão mandatados para agir em nome do povo, não para agir contra ele. Nunca, até que a morte me leve, desistirei de pregar estes imperativos e, plagiando o poeta, gritarei estes pensamentos, ainda que a voz me doa!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Um pensamento náufrago

Quer se seja religioso ou agnóstico, quer se tenha ou não o sentido da espiritualidade, verifica-se que a acção é sempre uma resposta aos problemas e aos grandes desafios. Porque o meu empenhamento, antes de mais nada, manifesta-se no que eu faço, pode-se desejar que o que eu faço esteja de acordo com o que eu digo - e reciprocamente - [o que nem sempre é verdade...] Mas realmente é no que eu faço com a minha vida, no que fazemos das nossas vidas em conjunto que se pode revelar, ou não, um empenhamento metafisíco mais ou menos profundo. Ou, se se preferir, um empenhamento profundo sobre o sentido da vida e da morte. Aí, nesse "facere" de pensamento, somos completamente livres de optar e essa sensação, confesso, serena-me e, de algum modo, liberta-me...

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Da morte, do amor, da esperança, da desesperança e da evocação da eternidade

Quando assumo a verdade da minha situação perante a morte, aceito optar. Será possível tentar entender essa opção necessária? Penso que sim. Embora as razões continuem a ser obscuras para mim. Desesperar equivale a supor que só o pior é possível. A aposta na esperança é a posição que se aproxima mais dos limites da nossa incerteza. Corresponde, aliás, a um sentimento que todos temos arreigado em nós: o desejo de triunfar da morte. Que a morte saia sempre vencedora, que a melhor parte daquilo que se constrói numa vida humana esteja sempre votado ao fracasso, tais factos provocam forçosamente um desejo de recusa. Com esse efeito, como poderíamos nós aceitar que o melhor daquilo que edificamos, do que sentimos e do que conhecemos, o melhor das nossas relações - até as mais importantes delas, o amor - desapareça? Quando me ponho a reflectir sobre a minha posição dentro da existência tento perceber o significado desse conceito e, caso ame alguém, não compreendo que o ser amado possa desaparecer definitivamente. Não me estou a referir bem à «ideia» da morte. Porque é relativamente fácil aceitar a ideia: esse alguém que hoje existe fará amanhã parte do nada. Quem tem razão são aqueles que ficam transtornados com a morte da pessoa que amam. [Não há posição mais humana do que o estoicismo. A morte é inaceitável. Aceitar o aniquilamento absoluto disso seria achincalhar a importância do que a existência tem de mais nobre. Amar e aceitar a ideia de que este amor morrerá daqui a um ano, talvez a dois, é amar muito mal. A qualidade do amor exige que ele se situe numa dimensão que ultrapassa os limites do tempo.] Esta hipótese já se justifica a partir do momento que admito poder amar alguém mais de seis meses. Porquê? Porque o amor visa o fim em si mesmo, uma realidade infinita que não aceita as flutuações do tempo. Não consigo resistir a isto, mesmo se, por experiência, sei que certas pessoas que se amaram um dia deixaram de se amar. Contudo, amar é a expressão de um desejo de eternidade. Mesmo que o espírito da minha amada esmorecesse no dia da nossa morte, como uma faúlha que se liberta do fogo, teria-a ainda conhecido durante o tempo em que nos sentimos. Paralisado por tais ideias que me assolam em turbilhão, pergunto-me: Seria eu capaz de conceber um desejo de vida eterna? Será que a nossa recusa da ideia de eternidade corresponde à nossa falta de fé na vida presente? A consciência da proximidade da morte, em geral, é-nos imposta pelos acontecimentos. Mas a consciência do facto nem sempre provoca uma atitude existencial correcta. A inexorabilidade do irreversível põe-me face a face com a verdade da minha vida. Já não posso alhear-me sob pretexto de um futuro que permitiria transformá-la. Deixo de poder construir uma vida que integraria o que ainda não aconteceu, aquilo que o meu imaginário constrói em termos de futuro possível e que eu, em imaginação, considero como fazendo parte da minha vida. Já nem sei se consigo dizer mais algo sobre isto. O resto das palavras fica-me pelo pensamento.
Boa noite.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Voluntariado

Passado algum tempo vou tornar a um dos maiores prazeres que alguma vez me foi dado experimentar: fazer bem aos outros de forma gratuita. Na verdade, trata-se de fazê-lo de forma gratuita, sim, mas não de forma "desinteressada", pois o retorno em bem-estar espiritual que tal prática me trás é de longe a maior fonte de satisfação. Fazer bem, ajudar quem mais carece, numa área em que possa ser válido, é porventura a forma mais sã de me sentir com consciência e, sobretudo, mais útil durante esta efémera passagem. Só quem nunca experimentou o voluntariado não percebe do que estou a falar. Enfim, o voluntariado renasce por cá e com força, facto que me deixa bastante feliz, uma vez que por essa Europa fora quase sempre existiu e com bastante expressão. A Associação Amigrante, que solicitou a minha colaboração periódica em horário pós-laboral, pode contar comigo. Espero que alguém que me leia possa também um dia sentir um apelo semelhante e encarar o "tempo livre" como passível de ser empregue na maior das preciosidades: ajudar os nossos semelhantes naquilo que mais necessitam. Somos tantos e, dentro das nossas especialidades e conhecimentos, podemos fazer tanto bem aos outros que tenho esperança que a mesma luz que de novo me alumiou possa também chegar ao coração de mais alguém.

Hallowen seguido do Bolinho

Aqui na região centro do país, coicindindo com o Dia de Todos os Santos, celebra-se o Dia do Bolinho. As crianças deslocam-se aos magotes, com saquinhos nas mãos, tocando às campainhas das portas para pedir o «Bolinho». Às vezes também lhes dão doces, rebuçados e, não raro, dinheiro. O Bolinho é deveras delicioso.Trata-se de uma espécie de pão adocicado, com passas, e toda a gente, de uma forma ou de outra, acaba por prová-lo, pois em qualquer café, neste caso, também na Livraria Arquivo, por onde passei, acabam por oferecê-lo juntamente com a bica. As tradições são a representação simbólica da memória de um povo e felizmente há sempre gente disposta a mantê-las vivas. O Hallowen - a festa das bruxas - importado dos E.U.A., é uma festividade por nós recebida e carece do mesmo valor das tradições nacionais, oriundas dos costumes remotos da nossa gente. Amei, no entanto, ver a cidade repleta de abóboras iluminadas e os bares e restaurantes da zona histórica cheios de teias de aranha, vassouras de bruxas, entre outros artefactos. Algumas empregadas, inclusive, trajavam vestes tipo maga patológica e por sinal ficavam muito giras. Mas o que mais me impressionou, vindo eu de São Pedro de Moel, já noite alta, véspera do Dia de Todos os Santos, foi espreitar para dentro do cemitério da Marinha Grande e observar uma quantidade enorme de velinhas a bruxulearem timidamente em cima das campas rasas e brancas. Conduzi o resto do percurso até Leiria com essa imagem no pensamento e, confesso, antes de entrar para o edificío onde moro, olhei duas vezes por cima do ombro, não fosse alguma bruxa mais afoita querer acompanhar-me e pregar-me um susto, de morte...