terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Nuvem breve (poema singelo)

O que me resta na vida é a poesia. Enquanto uns sofrem, morrem de fome, padecem de doenças terríveis, enfrentam guerras, eu faço poesias. Enquanto uns abrem túneis, outros constroem casas, outros contabilizam, outros erguem bandeiras, operam curas milagrosas, eu faço poesias. Não sei aritmética, não salvo vidas, não sou hábil com as mãos, nem tenho o poder da vida ou da morte. Sou uma nuvem breve. Faço poesias e só, mas não o consigo evitar.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

No divã

Em vez de andar a vaguear pela movimentada Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro, por alturas do Natal, mais congestionada do que Meca em dia de peregrinação, em busca de colares, bugigangas e roupas baratissímas - a maioria para oferecer, pois, geralmente, não me adorno nem faço uso de bikinis em forma de asa delta ou fio dental - nesta viagem decidi investir a sério na cultura. Só no Rio de Janeiro comprei mais de 70 livros, a maioria nas "lojas de sebo", perto da Praça Tiradentes. Concebo três bons motivos para adquirir livros no Brasil, em especial, títulos em segunda mão: primeiro, os brasileiros, salvo uma estreita camada intelectual, não lêem, seja por terem mais onde gastar o dinheiro; seja por puro desinteresse; segundo, os livros são imensamente mais baratos lá do que aqui, inclusive as edições portuguesas (escritas em português de Portugal), patrocinadas pelo nosso Ministério da Cultura que, desse modo, quer ver a língua pátria disseminada e mantida viva por todos os cantos onde ela seja falada e escrita. O terceiro e último motivo é demasiado óbvio: os livros estão escritos em português, a minha primeva língua, e aquela com que naturalmente melhor me entendo. Mas não é de nenhum dos livros adquiridos no "sebo", praticamente pagos ao quilo, que eu quero falar. O livro em questão foi comprado na melhor livraria do Centro Comercial da Barra da Tijuca - o lugar mais elitista e ocidentalizado do Rio de Janeiro, onde é frequente depararmo-nos com conhecidos artistas das novelas da Globo, como foi o caso, facto que nem me merece quaisquer reparos - e trata-se do "Tigger on the Couch", na tradução brasileira: "O Lobo Mau no Divã", da reputada escritora, jornalista e editora norte-americana, Laura James. A escritora aborda o conceito de doença mental sob uma perspectiva diferente e bastante inovadora e, ao fazê-lo, creio que deu uma contribuição valiosa para a desmistificação e a destigmatização deste tipo de doenças. Os contos de fadas - quase sempre as mesmas histórias contadas de modos diferentes - são comuns em várias culturas e têm um papel valioso ao ajudar as crianças, particularmente, a aprender e a aceitar valores-chave e atributos que possam querer imitar. Da mesma forma, os contos de fadas ensinam comportamentos e valores que as crianças deveriam tentar evitar - uma espécie de lições que também permanecem até à vida adulta. As histórias para crianças também mostram como indivíduos com deficiências e dificuldades podem continuar a ser membros valorizados, respeitados e estimados na comunidade, algo de que a sociedade lamentavelmente nem sempre se lembra, em particular no que diz respeito à doença mental. Tinha lido um livro com vagas semelhanças a este, mas não tão divertido, há uns anos a esta parte, que, salvo erro, se chamava "A Psicanálise dos Contos de Fadas". Concedo, inclusive, que a autora tenha colhido inspiração nesta obra para servir de mote ao livro que escreveu; e, caso o tenha feito, fê-lo de uma forma brilhante, pois além de ter usado uma escrita muito mais clara, acessível a quaisquer leigos, abordou o tema das patologias do foro mental de uma forma absolutamente original: escalpelizou as neuroses, distúrbios e doenças de alguns dos nossos personagens preferidos, tais como o diagnóstico de "Narcisimo Situacional Adquirido" de que , segundo ela, padece a Rainha de Copas, da Alice no País das Maravilhas; ou o "Transtorno de Personalidade Narcisista"que caracteriza o Mágico de Oz, para não falar do "Transtorno de Personalidade Esquizóide" do Homem de Lata. A certa altura da leitura, surgem as pertinentes interrogações que ajudam a alcançar o propósito pretendido pela autora: "A Cinderela devia mesmo ter casado com um homem com quem se encontrou apenas duas vezes?" "Seria saudável que a Cinderela se comportasse de modo tão subserviente diante das irmãs de criação?" "Ela estaria, porventura, sofrendo de algum transtorno psicológico subliminar?"As tendências malévolas, despóticas e narcisistas, manifestadas pela Rainha de Copas, ao sabor do menor dos caprichos, não seriam uma clara manifestação de um comportamento destruturado, densamente patológico, a carecer de atenção especializada? O livro, como já disse, não se propõe abordar a temática da doença mental sob um ponto de vista pretensamente técnico ou enciclopédico. É antes um espaço de reflexão ao alcance de qualquer leitor - como eu. Não devemos esquecer que o campo dos transtornos e das vulnerabilidades de personalidade ainda são bastante negligenciados pela nossa sociedade. Sobretudo, senti-me mais humanizado e enriquecido, depois de terminada esta leitura; e, à semelhança de todos os bons livros, também este me fez meditar e vislumbrar algumas realidades sob novos e insuspeitados ângulos. Agora, cada vez que me lembro de todos aqueles personagens encantadores, com os quais passei parte da minha infância, vejo-os por outra perspectiva, pese embora nunca tenham deixado de me encantar até aos dias de hoje.

O que somos?

(Rio Nabão - Tomar - Dezembro 2008)
Ao que parece, ninguém é o que parece. Somos o que não somos? Afinal, quem somos nós? Cínicos? Artistas? Um para cada instante? "Metamorfoses ambulantes"? Sim, nós representamos, inconsequentemente, desenvergonhadamente, involuntariamente, com ou sem o advérbio modal, mas sempre com algo em mente [como quem mente, sem conseguir mentir] Pomposos, grotescos, subtis, entusiastas, pessimistas, sonhadores, somos o que somos e o que não somos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Flores à janela

(Leiria - Dezembro 2008)
Todos os dias as vejo,
as belas flores à janela
exalando rimas,
doces e perfumadas,
pousadas num pequeno beiral
Todos os dias as vejo
nos seus corpos aveludados,
macios e cintilantes
de formas insinuantes,
multicolores
Suaves e misteriosas,
exalando odores divinos,
tão lindas e encantadoras
estas belas flores,
que assomam à janela
e magnetizam o meu olhar

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Simple mind

Por esta altura do ano, a maioria de nós desdobra-se nos useiros e vezeiros desejos de "Boas Festas!", "Feliz Natal!", concórdia, paz, amor, fartura. Enfim, deseja-se a todos, e em especial aos que amamos e nos estão mais próximos, a excelência de vida que, durante o resto do ano, pelos vistos, não temos tempo, ou coragem, de dizer, ou sequer lembrar. É tão brejeiro, a escassos dias da almejada noite, desejar a alguém "Feliz Natal!", quanto é abusar da expressão, igualmente gasta e estafada, de que "o Natal deveria ser todos os dias!" Eu, ateu profundo, mas não amoral - às vezes um nadinha imoral, confesso, mas em doses toleráveis - prefiro o Bem ao Mal, o Amor ao Ódio, a Paz à Guerra; e não guardo rancores no coração, mesmo por aqueles que porventura me tenham causado algumas das máculas que me habitam, e comigo hão-de perecer. Desejo, sim, que a Humanidade renove a sua atenção à necessidade do amor e ressurja o encantamento pelas actividades estéticas, tais como a pintura, a poesia, a literatura e a arte em geral. Porque não um novo Rissorgimento à semelhança do que aconteceu no século XVI? É, afinal, o cultivo do amor pelo saber, pela estética, que mais nos engrandece como seres-humanos, e que é capaz de contrariar a pulsão freudiana que nos leva a desejar destruir os nossos semelhantes. Eu, ameba deste astral sem fim, onde cada um de nós é apenas dono de um raiozinho de luz e sombra, peço mais amor e ternura a todos os que se sintam aptos para os transmitir, pois em momento algum duvido que a manifestação de tais sentimentos não possua um efeito multiplicador e de incentivo em todos os que nos rodeiam. Amor com amor se paga. Desejo as maiores venturas a todos os que me lêem.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A vida diante dos meus olhos

(Rio Nabão - Tomar - Dezembro 2008)
O meu cenário mudou está mais concreto mais acrílico mas ainda é bem bonito! O verde ainda existe, insiste em existir Os plátanos displicentes insistem em dançar com a música do vento De leve, bate o sol num dourado intenso E pássaros misteriosos cortam os céus d'Inverno O meu cenário mudou mas ainda é bem bonito Lá em baixo, as pessoas correm e andam sentam-se nas calçadas nos bancos dos jardins, passeiam os filhos e procuram a felicidade A vida passa diante dos meus olhos.

My Black Beauty

(BMW F 650 GS - O meu corcel negro - Coimbra - Dezembro 2008)

"O PROFETA"

(Rio Nabão - Tomar - Dezembro 2008)
É raro falar dos livros que já li ou daqueles que estou lendo, talvez por pensar, quem sabe erradamente, que a escolha das leituras deve ser uma opção individual, não passível de influências; e que os livros pelos quais optamos ler (e reler) têm de algum modo, conscientemente ou não, a ver connosco: com as nossas necessidades, curiosidade e forma de sentir. "O Profeta", de Khalil Gibran, faz parte do acervo das leituras que, cedo, ajudaram a formar as minhas escolhas como leitor. Trata-se de uma maravilhosa viagem espiritual escrita em 1923 por um libanês que, ainda hoje, na sua terra natal, é considerado uma lenda. Há pouco tempo reli o livro - é um texto curto, com pouco mais de cem páginas - e senti quão verdadeira é a afirmação de A. Lobo Antunes quando diz que um bom livro é aquele que se relê com prazer; e, em cada nova leitura, se descobre um livro diferente do anterior. Em homenagem a Khalil Gibran, pintor e escritor, um ser genial a quem, no Ocidente, nunca foi dada a devida importância, deixo aqui um dos trechos do "Profeta" que mais admiro: «Disse, então, Almitra: Fala-nos do Amor. Com uma voz poderosa ele disse: Quando o amor vos chamar, segui-o, apesar do seu caminho ser duro e íngreme. E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o, apesar da espada escondida entre as suas penas poder ferir-vos. E quando ele falar convosco, acreditai nele, apesar da sua voz poder esfacelar os vossos sonhos, como o vento norte arruína o jardim. Pois mesmo quando o amor vos coroa, ele vos crucifica. O amor não dá nada além de si mesmo e não toma nada além de si mesmo. O amor não possui nem é possuído, pois o amor é suficiente ao amor. Quando vós amais, não deveis dizer. "Deus está no meu coração", mas sim "Estou no coração de Deus". E não pensai que podeis dirigir o curso do amor, pois o amor se achar que o mereceis, dirige o seu curso.»

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Gramática da poesia

(Amores-perfeitos e outros menos - Leiria - 2008)
Doce olhar que me procura,
doce olhar que me escapa,
doce olhar que me sussurra,
palavras que eu quero ouvir;
#
Doce olhar que me penetra
doce olhar que me tortura
e engole o meu coração;
#
Penoso é encontrar
de longe esse doce olhar,
esse olhar abstracto
distante a iluminar
o vazio do meu dia;
#
E esta é a poesia do fim
igual a uma eterna melodia
tal qual sinfonia
- eu sou aquele que partia,
a criança que te sorria;
#
E esta é a poesia do fim,
demasiado igual ao meu dia,
que ensolarado se fazia
se me fizesses companhia
nesta noite tão fria;
#
E esta é a minha poesia,
que, sempre que se acaba,
logo de novo se inicia.

Olhando para a Lua.

("Fonte dos Amores" - Quinta das Lágrimas - Coimbra - 2008) Por tantos cantos estão, espalhados no chão, espalhados sobre a mobília pedaços de um coração. Nos livros nas estantes nos álbuns em velhas cartas, numa canção... Tudo, por vezes, me lembra velhos amores, amores que já partiram, cada um levando consigo um pedaço do meu coração. Escrevo na escuridão da noite, solitários, eu e o brilho da lua, deslizando sedutora na rua, nas vidraças do meu quarto, lua lenta e silente, como a luz da eternidade, que todos os poetas contempla lá do alto da sua vaidade.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Amor e tormentas

(Castelo de Almourol - Zêzere- Outono- 2008)
Um dia, depois deste agora, entrarás em mim e as gotas que caem de ti beberei. E caminharemos sem avançar por um caminho de doçuras e chegaremos. E haverá infinitos caminhos luas cheias e infinitas chegadas. Haverá vento e chuva e caminharemos. E haverá um arco-iris duplo e chegaremos infinitas vezes. Haverá sol, flores e doçura... e veremos o demónio solto cavalgando entre as ameias... E fecharemos os olhos, amor e seremos o princípio. [Depois, ar limpo silêncio cheiro da terra, lisura, trinar dos pássaros] [Depois, amar-te-ei com humidade de terra força de relâmpago e rutilante ardor]

domingo, 14 de dezembro de 2008

Gosto de azinho

Quando se trata de acender o fogão de sala, agora que chegaram as frias noites de Inverno e apetece cada vez mais passar serões à lareira, deparo-me sempre com o eterno dilema sobre quais os materiais mais indicados para utilizar na combustão. Por preguiça, não faço como a maioria das pessoas que compra lenha às carradas – que é com certeza a solução mais económica. Burguesmente, desloco-me ao supermercado quando preciso comprar lenha; e depois carrego um ou dois sacos, de 10 kg cada, desde a garagem até ao elevador. Já experimentei o azinho, o sobro e, recentemente, um material que, segundo a publicidade, garante uma combustão mais duradoura do que a madeira tradicional: os briquettes. Este compósito industrial, pomposamente apelidado com um sonante galicismo, mais não é do que uma série de rolos feitos com aparas de madeira prensada. No entanto, de tudo quanto já experimentei, estou seguro de que o azinho é a madeira que mais tempo leva a ser consumida pelas chamas e também a que deixa um cheiro menos desagradável no ar. Como por certo já sucedeu com todos os adeptos das lareiras, queimo-me com frequência sempre que insisto em revirar os toros com as mãos em vez de usar a pinça adequada para o efeito. Felizmente para mim, à parte uns pêlos da mão e do antebraço chamuscados, nunca houveram consequências de maior dimensão. Adoro fogões de sala. Só quem já experimentou tal sensação, sabe como é bom estar refastelado num sofá, ao redor de uma boa lareira, escrevendo, lendo um livro interessante, vendo um filme, dormitando, ou fazendo outras coisas prazenteiras que a imaginação de cada um ditar. São tudo delícias de que não me dispenso. Não fora o perigo de poder inalar dióxido de carbono em quantidade suficiente para me mandar mais cedo para o outro mundo, por vezes apetecia-me colocar um colchão no chão, mesmo juntinho ao lume, e deixar-me adormecer ao som do crepitar da lenha, demorando o olhar na dança frenética das chamas, até adormecer e o mundo se tornar num imenso oceano cor-de-laranja. O tempo, esse veloce predatore delle cose create, segundo a definição de Leonardo Da Vinci, há muito que deixou as impressões digitais em muitas das vitualhas que compõem a minha sala. Quem nela demorar o olhar e não souber a verdadeira idade do seu usuário habitual, julgará que acabou de entrar na biblioteca de algum intelectual anoso, vivendo nas primeiras décadas do século passado. A tralha é abundante, o mobiliário demasiado datado, talvez até carunchoso, e são várias as estantes pilhadas de livros até ao tecto. Não fora a televisão, a aparelhagem musical e um tapete de Arraiolos bordado pelas mãos da minha mãe, poder-se-ia imaginar que tudo o resto, candeeiros incluídos, foi adquirido, a preços de varejo, num qualquer antiquário da Almirante Reis - uma meia verdade. A sala é, sem dúvida, a minha toca multiusos.
Apesar de não me considerar uma pessoa cobarde - pois nem a vida que levei e tudo quanto obtive, praticamente sempre às minhas custas, mo permitiriam uma postura diferente -, não nasci para confrontos e assusta-me sempre a perspectiva de situações em que, por exercer uma certa autoridade, me possa ver forçado a entrar em lutas. Sou um contemplativo irredutível e, por incrível que pareça, um dos homens mais susceptíveis que vivem à face da terra: qualquer injúria me põe doente, qualquer doesto me irrita. Compreende-se, pois, que quem nasceu assim não se deve meter em cavalarias altas, situações potencialmente geradoras de conflitos. Gosto da minha paz. Gosto de ser um inimigo declarado das coisas práticas e massivas, aquelas de que toda a gente gosta, e mergulhar-me neste universo que construí: o melancólico e pequenino planeta que é a minha vida. Não gosto de briquettes, mas gosto de uma lareira que carbura azinho bem seco. E gostei, também, de uma coisa que há pouquissímo tempo disseram acerca de mim: “Tens uma voz musical, bem timbrada, elegante e bastante sensual...” – Fiquei, naturalmente, embasbacado, não pelo elogio em si, mas pelo crédito que me merece a pessoa que o proferiu. Prometo que não me tornarei vaidoso. Não me considero assim tanto. Aliás, os extremos de exigência a que sempre me obrigo, no que concerne a quase tudo o que faço, e a satisfação moderada acerca dos meus valores, nunca tal mo permitiriam.

Jason Mraz - "I'm yours"

Jason Mraz - o meu intérprete predilecto do novo "reaggae style". Quem sabe uma visita a Jamaica não esteja a fermentar no horizonte das minhas próximas viagens?!

A chegada

(Quinta das Lágrimas - Fonte dos nenúfares - Coimbra -2008)
Os seus lábios eram doces como mel os olhos, duas luas profundas e por dentro fluíam rios, correntezas e a sua voz era uma melodia no espaço. Chegou a memória do seu amado com as suas asas refulgentes. Apareceu entre as estrelas, e o seu vôo fez-se suave quando pousou no abraço; e o beijo aconteceu sem tempo num fervor de amor verdadeiro. Fundiram-se os rios e as correntezas formaram-se mares, lagoas, oceanos e os dois banharam-se nas suas águas criando neófitas vidas eternas. Era o amor mais puro que subia no Outono do cerro. Era a silhueta de um anjo nascido entre as dunas, mesclado com a noite e as bátegas de uma chuva tocada a triste pelo vento.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Luz ilusória

(Serra da Gardunha - 2008)
E foi ao ver-te e sentir-te efémera luz enredada que o vento te levou. E veio outra luz partida de fragmentos de glória que recolhi na palma da minha mão. E foste tu, paixão minha que o amor nas luzes não estava. E fui ficando só com o amor que nas luzes não estava.

Viagem ao passado

Viajei ao passado recorri a histórias lutei em infinitas guerras senti misérias, dor tive poder amei mulheres, confiantes e desesperadas, e perguntei porquê? Vi as noites iluminarem os campos o surgir das flores em cada Primavera o calor do Verão mil ventos, mil chuvas vi morrer, sofrer, nascer e perguntei porquê? Falei com sábios poderosos e humildes percorri cada canto da Terra banhei-me em rios claros águas cristalinas busquei perfumes senti inúmeros gozos e perguntei porquê? E voltei das minhas viagens aspirei o aroma caminhei até ao mar entrei no oceano deitei-me na areia senti o sol e dormi sem despertar e os outros perguntaram porquê?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Guilherme Arantes - Pedacinhos

Guilherme Arantes cantava esta linda balada como ninguém. Hoje, refugiado em São Paulo, diz-se que engordou, branqueou os cabelos e é produtor musical, ou seja: ganha a vida à custa dos talentos alheios.

A solução (a)final

(Rua Uruguaiana - Alfândega - Rio - 2008)
Com o rodar do tempo, nós, homens, raramente escapamos à saliência do ventre e à perda de cabelo. Mas como, felizmente, para quase tudo já há remédios - mais não sejam mezinhas que ajudam a protelar a chegada dessas duas inevitabilidades - é importante não desesperar e encarar a mudança como uma nova fase. É verdade que há paixões que vencem o tempo, mas quase tudo vai esmorecendo no coração das criaturas sensíveis: o entusiasmo da mocidade, os devaneios de riqueza e glória, a fé em muitas coisas que eram julgadas sublimes. E as almas crepusculares povoam-se de cemitérios onde jazem, cobertas de névoa, as ilusões mortas. "A idade tudo leva e tudo trás e nada cura como o tempo", asseguram os adágios populares. A vida, entretanto, não é feita somente de instantes tristes. De vez em quando um bando de pássaros, em chilrreada, costuma sobrevoar alguma árvore solitária, meditativa, que se interpõe no meu caminho. E isso dispõe-me bem. Faz-me sorrir e pensar no amor. Mas um aspirante a poeta/escrevente não vive só de versos. Às vezes também precisa alimentar o corpo. Barriga cheia significa cara alegre. Talvez por isso ontem sonhei que era um leitão assado. De manhã, a princípio, a minha impressão foi de espanto: durante a noite vira-me estendido, horrorizado, sobre um prato, cheio de coisas que não eram os meus próprios orgãos. Mas havia em mim um cheiro delicioso de carne gorda tostada. Felizmente que, depois, ao olhar-me no espelho da casa-de-banho, reconheci o familiar rosto envelhecido, de barbas alvas, que já aprendi a aceitar. E, aos poucos, fui recuperando a calma e o auto-domínio. Quero eu lá saber de implantes capilares, tintas, máscaras de juventude! O meu aspecto de agora é o reflexo de quase meio século, a maior parte do tempo, vivido à velocidade da luz. E é com essa cristalina verdade que rejubilo: a constatação de que efectivamente vivi - e ainda por aqui ando.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Tão longe

Inspirados versos de amor murmuravas quando te conheci pela primeira vez teu penetrante olhar ternura implorava e rápido batia meu coração de insensatez. Quem sabe como meu corpo não desabava com medo que o rubor notasses em minha tez mas desse amor vaporoso pouco resta só a lembrança do momento que doce se fez. Penoso seria de novo reencontrar a mácula desse teu doce olhar - esse doce olhar abstracto tão longe, mas a insistir iluminar a névoa que esculpe o meu recato.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

(Vista aérea do rio que banha a cidade mais linda de Portugal - Dezembro 2008)
O frio aqui pelo nosso país está pela hora da morte e receio que estas temperaturas tão baixas possam ter efeitos nefastos na minha saúde. Acho que vou mesmo seguir as recomendações usuais neste tipo de situações: utilizar roupa quente suplementar, cobrir a cabeça, utilizando um chapéu ou gorro, proteger as mãos com luvas e utilizar calçado adequado para evitar perdas de calor. E como a circulação sanguínea faz-se com maior dificuldade, o melhor é mesmo manter-me activo fazendo pequenos exercicíos com os braços, pernas e dedos, beber bebidas quentes e comer refeições igualmente quentes. Não se admirem pois os utentes da repartição onde trabalho se me virem amanhã, dia nove de Dezembro, entrar aos saltinhos pelo escritório adentro, de gorro na cabeça, expelindo bafos de calor, enquanto ensaio uma espécie de "Dança de São Vito" para não perder a temperatura corporal. Espero que eles, ao menos, sejam pessoas compreensivas ou, no minímo, dotadas de algum sentido de humor. Em nome da saúde, afinal, tudo é compreensível. Quem diria que há pouquíssimo tempo atrás estava eu, em Copabacabana, a sorver por um canudinho uma água de côco gelada?! Coisa de doidos!

Segue o Teu Destino - Maria Bethânia e António Alçada Baptista

António Alçada Baptista morreu este Domingo. O escritor tinha 81 anos e há muito que padecia de problemas cardíacos. Um dia, quando se reescrever a História da Literatura Portuguesa do século XX, espero que lhe seja dada a importância que em vida nunca teve. Trata-se de um dos maiores escritores portugueses contemporâneos, alguém que não tinha medo de confessar as emoções e a ternura imensa que nutria por tanta coisa. Um "escritor feminino", como ele próprio se retratava, mas, sobretudo, um verdadeiro príncipe das letras, dotado de uma cultura vastissíma e de um espiríto humanista e verve inigualáveis "Os Nós e os Laços", dos seus livros, o que mais admirei, já faz parte do acervo das leituras que jamais se apagarão das minhas memórias. Presto-lhe a minha sincera homenagem e curvo-me em respeito perante o seu génio.

Portugal é de nós, pequeninos

(Real Instituto Portuguez da Leitura - Rio - 2008)
Por aqui é extremamente fácil encontrar jornais portugueses, inclusive semanários regionais e até pasquins locais de curtíssima tiragem. O que sobrou da grande vaga de emigrantes portugueses para a América do Sul, em especial para o Brasil, Argentina e Venezuela – corriam os anos cinquenta do século XX –, são idosos de cãs brancas, com sotaque carioca ou gaúcho espanholado (na Argentina e no Rio Grande do Sul), variando consoante o lugar em que tenham assentado mais tempo arraiais. Da terra natal, já poucos se recordam e nenhum dos patrícios com quem falei se mostrou minimamente interessado em regressar à Lusitânia. São quase todos pequenos comerciantes, sexagenários, alguns proprietários de lojas e supermercados com alguma dimensão, mas todos plenamente entrosados na realidade dos países que os acolheram. Invariavelmente, são oriundos do norte de Portugal e não abdicam de frisar que possuem lá propriedades que herdaram e tencionam vender. "Quer comprar um apartamento em Viseu? E em Gaia? – “Não, obrigado!" – Para que raio haveria eu de querer comprar um apartamento em Viseu ou em Gaia?! É engraçado o afã com que gente minha amiga, a maioria "cariocas da gema", faz questão em me apresentar portugueses residentes no Brasil, como se eu não estivesse já farto de ver portugueses, ainda para mais portugas com cinquenta anos de terras de Vera Cruz, totalmente despojados de quaisquer referências europeias, falando uma mistura de "axim" com gíria carioca - Na Argentina, o sotaque dos luso emigrados é apelidado de "portunhol": um neologismo delicioso que etiqueta essa curiosa forma de falar. É impressionante constatar, por estas paragens, a absurda ausência de informação sobre a actualidade de Portugal. À parte o Roberto Leal, a Amália, o Ronaldo e um ou outro actor que participa em novelas brasileiras, o nosso jardim à beira-mar plantado ainda passa, no imaginário da maioria dos brasileiros, sobretudo nos menos informados, como sendo um pequeno país de gente trágica e triste, com bochechas escarlates e carnudas, as mulheres trajando lenços garridos na cabeça e os homens usando coletes pretos, chapéu e relógio de corrente. São certamente as imagens do folclore nacional, que alguns terão vistos em apresentações televisivas - a matéria-prima que mais ajudou às efabulações sobre o nosso aspecto. Os mais idosos recordam a chegada do grosso dos emigrantes vindos de Portugal. Chegavam de barco, depois de uma longa travessia oceânica - invariavelmente alvo da curiosidade popular, mas, regra geral, bem recebidos. Alguns bebés nasciam a bordo e quando o navio aportava em Niterói, já o infante era registado como nado em solo brasileiro. Na verdade, das vezes que estive no Brasil, ou em qualquer parte da América do Sul, nunca um noticiário televisivo transmitiu algo sobre Portugal. Podemos especular sobre quem tem essa culpa: se são os organismos encarregues da divulgação da nossa cultura no exterior, ou consequência do desinteresse que Portugal suscita por estas paragens? Inclino-me mais para a segunda opção. Enquanto a cultura brasileira cada vez mais se intensifica em Portugal, seja pela aculturação da sua música, das comidas, e da própria forma de vestir, os laços fortes com Portugal terminaram com o Grito de Ipiranga e com o império de D. Pedro. Depois, tudo o que se seguiu, foi a História de um país soberano, entregue a si mesmo, tal como o jovem adulto que abandona a casa paterna e decide ser dono dos seus desígnios. Só a exposição que presenciei no Real Instituto Portuguez de Leitura, sobre a comemoração do bicentenário da chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, e a placa lá colocada, em Março deste ano, assinalando as presenças de Cavaco e Silva e de Lula da Silva, me devolveram a consciência histórica de que alguma vez tínhamos sido suseranos por estes lugares. A nossa pequenez geográfica e política são bem maiores do que porventura possamos imaginar. Valha-nos a pertença à União Europeia, para que possamos fazer parte de um brilho capaz de resplandecer no universo de países do tamanho de continentes.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Espaços de luz

(Ilhas de Macaé - Cabo Frio - Brasil -2008)
Vi espaços de luz ouvi música da claridade senti os amanheceres o cheiro húmido a vida palpitando E fui uma luz clara uma nova luz. Penetraram imagens de luzes claras a luz estremecia e fazia-se mais intensa. E senti o amor e converti-me em água transbordada. A terra abraçou-me corri pelos amanheceres - era água transbordada e não pude deter-me. A terra abria-se à minha passagem banhei infinitos amanheceres e não me detive. E a luz sempre brilhou e sempre houve um novo amanhecer tudo envolto por aquela cortina de veludo anil.

Macaé

(Ilhas de Macaé - Cabo Frio - Brasil 2008) Delírios com tinta branca núcleo de cosmos a face do alba tinge o mar de cristal. Calor em fogo derretido que o vento espalha em estrelas perdidas. Amores sulcos na memória instante eterno onde deixaste o azul no branco.

Um novo Ser

(São Conrado - Rio - Dezembro 2008)
Rolaram as pedras da rocha e caíram pela areia Transformou-se o meu ser tantas vezes - que fui muitos seres e rolaram as pedras na areia. Vi a morte das minhas vidas. Vivo unicamente a minha vida de hoje. Morreu o menino que não sabia caminhar Morreu o menino que chorava sem falar O menino jovem, o menino bonito Muitos morreram. Desconhecido sou para o meu futuro Um novo ser virá. Quando rolam as pedras Que caem das rochas pela areia Penso em coisas que não têm que ver com outras E penso que a minha vida é igual A essas pedras que caem da rocha pela areia.

O ilhéu

(Tempestade tropical - Rio Dezembro 2008)
Calaram-se as vozes Ouviram-se rangidos e gemidos Vieram os vôos O canto ferino dos pássaros O homem, a formiga O homem, os pássaros O homem não entende Nem de cantos nem de grunhidos O homem, o homem O homem não entende A linguagem do homem O homem está só.

Eu entre os micos

(Mico - o simpático macaquinho do Rio -
Morro do Pão de Açúcar)
Existem em toda a mata atlântica brasileira e na floresta tropical do sudeste do Brasil (sobretudo na região do Rio de Janeiro). Têm como hábitos alimentares a ingestão de frutas e pequenos insectos. São animais com ar amoroso, cómico e simpático, mas, na verdade, possuem caninos afilados que podem provocar danos consideráveis aos turistas mais incautos. O segredo é dar-lhes a frutinha à boca mas, se possível, mantendo os dedos longe das suas presas. Este, aqui de cima, está a refastelar-se com um pedaço de mamão antes de eu, inadvertidamente, lhe ter pisado a cauda, tal o susto que apanhei quando o bicho me fugiu para baixo dos pés! O sem vergonha deu um guincho e voltou para perto das pessoas, novamente de mãozinha estendida.

Medo

(Praia do Arpoador (depois de uma chuvada) - Rio Dezembro 2008)

Escamas prateadas de espécies marinhas voam juntando-se no fundo do oceano, Transformam-se em pássaros que sulcam a noite e o seu canto é um uivo que estremece o planeta. Se algum pousa no meu ombro, as suas asas envolvem-me e juntos fugimos ao azul mágico do eterno.

sábado, 6 de dezembro de 2008

O espertalhão que fugiu do frio

(Baía de Botafogo e Cristo Redentor - Rio de Janeiro - Dezembro 2008) (Praia Vermelha - Urca - Rio - Dezembro 2008) (Copacabana - Rio - Dezembro 2008)
(Fiat Palio - Made in Brazil - Rio - Dezembro 2008)
Tornando ao Rio de Janeiro, vindo do sul, fui confrontado com algumas notícias calamitosas que li num jornal português, por sinal um periódico de grande tiragem, que garantia que em terras de Viriato se tremelicava de frio. Havia neve à farta na Serra da Estrela, com temperaturas abaixo de zero em várias zonas do norte do país, ondas de frio vindas da Europa, blá, blá , blá... Não perdi mais tempo. Voltei ao Fiat Palio, de vidros escurinhos, como convém nesta urbe bela e perigosa, liguei de imediato o ar climatizado, e dirigi-me até à zona sul para beber uma aguinha de côco bem gelada e tomar mais uma banhoca na praia do Leme. Sabem, estas notícias de Belzebu, acerca da temperatura que em breve me espera, causam-me arrepios de... calor! Já não é a primeira vez que experimento a sensação extremamente desagradável que é sofrer um choque térmico, e os dias que o corpo leva até se readaptar. Afinal, por estas bandas, só estão mais 30º positivos do que em Leiria, o que, bem vistas as coisas, nem é muito significativo... ou será? Valham-me todos os santos!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Bons Ares

(Calle Peron - Buenos Aires - Novembro 2008)
("La Boca" - Buenos Aires - Novembro 2008)
(Livraria "El Atheneo" (antigo teatro) - Buenos Aires - Novembro 2008)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Elogio da poesia

(Copacabana e Leblon - Rio de Janeiro - Novembro 2008)
Altas horas da noite, encontro-me na praia, frente a um morro em forma de cone, e detenho-me perante o deslumbre da grande cidade, agora em repouso, iluminada pela fluída lactescência de um luar opalino, que cobre as réstias de uma tarde sufocante. As montanhas, ao fundo, diluem-se perante uma imprecisa luz argêntea e azulada de reflexos cambiantes. Na vizinhança, as árvores farfalham e do seu interior chegam-me os gritos fantásticos de pássaros - que sei que existem, mas não os vejo. E o mar, mesmo atrás de mim, muge soturno, plangente, como se fora uma melodia arrastada. A leve ondulação, em vagas rendilhadas de alva espuma, vem morrer no frescor da areia tenra, perto do lugar que os meus pés pisam. Penso nos poetas. Em todos os poetas e poetisas deste mundo. Vejo-os como seres injustiçados, que sofrem mais porque sentem mais. Gente que vive para o coração e pelo coração. Grandes loucos, eternos sonhadores, ignotos das leis da lógica, possuídos pela vidência de um cosmo indefinível, todo feito de névoas e visões sobrenaturais. Uma raça em extinção, votada ao ostracismo, nesta época absurda que desvaloriza a estética, a arte e a sensibilidade, em prol da coroação de ídolos nascidos da imbecilidade humana, frutos deste tempo dissoluto, vergonhoso, de canalhocracia, incultura e arrivismo. Por tudo isto, prezo todos os que conseguem escrever “doce e clara manhã”, ainda que a manhã esteja, na verdade, agreste, feia e chuvosa. Na mente de um poeta é possível acender um sol de Verão na mais nevoenta alvorada de Inverno. E a poesia faz-se, sobretudo, destes instantes mágicos, sempre que dentro de nós o coração e a sensibilidade conseguem ver para além do olhar. Ao longe vejo uma enorme fogueira, quase no fim da praia, e é para lá que me dirijo.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A eternidade

(Cemitério Solano López - Paraguai - Novembro 2008)
Estavam-se amando há dois séculos que não eram séculos porque não existia o tempo. O pássaro pousou na árvore e cantou e todo o chão se encheu de flores. Chegaram mais pássaros, mais cantos e o ar era cálido e perfumado e os dois já não eram jovens e continuaram-se amando. Dois séculos mais se passaram que não eram séculos porque não existia o tempo. Olharam-se, eram de novo belos e jovens e o céu estava tão azul e claro que se divisava o planeta Terra. E como eram belos e jovens voltaram-se a amar outros séculos que não eram séculos porque não existia o tempo. Todo o chão se encheu de flores, de cantos. Porém o céu já não estava azul e não se divisava nenhum planeta.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Erudição em overdose

(Imagem rotina nas cidades sul-americanas - Novembro 2008)
Por vezes revelam-se-me assustadoras certas coisas que leio e, confesso, fico a matutar nelas como se certas idéias expostas já me tivessem assombrado a mente muito antes de descobri-las pensadas e relatadas por outrém. Por exemplo, quando Schopenhauer, no seu célebre ensaio “A arte de escrever” defende abertamente a tese de que o excesso de leitura tira do espírito toda a elasticidade, da mesma maneira que uma pressão contínua tira a elasticidade de uma mola; e vai mais longe quando afirma, sem peias, que “o meio mais seguro para não possuir nenhum pensamento próprio é pegar um livro nas mãos a cada minuto livre”. Essa prática, segundo o ilustríssimo filósofo, explica porque a erudição torna a maioria dos homens ainda mais pobres de espírito e simplórios do que são por natureza, privando também os seus escritos de todo e qualquer êxito. Malgrado o exagero da tese e descontando a conhecida faceta pessimista do filósofo germânico - que, com as suas ferinas, entusiasmadas e, por vezes, cómicas, reflexões, como se sabe, influenciou grandemente o pensamento de Nietzche, Bérgson e também de Freud - não deixa de tocar em assuntos sobre os quais, à medida da minha singela escala, eu mesmo muitas vezes me interroguei. Os eruditos são aqueles que leram coisas nos livros - sempre lendo para nunca serem lidos - e dotaram-se de doses maciças de informação abrangente, mas os pensadores, os génios, os fachos de luz, não serão antes aqueles que conseguiram ler directamente no livro do mundo? Afastada, em definitivo, por mim, a tese absurda do insígne pensador de que a leitura não passa de um substituto do pensamento próprio e que não é mais do que a melhor forma de deixar que os nossos pensamentos sejam conduzidos em andadeiras por outras pessoas, resta-me a conciliação dos extremos onde, quase sempre, mora a verdade. Como seria possível possuir-se um pensamento próprio, com algum grau de elaboração e maturidade, se não estivéssemos de antemão apetrechados com muitas leituras e, obviamente, na posse de pensamentos alheios? Uma pessoa não deve ler só quando a fonte dos seus próprios pensamentos seca, o que ocorre com bastante frequência mesmo entre as melhores cabeças, mas deve conciliar a experiência mental que a leitura proporciona – que é sempre “um ver através dos olhos de outrém" – com vivências próprias, ainda que consideradas, sabe-se lá por quem, comportamentos border line ou socialmente menos correctos. Por exemplo, eu encontro-me neste momento a viajar. Todos os dias confronto-me com situações novas, num mundo diametralmente diferente daquele onde aprendi a viver. E quero com isto dizer que não me basto com a experiência mental das coisas, como aquelas pessoas que passam as suas vidas lendo e tiram toda a sua sabedoria dos livros. Se assim fosse, para quê viajar, entrosar-me com culturas diferentes, outros lugares, por vezes até perigosos, quando podia ficar confortavelmente no sofá lendo descrições de viagens a respeito dos países que pretendo conhecer? Elas, as descrições, podiam dar-me informações precisas acerca de muitas coisas, fornecer-me, inclusive, detalhes sobre os sítios e a sua História, mas nada que se pudesse comparar com a experiência in loco. Se Schopenhauer, pecando pelo exagero, acabou por cair um pouco no esquecimento da Filosofia, face a doutrinas muito mais consistentes, tais como as defendidas por Hegel ou Kant, não é menos verdade que ainda possui o poder de atiçar a dúvida e fazer abalar a "consistência da verdade", ou não fosse esse o papel mor de qualquer filósofo!
[A chuva cai como lágrimas de cristal e bate nas vidraças. O ar está abafado. Já passa da meia noite aqui nos trópicos. Ao longe acabei de escutar um som rouco, talvez produzido por uma qualquer ave noctívaga. Talvez este mormaço que convida o corpo a ficar nú e o odor perfumado que se desprende da amendoeira gigante que assoma à minha janela, me tenham, por estas horas, levado até às margens da filosofia de pacotilha. Mas, aqui, agora, estou certo que em qualquer lugar - perdoe-me este apoderamento o criativo do anúncio do Martini - sempre foi meu desejo trespassar as sombras da noite, entrar dentro do próprio medo, e partir para os solilóquios que me habitam. De resto, não tenho sono e a Internet é um pouco como Nova York: Uma cidade que nunca dorme.]

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Aeroporto da Portela - madrugada

(Portela-Lisboa - Novembro 2008)

É a terceira vez que viajo para a América do Sul. Nos últimos dois anos tem sido assim. Estranho ver-me nestes trajes - no preciso momento em que escrevo estas linhas, estão mais de 30º positivos e chove torrencialmente: uma tempestade tropical, com todos os ingredientes, assola há vários dias o sul do Brasil - completamente entrapado, no frio de uma madrugada infinita, aguardando pela abertura do check-in do balcão da Ibéria. No fiar dessa noite, ainda na gare do aeroporto, aproveitei para terminar a leitura de uma biografia de Olavo Bilac - dos poetas brasileiros, lado a lado com Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Morais, o meu predilecto - e comecei a leitura de um romance da Inês Pedrosa que há muito queria ler: "Nas tuas mãos". Como a viagem prometia ser longa, o que veio efectivamente a suceder, e como é meu hábito, também escrevi algumas notas soltas, apontamentos, e esbocei alguns poeminhas. Aqui fica um deles, talvez o mais coincidente com o estado de espírito do momento:

Entrou no espaço e sentiu-se acariciado. Descobriu a luz do além e penetrou ainda mais. Viajou na suavidade do escuro e era a imensidão. E era dormir sem chegar era dormir sem despertar e quando a luz iluminou a sua face retrocedeu e viajou infinitas noites buscando a imensidão.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

¡Suramérica espera para mí!

(Air Bus A 340-600 - Ibéria - cortesia do Google)
Nos países ocidentais, uma grande percentagem de homens e mulheres necessita, para a sua felicidade, mais do que os simples meios de subsistência: deseja também o consumo desenfreado e o êxito. Mas, pior do que tudo, a vida que levamos conduz-nos à insaciedade e à desvaloração do frugal e das coisas simples - dois enormes obstáculos impeditivos à felicidade. Viajo para lugares onde uma grande parte da população reinventou formas diferentes de ser/estar feliz e espero reencontrar-me com uma ambiência que já conheço. Para além de uma atracção inexplicável por essa parte do mundo, é sobretudo esse o sentimento que me impulsiona.
Hasta la vista!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Trinta anos atrás

(retrato do aspirante a artista ainda na fase nefelibata - Almada - 1978)
NB. Um cabelo igual, nos tempos que correm, só com peruca, implante ou extensões.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Insone

(O velho guitarrista - Pablo Picasso)
Silenciosa e escura a noite
Vai longo o negro manto que a rodeia.
Não adormeço; assim minh'alma anseia
Que nasça a madrugada e a luz se afoite.
Tudo dorme... só eu, como um açoite
Despertando a matéria triste e feia
Me faz pensar na treva que se enleia
P'ra me roubar sentido onde me acoite.
Pergunto então às trevas o motivo
Para o meu estar alerta, sempre vivo,
Quando tudo parece adormecer...
Nem Morfeu acalenta os meus receios.
Jamais alguém entende os meus anseios
Por estar na vida só e... não viver!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A autarquia mais romântica

(Amor - Terras do Lis - Novembro 2008)
Viajando de bicicleta "allterraine", dista uns escassos 30 minutos da minha casa a freguesia mais romântica de Portugal. O topónimo deve-se aos amores de D.Dinis que, segundo reza a História, ficou conhecido como "O Lavrador"; mas, de acordo com fontes avisadas, e para grande desgosto da senhora do Milagre das Rosas, o que o homem gostava mesmo era de lavrar em seara alheia. Há quem defenda a alteração do nome da freguesia para "lugar de bastardos", já que foram tantos os ilegítimos que El Rei deixou no ventre de toda a camponesa noviça que assomava rente ao seu corcel. A título de curiosidade, certamente por marialvismo desfasado ou vergonha de camponês, as gentes cá da terra recusam-se a dizer que moram em "Amor". Dizem, sim, e todos sem excepção, que são de "Ámor". Que mariquice dizer que se mora em Amor! Eu não moro em Amor, mas numa freguesia vizinha da dita e creiam-me: dá-me um gozo irreprimível ignorar a silaba tónica que os nativos daqui arranjaram para se salvarem da palavra proibida, indizível. Eu digo sempre, Amor, quando me quero referir ao lugar em questão. Quer-se lá coisa mais linda do que dizer que se mora em Amor, que se faz amor em Amor, ou que se é filho de Amor?!

domingo, 9 de novembro de 2008

Amanhecer

(Amanhecer ténue - janela do escritório - Leiria - Novembro 2008)
Por entre o arvoredo e a ramagem Oiços os trinados d'aves graciosas Oiço ao longe canções harmoniosas Sinfonias de cor numa mensagem. Andam vozes loquazes pela aragem Da fragrância das flores, tão caprichosas O céu e as nuvens, agrestes, buliçosas, Que me visitam nesta curta passagem. A Terra a renascer tudo o que é velho Faz o Céu mais azul, o mar um espelho A reflectir a luz que tudo encanta. [Sinto sono e torno ao ninho E idealizo coisas com imenso carinho Que me apertam este nó na garganta]

É proibido proibir!

(Vale do Liz - Leiria - Novembro 2008)

A apologia do silêncio

Há quem aprecie uma boa conversa, e ainda bem! Mas parece muito mais frequente, muito mais atractivo e desafiante o desconversar. Num tempo em que falar se vai espartilhando à necessidade de dar e obter informações, e se usam subterfúgios sofisticados para falar sem se confrontar com cúmplices ou antagonistas, os ensaios de desconversar ainda são um reduto com um qualquer sentido. Cada vez tenho menos paciência para as pessoas com toques polifónicos na voz - à semelhança dos telemóveis 3G -, que adaptam o tom vocal à medida da circunstância e do interlocutor; e muito menos para os/as intelectualóides incandescentes que fazem jus de exibir constantemente as suas imensas riquezas culturais: "Olha bem que culto/a que eu sou! Conheces o escritor X? Não?! Não acredito que nunca tenhas lido nada dele! É tão conhecido!" - Leia-se: És burro e eu sou mais culto/a do que tu. Por causa da minha absoluta falta de paciência para aturar esta gentinha com necessidade constante de auto-afirmação, cada vez me remeto mais para um género de comunicação unilateral - um pouco autista mas, seguramente, menos conflituante: o monólogo. Recuso-me a participar de discussões grupais. Ou muito me engano e, porventura, estarei ficando irremediavelmente chalado, caso tal não seja verdade, ou nessas circunstâncias, sempre que discordo de uma ideia, ou do simples pensamento de alguém - que estava decidido a deslumbrar os outros e tinha a expectativa da anuência e do consequente aplauso geral - sou imediatamente atacado por uma matilha de intelectuais assanhados (em regra os meus voluntários algozes) que só atinge a saciedade após garantir a conquista do meu silêncio. E é por essas e por outras que cada vez dialogo menos. Monologo. Escrevo. Estou indisponível para: "Vai uma corridinha?" Vrrrummmm vrrrummmm!!!

Auto-retrato

(Monte-Real - Leiria - Novembro 2008)
Como formiguinhas, mais do que poderosos Sísifos, carregamos as nossas necessidades e as nossas possibilidades de consolação. Às vezes tropeçamos no útil, outras no belo, outras no nosso desajeitamento, coisa mais frequente em mim. Sabe-se lá porquê, desde há uns tempos a esta parte, virei ciclista multidisciplinar: tanto pedalo em troços de estrada como em picadas. A dois anos e pouco de atingir o meio século, constatei que não me é muito difícil fazer 40 kms de bicicleta numa manhã. Para tanto, bastou-me deixar a "pasteleira" sexagenária a gozar o já merecido descanso na garagem e optar por um corcel mais novo, com desmultiplicação de velocidades, suspensão dianteira e uns pneus aptos para todo-o-terreno. E foi apenas assim. Mas gosto da bicicleta velhinha na mesma. Apenas passei a respeitá-la mais e já não lhe peço os impossíveis que a sua provecta idade não permite. A velha senhora disse-me que se prazenteia mais com curtos passeios à beira do Liz e eu, como gentleman que sou, faço-lhe naturalmente a vontade.

Esta é a minha luz

(Leiria- Baixa- Novembro 2008)
É muitas vezes na transgressão, no delito que não é, porque não se inscreve naquilo que a lei considera, mas ultrapassa em muitos sentidos o instituído e o bem-pensante, que se torna para mim importante inovar. Muito mais importante do que continuar nos trilhos, ou deixar-me marinar nos lugares-comuns da vida, apetece-me encontrar respostas e combinações diferentes e, por vezes, com um prazer imenso, transgredir naquilo que os sábios e os sensatos afirmam ser a forma certa de ser ou fazer isto ou aquilo. Afinal quem é o dono da verdade? Eu? Eles? Entrega-se a mesma (verdade) a quem provar poder legitimamente possui-la. Eu tenho as minhas verdades que, para outros, podem ser perfeitas mentiras. E agora?