quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

As coisas que dizem sobre nós...

[Uma aparentemente inócua pesquiza no Google leva-nos a resultados surpreendentes. Imagine-se as coisas que se podem dizer sobre alguém com um nome semelhante ao nosso! Uma vez que em Portugal o Registo Nacional das Pessoas Colectivas, o Instituto da Propriedade Industrial, e outros organismos congéneres, não autorizam o registo de nomes de firmas confundíveis, porque será que cada pessoa, por maioria de razão, não deveria possuir um nome insusceptível de confundibilidade? Será que devo ponderar uma acção judicial, uma medida cautelar, ou o raio que seja, para me defender destes impropérios? Devo mudar de nome? Somebody help me!)
"Turn-key Noticia na FSP [link] informa que Alckmin afirmou que o projeto da linha 4 do metro que afundou em SP (e diga-se de passagem mandou uma meia duzia para de onde a Meg voltou) estava sendo executado na modalidade turnkey por recomendação do Banco Mundial (ou BIRD? ). A consequencia do chique termo turnkey é a polemica sobre quem recai a fiscalização da obra e consequente responsabilidade pela tragédia. Alias notaram que quase ninguem usou essa palavra para descrever o que aconteceu com o buraco. Tragedia no manual de redação da midia atual tem que ostentar de 50 mortos para cima. Pois bem, ainda na mesma noticia o Sr. Jorge Rebelo, diretor ou alguma espécie de aspone do citado banco, rebateu dizendo que era mentira e que a instituição que representa jamais havia mencionado tal termo. Eis que um(a) cidadão(ã), pesquisou sobre a coisa [link] (gosto muito de escrever coisa, me coloca ao nivel do mortais, coisa que está démodé na blogosfera atualmente) e descobriu que no contrato proposto pelo banco estava, sim, recomendado a modalidade turnkey para a execução da obra. Ou seja, que o Sr. Jorge Rebelo é um mentiroso ou então um irresponsavel que não lê os contratos que administra. A razão deste é apenas ilustrar que há mais ficção na vida real do que na internet. Ou seria o contrario ? Obs: Turnkey não tem pooorra nenhuma a ver com preço fechado. Você pode fazer um projeto desse tipo e cobrar por hora e material dispendido, o chamado time & material."
(Fonte: internet)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Lx

Hoje entendo bastante melhor aquelas conversas sobre as raizes, a saudade, acerca da necessidade que sentimos de revisitar os lugares da nossa infância e da nossa juventude. Fiz de Lisboa, e das suas cercanias, os lugares de eleição para a maior parte do meu viver. Não digo que não gosto da cidade que hoje me acolhe. Não, não se trata disso. Digo, sim, que Lisboa faz-me falta. Faz-me falta ver a sua luz, escutar o ruído dos carros eléctricos nos carris, vencendo a custo as encostas íngremes de Alfama e da Mouraria; deambular pelas ruelas estreitas, com os seus cheiros caracteristícos; alegrar-me com os pregões das vendedoras de flores e castanhas; enternecer-me com a visão das águas argênteas do Tejo ao entardecer. Fazem-me falta os miradouros, para observar os barcos que cruzam o rio em silêncio, com as velas brancas desfraldadas, curvando-se sobre a água ao sabor das brisas repentinas; faz-me falta ver os navios de cruzeiro sairem do cais de Alcântara, entre um ou dois apitos lugubres, mas sempre magestosos; fazem-me falta todos os ingredientes da cidade, sem que consiga dispensar um que seja, sem olvidar um único néctar; e agora que dela me afastei, agora que a perdi, é que sinto a falta que a sua presença me faz. Geralmente é sempre assim: quando perdemos as coisas que amamos, ganhamos uma novissíma capacidade: a de medir o justo valor do quanto perdemos. E a vida assim acontece, para o mal ou o bem de nós, quase sempre igual.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

De ti sinto

Escuto a tua voz convocar-me Estou pronto e vou te reaver, Nesta senda sigo os teus passos Mesmo com o risco de fenecer,
Minha vida quebra, molda e usa Quis ser um vaso nas tuas mãos, Também quis ser como um espelho Reflectindo sempre o teu padrão, Deixo-te com um beijo esta poesia vã. Exorto-te hoje e admoesto-me, Por culpa de viver nos cumes do vento, Por tudo quanto por ti sinto logo pela manhã.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Parabéns a você (mesmo)

Parabéns J. Que este dia se repita por muitos anos, com boa saúde, e a mesma vontade indomável de comer duas fatias daquele bolo de chocolate enormissímo que está ali dentro. Obrigado pela camisa às riscas, R. É linda! Acho que me fica a matar. Confesso que fiquei um nadinha vaidoso quando me vi ao espelho com ela...
Madrigal

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Crónica das coisas sem importância

Na sexta-feira passada já o tempo ameaçava vendavais. O céu, nos últimos dias limpído e ameno, tornou a dar mostras de luto carregado e as nuvens prantearam águas logo aspergidas por um vento agreste vindo do norte. A alegria breve, esperanças vãs de uma Primavera precoce, cedo se esbateu perante os ditames da natureza. O tempo está em harmonia com a estação. Estamos em Fevereiro, em pleno Inverno, e as escassas tréguas que por vezes se fazem sentir, não significam de modo algum o fim das hostilidades. São meras graças, intervalos, gracejos do tempo, ou que se lhe quiser chamar. Porém, não nos iludamos. Um sorriso breve não significa que a alegria veio para se eternizar. Uma manhã azul não traduz a esperança de que mais nenhum céu grisalho tornará ocupar toda a largura do céu; o trinar dos pássaros nas árvores, que há poucos dias escutava no parapeito da minha varanda, não significa que as avezinhas não vão de novo recolher à segurança dos ramos frondosos, tiritando de frio, com as asas encharcadas pelas grossas bátegas. Afinal, a Primavera, com todo o seu esplendor, ainda está para chegar. A nossa vida é muito semelhante às estações do ano, aos ciclos com que a natureza nos prenda. Depois da tempestade vem a bonança, assim reza o senso comum. Vejo nisto um "princípio de elasticidade" aplicável a qualquer coisa: atingida a tensão máxima, o lógico é que de seguida ocorra a distensão. A Primavera é a metáfora mas linda do vocábulo esperança. Depois da negritude do Inverno, a vida volta a florir com toda a pujança; os ramos das árvores vestem-se de cor; os campos verdejam; as aves trinam flauteados e ensaiam bailados no azul do céu; o sol volta a flamejar na magnitude das horas e a vida, sim a vida, ganha ritmos novos, laivos de perpetuidade...
Porque será que escrevo tantas coisas sem importância? Porque será que perco tempo debitando frases triviais, auscultando constantemente os sentidos, fraseando os olhares que derramo sobre a natureza e que estão ao alcance de qualquer um? Donde vem esta minha necessidade de falar sobre o óbvio? Donde vem toda esta redundância? Penso que a culpa seja dos suspiros. É isso sim: são os suspiros os culpados. Eu suspiro sobre todas estas coisas e depois tenho a impudícia enorme de lhes conferir uma forma escrita. Talvez por esse motivo tenha apelidado este texto brevissímo de "Crónica das coisas sem importância", pois tratam-se de coisas que só têm mesmo importância para mim.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Mente simples... a minha

Esta manhã um pequenino pensamento apoderou-se de mim. Acho que as pessoas são más, têm explosões de mau génio, raiva, vontade de não serem amáveis, porque estão tristes. Porque a sua vida é muitas vezes fonte de dissabores e frustrações; e, pior que tudo: não conseguem o auto-controlo essencial e a especialidade para encontrarem um sorriso na reacção perante as adversidades. Também para isso é necessário treino, modificação comportamental e valoração da espiritualidade como lema para o dia-a-dia. Começa-se pela vontade de mudar... e sobre isto é tudo o que sei.

Os Cantos de Maldoror - "Mão Morta"

Pese embora se trate de um agrupamento musical arrivista, talvez "moderno" em demasia para os gostos que me habitam, suscitou-me bastante curiosidade o espectáculo que eles vão dar na minha cidade. Trata-se de um show que promete ser ímpar. Os "Mão Morta", certamente com a cumplicidade de mãos e dedos bem vivos, vão mesclar a sua música com o teatro, o vídeo e a declamação. A partir de "Os Cantos de Maldoror" - a obra-prima literária que Isidore Ducasse, sob o pseudónimo de Conde de Lautrémont, publicou no século XIX - vão dar vida às vozes do herói Maldoror e do narrador Lautrémont. Imagino que se trate de algo interessante de ver, para quem leu e se recorda do ambiente fabulástico do livro em questão, povoado de caudas de peixes voadores, polvos alados, homens com cabeça de pelicano, cisnes carregando bigornas, combates sem tréguas, entre outras visões. A adaptação da obra ficou a cargo de Adolfo Luxúria Canibal, um homem pródigo em surpresas; e, pelo que dele conheço, bem capaz de emprestar o "tal" toque de loucura suprema a todas as empresas em que se envolve. A ver vamos.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Murmuro dentro de mim

Desde os tempos em que a minha imaginação tinha rodas, E o meu rosto dormitava no vidro frio das janelas, Desde os tempos em que escutava trovoadas premonitórias, E via abeirarem-se de mim imagens desfocadas – espectros Descobri que a ausência de luz me fazia tremer de medo, Que havia um teimoso murmúrio dentro de mim, Sussurrando-me, amiúde, diatribes, farsas, jocosidades Hoje sei: não é fácil lidar com a embalagem que forra os meus sonhos...

A new concept - the ultimate Mini-desk!

Andava eu a pensar numa nova secretária para o meu PC quando me foi sugerida esta solução que alia a estética avantgard à funcionalidade e algo mais - com um motorzinho baratucho, garantiram-me que o Mini ainda pode fazer uns kms valentes! - E, que graça! Só há um pequeno problema logistíco para resolver: o carrinho não cabe no elevador e dúvido que o consiga fazer entrar pelas janelas da varanda! A seu tempo veremos como o irei meter cá dentro. Palavra de Mini!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

De Leiria a Aveiro - uma cidade ciclável tb por cortesia das "Bugas"

Talvez seja essa a melhor receita para um passeio domingueiro e que por certo muitos seguem: a gratidão libertária do puro improviso. Sai-se de casa sem destino certo, conduzindo sempre pelo litoral, saboreando o odor verde dos pinhais e da brisa suave que chegam vindos do lado do mar. O rádio, sintonizado na "Comercial", regurgita com os conhecidos êxitos de André Sardet, enquanto o ronronar do motor ecoa contra os altos pinheiros que ladeiam a estrada produzindo o retorno de um som intervalado. Pardalitos e outros avejões negros saem das árvores sem aviso prévio e ensaiam voos rasantes junto ao pára-brisas do automóvel. Alguns, preguiçosos demais para abrirem as asas e voar, atravessam a estrada aos pulinhos, como se tivessem molas sob as patas, indiferentes ao trânsito que passa, jogando a vida numa espécie de roleta russa [Será que as aves também fazem apostas radicais entre elas, tal como os motoqueiros da minha juventude, que percorriam a marginal Lisboa-Cascais conduzindo em sentido inverso? Nunca o saberemos.]
O sol de Inverno finge ser Verão e chega a enternecer pela sua tenacidade e boa vontade. Aquece um pouco, finge que bonzeia a pele, mas cedo desmaia, deixando-se vencer pela magnitude da noite, por estas andanças do ano, reinante soberana de todas as horas. A Lua de Fevereiro chega ao céu às horas que lhe apetece. É sobranceira, caprichosa e demasiado imodesta para dar satisfações a quem quer que seja. Se lhe apetecer vir às cinco da tarde, vem. Por vezes lá concede um ar da sua graça e deixa o sol rir até mais tarde; mas como lhes digo: tudo depende da disposição e dos caprichos que lhe guindam a vontade. O céu desta vez manteve-se azul até tarde e o astro-rei proporcionou um pôr-do-sol maravilhoso sobre a Ria de Aveiro. No caminho, uma paragem obrigatória perto de Ílhavo para degustar uma vitela estufada no forno. Depois, já de estômago repleto, refeito da fome que há muito aflorava, seguiu-se a paragem em Aveiro, junto ao canal principal. Àquela hora, os moliceiros de cores garridas, repletos com os turistas do sol, deslizavam suaves pelo grande canal enquanto na margem norte uma feira de artesãos dava mostras da sua arte.
Aveiro é das cidades portuguesas onde mais se pedala e a bicicleta é um meio de transporte efectivo usado por todas as faixas etárias. BUGA é o simpático nome pelo qual são conhecidas as bicicletas verdes que a Câmara Municipal coloca à disposição dos municípes - e de quaisquer visitantes - para que, de uma forma completamente grátis, todos possam usufruir da beleza dos canais que percorrem a parte baixa da cidade. A ideia não é nova. Nos anos setenta e oitenta do século passado, já tinha visto na Holanda e na Dinamarca, mormente nas cidades de Amsterdão, Roterdão e Copenhaga, milhares de ciclistas deslocando-se para todos os lugares. Copiar tudo o que resulta bem é uma atitude que não só denota inteligência como uma legitíma preocupação com a qualidade de vida das populações.
Não pretendo comparar Aveiro com as lindissímas Veneza ou Amsterdão, que tão bem conheço, mas reconheço nos canais da Ria uma paisagem peculiar e única. Amei ver os edificíos mais emblemáticos, estilo Arte Nova, repletos de azulejos antigos, bem como os relvados imensos, a cor, o bom gosto, o asseio e a paz que a cidade exala. Adorei, também, o meu passeio de BUGA, uma bicicleta não tão carismática como a minha pasteleira, mas igualmente funcional e resistente qb. Enfim, Aveiro ficou-me no goto e no coração e penso um dia lá voltar. Há oito anos que não ia à cidade dos moliceiros e dos ovos moles e desta vez ainda a encontrei mais bela que outrora. Linda!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A casa ganhando cor e forma

Demorou imenso, mais do que alguma vez pensara, mas finalmente consegui: tenho de novo os livros nas estantes. Foi o coroar de um enorme esforço, tanto físico como de apelo à memória e no final vi-me a braços com largas dezenas de caixotes de papelão que tiveram de ser de transportados até ao contentor do lixo mais próximo. Perco a conta às vezes que subi e desci o escadote com os braços atafulhados de livros, das artimanhas para me conseguir lembrar do seu lugar primitivo e das prateleiras que tinham constantemente de ser ajustadas para que os volumes mais crescidotes pudessem de novo lá caber. A páginas tantas, as carradas de volumes que dormem nas prateleiras mais elevadas pareciam querer desmoronar-se sobre mim, mas tudo acabou por se compor e no final os livros pareceram-me satisfeitos com a nova casa. Gozam de um espaço ainda mais folgado do que o anterior, recebem a luz terna da tarde que lhes aquece as lombadas e foram-lhes reservadas as duas paredes maiores da sala. Como em tudo na vida, há na ordem das coisas um princípio, um meio e um fim. Pelo menos assim rezam a maioria das histórias que conheço [com excepção da história da minha própria vida, já que são tantas as voltas que ela tem dado que desisti de fazer previsões a longo prazo]. Hoje, só um dorido eterno na barriga das pernas, acompanhado de uma sensação de moinha geral em toda a estrutura óssea, trazem-me à memória as tarefas árduas daquele Sábado. Não fora a ajuda querida e preciosa que me foi ofertada e o banho redentor na "piscina infantil" – cada vez que me imagino a olhar para a conta do gás no final do mês, sinto arrepios de frio percorrerem-me a espinha! -, que durou mais de duas horas, receio que ainda agora não estivesse inteiriço. Sem as "minhas coisas" nos devidos lugares - e quando me refiro a elas é com o sentido preciso de dizer que elas me integram e são essenciais - dificilmente me vejo equilibrado.
Volto às predominâncias. Sei que já não consigo ser sem que elas façam parte das estéticas essenciais que me rodeiam e confortam. Os tons da sala são maioritariamente verdes. O verdete pugna nos abat-jours, nas molduras das fotografias, nos motivos do tapete de Arraiolos bordado pela minha mãe, bem como nos dois maples pequenos que emparceiram com o sofá de couro, guardião das minhas preciosas sestas. A lareira não é central, antes ocupa todo o canto direito do salão. À noite, os livros e as paredes rebrilham com os clarões vermelhos que saem do fogão de sala e dançam como volúpias de calor em redor de mim. É bom dormitar no sofá, escutando o crepitar da lenha, e deixar que a modorra nos envolva como fora um abraço protector. Não raro, deixo-me dormir nestes quentinhos e depois é a custo que me arrasto para a cama.
De manhã, da janela do meu quarto, enquanto me visto depois do banho, todos os dias observo, não muito longe daqui, uma quintinha que tem sempre uma quadra de vacas a pastar num prado verdissímo. Ao fundo tem um tractor antigo e ferrugento, troncos de lenha dispostos ao comprido, um depósito de água e uns anexos, que presumo se destinem à guarda dos animais e das alfaias agrícolas. Em frente, mas num plano mais distante, consigo ver a movimentada estrada nacional que conduz até Coimbra; e, mais para a direita, a A-1 para Lisboa. Noutro ângulo, muito ao longe, a Serra de Aires e dos Candeeiros, Porto de Mós e os seus moinhos brancos e majestosos sempre a girar, quantas vezes envoltos na espessura azulada da manhã. Quando a noite cai, ganham umas luzinhas escarlate na cabeça, ao que dizem, por causa dos aviões não chocarem contra eles?! Gosto de viver nas extremas da cidade, num lugar que já tem os pés assentes no campo; do cheiro da madeira queimada saido das inúmeras chaminés; do som dos cães a ladrar ao longe, para lá dos muros altos das moradias aburguesadas destes leirienses que parece não saberem o que é viver com parcimónia.
Não tarda chega a Primavera. Já só falta pouco mais de um mês. Por essas alturas, encherei a minha varanda de amores-perfeitos (só existem mesmo na natura, garanto-vos!) de rosas e jasmins e prometo que o meu varandim vai ser o promontório mais lindo que Vale Sepal algum dia conheceu.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Carmina Burana em Leiria

Carmina Burana é sem dúvida a obra mais célebre do compositor alemão Carl Orff. O músico-compositor tomou os textos de uma colecção de cerca de trezentos cantos escritos por cléricos e estudantes vagabundos dos séculos XII e XIII, que levaram uma vida dissoluta, contrária às regras cordatas que à data a Igreja propalava e compôs em 1937 - o nazismo há muito se instalara na grande nação germânica - uma cantata escénica. Nos poemas glosados, incluem-se canções de amor, de taberna, sátiras, modas estudantis e em todos há uma constante bastante peculiar: a elegia ao amor faz-se acompanhar da apologia dos prazeres carnais. Trata-se de uma abordagem afoita e que choca frontalmente com a concepção que tradicionalmente se atribui ao medieval. Mas é daí que lhe vem a graça e o interesse.
Carmina Burana é para mim uma ópera demasiado conhecida - creio que será a terceira vez que assisto à sua representação - mas estou certo que em todas as performances nada se manterá igual. A irrepetibilidade "tal e qual", a margem para o improviso e para o erro, são, porventura, das maiores magias dos espectáculos ao vivo; e que muito me cativam. Desta vez é num pequeno cine-teatro, recentemente restaurado com as melhores condições acústicas que a tecnologia de hoje conhece, que vai ter lugar mais uma representação da celéberrima ópera. Se Deus quiser, lá estarei, refastelado em camarote, de libreto na mão.