sexta-feira, 30 de maio de 2008

José Franco, ceramista, homem do povo que sonhava com as mãos

(O seu busto junto às palavras do malogrado escritor, Jorge Amado, seu amigo de longa data)
(As botas do ceramista junto à matéria-prima com que moldava no fiar dos dias)
Sobreiro - Mafra - Maio de 2008

A Aldeia de José Franco, em Sobreiro, na região de Mafra, contém variadas colecções de cerâmica reproduzindo a vida rural quotidiana, bem como muitos objectos antigos, como alfaias agrícolas, mobiliário de aldeia e espaços do início do século XX, como a escola primária. No seu atelier, José Franco, até há bem pouco tempo atrás, continuava a produzir diariamente peças em barro. O ceramista dedicou-se principalmente à arte-sacra, sendo por isso conhecido em todo o mundo, podendo encontrar-se obras da sua autoria inclusivamente no Vaticano. No entanto, a sua obra mais conhecida e popular continua a ser a construção em miniatura de uma aldeia saloia do início do século XX, onde podem ser apreciadas cenas da vida da época, realizadas por bonecos mecanizados, principalmente movidos a água, bem como lojas em miniatura que ilustram as mais diversas profissões, muitas delas, hoje em dia, completamente abandonadas. É evidente a falta de erudição do artista, plasmada na ausência absoluta de rigor ou critério, e na doce ingenuidade com que construiu todos os cenários - carrinhos de plástico e latão, em tamanho desproporcionado, misturam-se com casas de aldeia em cenários bucólicos, tudo acompanhado por músicas folclóricas - mas é curiosamente essa sua vertente naif e inventiva, de uma ignorância doce, que dá cunho, cor e magia ao artesão. Embora seja só um palpite meu, creio que Jorge Amado ter-se-á inspirado em José Franco para moldar muitos dos seus personagens. E não custa nada acreditar.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Nas quietudes do Porto - ou as memórias de um eterno candidato a fotógrafo

(Passeio empedrado junto ao Douro - Porto - Maio de 2008)
1. Sempre que passeio pela Ribeira, na cidade do Porto, lembro-me com alguma saudade do filme "Aniki Bóbó", realizado pelo quase centenário Manuel de Oliveira, em especial a cena em que as crianças de rua, em atitude displicente e festivaleira, praticavam mergulhos afoitos nas águas profundas do Douro. A cena foi filmada há muitos anos atrás e, segundo me contaram, bastante perto do cais onde obtive esta foto. O tom monocromático da imagem, quase sépia, ajudado pelo contra-luz e por um céu momentaneamente nevoento e descorado, ajudaram a imprimir a mensagem de solidão que pretendi transmitir. O súbito aparecimento de um trauseunte solitário na calçada, bem como a opção por dar algum realce à profundidade de campo, ajudaram a enfatizar o efeito pretendido. O Porto, por ser tão belo, romântico e melancólico, merece ser fotografado em dias com uma luminosidade mais generosa, para que se possa tirar mais partido dos detalhes, dos contrastes, do aproveitamento das sombras e da saturação das cores. Felizmente, há muito tempo que abandonei os filtros polarizadores, entre outros; as máscaras e as manipulações "mágicas" das fotos; as objectivas angulares e as teles ultra-sofisticadas - tudo apetrechos que, hoje reconheço, só atrapalhavam e faziam-me perder tempo precioso com as afinações técnicas em detrimento da concentração na imagem de per si: afinal o mais importante.
2. Há cerca de 28 anos atrás, frequentei um curso de fotografia na famosissíma "Escola do Arco", junto à velha prisão do Limoeiro - onde hoje funciona o actual CEJ - que, de resto, nunca cheguei a terminar, mas que me apetrechou com alguns conhecimentos, ainda que rudimentares, na arte de fotografar e das práticas laboratoriais a preto e branco. Já nessa altura os jovens alunos, todos eles com pretensões a virem a ser fotógrafos, veneravam as grandes "bombas" tecnológicas da época, com destaque para a Canon A -1, a Nikon F3 - o "cavalo de batalha" dos foto-jornalistas, como lhe chamavam - a Hasselblad, a Karl Zeiss, a Mamya, entre outras; e, igualmente, os fotógrafos internacionais de maior referência onde pontuavam os fundadores da Magnum, com enorme destaque para Frank Kapra e Cartier Bresson, este último uma espécie de "vaca sagrada"do foto-jornalismo. Também eu era um fã incondicional de Bresson que utilizava somente uma Leica (uma máquina fotográfica, ainda nos dias de hoje, considerada soberba, em especial pela altíssima qualidade da sua lente) com uma objectiva fixa de 35mm e rolos preferencialmente a preto e branco. Cartier recusava-se, para além de um simples tripé de pequeno porte, a usar quaisquer outros acessórios. As belíssimas fotos que obteve ao longo da sua vida, devem-se à sua natural apetência pela arte e, sobretudo, ao facto de ter sabido estar nos ângulos certos no momento do acontecimento. Humanidade, franco gosto pela estética e sentido da oportunidade, estavam entre as suas melhores qualidades, a que se aliavam sólidos conhecimentos técnicos. Estou certo que, caso lhe fosse solicitado fotografar a cidade do Porto, Bresson obteria melhores resultados com uma Kodak instantânea, do que um fotógrafo inepto, despojado do mínimo sentido artístico, ainda que armado até aos dentes com a artilharia pesada do arsenal fotográfico digital dos nossos dias. O fazedor de artes carece de conhecimentos técnicos para se apurar e conseguir melhores resultados, mas se a divina providência não o tiver dotado da verve necessária, não há santos que lhe valham. Creio que está escrito nas estrelas o que vai acontecer a cada um de nós e não vale a pena fugirmos dos nossos destinos, pois eles já se encontram pré-determinados. O mundo digital ainda é bastante desconhecido para mim, embora lhe reconheça imensas virtudes, mas continuo crente que os resultados obtidos com o método analógico, pelo menos no que respeita à fotografia impressa, continuam imbatíveis. Eu gostaria de continuar a tentar ser melhor fotógrafo, de preferência com humildade e usando maiores simplicitudes, renegando os "truques" da sofisticação, como se estivesse a começar do zero, já que foram tantos os anos que andei arredado das fotografias. Caramba, como foi possível?! Uma actividade que eu tanto amava!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Azulejaria na Sé de Viseu

(Um triptíco de belos azulejos quinhentistas alusivos a algumas passagens da História Religiosa
Viseu - Sé - Maio de 2008)

Os sábios e os sofistas

(Oiçam-me, candidatos a sofistas do SIMPLEX!)
Face à intensa ciber-revolução que se encontra a decorrer na Admnistração Pública, com o intuito, aparentemente benigno, de tornar mais céleres os procedimentos para os cidadãos, aumentando a sua eficácia e diminuindo prazos e documentos anteriormente exigidos, criaram-se, no âmbito do SIMPLEX, uma série de aplicações informáticas, cujas siglas encerram vocábulos misteriosamente semelhantes - SIRCOM; SIRP; SIRIC - que se vieram juntar a outras já existentes. A palavra de ordem para os funcionários (ainda não demissionários) é a seguinte: independentemente da qualidade da formação que lhes seja dada, ou ainda que na ausência dela, urge cumprir objectivos previamente traçados para cada serviço e também para cada funcionário individualmente considerado. A sanção mais grave para o incumprimento dos mesmos (que são sempre objecto de informação subjectiva das chefias - daí a celebérima "graxa" ter ganho, agora mais do que nunca, um papel fundamental em todo o processo - é, sem peias ou eufemismos, um despedimento "com justa causa" - Os temidos "patins" colocados nos pés dos funcionários, acompanhados por um generoso empurrão nas costas para ajudar ao avanço. É um espectro que paira sobre todos nós. Mas as aplicações informáticas enfermam de erros graves: o "sistema" cai a qualquer momento, muitas vezes sem pré-aviso, inviabilizando os almejados céleres procedimentos "on line" e o público desespera e suplica pelas velhas práticas "à mão", mas a resposta que ouve é sempre a mesma: "Essa prática já não existe e é impossível fazê-lo de outra forma. Sem sistema não podemos fazer nada." Sabe-se de casamentos que não se puderam realizar no dia marcado porque o sistema informático do Registo Civil estava off e não lhe apetecia de todo ficar in - o contrato mais importante do Direito Civil depende dos caprichos de uma máquina! - bem como de muitos outros procedimentos, que seria suposto acontecerem no momento, ficarem sem realização. Imagine-se um acto judicial, praticado por um magistrado em plena audiência de julgamento, ficar por realizar só porque o sistema está off! Parece-me estar a imaginar um juiz a falar mais ou menos assim: "Tenham paciência. Levem de novo o recluso para a cela e telefonem-me antecipadamente para saber se o sistema está in, para que eu nessa altura possa ter acesso aos dados informáticos que me permitem decidir qual a medida que devo tomar. Entretanto, mais uns dias "à sombra" nenhum mal lhe farão. Com certeza que o recluso vai entender que as aplicações informáticas ainda não são totalmente fiáveis e é tudo uma questão de tempo até que os técnicos do ITIJ afinem as melhorias necessárias ao bom funcionamento do sistema, a não ser que ele seja uma pessoa desrazoável e nesse caso levarei isso em consideração. Vá, vão embora agora que tenho mais que fazer e não se esqueçam de, antes de o trazerem de novo, telefonarem para saber se a internet está a funcionar!"
Se cuidarem de me "fazerem a folha" - não conheço no nosso vernáculo outra expressão com um sentido mais preciso - tornar-me-ei indigente, sem-abrigo, descuidado, poeta a tempo inteiro, pedinte, irresponsável, caloteiro; enfim, um porco, feio e mau, tout court. Penso deixar crescer as barbas, abolir os banhos diários, assim como qualquer tipo de higiene, e farei como tantos outros já o fizeram: junto todos os meus marcadores coloridos, rascunho uns cartazes de tamanho gigante e prego-os ao longo das árvores que ladeiam o Liz. Nessa altura, sentar-me-ei num banco de jardim, estendendo a mão à caridade. Espero que, ainda que por gozo ou comiseração, algum trauseunte mais paciente, pare e leia os meus escritos repletos de súplicas, zangas, escárnios e maldizeres. Entretanto, os dias sucedem-se, o tempo avançará inexorável e, com a chegada das chuvas, a tinta vai esborratar todos os meus escritos. Nesse tempo já ninguém me encontrará sentado no tal banco do jardim, pois tenho a certeza de que já estarei noutro lugar - que, por acaso, até já o tenho escolhido, mas por ora não vos digo aonde fica.

"As Horas"

("As Horas" - 16h:40m, segundo uma visão (sem óculos) do meu relógio de punho)
"As Horas"- o livro fabuloso de Michael Cunningham, inspirado na vida de três mulheres, mormente na da famosa escritora Virginia Woolf, é uma obra que vale sempre a pena reler - coisa que eu de facto fiz, após também ter revisto o filme, realizado por Stephen Daldry em 2002, que conta com a interpretação magnificente de Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep.
Virgínia é desterrada para Richmond nos anos 20, apartada do seu grupo de amigos de Bloomsbury e ternamente vigiada pelo marido, Leonard, onde luta sem sucesso para domar o seu espírito rebelde e começar um novo romance. Em Los Angeles, nos anos 40, uma jovem mãe e esposa muito amada pelo seu marido e filhos, luta para se evadir da claustrofobia doméstica em que se encontra enleada e ler o seu precioso exemplar de Mrs. Dalloway. Na cidade de Nova York, nos anos 90, Clarissa Vaughan, uma editora de sucesso, sai do seu apartamento em Greewich Village para comprar flores que vai ofertar ao seu amigo Richard, poeta premiado, a quem a SIDA está a destruir a mente e o corpo. Em síntese, são estas as personagens que, embora tendo experienciado viver em tempos diferentes, simbolizam uma tríade onde estão presentes a reflexão sobre o amor, o empenho artistíco, o fracasso, a loucura, e as interrogações supremas sobre o sentido da vida.
Há livros, filmes e testemunhos, que me tocam de tal forma, que ficam fazendo parte daquilo que forra a minha forma de pensar e sentir. É certamente o caso deste livro, portador de uma rara beleza e sensibilidade finíssima, ganhador de imensos prémios, onde se inclui o Prémio Pulitzer, bem como da sua maravilhosa adaptação cinematográfica. As palavras de Michael Cunningham, que abaixo transcrevo, são assertivas quanto baste e não deixam margem para mais dissertações sobre o assunto. Resta-me acrescentar que me sinto em plena sintonia com as mesmas e que a leitura do seu texto me ajudou a confirmar quase certezas que já possuía sobre o assunto.
"Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais."
Michael Cunningham, in 'As Horas'

terça-feira, 27 de maio de 2008

Um bom dia, como qualquer outro, para matar.

(O chapéu de Pessoa sobrevoado pelo simbolo da paz - coisas que nada têm a ver; e por isso mesmo)
Lá fora chovia imenso e o dia ainda não tinha amanhecido por completo. Os poucos veículos que circulavam pelas ruas da cidade, andavam meio sonolentos, com os olhos pintados de amarelo baço, chapinhando os passeios e tudo em seu redor. No céu, nuvens cinéreas moviam-se lentamente para sul, como se tivessem sido sopradas ao de leve pela trombeta delicada de um anjo. Acabara de estacionar o automóvel junto ao Mercado Municipal, no parqueamento gratuito, bordejado pelos álamos gigantes. Escutava um trecho belíssimo de Rachmaninov e acomodara-me melhor no banco para ficar numa posição mais confortável. Havia chegado cedo demais ao meu destino e àquela hora ainda eram poucos os cafés abertos. Além disso, não me apetecia deambular sem rumo pelas ruas e ficar encharcado até aos ossos. Entretanto, pequenas lágrimas de chuva colavam-se cada vez mais aos vidros, ao mesmo tempo que um embaciamento começava a desenhar-se insidiosamente nos bordos das janelas. Algumas gotas, não aguentando mais o esforço, movidas pela força da gravidade, escorriam pelo envidraçado, formando riachos espontâneos sulcados de pequenos afluentes que morriam junto aos frisos das portas. Abri o porta-luvas e retirei a Magnum de 9 mm que se encontrava embrulhada, juntamente com um silenciador longo e perfurado, num velho pano alaranjado. Discretamente, coloquei-a no colo e comecei a desembrulhá-la. O odor forte, característico do óleo que se usa para limpar e conservar as armas, atingiu-me em cheio as narinas quase me obrigando a espirrar. A pistola era toda ela negra, pesada e portentosa. Era a terceira ou quarta vez que a ia utilizar, mas nunca havia tomado por alvo um ser vivo. Apenas havia disparado contra garrafas dispostas em cima de muros, troncos de árvores previamente marcados ou carcaças de carros nos sucateiros dos arrabaldes da cidade. Nunca matara ninguém, mas estava certo de que a minha determinação era absoluta e que chegado o momento não hesitaria em disparar. Não sei porquê, apeteceu-me provar o frio do aço do cano e toquei-lhe ao de leve com a ponta da língua. Imaginei que os assassinos profissionais tivessem rituais ainda mais estranhos, embora eu fosse um matador ocasional: alguém que pura e simplesmente julgara que outrem já não merecia o privilégio de viver. Retirei o carregador vazio da arma e substitui-o pelo cheio, que entretanto havia retirado do bolso dianteiro da gabardina. Nessa altura, os vidros do carro já estavam de tal forma embaciados que dificilmente alguém me poderia ver do exterior. Olhei uma vez mais para o relógio de pulso, verifiquei se a patilha do gatilho estava em modo de segurança, cobri a arma e semicerrei os olhos face aos tímidos raios de sol que se insinuavam. Tinha cessado de chover, embora o céu continuasse plúmbeo e ameaçador. Faltavam quarenta minutos para as nove da manhã. De acordo com as informações que recolhera acerca dela, sabia que tinha por hábito chegar ao local de trabalho antes da hora da abertura. Se as coisas batessem todas certas e não houvesse nenhum facto extraordinário que alterasse as suas rotinas, o mais provável era que já estivesse no escritório. Por isso, nada melhor do que fazer o trabalho rapidamente e sem a presença de testemunhas que, além de poderem atrapalhar a tarefa, também elas podiam acabar baleadas. Fechei as portas do automóvel e meti-me a caminho. Teria de percorrer somente quatro ou cinco centenas de metros. De gabardina fechada e as mãos totalmente enfiadas nos bolsos, caminhava em passo rápido por entre o amarfanhado de gente que entretanto começara a invadir o centro da cidade. No bolso direito transportava a Magnum, ao passo que no bolso do lado esquerdo tinha guardado o silenciador. Ainda pensei em parar algures para tomar um café – lembrei-me que nessa noite mal dormira e necessitava de algo que me mantivesse bem desperto – mas rapidamente a minha mente classificou esse pensamento como "extemporâneo". Lembro-me que cada vez que falava com alguém, ainda que muitas vezes a despropósito, gostava de usar esse adjectivo. E o mais irónico da questão, era que havia uma pessoa que estava prestes a perder a vida, exactamente por, entre outras coisas mais graves, ter usado contra mim epítetos que eu julguei ofensivos da minha pessoa e bastante desajustados. Agora já pouco interessava a justeza do motivo. A verdade é sempre a percepção que temos dela e eu estava certo de que a Mofina tinha de pagar com a vida a sua afronta, já que não cuidara de ter tido nenhum desagravo no que à questão concerne; antes pelo contrário.
Já me encontrava junto à porta do prédio onde se situava o escritório. Ficava no primeiro andar de um edifício centenário, mesmo no centro da cidade. As ruas, aos poucos, enchiam-se de gente e os ruídos invadiam-me os ouvidos. A porta da rua estava aberta e as escadas desertas. Nem me preocupei em acender a luz. Em lances rápidos, galguei os degraus que conduziam até à porta e, chegado ao andar, parei encostado à parede até ganhar de novo uma respiração serena antes de tocar à campainha. Reparei que tinha ambas as mãos a tremer. Com a firmeza possível, retirei a pistola do bolso e enrosquei o silenciador no cano.
Toquei à campainha ao mesmo tempo que batia com os nós dos dedos na porta com alguma insistência. Passados alguns instantes, escutei passos que se aproximavam - eram sem dúvida de mulher, a julgar pelo barulho dos tacões no chão de madeira - e ouvi distintamente a sua voz perguntar: "Quem é?" - Esperei uns escassos segundos e, com a voz mais disfarçada que pude, disse-lhe que era um gerente bancário e que vinha entregar-lhe uns papéis para a realização de uma operação comercial muito urgente. Ela entreabriu a porta e eu não hesitei: disparei vários tiros que a atingiram em pleno no rosto e na zona do pescoço, deixando-a prostrada no chão. Com a ponta do pé, empurrei o seu corpo para dentro do escritório e fechei a porta, usando a ponta da gabardina para evitar deixar as minhas impressões digitais. Desci as escadas rapidamente e, aparte os sons cavos, abafados pelos disparos feitos com o silenciador, apenas um cheiro intenso a pólvora ficou a pairar nas escadas. Tornei a meter a Magnum e o silenciador nos bolsos, que ficaram esburacados face ao intenso calor produzido pelo cano da arma, e perdi-me no meio da multidão que se dirigia para o mercado semanal. Não senti quaisquer remorsos pelo meu acto, nem as minhas emoções sofreram qualquer abalo nos dias que se seguiram; e segundo as melhores leituras que tinha sobre o assunto, não havia dúvida que me tinha tornado um psicopata; ou, porventura, já o era sem que o soubesse.
"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo…" In Tabacaria Álvaro de Campos

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O Céu

(O Céu em Montemor-o-Velho - Maio de 2008)
Eu hoje sou a manhã: apago estrelas!
Hás-de ver-me beijar todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda,
Mas nessa altura já será tarde de mais,
Pois estarei forrado de puro algodão,
Navegando à bolina num céu azul sem igual.

domingo, 25 de maio de 2008

Os olhos no areal da praia

(São Pedro de Moel - entardecer - Maio de 2008)
Anseava poder ter pintado aquela imagem que apareceu repentina no parapeito do meu olhar. No momento, os meus olhos descansavam rente ao areal. Era nela que pensava. Nos seus olhos meigos, onde cintila vagamente o mistério. Nas suas palavras doridas de tanto flagelo da vida. Na sua ânsia de amor. Compará-la-ia à flor mais linda do meu jardim, mas ela faz-me mais pensar na lua, esse astro melancólico e belo, umas vezes cor de açucena, outras vezes cor do amor, que tantas vezes me visita durante o sono. Qual será a cor do amor? A magia da fotografia reside no poder congelar o instante, tornando-o prisioneiro para sempre da nossa visão. Ao amor, prefiro-o livre, desagrilhoado, para que possa florir e viver com laivos de eternidade.

sábado, 24 de maio de 2008

Caldas da Rainha - uma visão

(O antigo Hospital e Sanatório das Caldas da Rainha - imagem obtida a partir do lago fronteiriço - Maio de 2008)

Mercado Municipal de Vila Franca de Xira

(O mercado central de Vila Franca de Xira - um marco na azulejaria portuguesa - Maio de 2008)

Farmácia Freitas

(Farmácia Freitas - Caldas da Rainha - Maio de 2008)
A moderna Farmácia Freitas, situada no centro histórico das Caldas da Rainha, constitui um paradigma no que concerne à preservação do nosso passado recente. A "Pharmácia" - antes apelidada "Botica", onde se adquiriam todo a sorte de unguentos, xaropes, bicarbonatos, plantas medicinais e outra medicação, à luz do conhecimento cientifíco da época - foi mantida e conservada na sua traça original (a entrada do estabelecimento ficou intocada) pelos proprietários que, para além de serem gente do metier, valoram a preservação da História. As gerações de hoje, e as que hão-de vir, por certo vos agradecem. Eu também vos agradeço o gesto e o bom gosto, bem como o terem-me deixado fazer o registo fotográfico do facto para sua ulterior divulgação.

Duas janelas

(Convento e Palácio Real de Mafra, Maio de 2008 - "duas janelas" - corredor que liga os dois torreões frontais)

Foi nessa tarde a primeira vez que a vi. Estava de pé, imóvel, frente a uma janela elevada por onde a luz do dia entrava incessante. A principio não lhe consegui divisar o rosto, somente os contornos da figura. Era uma mera silhueta a contra-luz, mais se parecendo com uma daquelas personagens dos antigos teatros de sombras, que se projectavam em superficíes planas e brancas, como se fora algo de mágico. Era uma visão quase espectral na imensidão daquele corredor infinito. Só com os olhos mais habituados à escuridão consegui ver que se tratava de uma bela mulher. Perguntei-lhe porque é que estava tudo tão escuro à sua volta? Porque é que as coisas não tinham cor? E ela respodeu-me: "Aproxima-te de mim. Não tenhas receio. Dá-me a tua mão." - E foi então que me apercebi que do lado de fora da janela o céu, afinal, era azul. Ela disse-me, com uma voz calma e segura, que o monocromatismo é, o mais das vezes, uma ilusão de óptica, uma forma de a nossa mente perspectivar as coisas. Mas se afinal assim é, qual a razão para a existência de grades na janela? Porque será que o belo tem de estar aprisionado? - Duas questões às quais ela nunca me deu resposta. Entretanto, deixei de a ver.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um tributo singelo à Maluda

(Sobreiro - Mafra - "Aldeia" de José Franco)
Maluda, detestada por uns, apreciada por tantos, entre os quais eu me confesso um eterno admirador, tinha um especial apreço por pintar janelas. Uma "obsessão" de resto tolerável a qualquer criador, tal como Picasso na sua "fase azul", ou Paula Rego com as suas figuras em angustia extrema; ou mesmo Botero com os seus personagens avantajados. Eu gosto de janelas. Aliás, sempre gostei imenso. Escrevo, leio, penso, quase sempre perto de uma janela. Gosto particularmente daquelas que se encontram muito na zona de Alfama, cheias de vasos de flores, numa profusão de cor e cheiros. Gosto das janelas pequenas, com cortinas rendilhadas, onde muitas vezes um bichano anafado espreguiça-se ao benfazejo sol da tarde. Também gosto das janelas das águas-furtadas, que misturam a visão das telhas em declive com o resto da paisagem. Uma janela é mais valiosa do que uma porta, pois alia várias funcionalidades: a estética, a importância de nos fornecer luz e vista para o exterior e a possibilidade de se poder optar por sair ou entrar por ela. Depois de tudo isto, quem precisa de portas? "Fecha-se uma porta, abre-se uma janela"

Decolores

(Praia da Vieira de Leiria - Maio de 2008 - Casas típicas de praia)
Uma Babel de cores primárias saturadas pela forte luz solar; um aldeamento de casas de veraneio onde a tristeza não encontra lugar para morar; um céu raiado por nuvens timidas, num dia de Primavera pleno de sons da natureza e mariposas esvoaçantes; um flautista e uma música que voa no campo num dia assim; coisas que ainda mais me despertam a sensibilidade. A moradia em primeiro plano, projectando uma sombra forte no chão, mas que nem por isso me reflecte. O meu desejo de passar uma noite numa destas casas-de-bonecas. As vezes que escutei tal anseio vindo da boca de uma criança que até já lhes perdi a conta...

O fascínio do olhar

(Ericeira - Maio de 2008 - Uma vista do miradouro junto à arriba)
No caminho entre a Ericeira e Santa Cruz, existe um dos miradouros mais lindos com vista sobre o Atlântico, donde se pode vislumbrar uma paisagem única, onde o céu e o mar se vestem de azuis diferentes, aprimorados pelo bailado constante das gaivotas e pelo cheiro da brisa que nos chega vindo do lado do mar. Apetece deixar o olhar morrer naquela imensidão divisando, nos pontinhos negros que sulcam a areia, os surfistas que aguardam a melhor oportunidade para cavalgar as ondas que se formam ao largo, até se desfazerem em morte espumosa e inglória no areal da praia.

Nas antípodas da (des)razão

(Sobreiro - Mafra - Maio de 2008)
(Esta trilogia, a meu ver, plena de simbolismo, pode muito bem ser interpretada do seguinte modo: a) Tu chegas e, como é óbvio, amarras o jumento à corda; b) De seguida, bebes um trago, ou o garrafão inteiro [talvez até seja melhor a segunda hipótese...]; d) Finalmente, deixas na caixa do correio alguma missiva de que sejas portadora)
Hoje ou mais precisamente neste momento decidi escrever sem usar qualquer pontuação uma vez que só o facto de ter de pensar onde é que as vírgulas os pontos finais os parenteses os travessões e outros sinais gráficos melhor se ajustam deixa-me deveras cansado e conclui que eles afinal não fazem falta alguma uma vez que quem eventualmente me ler fará as pausas que bem entender interromperá a leitura quando quiser lerá o que tiver na vontade e interpretará o que leu da forma que melhor lhe aprouver por isso à revelia de todas as convenções semânticas acordos ortográficos estilos boas práticas técnicas ateliers de escrita onde a nata dos mestres afina a pena dos candidatos a escritor hoje ainda que seja só hoje mesmo recuso-me a pontuar aliás apetece-me imenso ter esta irreverência talvez porque desejo erguer um memorial patético à minha inteira liberdade de expressão escrevendo conforme bem me apetece e sobre a temática que mais me aprouver completamente indiferente a eventuais juízos de valor uma vez que o mais das vezes o faço por deleite próprio sem cuidar de quem me lê ou se o faz embora tenha uma esperança ainda que vã que uma tal douta literata com o córtex cerebral untado com a resina saída da erudição dos babujares e estretores dos linguistas e gramáticos de reputação maior mestres que ela bem conhece lhe tenha torneado a mente de tal forma que a escrita na sua estreita visão só faça sentido quando praticada com regras muito próximas do rigorismo matemático ai que alivío acabar de ter dito isto é menos uma canga que tenho de transportar como se já não me bastasse o rodar dos anos apetecia-me mesmo um ponto de exclamação daqueles fininhos com um chapéu bem redondinho no cimo cabeça mas contive-me a tempo

terça-feira, 20 de maio de 2008

Um apontamento fotográfico

(Porto - Casarão de traça peculiar junto à Ribeira)

Sempre senti um fascinío enorme por casarões antigos, daqueles que exalam inebriantes odores a História; e nesse aspecto, o casco histórico do Porto, à semelhança de Lisboa, e também de Coimbra, constituem lugares óptimos para quem gosta de deleitar o olhar sobre construções centenárias. Neste caso, mais do que o policromático usado para colorir a construção, onde o rosa-velho ganhava preponderância face às restantes tonalidades, foi sobretudo a marquise, que torneava toda a fachada frontal da casa, que encheu os meus olhos de contentamento. O vitral em tons de azul cobalto, misturado com laivos de lilás, bordado na parte inferior por graciosos azulejos em tons de castanho esverdeado, depois de trespassado pela luz resplandecente vinda do Douro, que entrava em cheio pelas vidraças, conferia àquela casa um halo sobrenatural. Lembro-me que, por momentos, desejei intensamente tocar à campainha, falar com quem lá estivesse e, sobretudo, suplicar-lhes que me deixassem entrar naquela casa que exalava uma luz celestial. Dominada muito a custo a minha exacerbada fantasia, limitei-me ao retrato, o registo que publico, e assentei as solas dos sapatos um nadinha mais rentes ao empedrado do chão. É que a minha propensão para esvoaçar por vezes esquece normativos, "realidades", bom senso, o que deve ser, o que tem de ser, o que é "normal", e enfuna-se para outros lugares - que se calhar só existem na minha imaginação - sem cuidar de limites. Creio que já é tarde para mudar, por isso mesmo esta noite vou tentar adormecer, pensando que me vou deitar num dos quartos daquela mansão cor-de-rosa, e logo cedinho pela manhã acordarei envolto num manto nublado onde predominarão os tons de azul. É esse, hoje, o tema do meu sonho.

domingo, 18 de maio de 2008

Uma tarde solarenga no Porto

(Velho casario frente à Alfândega)

(Torre dos Clérigos vista da "Rua Escura")

(Vista da Ribeira, junto ao Cais)
Numa destas tardes de Domingo, depois de degustar um benfazejo leitão num dos muitos restaurantes que enxameiam a Mealhada, quis o destino que continuasse viagem rumo ao Porto. Há muito tempo que não visitava a cidade e, confesso, decepcionei-me com a quantidade de tóxico-dependentes e indigentes que abundam pela zona nobre, com incidência maior na Avenida dos Aliados e junto à Torre dos Clérigos. Habituado a mais de quarenta anos de intimidade com as realidades mais sórdidas dos bairros da capital, senti que o perigo e a degradação afectam de um modo particularmente mais violento o centro histórico da Invicta do que as zonas turistícas de Lisboa. À parte essa estranha sensação de insegurança, motivada pelas abordagens constantes de que fui vitima por parte de drogados e pedintes residentes, sinto que me reencontrei com uma das cidades mais belas do nosso país. O Porto encanta-me. E esse encanto especial advém do facto de um dia ter finalmente conhecido a cidade com "olhos de ver". Juntamente com "os camones", aventurei-me pelo emaranhado de ruas e ruelas que levam da Sé ao rio, registando com a minha máquina digital a velhice reumática do granito dos edifícios seculares, onde roupas garridas, estendidas em varais improvisados, pendem de varandas onde a ferrugem corrosiva impera - há ruelas tão estreitas onde o sol mal entra e os vizinhos podem facilmente dar um aperto de mãos logo pela manhã. Soube-me bem fotografar os azulejos preciosos, muitos deles partidos em pedaços, outros segurados a custo por argamassa velha, resistindo nas paredes, ou simplesmente o reboco, salitrado e comido, na cor branca ou ocre, pelos Invernos sem conta que já lhe haviam passado por cima.
Um passeio pela celebérrima Rua Escura - que nem sei bem qual delas é, pois são todas da cor do breu e conduzem até à zona ribeirinha - romantizada pela sua extrema perigosidade, zona preferente de prostíbulos e proxenetas, gente de má índole, hoje ponto obrigatório de visita para quem quer conhecer o ventre da cidade, fez-me sentir um brilho especial no olhar e um envolvimento de espírito e sensibilidade, ou mesmo um convite à reflexão, pelo prazer de imaginar tantos séculos de História e de anonimato ali a cair aos bocados, abafando recordações de gestos de eventual heroicidade e dor, protagonizados por gentes que são retratos do passado. Diz-se que, com o despedir da tarde, aventurar-se por aquelas ruelas estreitas de fraca iluminação, onde pontuam bares e tabernas, é o mesmo que ofertar-se a um assalto mais do que garantido. Ainda assim, não deixa de ser essa perigosidade latente, um dos pólos de maior sedução no acto de deambular pelo empedrado das ruelas estreitas, sentindo o forte odor que sai das cozinhas das casas de habitação e escutando o vernáculo tripeiro que se ouve em cada esquina.
Não sendo muito usual no Porto, a tarde estava solarenga e convidava ao passeio. Continuei caminhando ao longo do cais, rumo ao velho edificío da Alfândega onde se encontravam presentes algumas exposições: uma com velharias e antiguidades e outra, organizada pela Cruz Vermelha Portuguesa, com peças de artesanato. No entanto, interessou-me mais percorrer o velho casarão centenário e seguir os trilhos que, nos tempos áureos, serviram de carris aos veículos que transportavam as mercadorias que desembarcavam dos velhos vapores vindos dos cantos mais díspares do Atlântico. Fiz uma pausa para lanchar no café central do edificío, que já conhecia, onde só o decor interior, onde pugnam posters e figuras sobre a apologia novecentista ao uso da bicicleta - à época, um meio de transporte "trés chic" e inovador - faz valer a pena a visita. Cá fora, ainda me demorei um pouco mais a fotografar o imenso colorido das roupas nos estendais do casario fronteiriço, e fiquei assustado com o toque dos sinos àquela hora, que repercutia o eco sobre o casco antigo da cidade e se espalhava ao longe, ao encontro das réplicas que, de outras igrejas, se tinham apossado pelas batidas musicais dos sinos. Por pouco não era atropelado pelos amantes do ciclismo que circulam em alta velocidade junto à linha do eléctrico que conduz até à Foz. Deslocam-se em bicicletas ultra-sofisticadas, a uma velocidade muito maior do que a minha "pasteleira" sexagenária alguma vez almejaria alcançar e, além disso, usam uns estranhos capacetes garridos em forma de bola de râguebi, luvas, óculos de cores variadas e calças de lycra muito justas ao corpo. São profissionais do pedal, sem dúvida. Muito diferentes do modo sereno e de passeio, que me leva nalguns fins-de-semana pelas margens do Liz.
A tarde, entretanto, esmorecia. Uma derradeira passagem pela Foz e pelo Parque da Cidade, já que um arrefecimento forte da temperatura, confirmado também pela retirada de cena dos ciclistas que tinham desaparecido, tal como as andorinhas, embora estas tivessem deixado os ninhos colados na cornija dos beirais das varandas, fez-me pensar no regresso a casa. Deixei o Porto com sonhos de oiro como há muito não tinha. Sonhos fortes, mas capazes de escorraçar os fantasmas de preocupações da vida e de enfunar velas na memória que me levam sempre para outras paragens. Quando atravessei de novo a Ponte rumo à auto-estrada, a última imagem que retenho é a dos Barcos Rabelos, quietinhos no Cais de Gaia, à sombra dos armazéns de néctar doirado. Coloquei os óculos de sol e liguei o som do automóvel. Nessa altura pensei: não há matemáticas puras, geometrias perfeitas ou quimícas infalíveis; o que hoje parece amanhã já não é. Mas há factores que perduram, pequenas regras ditadas por inercias múltiplas de passados e todos interiorizamos o sentimento de quanto essas forças atravessaram o território das nossas vidas, criando, por vezes, desertos de desespero e charcos de indignação; outras vezes, a razão clama mais forte e a conclusão é mais cartesiana: o pretérito é algo que não volta mais, assim como o presente é fugaz, porque imparável e incapaz de ser sustido. Resta-nos sempre a esperança no futuro que é, afinal, aquilo que ainda falta percorrer e é inesperado, por ser desconhecido. À Invicta, regressarei noutro dia, por certo com mais tempo, talvez no Verão; e, seguramente, para uma visita demorada. A visita que a cidade sempre me merece. Um beijo, Porto, e até sempre!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Eu e Vós

Não fordes vós mulheres, não fordes vós, Todo o enfastioso padecimento, Que dia-a-dia me enferma por dentro, Teria parado de neviscar linhas no meu cós? Não fordes vós as aranhas da minha teia, Seria o forro da minh'alma nefelibata mais feliz, Tal como outrora o era quando petiz? Seria eu capaz de alumar a minha candeia? Não fordes vós mulheres, quem seria eu? Um anuente, ao trabalho consagrado, Privado do prazer de vós, desapegado?! --------------------------------------------------------------------- Vós sois a dúlcida maleita que ferventa meu coração. (Não fordes vós luxuriar os meus ocasos, Há muito a luzença teria esmorecido, Pois só vós sois o dúctil soro conhecido, Para me sarar este... e outros casos) Não fordes vós, damas mui queridas, Não fordes vós, da vida, o primaz bendito, Teria o equinócio da Primavera algum sentido, No verdeal pródigo das minhas idas e vindas? Não fordes vós mulheres, que seria da poesia? Um mar raso de água, um sol que não fulge, um céu sem cor, Tão descrente da possibilidade de um neófito amor, Que nem pesaria nestas palavras o quanto vos oferecia? (Barreiro - Abril de 2000)

sábado, 10 de maio de 2008

A Porta

(" A porta" - Vila Franca de Xira)

O Céu é o limite?

(Vista de um dos lugares que mais me fascinam onde creio que, porventura, existirá uma acomodação que me possa alojar, de preferência no topo da nuvem mais branca; e, se não for pedir muito, já agora, o mais distante possível do chão)

(Vila Franca de Xira - entardecer)

Ao sabor da corrente

(Zêzere - Constância - Junho de 2008)
Algum lugar onde eu remando fosse,
depois das lágrimas, uma ilha
e voltasse para simplesmente dizer-te adeus, Alguma coisa fosse onde tu, ao norte, beijasses nos lábios e nos olhos todos os navios que passam ao largo, Alguma coisa mais onde eu te visse sempre silente e queda na outra margem, entre o sussurro das folhas das árvores e o trinar macio dos pássaros,
Alguma coisa mais fosse este rio onde eu, absurdamente, navego rumo às cachoeiras e ao mar aberto, Alguma coisa mais fosse com certeza esta luz rendilhada e quase crepuscular em que demoro o olhar nos teus olhos e me lembra o beijar a tua boca, Assim pudesse eu morrer agora nestes remos, que são os teus braços, junto a esta proa, que me lembra o teu corpo desabrido, neste vago sofrer de mais um final de dia. (Poema escrito algures nas Caldas da Rainha - Maio de 2008)