(Velho casario frente à Alfândega)
(Torre dos Clérigos vista da "Rua Escura")
(Vista da Ribeira, junto ao Cais)
Numa destas tardes de Domingo, depois de degustar um benfazejo leitão num dos muitos restaurantes que enxameiam a Mealhada, quis o destino que continuasse viagem rumo ao Porto. Há muito tempo que não visitava a cidade e, confesso, decepcionei-me com a quantidade de tóxico-dependentes e indigentes que abundam pela zona nobre, com incidência maior na Avenida dos Aliados e junto à Torre dos Clérigos. Habituado a mais de quarenta anos de intimidade com as realidades mais sórdidas dos bairros da capital, senti que o perigo e a degradação afectam de um modo particularmente mais violento o centro histórico da Invicta do que as zonas turistícas de Lisboa. À parte essa estranha sensação de insegurança, motivada pelas abordagens constantes de que fui vitima por parte de drogados e pedintes residentes, sinto que me reencontrei com uma das cidades mais belas do nosso país. O Porto encanta-me. E esse encanto especial advém do facto de um dia ter finalmente conhecido a cidade com "olhos de ver". Juntamente com "os camones", aventurei-me pelo emaranhado de ruas e ruelas que levam da Sé ao rio, registando com a minha máquina digital a velhice reumática do granito dos edifícios seculares, onde roupas garridas, estendidas em varais improvisados, pendem de varandas onde a ferrugem corrosiva impera - há ruelas tão estreitas onde o sol mal entra e os vizinhos podem facilmente dar um aperto de mãos logo pela manhã. Soube-me bem fotografar os azulejos preciosos, muitos deles partidos em pedaços, outros segurados a custo por argamassa velha, resistindo nas paredes, ou simplesmente o reboco, salitrado e comido, na cor branca ou ocre, pelos Invernos sem conta que já lhe haviam passado por cima.
Um passeio pela celebérrima Rua Escura - que nem sei bem qual delas é, pois são todas da cor do breu e conduzem até à zona ribeirinha - romantizada pela sua extrema perigosidade, zona preferente de prostíbulos e proxenetas, gente de má índole, hoje ponto obrigatório de visita para quem quer conhecer o ventre da cidade, fez-me sentir um brilho especial no olhar e um envolvimento de espírito e sensibilidade, ou mesmo um convite à reflexão, pelo prazer de imaginar tantos séculos de História e de anonimato ali a cair aos bocados, abafando recordações de gestos de eventual heroicidade e dor, protagonizados por gentes que são retratos do passado. Diz-se que, com o despedir da tarde, aventurar-se por aquelas ruelas estreitas de fraca iluminação, onde pontuam bares e tabernas, é o mesmo que ofertar-se a um assalto mais do que garantido. Ainda assim, não deixa de ser essa perigosidade latente, um dos pólos de maior sedução no acto de deambular pelo empedrado das ruelas estreitas, sentindo o forte odor que sai das cozinhas das casas de habitação e escutando o vernáculo tripeiro que se ouve em cada esquina.
Não sendo muito usual no Porto, a tarde estava solarenga e convidava ao passeio. Continuei caminhando ao longo do cais, rumo ao velho edificío da Alfândega onde se encontravam presentes algumas exposições: uma com velharias e antiguidades e outra, organizada pela Cruz Vermelha Portuguesa, com peças de artesanato. No entanto, interessou-me mais percorrer o velho casarão centenário e seguir os trilhos que, nos tempos áureos, serviram de carris aos veículos que transportavam as mercadorias que desembarcavam dos velhos vapores vindos dos cantos mais díspares do Atlântico. Fiz uma pausa para lanchar no café central do edificío, que já conhecia, onde só o decor interior, onde pugnam posters e figuras sobre a apologia novecentista ao uso da bicicleta - à época, um meio de transporte "trés chic" e inovador - faz valer a pena a visita. Cá fora, ainda me demorei um pouco mais a fotografar o imenso colorido das roupas nos estendais do casario fronteiriço, e fiquei assustado com o toque dos sinos àquela hora, que repercutia o eco sobre o casco antigo da cidade e se espalhava ao longe, ao encontro das réplicas que, de outras igrejas, se tinham apossado pelas batidas musicais dos sinos. Por pouco não era atropelado pelos amantes do ciclismo que circulam em alta velocidade junto à linha do eléctrico que conduz até à Foz. Deslocam-se em bicicletas ultra-sofisticadas, a uma velocidade muito maior do que a minha "pasteleira" sexagenária alguma vez almejaria alcançar e, além disso, usam uns estranhos capacetes garridos em forma de bola de râguebi, luvas, óculos de cores variadas e calças de lycra muito justas ao corpo. São profissionais do pedal, sem dúvida. Muito diferentes do modo sereno e de passeio, que me leva nalguns fins-de-semana pelas margens do Liz.
A tarde, entretanto, esmorecia. Uma derradeira passagem pela Foz e pelo Parque da Cidade, já que um arrefecimento forte da temperatura, confirmado também pela retirada de cena dos ciclistas que tinham desaparecido, tal como as andorinhas, embora estas tivessem deixado os ninhos colados na cornija dos beirais das varandas, fez-me pensar no regresso a casa. Deixei o Porto com sonhos de oiro como há muito não tinha. Sonhos fortes, mas capazes de escorraçar os fantasmas de preocupações da vida e de enfunar velas na memória que me levam sempre para outras paragens. Quando atravessei de novo a Ponte rumo à auto-estrada, a última imagem que retenho é a dos Barcos Rabelos, quietinhos no Cais de Gaia, à sombra dos armazéns de néctar doirado. Coloquei os óculos de sol e liguei o som do automóvel. Nessa altura pensei: não há matemáticas puras, geometrias perfeitas ou quimícas infalíveis; o que hoje parece amanhã já não é. Mas há factores que perduram, pequenas regras ditadas por inercias múltiplas de passados e todos interiorizamos o sentimento de quanto essas forças atravessaram o território das nossas vidas, criando, por vezes, desertos de desespero e charcos de indignação; outras vezes, a razão clama mais forte e a conclusão é mais cartesiana: o pretérito é algo que não volta mais, assim como o presente é fugaz, porque imparável e incapaz de ser sustido. Resta-nos sempre a esperança no futuro que é, afinal, aquilo que ainda falta percorrer e é inesperado, por ser desconhecido. À Invicta, regressarei noutro dia, por certo com mais tempo, talvez no Verão; e, seguramente, para uma visita demorada. A visita que a cidade sempre me merece. Um beijo, Porto, e até sempre!