terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ao encontro da neve

Serra do Marão - Janeiro de 2010
Adoro as temperaturas extremas. Curto com a mesma alegria os dias quentíssimos de Verão, com 40º à sombra, como o passeio pelas montanhas e cidades de Portugal, com temperaturas negativas e completamente cobertas de branco. Faço parte de uma certa camada saloia que, todos os anos, faz  uma romaria à Serra da Estrela, ou a qualquer outro ponto do país onde neve bastante. Desta vez, ou seja amanhã, uma vez que tirei dois dias de férias propositadamente para o efeito, desloco-me até Viseu, Vila Real, Bragança - se lá conseguir chegar... -, sempre ao encontro da neve e das suas paisagens deslumbrantes. Invariavelmente, dormirei onde calhar, desde que seja num sítio quente, de preferência com uma boa lareira e comida calórica, que é o que mais apetece com este frio. Amanhã, já com o depósito do carro previamente atestado e dependendo da hora a que acorde, faço-me à estrada e depois logo se vê . Em viagem, sempre gostei do elemento surpresa. Por isso é comum viajar de mota ou de automóvel, sempre com uma vaga ideia dos lugares onde penso ir. Detesto coisas programadas, hotéis marcados, horários para cumprir, visitas guiadas e outras amarrações do género. Uma certa anarquia tem de estar sempre presente nas minhas deslocações. Quando viajo, a minha  intenção de seguir para sul,  para norte, para o centro, ou simplesmente seguir em frente, é demasiado volúvel e pode cambiar em qualquer instante. Recordo-me que no ano passado, durante as férias de Verão, saí sozinho de casa, depois de uma decisão tomada quase no momento, apenas com a firme certeza de que iria para o estrangeiro; e, uma vez mais, sem rumo certo. Acabei por viajar, sem que o tivesse premeditado, até à Polónia, República Checa, Eslováquia, Áustria, Alemanha, França, Itália, dormindo aqui e acolá. Fiz cerca de 8000 kms por estradas europeias. Vi neve, senti imenso calor, dormi em lugares paradisíacos, viajei numa das piores auto-estradas que alguma vez conheci, comi as refeições mais variadas, utilizei linguagem gestual na Polónia e atropelei um esquilo no  Tirol austríaco, entre outras coisas que agora não me lembro. E, por estranho que pareça, é este travo aventureiro, onde o inesperado tem um lugar preponderante, que maior gozo me dá sempre que viajo. Amanhã vou ao encontro da neve e depois logo se vê.

domingo, 28 de novembro de 2010

Depoimento de um cidadão atropelado


Depois dum acidente de trânsito, no tribunal, o advogado do réu começou a inquirir o Sr.José:
- O Senhor não disse, no local do acidente, 'Estou óptimo'?
O Sr. Zé responde:
- Bem, vou contar-lhe o que aconteceu. Eu tinha acabado de colocar
a minha mula favorita na camioneta...
 - Eu não pedi detalhes - Interrompeu o advogado. Responda só à pergunta. O senhor não disse na cena do acidente, 'Estou óptimo'?
- Bem, eu coloquei a mula na camioneta e quando estava a descer a rua...
O advogado interrompe novamente e diz:
- Sr. Dr. juiz, estou a tentar dar a conhecer os factos neste tribunal. No local da ocorrência, este homem disse ao guarda da GNR que estava bem. Agora, várias semanas após o acidente, processou o meu cliente. Isto é uma fraude. Por favor, poderia dizer-lhe que responda somente à pergunta?
Mas, nessa altura, o juiz estava muito interessado em ouvir o Sr. José e disse:
- Eu gostaria de ouvir o que tem para dizer.
O Sr. Zé agradeceu ao juiz e prosseguiu:
- Como eu estava a relatar, coloquei a mula na camioneta e, quando estava a descer a rua, um outro camião avançou com o sinal vermelho e abalroou-me lateralmente. Fui projectado para fora do veículo, ficando num dos lados da via e a mula foi lançada para o lado oposto.
Muito ferido e sem poder mexer-me, ouvia a mula a zurrar muito.
Pelo barulho que fazia, percebi que o seu estado era muito mau.
Entretanto, os guardas da GNR chegaram ao local. Ao verem a mula naquele pranto, um deles foi até onde ela estava e, depois de dar uma olhadela, pegou na pistola e deu-lhe três tiros. Depois, atravessou a estrada com a arma na mão, olhou para mim e disse:
- A sua mula estava muito mal e eu tive que matá-la. E o Senhor
como é que está a sentir-se?
- O que é que o Sr. Dr. Juiz respondia?


Fonte: Internet
 

That's it!

sábado, 27 de novembro de 2010

O Rio, igual a si mesmo

Barra - Condomínios privados com piscina com vista para a favela - Rio de Janeiro
A cidade onde me desloco todos os anos está a ferro e fogo. Não param de passar nas televisões e jornais de todo o mundo, notícias sobre os avanços das forças policiais e militares brasileiras contra os narcotraficantes que ocupam alguns morros da metrópole carioca. Na cidade do Rio de Janeiro existem mais de 500 favelas - ou como carinhosamente agora lhes chamam "comunidades". As "comunidades pacificadas" são favelas presumivelmente livres de narcotraficantes onde a policia militar instalou postos permanentes. Pretende-se com esta medida ressocializar as comunidades, expurgando-as do jugo dos traficantes, com vista à paulatina inclusão dos seus membros nos padrões de vida dos restantes habitantes da cidade.

Para quem não conhece a realidade do Rio, seja porque não leu o bastante sobre o assunto, ou porque nunca lá esteve o tempo suficiente para sentir o pulsar da cidade, é fácil a errónea presunção de que todos os habitantes das favelas são faxínoras e criminosos de alto coturno. Mas tal não é verdade. A maioria dos habitantes das comunidades que compõem as favelas do Rio de Janeiro, são gente trabalhadora, afável, pobre e honesta, que vive sob a ameaça e chantagem constante dos narcotraficantes. Estes acoitam-se nos morros, tirando hábil partido do emaranhado labirintíco de ruelas e da geografia difícil do terreno, para imporem a lei do silêncio e da colaboração forçada dos moradores. Lá do alto, possuem uma visão privilegiada sobre a parte baixa da cidade, o que lhes garante uma certa segurança contra incursões inusitadas da policia. Além disso, têm os seus próprios "aviõezinhos - moleques de rua que, a troco de uns míseros reais ou frascos de cola (a maioria deles está completamente aditivada na prática de snifar cola), estrategicamente posicionados na boca das favelas, os avisam quando as forças policiais estão por perto e se preparam para subir. Os "aviõezinhos" vêem nos marginais os seus heróis e sonham um dia, quando crescerem, poderem ser eles mesmos a segurar fuzis a sério, numa vertigem de poder.

A criminalidade, que embandeira em arco a sua impunidade na cidade do Rio de Janeiro, é uma força do mal perfeitamente organizada, com fortes e hierarquizadas estruturas de poder, e que, infelizmente, conta com a corrupção e cumplicidade de muitos agentes das forças policiais. Os marginais possuem material bélico moderno e sofisticado, a maioria traficado do exterior ou proveniente de arsenais existentes no exército e na policia militar brasileira. 

A corrupção é um fenómeno transversal e de tal modo entranhado na sociedade brasileira que parece impossível de vencer. É um pouco como aqueles barcos de borracha cheios de buracos onde, por mais remendos que se coloquem, se descobre sempre um novo furo.

Hoje em conversa ao telefone com a muito carioca Dona Carlinda, a mesma ficou perplexa com a repercussão internacional que está a ter a guerra civil que se vive na sua cidade. O Rio de Janeiro, uma vez mais e pelos piores motivos, está nas bocas do mundo. Mais do que o prestigio das autoridades policiais da cidade, coadjuvadas pelo exército brasileiro e pela Policia Civil, é a própria credibilidade do país que está em jogo. O Brasil, que se honra de ir receber a futura Copa do Mundo e os próximos Jogos Olímpicos na sua cidade mais carismática, esforça-se por provar ao mundo que a cidade do Rio de Janeiro é domesticável e suficientemente segura para ser palco de tão importantes eventos. A questão é: conseguirá? Não estamos a falar de um desacato provocado por umas dezenas de moradores de um qualquer bairro problemático dos arredores de Lisboa. No grande Rio de Janeiro, onde habitam mais de 9 milhões de almas, os criminosos têm uma ordem de grandeza superior: não respeitam as autoridades, têm um absoluto desprezo pela vida humana e não se lhes conhecem sentimentos de piedade. Talvez por isso um dos lemas do BOPE seja: "Uma bala, um criminoso". Longe das objectivas das câmaras de televisão e dos repórteres, conforme já me foi confidenciado, a ordem é disparar para matar. E não se trata de nenhum segredo de Polichinelo, pois é uma prática comum da policia, sabida por todos, mas que muito convenientemente ninguém fala.

Ainda antes de tão importantes eventos desportivos, aproxima-se o Carnaval, que leva ao Rio inúmeros turistas. Os desfiles das escolas de samba e o ambiente de folia absoluta que se vive todos os anos na cidade, carece de se desenrolar num ambiente de segurança sustentável. Esta "limpeza" que está em curso nos morros mais problemáticos, onde entretanto se refugiaram os narcotraficantes expulsos das comunidades pacificadas, é uma demonstração de força para "inglês ver", já que o Brasil quer mostrar ao mundo que é um país digno de ser levado a sério. Para mim, que conheço relativamente bem a cidade do Rio de Janeiro e a mentalidade brasileira, estas medidas contra a criminalidade não passam de operações de cosmética. Num país, formalmente democrático, onde as desigualdades sociais são escandalosas, não imagino que outras vias possam restar aos que nada têm se não a conformação ou a revolta. A criminalidade é uma forma, embora ilícita, de obtenção dos bens e recursos de vida que são negados à nascença a milhões de brasileiros que tiveram o azar de nascerem pobres. E o desaparecimento do enorme fosso social entre muito ricos e muito pobres - a classe média é residual -, penso que nunca terá lugar. O que não tem remédio remediado está. O Brasil vai continuar para sempre igual a si mesmo: desigual e corrupto.

Espero que a cidade esteja numa onda de paz por alturas de Fevereiro, época em que conto ficar um mês por lá, e não haja nada mais do que balas tracejantes, a rasgar o céu noite e dia, trocadas entre morros; e assaltantes de rua por todo o lado, que é o mínimo de paz que se pode esperar. À parte tudo isso, o Rio de Janeiro é sem dúvida uma cidade maravilhosa, onde apetece sempre voltar.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Nunca percebi os teus olhos

Nunca percebi os teus olhos. Hoje começou mais uma noite outonal, com seu riso de feiticeira, a recolher os cansaços, a estender as suas sombras, onde só o frio habita. Tu telefonas para me dizer que estás a desinteressar-te completamente da tarefa árdua e chata de viver. Que tens sentido uma dor teimosa no lugar que presumo seja o teu coração. Uma dor lancinante que te esfarela. Nem consigo atinar com a razão porque hoje te falo. Já passou tanto tempo. Quando procuro entender a teia de acasos e erros, de brutalidades e absurdos, em que se transformou a tua vida, voltam-me à lembrança as conversas que mantínhamos no fiar da tarde, em que as nossas bocas se abriam só em diritambos, lendo os dizeres, como se fossem instantes de rosa, perfeitos. Nesse tempo o meu amor por ti existia. Tu eras o cheiro das flores, o cume dos montes, o inescurecível céu azul, puríssimo e sereno, o orvalho no limbo das folhas, o sol poente. Tu eras a minha poesia. O que aconteceu depois tu sabes. Cada um seguiu o seu rumo e trilhou os caminhos que entendeu. Vivi muito tempo no escuro de mim sem me interrogar, mas curei-me de ti.  Não raro, recordava os teus olhos de amêndoa e os lindos cabelos compridos que penteavas, mirando-te num espelho minúsculo, oval, que trazias invariavelmente na mala e que cristalizava e multiplicava a luz, tornando-te filha do sol. Amei-te, sim, mas, confesso, nunca entendi os teus olhos. Estava certo que tinhas folhas de sol nos cabelos e um fragmento de céu no olhar. Mas hoje já nem sei. E, passado tanto tempo, comunicas-me a tua desistência, a mim que há muito decidi continuar até ao fim, ainda que raso como a lama.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Monsieur Hulot en Velosolex - "Mon oncle" - Jacques Tati - 1958



O senhor Hulot montando a sua Velosolex, é uma das imagens que retive deste filme realizado em 1958. Jacques Tati foi um dos realizadores mais geniais do seu tempo e o seu personagem M. Hulot, que inspirou Rowan Atkinson na criação do famoso Mister Bean, ainda hoje é inimitável.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Passeio moto-turistíco à Citânia de Sanfins

O estacionamento
Queda breve de alguma neve no aglomerado urbano na Citânia de Sanfins
O grupo de volta às máquinas
As fotos com um símbolo amarelo no canto inferior direito, foram rapinadas de um site.
Citânia de Sanfins - Novembro de 2010
No domingo passado, pelas 06h30, levantei-me da cama com algum sacrifício, embora motivado pelo passeio que iria ter lugar. Depois de um duche rápido, vesti a camisola térmica, o fato de cabedal, tomei um pequeno-almoço breve, e desci até à garagem onde a Aprilia me esperava com o depósito previamente atestado. A viagem até Coimbra, pela nacional, decorreu sem surpresas. Entretanto, o céu plúmbeo ia avolumando uma quantidade infinita de água, pronta a ser despejada em cima dos passeantes, o que efectivamente veio a suceder durante grande parte do percurso.

Sem surpresas, fui dos primeiros a chegar à sede do MTC, em Taveiro, pois quem vem de longe, regra geral, é quem chega em primeiro lugar. Durante os minutos que se seguiram, o silêncio da ainda tímida manhã foi sendo entre-cortado pelo rugir das motas que iam chegando. Sucederam-se os cumprimentos – sempre mais calorosos do que o que é habitual entre adeptos de outras modalidades, já que os motociclistas, mesmo sem se conhecerem, têm por hábito serem fraternos entre si. Entretanto alguém abriu a porta da sede do MTC e fomos brindados com café à descrição e fatias de um bolo delicioso, cujo nome ignoro.

Em pouco tempo, cerca de 30 motas encontravam-se estacionadas frente à sede do MTC. José Valença, o omnipresente presidente do clube, deu as boas vindas a todos e distribuiu um road guide que sumulava o percurso do passeio. Ficou combinado que os motociclistas que não possuíam o dispositivo Via Verde, deveriam sair em primeiro lugar, para não atrasarem a caravana, devendo parar logo a seguir à portagem. Depois de todos reunidos, seguimos em grupo em direcção à invicta, não sem dois percalços dignos de registo, pois um dos nossos companheiros, a dada altura, sofreu um despiste em plena A1, felizmente sem gravidade de maior; e a única motociclista condutora do grupo, teve um furo na sua Honda Dominator.

Resolvidos pelo melhor os dois imprevistos, a caravana fez-se de novo à estrada, já com um atraso considerável em relação aos timmings previstos, atravessou a sempre congestionada circular externa, junto ao Estádio do Dragão, e deteve-se finalmente frente ao Museu Arqueológico, instalado em Sanfins de Ferreira, num edifício barroco, conhecido por Casa da Igreja ou Solar dos Brandões, onde já nos esperavam alguns membros do Moto Clube de Paços de Ferreira.

Com a boa disposição reinando entre todos os participantes e após deglutirmos mais umas fatias daquele bolo delicioso, que se fez nosso companheiro de viagem, lá fomos todos visitar o museu, que, para além de exibir achados arqueológicos, funciona como uma espécie de Centro de Interpretação da Citânia de Sanfins. A visita foi rápida mas as fotos muitas. Tínhamos um fotógrafo de serviço, o António Costa - vim a conhecê-lo pessoalmente durante o almoço - que, ao que parece, é quem se encarrega habitualmente das fotografias e das crónicas que as acompanham.

De seguida, rumámos até à Citânia de Sanfins, onde nos foram dadas in loco explicações mais detalhadas sobre a vida e os costumes dos povos que a habitaram. Entretanto, a chuva, até então tímida e esparsa, começou a brindar-nos de forma musculada para nunca mais nos abandonar até ao final do passeio. Com as condições climatéricas a tornarem-se cada vez mais adversas, e os horários apertados, decidimos abreviar a visita à Citânia e dirigimo-nos para o restaurante previamente escolhido: A Adega Regional "A Tatana", em S.Roque-Carvalhosa.

Dificilmente a escolha poderia ter recaído num lugar melhor, pois quer as entradas – morcelas, chouriços diversos, queijos, presuntos, espetadas, entre outras iguarias –, quer as carnes grelhadas que se lhes seguiram, estavam uma verdadeira delícia e mereceram a aprovação geral de todos os presentes. O almoço foi, sem dúvida, o ponto alto do dia, pois todos os motociclistas puderam finalmente confraternizar entre si com mais tempo. A boa disposição esteve sempre presente e destaco o sentido de humor aguçado de um companheiro cujo nome não retive, que, entre outros, nos brindou com anedotas que fizeram rir até às lágrimas muitos de nós.

O ambiente, apesar de familiar, pois a maioria dos presentes já se conhecia há algum tempo, era de inclusão e convidava à participação de todos. Senti-me sempre bem acolhido, e, uma vez mais, deparei-me com aquela especialidade única, que nos distingue a nós motociclistas do espírito egoísta e indiferente dos automobilistas, que é o sentido de pertença a uma casta impregnada de valores onde pugnam a sã convivência, a camaradagem, a solidariedade e o espírito de grupo, alheio a quaisquer competitividades que só conduzem ao rancor. No mundo do moto-turismo, não pode, nem deve, haver lugar para o despique, nem tão pouco para aleivosidades sobre as motas que cada um possui. O que interessa verdadeiramente, para além das marcas e da cavalagem dos motores, tudo pormenores supérfluos, é a paixão que nos une pelo turismo de mota.

Findo o almoço, antes de nos fazermos à estrada, fomos todos à bomba de gasolina, para que os motociclistas com motas mais gulosas, ou de menor autonomia, pudessem abastecer. Apreciei, deliciado, o fascínio que provoca nos transeuntes a visão de uma caravana de motas a chegar a uma estação de serviço, ocupando literalmente todo o espaço disponível. É um espectáculo esmagador e deixa meio mundo de boca aberta.

No regresso à A1, ainda parámos algumas vezes para a reunião das motas que iam ficando para trás, uma vez que não é fácil no meio do trânsito manter uma caravana de trinta motas coesa.

Quero deixar uma nota positiva para o trabalho meritório dos motociclistas da organização, que funcionaram como verdadeiros pastores de um rebanho, encarregando-se de cortar os cruzamentos para que a caravana passasse em segurança, bem como fazendo agregar ao grosso do pelotão as motas mais atrasadas.

O último briefing de despedida ocorreu na Área de Serviço de Antuã, onde, depois de um lanche breve, o presidente agradeceu a presença dos sócios e amigos do MTC e desejou a todos um bom regresso a casa.

Saí e ultrapassei, a alta velocidade, a caravana que seguia sob uma chuva intensa para Coimbra, até que os deixei de ver no espelho retrovisor. Ainda faltavam 140 kms até Leiria e estava gelado até aos ossos, mas felizmente, cerca de uma hora depois, estava a arrumar a Caponord na garagem e já só pensava no banho escaldante que me ia devolver a temperatura corporal.

[Dizer que esta crónica, escrita na primeira pessoa, é a visão pessoal de alguém que viajou pela primeira vez com o MTC, resulta numa tautologia. Mas foi o que ficou combinado com o António Costa, quando me pediu para a escrever e eu lhe respondi que a única coisa que poderia fazer era expressar por palavras a forma como subjectivamente vivi este dia.]

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Insanes motoqueiros

Citânia de Sanfins - imagem retirada do site do MTC

Neste Domingo, dia 21 de Novembro, integrado no Moto Turismo do Centro, estou a pensar ir a São Vicente do Bico, lá mais para norte, para os lados de Braga. A caravana parte às 09h00 da manhã de Taveiro, Coimbra, sede do Moto Clube, seguindo depois para o Porto, com passagem por Alfena, para em seguida abraçar a Serra da Agrela, onde visitaremos o Museu Arqueológico. De seguida, percorreremos a Citânia de Sanfins, uma das estações arqueológicas mais significativas da cultura castreja do noroeste peninsular, já classificada como monumento nacional. Após o almoço, em São Roque-Carvalhosa - que não faço a mais pálida ideia onde seja -, visitaremos o Museu do Móvel, em Paços de Ferreira. 

Com as condições meteorológicas que se avizinham - ventos fortes, chuva, e neve nas terras altas -, há-de ser uma experiência inolvidável fazer centenas de quilómetros de mota, embora já não seja a primeira vez. Para os motociclistas temerários, não há condições climatéricas, por adversas que sejam, que os inibam de conduzir. Eu, como não sou um motard tout court - agora também já alinhei na moda dos anglicismos e dos francesismos requentados! -, confesso que tenho algum receio em viajar de mota com este tempo; e o que me está a confortar mais é o facto de viajarmos em grupo, a baixa velocidade, podendo socorrer-nos uns aos outros em caso de necessidade. A contar com isto, comprei hoje uma camisola térmica, que me custou os olhos da cara, cuja publicidade garante, entre uma lista infindável de milagres, que não há frio que se chegue ao corpo, uma vez vestida a dita. O mais radical, para já, vai ser levantar-me a um Domingo, às 06h45 da manhã, com vento, frio e chuva, para estar em Taveiro-Coimbra às 08h45, já com o depósito da mota atestado e pronto para largar amarras rumo à invicta. 

Pode ser que, entretanto, algum anãozinho, como aqueles que se penduram em cima do ombro direito do Pedro Paixão e lhe ditam as palavras, me venha bichanar ao ouvido: "Estás no teu perfeito juízo? Fica mas é na cama a ler um bom livro!"

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Miguel Portas e o FMI

 
Uma análise simples e concisa sobre uma das questões que domina o espectro politico nacional. A verdade que não convém ouvir, nas palavras do economista e deputado no parlamento europeu pelo BE, * Miguel Portas.

* Um abraço forte e uma palavra de esperança ao Miguel, que se debate com um problema oncológico.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Reflexão

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

Fernando Pessoa

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Amy Winehouse talks about Rehab


And now, ladies and gentlemen, a Rainha da Soul Music do século XXI, Miss Amy Winehouse, talks about her song: "Rehab" *

*Does she needs Rehab(litation)? What do you think?

Aretha Franklin - I Say A Little Prayer


Aretha Franklim, a Rainha da Soul Music, em meados dos anos 70.

domingo, 14 de novembro de 2010

Ana-de-Amsterdam

Se me perguntassem qual é dos blogues que frequento o que mais me agrada no que à  prosa respeita, penso que não hesitaria em responder que é o blogue Ana-de-Amsterdam, da autoria de Ana Cássio Rebelo. A sua escrita,  autobiográfica, fluente, elegante e íntima, onde domina o registo de vivências, pensamentos, eventos e emoções quotidianas, possui uma magia própria que me atrai. A sua prosa é ágil, solta e desinibida, ao mesmo tempo que consegue ser erudita, e prende o leitor do princípio ao fim. Penso que a leitura dos seus textos pode ser uma fonte de inspiração para todos os se aventuram pelos meandros da escrita ficcional, pois no final é sempre com os melhores que devemos aprender.

*A Ana  inspirou-se na famosa canção composta por Chico Buarque/Ruy Guerra, para dar um nome ao seu blogue.


*Sou Ana do dique e das docas
Da compra, da venda, das trocas de pernas
Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas
Sou Ana das loucas
Até amanhã
Sou Ana
Da cama, da cana, fulana, sacana
Sou Ana de Amsterdam
Eu cruzei um oceano
Na esperança de casar
Fiz mil bocas pra Solano
Fui beijada por Gaspar
Sou Ana de cabo a tenente
Sou Ana de toda patente, das Índias
Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada
Sou Ana, obrigada
Até amanhã, sou Ana
Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos
Sou Ana de Amsterdam
Arrisquei muita braçada
Na esperança de outro mar
Hoje sou carta marcada
Hoje sou jogo de azar
Sou Ana de vinte minutos
Sou Ana da brasa dos brutos na coxa
Que apaga charutos
Sou Ana dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos
Até amanhã, sou Ana
Das marcas, das macas, da vacas, das pratas
Sou Ana de Amsterdam

Liberdade de escrita

Por vezes, quando compramos uma revista, ou lemos determinados blogues mais intimistas,  é por vontade de saber da vida de pessoas que julgamos interessantes, dos seus pormenores, sejam eles brejeiros ou sórdidos, não porque nos achemos necessariamente pessoas desinteressantes e indignas de qualquer registo, mas porque faz parte da nossa essência termos uma certa curiosidade. Há blogues com inegável valor literário, outros com representações fotográficas, cinematográficas e de arte espantosos, ou com belíssimas selecções musicais. Outros há que afloram as clivagens, o consenso e o conflito social, com nítida vocação política, sem esquecer  os blogues onde o bom humor impera. Enfim, há blogues com temáticas para todos os gostos. Mas são inegavelmente os blogues com vocação intimista que atraem mais a atenção do leitor comum. Felizmente, ainda há quem aprecie uma "boa conversa",  ainda que em forma de monólogo, que seja uma partilha de ideias, ou uma exposição mais ou menos reservada de universos pessoais que, num dado momento, se partilham com gosto. Nestes tempos vorazes, tomados pelo pragmatismo, em que falar se vai espartilhando à necessidade de dar e receber informações, parece quase um exercício de infantilidade perdermos tempo lendo, ou escrevendo, coisas que fujam à lógica feroz desse ditame. E esta é a  atitude de muita gente perante a leitura e a escrita: não perder tempo com  "textos minimalistas" onde a subjectividade impere, pois somente interessa o texto formativo. Com a democratização da possibilidade de publicar textos, proporcionada pelas novas tecnologias, a blogosfera tornou-se um espaço onde todos os que escrevem, ou querem ter algum tipo de intervenção diferente, tal como publicitar vídeos ou textos alheios, encontram o seu lugar. E ainda bem que assim é, em prol de todas as idiossincrasias.

sábado, 13 de novembro de 2010

Porto

A "Pérola do Bolhão" e a Câmara Municipal - Porto - Novembro de 2010

Faço-me falta

 Penhas Douradas - fiapos de neve - Novembro de 2010
Há muito tempo que não escrevo com o coração. Sei que tenho andado um pouco arredado de mim mesmo e com uma vontade diminuída de expôr as minhas entranhas. Esta coisa de termos vários espaços de escrita, como é o meu caso, dilacera-nos um pouco. Num espaço público, obedecemos à regra da contenção, uma vez que não nos protegemos com o anonimato e tudo o que escrevemos é passível de ser lido pelos outros, sem que haja ameaça à reserva da nossa intimidade. Noutros espaços, a coberto do anonimato, podemos extravar o que nos vai na alma sem a preocupação de termos de nos proteger. Tal não significa que em ambas as situações não sejamos nós mesmos, mas existe sempre a diferença entre o que é dizível em público e o que  não é. No nosso quotidiano, as multidões de gente nas ruas, a voracidade dos dias ocupados, o trânsito caótico, o corre-corre de um lado para o outro e as preocupações no trabalho, parecem ampliar o sentimento de isolamento, ao invés de conceder a esperável sensação de companhia; e a escrita é, sem dúvida, um dos melhores refúgios para os solitários por opção. No meu caso, sei que existe uma certa situação de isolamento social, voluntária e paulatinamente construída ao longo dos últimos anos, com evitamentos, escapismos, atitudes de distanciamento ou  focagens excessivas, quando não obsessivas, como são o caso da leitura e da escrita. Para algumas pessoas solidão é sempre sinónimo de infelicidade. Para mim, a cadente consciência da efemeridade da vida, cada vez mais me empurra para a escolha criteriosa  das pessoas com quem quero estar e empregar parte do meu tempo. Trocado por miúdos: já não perco tempo, a menos que para isso seja obrigado, como é o caso do dever profissional, com pessoas e situações que não me digam rigorosamente nada. A conhecida frase "mais vale só do que mal acompanhado", com algumas adaptações, pode muito bem ilustrar aquilo que há muito me vai na alma. Quem se mantém interessante e interessado; quem assume o protagonismo da própria vida; quem investe numa actividade - a escrita, a leitura, as viagens, o sonho! - só porque sim, no que encontra e no que lá está à volta, e não reivindica da vida direitos "naturais"; quem se motiva para o dia seguinte só porque ele vai chegar; quem gosta profundamente de alguém ou de alguma coisa, pode queixar-se de tudo menos de solidão.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Jazz Crusaders with Patti Austin - " Smoke Gets In Your Eyes"


A versão jazz mais fabulosa que conheço da célebre balada  tornada célebre pelos Platters, o famoso grupo vocal  americano dos anos 50 da era do Rock and Roll.

"Coaching" - The ultimate brain wash for public service

As acções de formação a que tenho assistido, para além de serem uma forma expedita de darem a ganhar mais uns patacos em ajudas de custo, entre outras alcavalas, aos formadores, pouco ou nada formam. São antes longos bocejos de carácter obrigatório, em forma de visitas guiadas a tópicos, com apresentação de power points cheios de setinhas e bonecada. Mas como a maioria das americanices tende a ser adoptada pelos restantes países que se arrogam de pertencer à "vanguarda da civilização", a palavra de ordem das nossas estruturas organizacionais, onde a função pública  moderna se pretende incluir,  é a adopção plena  dos últimos gritos yankee em métodos de gestão de recursos humanos. E é aqui que entra o Coaching

O Coaching, que numa tradução mais ou menos livre quer dizer "treinamento", é um processo de ajuda que, supostamente, pretende promover o desenvolvimento das pessoas através do auto-conhecimento, conceitos, valores positivos e motivadores, em direcção a objectivos pré-estabelecidos. Assume-se como uma uma filosofia baseada nas capacidades, transformações e desenvolvimento na comunicação, liderança e postura, como processos contínuos e de acções por excelência. A lógica do Coaching tende a ser privilegiada nas organizações e nas performances, pois trabalha com metas e obtenção de resultados positivos, permitindo o crescimento, mais valias, satisfação pessoal e individual bem como de grupo, e organizacional. Segundo os seus cultores, este tipo de formação está voltada para quem quer desenvolver-se e auto conhecer-se em relação ao seu estilo e seus potenciais recursos, que ainda não conhece ou não fortaleceu.

A grande mestre em Coaching é uma tal Dr.ª Vânia Weissberg, de nome vagamente abrasileirado e com  reminiscências judaicas, que exibe um currículo impressionante onde se incluem valências e títulos que, julgo eu, nunca ninguém alguma vez ouviu falar. Se não, veja-se: Trainer de Coaching e Programação Neurolinguística; (um título pomposo e misterioso...); Psicóloga e Coach (psicóloga e treinadora?); Master Coach pela ICI (se fosse UCI, ainda poderia dar por adquirido que tivesse obtido o mestrado numa Unidade de Cuidados Intensivos); Master em Programação Neurolinguística com Certificação Internacional ( alguém me diz o que isto significa?).

A Doutora Vânia, qual pavão emplumado, exibe um tal historial de aptidões, que é capaz de esmagar qualquer iniciático formando. Não sei se a terei alguma vez pela frente, mas, se assim for, espero que ela me consiga incutir mais capacidades técnicas, capazes de melhorar as minhas performances profissionais, ou, porque não, pessoais, organizando o desalinho de alguns dos meus pensamentos - que, na sua  grande maioria, prendem-se com a contagem do tempo de serviço para a  aposentação e nas eventuais penalizações por antecipação da idade da reforma.

A mestra Vânia que me perdoe, mas quase a consigo imaginar loira platinada, repleta de colares, brincos e pulseiras, qual árvore de natal, e dotada de uma voz rouca, com forte sotaque americano/carioca. E, por este andar, há-de chegar o tempo em que nós, serviçais do Estado, teremos de  marrar livros de auto-ajuda, para não falar da repescagem do velho "Método Silva", aquele bruxo do mind control, como livro de cabeceira obrigatório para todos os funcionários. Vade retro formações!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

As "Repúblicas" de Coimbra

Repúblicas em Coimbra - Novembro de 2010

Curso universitário que preze e mantenha a tradição é aquele que é tirado em Coimbra. A Universidade de Coimbra é a mais antiga universidade portuguesa. A instituição, uma das maiores do país, remonta ao século seguinte ao da própria fundação da nação portuguesa, dado que foi criada no século XIII, em 1290, mais especificamente, quando foi assinado em Leiria, por D. Dinis, o documento que criou a própria Universidade. Posteriormente, o rei pediu ao Papa a sua confirmação, e os oitocentos anos de História já lhe garantem um lugar cimeiro no conjunto das universidades mais antigas da Europa.

Nos tempos modernos, tirar um curso superior em Coimbra, na modalidade de estudante em full time, significa poder fazer parte das tunas académicas, habitar o ambiente de praxe constante das "Repúblicas" e aderir de corpo e alma ao Fado de Coimbra. O clímax da vida académica coimbrã tem lugar por altura da "Queima das Fitas", com cantorias pela noite fora e bebedeiras monumentais - muitos dos estudantes que comemoram a proximidade de se tornarem doutores, ainda ficam por lá mais uns anos, a comemorar outras tantas "Queimas das Fitas", mas isso é outra história.

Eu formei-me na Universidade Clássica de Lisboa, na qualidade de trabalhador-estudante, nunca soube o que foi a vida académica, e a única praxe que conheci foi a de dormir 5/6 horas por noite, durante anos a fio, e passar os fins-de-semana e a maioria das férias sempre de volta dos calhamaços e das sebentas. Se calhar cada um de nós tem de aceitar, sem refilar, a vida que o destino lhe reservou, mas a verdade é que gostava de ter conhecido a boémia da vida académica, e ainda hoje lamento tê-la perdido.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Redinha - Contrafortes da Serra de Sicó

Mapa da Região - a seta amarela indica a aldeia de Redinha (fonte: google)
Moinho de Água - Redinha - Pombal - Novembro de 2010
Ponte Romana - Aldeia de Redinha - Pombal - Novembro de 2010

Nossa  Senhora da Estrela - Redinha - Pombal - Novembro de 2010
Redinha é uma povoação situada nos contrafortes da serra de Sicó, que apresenta inúmeros pontos de interesse, como os achados neolíticos da pré-história, a igreja matriz manuelina, a ponte romana, o moinho de água e a capela de Nossa Senhora da Estrela, reedificada numa gruta natural. Uma das vantagens de quem viaja de mota e possui instinto explorador, é a de poder sair das estradas principais e tomar vias secundárias  ou estradas não asfaltadas que, como por magia, nos levam até aldeias históricas paradas no tempo. A região centro é pródiga nesse tipo de lugares.

A Ponderosa

Este Domingo, em homenagem à saudosa série dos anos 60 - "Bonanza" - almocei na "Ponderosa", que herdou o nome do celebérrimo rancho da família Cartwright, ponto de paragem obrigatório de todas as excursões que rumavam ao norte antes da construção da A1. A "Ponderosa", inaugurada no fim dos anos 50, ainda se mantém como um mini complexo turístico, com piscina, restaurante, estação de serviço e motel. Fica na Estrada Nacional 1, um pouco depois de Alcoentre, para quem segue em direcção a Lisboa. Há mais de quarenta anos que eu não entrava dentro do restaurante, ainda antes da construção da auto-estrada. Na época viajava-se pela nacional, a única via existente, de excursão ou de carro, em direcção ao Porto. Uma viagem que começava cedo pela manhã e, não raro, durava até ao final da tarde. 

A "Ponderosa" era já nesse tempo um espaço gigantesco e o oásis perfeito para quem viajava entre a capital e a cidade invicta. A serventia às numerosas excursões, um costume típico da classe média baixa dos anos sessenta, era, sem dúvida, a sua especialidade, e não havia nada nos quilómetros em redor que se lhe assemelhasse em qualidade de oferta. 

Eu não teria mais do que seis ou sete anos de idade quando lá entrei pela última vez, e, se a memória não me atraiçoa, integrado numa excursão à Serra da Estrela. Gostei de reviver a "Ponderosa" que, apesar da  considerável diminuição dos seus habituais utilizadores, mantém uma enorme qualidade nas refeições que confecciona. Aconselho vivamente o bacalhau na brasa com batatas a murro. Uma verdadeira delícia!

sábado, 6 de novembro de 2010

Pasteleiras de duas rodas

Motorizada "artilhada" para todas as intempéries - algures em Leiria

Nas aldeias, vilas e cidades de província deste pequeno país que habitamos, ainda é comum depararmos com motorizadas, e seus respectivos proprietários, trajadas com um mau gosto inconcebível. As  motorizadas Sachs,  Zundapp, Famel e Casal, todas elas dos meus tempos de juventude, a maioria fabricada nos anos 60 e 70 do século passado, com reparações consecutivas e por opção dos seus orgulhos donos, continuam  a circular ruidosamente pelas estradas - pelo menos até que as inspecções obrigatórias sejam implementadas para as motas, altura em que a maioria delas vai encostar. A imagem de uma motorizada com um barulho estridente a deixar atrás de si um rasto de fumo enorme, é familiar a todos quantos moram por estas bandas. 

Eu dantes fazia um esforço enorme para não me deixar cair na tentação da critica fácil, nem no papel do gozão sarcástico que ri dos que não têm meios financeiros para comprar  veículos actuais, nem acessórios menos grotescos; mas desde que resido em Leiria, e que ganhei uma compreensão maior do fenómeno, fiquei com uma ideia diferente sobre a insistência no uso destas motorizadas e dos seus pitorescos artefactos.  Quando constatei que uma grande maioria dos donos destes "kitchs" de duas rodas, habitam moradias, algumas com três pisos e logradouros a perder de vista, pacificou-se em mim, como sendo verdade, a eterna suspeita de que o "problema" é mesmo o mau gosto destes motoqueiros poluentes e pirosos. Não se trata, pois, de falta de verba para adquirir veículos recentes, com condições de segurança, estética, níveis de poluição e ruído, condizentes com os tempos modernos. O problema é mesmo o recorrente mau gosto e  a recusa de adaptação ao século que vigora. 

Com o dinheiro gasto ao longo do tempo para manter em circulação motociclos velhos, alguns com mais de  40 anos, quantas motas novas, obedecendo aos padrões modernos de qualidade e segurança, não teriam os proprietários destes charros fumegantes podido comprar?

Não se deve confundir o pitoresco saudável  das pessoas e da paisagem campestre, com o primitivismo e a ignorância absurda destes resistentes, pavoneando a alegada fiabilidade dos seus veículos de duas rodas, que, malgrado a proveta idade (dizem eles) ainda circulam - qualquer veículo com manutenção, desde que trocando sucessivamente as  peças, circula infinitamente. E até uma criança sabe disso.

XVIII Gala de Leiria

Ainda mais bonita "ao vivo" do que na televisão
Há cerca de um mês atrás estive na XVIII Gala de Leiria, que, por acaso, se realiza todos os anos em Fátima, no auditório João Paulo II. Revi artistas como o Pedro Abrunhosa, a Anabela, ou o António Chainho; outros, vi-os pela primeira vez. Gostei de todas as performances, bem como  das entregas dos troféus aos galardoados. No conjunto,  sobretudo,  apreciei o ritmo de "variedades" que nunca deixou o espectáculo cair em monotonia. 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A1 - sentido sul/norte - 05h30 da manhã

Às cinco e trinta da manhã de uma terça feira negra chuvosa e fria, já andava eu a rolar na  A1 em direcção ao Porto. Só uma acção de formação obrigatória me faria levantar da cama às 05h00 da manhã, para, de seguida, conduzir cerca de 180 kms até à invicta. Saí de Leiria ainda era noite cerrada - o dia só amanheceu por alturas da portagem dos Carvalhos. Chegado ao Porto, deparei-me com um nevoeiro tão denso que parecia que tinha caído um qualquer caldo sulfuroso sobre a cidade. O frio também era intenso e o vento gelava. Na rua, os portuenses faziam o possível para mitigar o frio, e muitos usavam longos cachecóis, enrolados à volta do pescoço, quase a arrastar pelo chão. Parece que é a grande moda deste prenúncio de Inverno. Faltava-me descobrir onde era a Rua Alferes Malheiro. Através de uma rápida consulta ao Google, fiquei a saber que a artéria ficava mesmo atrás da Avenida dos Aliados, muito perto da Trindade. Valeu-me menos essa preocupação. Todo o "mouro" que se preze sabe, ao menos, onde fica a Câmara Municipal do Porto. Estacionei o carro num parque subterrâneo perto dali e dirigi-me a pé para o sítio onde ia ter lugar a acção de formação. O tema da prelecção - "contabilidade registral" - não podia ser mais detestável,  fosse por se centrar numa das áreas em que eu sou mais burro, fosse pela aridez  intrínseca das matérias. Durante a primeira hora ainda aguentei estoicamente as palavras do formador e fiz um tremendo esforço por me mostrar minimamente interessado nos power points, mas depois o cansaço venceu. Passei o resto da manhã a cabecear - um triste cenário que  acabei por bisar da parte da tarde, logo a seguir ao almoço. Acho que só por  uma questão de educação e simpatia o jovem formador não me fez qualquer reparo. Talvez que os meus cabelos brancos o inibissem. Verdade é que se me perguntarem o que fui eu fazer nesses dois dias ao Porto e o que foi que aprendi, a resposta só pode ser: zero. Gastei uma fortuna em hotel, gasolina, portagens, estacionamento, refeições, e vim de lá o mesmo  ignorante em contabilidade,  tal qual o sujeito que tinha chegado no dia anterior. Lá diz o ditado: (versão modificada) burro velho não aprende...contas. Eu diria mais: muito menos a cair de sono!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mozart Group

A refeição

"Depois do meu almoço, o almoço deles" - Coimbra (Praça Velha) -  Novembro 2010