“Uma criatura de nervos modernos, de inteligência, sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia”
In “Crónica da vida que passa...”
1915 – Fernando Pessoa
Acaba por ser uma não necessidade tomar consciência que finalmente estamos sós, ainda que avistemos alguém ao longe, mesmo que seja apenas um pequeno ponto prestes a confundir-se com a linha do horizonte. Um fio de cabelo longo, castanho escuro, preso na manga da camisola, é, por vezes, tudo o que resta. O mais são memórias, episódios mentais cada vez mais fugazes, esvaecidos e debilitados pela roda imparável do tempo. Esquecer para viver, porque prosseguir é um imperativo; e é, talvez, a única razão plausível quando se trata de nos interrogarmos sobre qual o sentido da vida – “The meanig of life”, tão expressivo quando dito na língua da velha Albion.
Toco-me. Olho-me no espelho. Sinto-me envelhecer em cada dia que passa. A neve já não se limita aos cumes. Não sinto nenhum grau de genialidade, antes pelo contrário, apenas elementos de diferença, idiossincrasias que jogam contra mim no tecido social – algumas delas facilmente decifráveis, outras nem tanto. Tal como não consigo explicar porque é que as lágrimas me afloram a face sempre que escuto algumas músicas de Bach, também não consigo entender-me com tantas outras coisas. E enquanto estes pensamentos me amargurarem – como sempre – consolo-me com filosofias e com a tomada de consciência da desnaturalidade de avistar o navio cujo rasto é apenas um fumo que tolda o horizonte, tomando por certas as minhas máscaras de adolescente e poeta-prosador brejeiro. O resto é a vida, a subsistência, o Eu que não sou eu, mas que é aquele que os outros querem que eu seja.





