terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Nuvem breve (poema singelo)

O que me resta na vida é a poesia. Enquanto uns sofrem, morrem de fome, padecem de doenças terríveis, enfrentam guerras, eu faço poesias. Enquanto uns abrem túneis, outros constroem casas, outros contabilizam, outros erguem bandeiras, operam curas milagrosas, eu faço poesias. Não sei aritmética, não salvo vidas, não sou hábil com as mãos, nem tenho o poder da vida ou da morte. Sou uma nuvem breve. Faço poesias e só, mas não o consigo evitar.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

No divã

Em vez de andar a vaguear pela movimentada Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro, por alturas do Natal, mais congestionada do que Meca em dia de peregrinação, em busca de colares, bugigangas e roupas baratissímas - a maioria para oferecer, pois, geralmente, não me adorno nem faço uso de bikinis em forma de asa delta ou fio dental - nesta viagem decidi investir a sério na cultura. Só no Rio de Janeiro comprei mais de 70 livros, a maioria nas "lojas de sebo", perto da Praça Tiradentes. Concebo três bons motivos para adquirir livros no Brasil, em especial, títulos em segunda mão: primeiro, os brasileiros, salvo uma estreita camada intelectual, não lêem, seja por terem mais onde gastar o dinheiro; seja por puro desinteresse; segundo, os livros são imensamente mais baratos lá do que aqui, inclusive as edições portuguesas (escritas em português de Portugal), patrocinadas pelo nosso Ministério da Cultura que, desse modo, quer ver a língua pátria disseminada e mantida viva por todos os cantos onde ela seja falada e escrita. O terceiro e último motivo é demasiado óbvio: os livros estão escritos em português, a minha primeva língua, e aquela com que naturalmente melhor me entendo. Mas não é de nenhum dos livros adquiridos no "sebo", praticamente pagos ao quilo, que eu quero falar. O livro em questão foi comprado na melhor livraria do Centro Comercial da Barra da Tijuca - o lugar mais elitista e ocidentalizado do Rio de Janeiro, onde é frequente depararmo-nos com conhecidos artistas das novelas da Globo, como foi o caso, facto que nem me merece quaisquer reparos - e trata-se do "Tigger on the Couch", na tradução brasileira: "O Lobo Mau no Divã", da reputada escritora, jornalista e editora norte-americana, Laura James. A escritora aborda o conceito de doença mental sob uma perspectiva diferente e bastante inovadora e, ao fazê-lo, creio que deu uma contribuição valiosa para a desmistificação e a destigmatização deste tipo de doenças. Os contos de fadas - quase sempre as mesmas histórias contadas de modos diferentes - são comuns em várias culturas e têm um papel valioso ao ajudar as crianças, particularmente, a aprender e a aceitar valores-chave e atributos que possam querer imitar. Da mesma forma, os contos de fadas ensinam comportamentos e valores que as crianças deveriam tentar evitar - uma espécie de lições que também permanecem até à vida adulta. As histórias para crianças também mostram como indivíduos com deficiências e dificuldades podem continuar a ser membros valorizados, respeitados e estimados na comunidade, algo de que a sociedade lamentavelmente nem sempre se lembra, em particular no que diz respeito à doença mental. Tinha lido um livro com vagas semelhanças a este, mas não tão divertido, há uns anos a esta parte, que, salvo erro, se chamava "A Psicanálise dos Contos de Fadas". Concedo, inclusive, que a autora tenha colhido inspiração nesta obra para servir de mote ao livro que escreveu; e, caso o tenha feito, fê-lo de uma forma brilhante, pois além de ter usado uma escrita muito mais clara, acessível a quaisquer leigos, abordou o tema das patologias do foro mental de uma forma absolutamente original: escalpelizou as neuroses, distúrbios e doenças de alguns dos nossos personagens preferidos, tais como o diagnóstico de "Narcisimo Situacional Adquirido" de que , segundo ela, padece a Rainha de Copas, da Alice no País das Maravilhas; ou o "Transtorno de Personalidade Narcisista"que caracteriza o Mágico de Oz, para não falar do "Transtorno de Personalidade Esquizóide" do Homem de Lata. A certa altura da leitura, surgem as pertinentes interrogações que ajudam a alcançar o propósito pretendido pela autora: "A Cinderela devia mesmo ter casado com um homem com quem se encontrou apenas duas vezes?" "Seria saudável que a Cinderela se comportasse de modo tão subserviente diante das irmãs de criação?" "Ela estaria, porventura, sofrendo de algum transtorno psicológico subliminar?"As tendências malévolas, despóticas e narcisistas, manifestadas pela Rainha de Copas, ao sabor do menor dos caprichos, não seriam uma clara manifestação de um comportamento destruturado, densamente patológico, a carecer de atenção especializada? O livro, como já disse, não se propõe abordar a temática da doença mental sob um ponto de vista pretensamente técnico ou enciclopédico. É antes um espaço de reflexão ao alcance de qualquer leitor - como eu. Não devemos esquecer que o campo dos transtornos e das vulnerabilidades de personalidade ainda são bastante negligenciados pela nossa sociedade. Sobretudo, senti-me mais humanizado e enriquecido, depois de terminada esta leitura; e, à semelhança de todos os bons livros, também este me fez meditar e vislumbrar algumas realidades sob novos e insuspeitados ângulos. Agora, cada vez que me lembro de todos aqueles personagens encantadores, com os quais passei parte da minha infância, vejo-os por outra perspectiva, pese embora nunca tenham deixado de me encantar até aos dias de hoje.

O que somos?

(Rio Nabão - Tomar - Dezembro 2008)
Ao que parece, ninguém é o que parece. Somos o que não somos? Afinal, quem somos nós? Cínicos? Artistas? Um para cada instante? "Metamorfoses ambulantes"? Sim, nós representamos, inconsequentemente, desenvergonhadamente, involuntariamente, com ou sem o advérbio modal, mas sempre com algo em mente [como quem mente, sem conseguir mentir] Pomposos, grotescos, subtis, entusiastas, pessimistas, sonhadores, somos o que somos e o que não somos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Flores à janela

(Leiria - Dezembro 2008)
Todos os dias as vejo,
as belas flores à janela
exalando rimas,
doces e perfumadas,
pousadas num pequeno beiral
Todos os dias as vejo
nos seus corpos aveludados,
macios e cintilantes
de formas insinuantes,
multicolores
Suaves e misteriosas,
exalando odores divinos,
tão lindas e encantadoras
estas belas flores,
que assomam à janela
e magnetizam o meu olhar

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Simple mind

Por esta altura do ano, a maioria de nós desdobra-se nos useiros e vezeiros desejos de "Boas Festas!", "Feliz Natal!", concórdia, paz, amor, fartura. Enfim, deseja-se a todos, e em especial aos que amamos e nos estão mais próximos, a excelência de vida que, durante o resto do ano, pelos vistos, não temos tempo, ou coragem, de dizer, ou sequer lembrar. É tão brejeiro, a escassos dias da almejada noite, desejar a alguém "Feliz Natal!", quanto é abusar da expressão, igualmente gasta e estafada, de que "o Natal deveria ser todos os dias!" Eu, ateu profundo, mas não amoral - às vezes um nadinha imoral, confesso, mas em doses toleráveis - prefiro o Bem ao Mal, o Amor ao Ódio, a Paz à Guerra; e não guardo rancores no coração, mesmo por aqueles que porventura me tenham causado algumas das máculas que me habitam, e comigo hão-de perecer. Desejo, sim, que a Humanidade renove a sua atenção à necessidade do amor e ressurja o encantamento pelas actividades estéticas, tais como a pintura, a poesia, a literatura e a arte em geral. Porque não um novo Rissorgimento à semelhança do que aconteceu no século XVI? É, afinal, o cultivo do amor pelo saber, pela estética, que mais nos engrandece como seres-humanos, e que é capaz de contrariar a pulsão freudiana que nos leva a desejar destruir os nossos semelhantes. Eu, ameba deste astral sem fim, onde cada um de nós é apenas dono de um raiozinho de luz e sombra, peço mais amor e ternura a todos os que se sintam aptos para os transmitir, pois em momento algum duvido que a manifestação de tais sentimentos não possua um efeito multiplicador e de incentivo em todos os que nos rodeiam. Amor com amor se paga. Desejo as maiores venturas a todos os que me lêem.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A vida diante dos meus olhos

(Rio Nabão - Tomar - Dezembro 2008)
O meu cenário mudou está mais concreto mais acrílico mas ainda é bem bonito! O verde ainda existe, insiste em existir Os plátanos displicentes insistem em dançar com a música do vento De leve, bate o sol num dourado intenso E pássaros misteriosos cortam os céus d'Inverno O meu cenário mudou mas ainda é bem bonito Lá em baixo, as pessoas correm e andam sentam-se nas calçadas nos bancos dos jardins, passeiam os filhos e procuram a felicidade A vida passa diante dos meus olhos.

My Black Beauty

(BMW F 650 GS - O meu corcel negro - Coimbra - Dezembro 2008)

"O PROFETA"

(Rio Nabão - Tomar - Dezembro 2008)
É raro falar dos livros que já li ou daqueles que estou lendo, talvez por pensar, quem sabe erradamente, que a escolha das leituras deve ser uma opção individual, não passível de influências; e que os livros pelos quais optamos ler (e reler) têm de algum modo, conscientemente ou não, a ver connosco: com as nossas necessidades, curiosidade e forma de sentir. "O Profeta", de Khalil Gibran, faz parte do acervo das leituras que, cedo, ajudaram a formar as minhas escolhas como leitor. Trata-se de uma maravilhosa viagem espiritual escrita em 1923 por um libanês que, ainda hoje, na sua terra natal, é considerado uma lenda. Há pouco tempo reli o livro - é um texto curto, com pouco mais de cem páginas - e senti quão verdadeira é a afirmação de A. Lobo Antunes quando diz que um bom livro é aquele que se relê com prazer; e, em cada nova leitura, se descobre um livro diferente do anterior. Em homenagem a Khalil Gibran, pintor e escritor, um ser genial a quem, no Ocidente, nunca foi dada a devida importância, deixo aqui um dos trechos do "Profeta" que mais admiro: «Disse, então, Almitra: Fala-nos do Amor. Com uma voz poderosa ele disse: Quando o amor vos chamar, segui-o, apesar do seu caminho ser duro e íngreme. E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o, apesar da espada escondida entre as suas penas poder ferir-vos. E quando ele falar convosco, acreditai nele, apesar da sua voz poder esfacelar os vossos sonhos, como o vento norte arruína o jardim. Pois mesmo quando o amor vos coroa, ele vos crucifica. O amor não dá nada além de si mesmo e não toma nada além de si mesmo. O amor não possui nem é possuído, pois o amor é suficiente ao amor. Quando vós amais, não deveis dizer. "Deus está no meu coração", mas sim "Estou no coração de Deus". E não pensai que podeis dirigir o curso do amor, pois o amor se achar que o mereceis, dirige o seu curso.»

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Gramática da poesia

(Amores-perfeitos e outros menos - Leiria - 2008)
Doce olhar que me procura,
doce olhar que me escapa,
doce olhar que me sussurra,
palavras que eu quero ouvir;
#
Doce olhar que me penetra
doce olhar que me tortura
e engole o meu coração;
#
Penoso é encontrar
de longe esse doce olhar,
esse olhar abstracto
distante a iluminar
o vazio do meu dia;
#
E esta é a poesia do fim
igual a uma eterna melodia
tal qual sinfonia
- eu sou aquele que partia,
a criança que te sorria;
#
E esta é a poesia do fim,
demasiado igual ao meu dia,
que ensolarado se fazia
se me fizesses companhia
nesta noite tão fria;
#
E esta é a minha poesia,
que, sempre que se acaba,
logo de novo se inicia.

Olhando para a Lua.

("Fonte dos Amores" - Quinta das Lágrimas - Coimbra - 2008) Por tantos cantos estão, espalhados no chão, espalhados sobre a mobília pedaços de um coração. Nos livros nas estantes nos álbuns em velhas cartas, numa canção... Tudo, por vezes, me lembra velhos amores, amores que já partiram, cada um levando consigo um pedaço do meu coração. Escrevo na escuridão da noite, solitários, eu e o brilho da lua, deslizando sedutora na rua, nas vidraças do meu quarto, lua lenta e silente, como a luz da eternidade, que todos os poetas contempla lá do alto da sua vaidade.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Amor e tormentas

(Castelo de Almourol - Zêzere- Outono- 2008)
Um dia, depois deste agora, entrarás em mim e as gotas que caem de ti beberei. E caminharemos sem avançar por um caminho de doçuras e chegaremos. E haverá infinitos caminhos luas cheias e infinitas chegadas. Haverá vento e chuva e caminharemos. E haverá um arco-iris duplo e chegaremos infinitas vezes. Haverá sol, flores e doçura... e veremos o demónio solto cavalgando entre as ameias... E fecharemos os olhos, amor e seremos o princípio. [Depois, ar limpo silêncio cheiro da terra, lisura, trinar dos pássaros] [Depois, amar-te-ei com humidade de terra força de relâmpago e rutilante ardor]

domingo, 14 de dezembro de 2008

Gosto de azinho

Quando se trata de acender o fogão de sala, agora que chegaram as frias noites de Inverno e apetece cada vez mais passar serões à lareira, deparo-me sempre com o eterno dilema sobre quais os materiais mais indicados para utilizar na combustão. Por preguiça, não faço como a maioria das pessoas que compra lenha às carradas – que é com certeza a solução mais económica. Burguesmente, desloco-me ao supermercado quando preciso comprar lenha; e depois carrego um ou dois sacos, de 10 kg cada, desde a garagem até ao elevador. Já experimentei o azinho, o sobro e, recentemente, um material que, segundo a publicidade, garante uma combustão mais duradoura do que a madeira tradicional: os briquettes. Este compósito industrial, pomposamente apelidado com um sonante galicismo, mais não é do que uma série de rolos feitos com aparas de madeira prensada. No entanto, de tudo quanto já experimentei, estou seguro de que o azinho é a madeira que mais tempo leva a ser consumida pelas chamas e também a que deixa um cheiro menos desagradável no ar. Como por certo já sucedeu com todos os adeptos das lareiras, queimo-me com frequência sempre que insisto em revirar os toros com as mãos em vez de usar a pinça adequada para o efeito. Felizmente para mim, à parte uns pêlos da mão e do antebraço chamuscados, nunca houveram consequências de maior dimensão. Adoro fogões de sala. Só quem já experimentou tal sensação, sabe como é bom estar refastelado num sofá, ao redor de uma boa lareira, escrevendo, lendo um livro interessante, vendo um filme, dormitando, ou fazendo outras coisas prazenteiras que a imaginação de cada um ditar. São tudo delícias de que não me dispenso. Não fora o perigo de poder inalar dióxido de carbono em quantidade suficiente para me mandar mais cedo para o outro mundo, por vezes apetecia-me colocar um colchão no chão, mesmo juntinho ao lume, e deixar-me adormecer ao som do crepitar da lenha, demorando o olhar na dança frenética das chamas, até adormecer e o mundo se tornar num imenso oceano cor-de-laranja. O tempo, esse veloce predatore delle cose create, segundo a definição de Leonardo Da Vinci, há muito que deixou as impressões digitais em muitas das vitualhas que compõem a minha sala. Quem nela demorar o olhar e não souber a verdadeira idade do seu usuário habitual, julgará que acabou de entrar na biblioteca de algum intelectual anoso, vivendo nas primeiras décadas do século passado. A tralha é abundante, o mobiliário demasiado datado, talvez até carunchoso, e são várias as estantes pilhadas de livros até ao tecto. Não fora a televisão, a aparelhagem musical e um tapete de Arraiolos bordado pelas mãos da minha mãe, poder-se-ia imaginar que tudo o resto, candeeiros incluídos, foi adquirido, a preços de varejo, num qualquer antiquário da Almirante Reis - uma meia verdade. A sala é, sem dúvida, a minha toca multiusos.
Apesar de não me considerar uma pessoa cobarde - pois nem a vida que levei e tudo quanto obtive, praticamente sempre às minhas custas, mo permitiriam uma postura diferente -, não nasci para confrontos e assusta-me sempre a perspectiva de situações em que, por exercer uma certa autoridade, me possa ver forçado a entrar em lutas. Sou um contemplativo irredutível e, por incrível que pareça, um dos homens mais susceptíveis que vivem à face da terra: qualquer injúria me põe doente, qualquer doesto me irrita. Compreende-se, pois, que quem nasceu assim não se deve meter em cavalarias altas, situações potencialmente geradoras de conflitos. Gosto da minha paz. Gosto de ser um inimigo declarado das coisas práticas e massivas, aquelas de que toda a gente gosta, e mergulhar-me neste universo que construí: o melancólico e pequenino planeta que é a minha vida. Não gosto de briquettes, mas gosto de uma lareira que carbura azinho bem seco. E gostei, também, de uma coisa que há pouquissímo tempo disseram acerca de mim: “Tens uma voz musical, bem timbrada, elegante e bastante sensual...” – Fiquei, naturalmente, embasbacado, não pelo elogio em si, mas pelo crédito que me merece a pessoa que o proferiu. Prometo que não me tornarei vaidoso. Não me considero assim tanto. Aliás, os extremos de exigência a que sempre me obrigo, no que concerne a quase tudo o que faço, e a satisfação moderada acerca dos meus valores, nunca tal mo permitiriam.

Jason Mraz - "I'm yours"

Jason Mraz - o meu intérprete predilecto do novo "reaggae style". Quem sabe uma visita a Jamaica não esteja a fermentar no horizonte das minhas próximas viagens?!

A chegada

(Quinta das Lágrimas - Fonte dos nenúfares - Coimbra -2008)
Os seus lábios eram doces como mel os olhos, duas luas profundas e por dentro fluíam rios, correntezas e a sua voz era uma melodia no espaço. Chegou a memória do seu amado com as suas asas refulgentes. Apareceu entre as estrelas, e o seu vôo fez-se suave quando pousou no abraço; e o beijo aconteceu sem tempo num fervor de amor verdadeiro. Fundiram-se os rios e as correntezas formaram-se mares, lagoas, oceanos e os dois banharam-se nas suas águas criando neófitas vidas eternas. Era o amor mais puro que subia no Outono do cerro. Era a silhueta de um anjo nascido entre as dunas, mesclado com a noite e as bátegas de uma chuva tocada a triste pelo vento.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Luz ilusória

(Serra da Gardunha - 2008)
E foi ao ver-te e sentir-te efémera luz enredada que o vento te levou. E veio outra luz partida de fragmentos de glória que recolhi na palma da minha mão. E foste tu, paixão minha que o amor nas luzes não estava. E fui ficando só com o amor que nas luzes não estava.

Viagem ao passado

Viajei ao passado recorri a histórias lutei em infinitas guerras senti misérias, dor tive poder amei mulheres, confiantes e desesperadas, e perguntei porquê? Vi as noites iluminarem os campos o surgir das flores em cada Primavera o calor do Verão mil ventos, mil chuvas vi morrer, sofrer, nascer e perguntei porquê? Falei com sábios poderosos e humildes percorri cada canto da Terra banhei-me em rios claros águas cristalinas busquei perfumes senti inúmeros gozos e perguntei porquê? E voltei das minhas viagens aspirei o aroma caminhei até ao mar entrei no oceano deitei-me na areia senti o sol e dormi sem despertar e os outros perguntaram porquê?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Guilherme Arantes - Pedacinhos

Guilherme Arantes cantava esta linda balada como ninguém. Hoje, refugiado em São Paulo, diz-se que engordou, branqueou os cabelos e é produtor musical, ou seja: ganha a vida à custa dos talentos alheios.

A solução (a)final

(Rua Uruguaiana - Alfândega - Rio - 2008)
Com o rodar do tempo, nós, homens, raramente escapamos à saliência do ventre e à perda de cabelo. Mas como, felizmente, para quase tudo já há remédios - mais não sejam mezinhas que ajudam a protelar a chegada dessas duas inevitabilidades - é importante não desesperar e encarar a mudança como uma nova fase. É verdade que há paixões que vencem o tempo, mas quase tudo vai esmorecendo no coração das criaturas sensíveis: o entusiasmo da mocidade, os devaneios de riqueza e glória, a fé em muitas coisas que eram julgadas sublimes. E as almas crepusculares povoam-se de cemitérios onde jazem, cobertas de névoa, as ilusões mortas. "A idade tudo leva e tudo trás e nada cura como o tempo", asseguram os adágios populares. A vida, entretanto, não é feita somente de instantes tristes. De vez em quando um bando de pássaros, em chilrreada, costuma sobrevoar alguma árvore solitária, meditativa, que se interpõe no meu caminho. E isso dispõe-me bem. Faz-me sorrir e pensar no amor. Mas um aspirante a poeta/escrevente não vive só de versos. Às vezes também precisa alimentar o corpo. Barriga cheia significa cara alegre. Talvez por isso ontem sonhei que era um leitão assado. De manhã, a princípio, a minha impressão foi de espanto: durante a noite vira-me estendido, horrorizado, sobre um prato, cheio de coisas que não eram os meus próprios orgãos. Mas havia em mim um cheiro delicioso de carne gorda tostada. Felizmente que, depois, ao olhar-me no espelho da casa-de-banho, reconheci o familiar rosto envelhecido, de barbas alvas, que já aprendi a aceitar. E, aos poucos, fui recuperando a calma e o auto-domínio. Quero eu lá saber de implantes capilares, tintas, máscaras de juventude! O meu aspecto de agora é o reflexo de quase meio século, a maior parte do tempo, vivido à velocidade da luz. E é com essa cristalina verdade que rejubilo: a constatação de que efectivamente vivi - e ainda por aqui ando.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Tão longe

Inspirados versos de amor murmuravas quando te conheci pela primeira vez teu penetrante olhar ternura implorava e rápido batia meu coração de insensatez. Quem sabe como meu corpo não desabava com medo que o rubor notasses em minha tez mas desse amor vaporoso pouco resta só a lembrança do momento que doce se fez. Penoso seria de novo reencontrar a mácula desse teu doce olhar - esse doce olhar abstracto tão longe, mas a insistir iluminar a névoa que esculpe o meu recato.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

(Vista aérea do rio que banha a cidade mais linda de Portugal - Dezembro 2008)
O frio aqui pelo nosso país está pela hora da morte e receio que estas temperaturas tão baixas possam ter efeitos nefastos na minha saúde. Acho que vou mesmo seguir as recomendações usuais neste tipo de situações: utilizar roupa quente suplementar, cobrir a cabeça, utilizando um chapéu ou gorro, proteger as mãos com luvas e utilizar calçado adequado para evitar perdas de calor. E como a circulação sanguínea faz-se com maior dificuldade, o melhor é mesmo manter-me activo fazendo pequenos exercicíos com os braços, pernas e dedos, beber bebidas quentes e comer refeições igualmente quentes. Não se admirem pois os utentes da repartição onde trabalho se me virem amanhã, dia nove de Dezembro, entrar aos saltinhos pelo escritório adentro, de gorro na cabeça, expelindo bafos de calor, enquanto ensaio uma espécie de "Dança de São Vito" para não perder a temperatura corporal. Espero que eles, ao menos, sejam pessoas compreensivas ou, no minímo, dotadas de algum sentido de humor. Em nome da saúde, afinal, tudo é compreensível. Quem diria que há pouquíssimo tempo atrás estava eu, em Copabacabana, a sorver por um canudinho uma água de côco gelada?! Coisa de doidos!

Segue o Teu Destino - Maria Bethânia e António Alçada Baptista

António Alçada Baptista morreu este Domingo. O escritor tinha 81 anos e há muito que padecia de problemas cardíacos. Um dia, quando se reescrever a História da Literatura Portuguesa do século XX, espero que lhe seja dada a importância que em vida nunca teve. Trata-se de um dos maiores escritores portugueses contemporâneos, alguém que não tinha medo de confessar as emoções e a ternura imensa que nutria por tanta coisa. Um "escritor feminino", como ele próprio se retratava, mas, sobretudo, um verdadeiro príncipe das letras, dotado de uma cultura vastissíma e de um espiríto humanista e verve inigualáveis "Os Nós e os Laços", dos seus livros, o que mais admirei, já faz parte do acervo das leituras que jamais se apagarão das minhas memórias. Presto-lhe a minha sincera homenagem e curvo-me em respeito perante o seu génio.

Portugal é de nós, pequeninos

(Real Instituto Portuguez da Leitura - Rio - 2008)
Por aqui é extremamente fácil encontrar jornais portugueses, inclusive semanários regionais e até pasquins locais de curtíssima tiragem. O que sobrou da grande vaga de emigrantes portugueses para a América do Sul, em especial para o Brasil, Argentina e Venezuela – corriam os anos cinquenta do século XX –, são idosos de cãs brancas, com sotaque carioca ou gaúcho espanholado (na Argentina e no Rio Grande do Sul), variando consoante o lugar em que tenham assentado mais tempo arraiais. Da terra natal, já poucos se recordam e nenhum dos patrícios com quem falei se mostrou minimamente interessado em regressar à Lusitânia. São quase todos pequenos comerciantes, sexagenários, alguns proprietários de lojas e supermercados com alguma dimensão, mas todos plenamente entrosados na realidade dos países que os acolheram. Invariavelmente, são oriundos do norte de Portugal e não abdicam de frisar que possuem lá propriedades que herdaram e tencionam vender. "Quer comprar um apartamento em Viseu? E em Gaia? – “Não, obrigado!" – Para que raio haveria eu de querer comprar um apartamento em Viseu ou em Gaia?! É engraçado o afã com que gente minha amiga, a maioria "cariocas da gema", faz questão em me apresentar portugueses residentes no Brasil, como se eu não estivesse já farto de ver portugueses, ainda para mais portugas com cinquenta anos de terras de Vera Cruz, totalmente despojados de quaisquer referências europeias, falando uma mistura de "axim" com gíria carioca - Na Argentina, o sotaque dos luso emigrados é apelidado de "portunhol": um neologismo delicioso que etiqueta essa curiosa forma de falar. É impressionante constatar, por estas paragens, a absurda ausência de informação sobre a actualidade de Portugal. À parte o Roberto Leal, a Amália, o Ronaldo e um ou outro actor que participa em novelas brasileiras, o nosso jardim à beira-mar plantado ainda passa, no imaginário da maioria dos brasileiros, sobretudo nos menos informados, como sendo um pequeno país de gente trágica e triste, com bochechas escarlates e carnudas, as mulheres trajando lenços garridos na cabeça e os homens usando coletes pretos, chapéu e relógio de corrente. São certamente as imagens do folclore nacional, que alguns terão vistos em apresentações televisivas - a matéria-prima que mais ajudou às efabulações sobre o nosso aspecto. Os mais idosos recordam a chegada do grosso dos emigrantes vindos de Portugal. Chegavam de barco, depois de uma longa travessia oceânica - invariavelmente alvo da curiosidade popular, mas, regra geral, bem recebidos. Alguns bebés nasciam a bordo e quando o navio aportava em Niterói, já o infante era registado como nado em solo brasileiro. Na verdade, das vezes que estive no Brasil, ou em qualquer parte da América do Sul, nunca um noticiário televisivo transmitiu algo sobre Portugal. Podemos especular sobre quem tem essa culpa: se são os organismos encarregues da divulgação da nossa cultura no exterior, ou consequência do desinteresse que Portugal suscita por estas paragens? Inclino-me mais para a segunda opção. Enquanto a cultura brasileira cada vez mais se intensifica em Portugal, seja pela aculturação da sua música, das comidas, e da própria forma de vestir, os laços fortes com Portugal terminaram com o Grito de Ipiranga e com o império de D. Pedro. Depois, tudo o que se seguiu, foi a História de um país soberano, entregue a si mesmo, tal como o jovem adulto que abandona a casa paterna e decide ser dono dos seus desígnios. Só a exposição que presenciei no Real Instituto Portuguez de Leitura, sobre a comemoração do bicentenário da chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, e a placa lá colocada, em Março deste ano, assinalando as presenças de Cavaco e Silva e de Lula da Silva, me devolveram a consciência histórica de que alguma vez tínhamos sido suseranos por estes lugares. A nossa pequenez geográfica e política são bem maiores do que porventura possamos imaginar. Valha-nos a pertença à União Europeia, para que possamos fazer parte de um brilho capaz de resplandecer no universo de países do tamanho de continentes.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Espaços de luz

(Ilhas de Macaé - Cabo Frio - Brasil -2008)
Vi espaços de luz ouvi música da claridade senti os amanheceres o cheiro húmido a vida palpitando E fui uma luz clara uma nova luz. Penetraram imagens de luzes claras a luz estremecia e fazia-se mais intensa. E senti o amor e converti-me em água transbordada. A terra abraçou-me corri pelos amanheceres - era água transbordada e não pude deter-me. A terra abria-se à minha passagem banhei infinitos amanheceres e não me detive. E a luz sempre brilhou e sempre houve um novo amanhecer tudo envolto por aquela cortina de veludo anil.

Macaé

(Ilhas de Macaé - Cabo Frio - Brasil 2008) Delírios com tinta branca núcleo de cosmos a face do alba tinge o mar de cristal. Calor em fogo derretido que o vento espalha em estrelas perdidas. Amores sulcos na memória instante eterno onde deixaste o azul no branco.

Um novo Ser

(São Conrado - Rio - Dezembro 2008)
Rolaram as pedras da rocha e caíram pela areia Transformou-se o meu ser tantas vezes - que fui muitos seres e rolaram as pedras na areia. Vi a morte das minhas vidas. Vivo unicamente a minha vida de hoje. Morreu o menino que não sabia caminhar Morreu o menino que chorava sem falar O menino jovem, o menino bonito Muitos morreram. Desconhecido sou para o meu futuro Um novo ser virá. Quando rolam as pedras Que caem das rochas pela areia Penso em coisas que não têm que ver com outras E penso que a minha vida é igual A essas pedras que caem da rocha pela areia.

O ilhéu

(Tempestade tropical - Rio Dezembro 2008)
Calaram-se as vozes Ouviram-se rangidos e gemidos Vieram os vôos O canto ferino dos pássaros O homem, a formiga O homem, os pássaros O homem não entende Nem de cantos nem de grunhidos O homem, o homem O homem não entende A linguagem do homem O homem está só.

Eu entre os micos

(Mico - o simpático macaquinho do Rio -
Morro do Pão de Açúcar)
Existem em toda a mata atlântica brasileira e na floresta tropical do sudeste do Brasil (sobretudo na região do Rio de Janeiro). Têm como hábitos alimentares a ingestão de frutas e pequenos insectos. São animais com ar amoroso, cómico e simpático, mas, na verdade, possuem caninos afilados que podem provocar danos consideráveis aos turistas mais incautos. O segredo é dar-lhes a frutinha à boca mas, se possível, mantendo os dedos longe das suas presas. Este, aqui de cima, está a refastelar-se com um pedaço de mamão antes de eu, inadvertidamente, lhe ter pisado a cauda, tal o susto que apanhei quando o bicho me fugiu para baixo dos pés! O sem vergonha deu um guincho e voltou para perto das pessoas, novamente de mãozinha estendida.

Medo

(Praia do Arpoador (depois de uma chuvada) - Rio Dezembro 2008)

Escamas prateadas de espécies marinhas voam juntando-se no fundo do oceano, Transformam-se em pássaros que sulcam a noite e o seu canto é um uivo que estremece o planeta. Se algum pousa no meu ombro, as suas asas envolvem-me e juntos fugimos ao azul mágico do eterno.

sábado, 6 de dezembro de 2008

O espertalhão que fugiu do frio

(Baía de Botafogo e Cristo Redentor - Rio de Janeiro - Dezembro 2008) (Praia Vermelha - Urca - Rio - Dezembro 2008) (Copacabana - Rio - Dezembro 2008)
(Fiat Palio - Made in Brazil - Rio - Dezembro 2008)
Tornando ao Rio de Janeiro, vindo do sul, fui confrontado com algumas notícias calamitosas que li num jornal português, por sinal um periódico de grande tiragem, que garantia que em terras de Viriato se tremelicava de frio. Havia neve à farta na Serra da Estrela, com temperaturas abaixo de zero em várias zonas do norte do país, ondas de frio vindas da Europa, blá, blá , blá... Não perdi mais tempo. Voltei ao Fiat Palio, de vidros escurinhos, como convém nesta urbe bela e perigosa, liguei de imediato o ar climatizado, e dirigi-me até à zona sul para beber uma aguinha de côco bem gelada e tomar mais uma banhoca na praia do Leme. Sabem, estas notícias de Belzebu, acerca da temperatura que em breve me espera, causam-me arrepios de... calor! Já não é a primeira vez que experimento a sensação extremamente desagradável que é sofrer um choque térmico, e os dias que o corpo leva até se readaptar. Afinal, por estas bandas, só estão mais 30º positivos do que em Leiria, o que, bem vistas as coisas, nem é muito significativo... ou será? Valham-me todos os santos!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Bons Ares

(Calle Peron - Buenos Aires - Novembro 2008)
("La Boca" - Buenos Aires - Novembro 2008)
(Livraria "El Atheneo" (antigo teatro) - Buenos Aires - Novembro 2008)