Tudo o que me apeteça dizer sem exclusão de temáticas ou conteúdos, através de textos que tanto podem ser crónicas, contos, poesia, ficção, diários, ou meros pensamentos surgidos no momento.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Elogio da poesia
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
A eternidade
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Erudição em overdose
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Aeroporto da Portela - madrugada
É a terceira vez que viajo para a América do Sul. Nos últimos dois anos tem sido assim. Estranho ver-me nestes trajes - no preciso momento em que escrevo estas linhas, estão mais de 30º positivos e chove torrencialmente: uma tempestade tropical, com todos os ingredientes, assola há vários dias o sul do Brasil - completamente entrapado, no frio de uma madrugada infinita, aguardando pela abertura do check-in do balcão da Ibéria. No fiar dessa noite, ainda na gare do aeroporto, aproveitei para terminar a leitura de uma biografia de Olavo Bilac - dos poetas brasileiros, lado a lado com Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Morais, o meu predilecto - e comecei a leitura de um romance da Inês Pedrosa que há muito queria ler: "Nas tuas mãos". Como a viagem prometia ser longa, o que veio efectivamente a suceder, e como é meu hábito, também escrevi algumas notas soltas, apontamentos, e esbocei alguns poeminhas. Aqui fica um deles, talvez o mais coincidente com o estado de espírito do momento:
Entrou no espaço e sentiu-se acariciado. Descobriu a luz do além e penetrou ainda mais. Viajou na suavidade do escuro e era a imensidão. E era dormir sem chegar era dormir sem despertar e quando a luz iluminou a sua face retrocedeu e viajou infinitas noites buscando a imensidão.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
¡Suramérica espera para mí!
(Air Bus A 340-600 - Ibéria - cortesia do Google)
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Insone
(O velho guitarrista - Pablo Picasso)
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
A autarquia mais romântica
domingo, 9 de novembro de 2008
Amanhecer
A apologia do silêncio
Auto-retrato
Esta é a minha luz
Por una Cabeza - Gardel
Carlos Gardel, um dos mais famosos cantores do tango argentino, celebrado em toda a América Latina pela divulgação do género musical, é curiosamente, apontado com uma das influências primordiais de Amália Rodrigues. “A Morte de Carlos Gardel”, o livro de António Lobo Antunes, por mim adquirido, depois de ter estado em não sei quantas mãos, mas em óptimo estado de ser lido, na Feira de velharias e antiguidades que mensalmente acontece junto ao Mosteiro de Alcobaça, é o terceiro livro de uma trilogia do escritor. O romance é uma espécie de buraco negro, onde apenas se encontra doença, morte, ódio, cinismo e amargura. A acção localiza-se num bairro de Lisboa do passado século XX e o tango ocupa o lugar central na vida de várias personagens do livro. O protagonista, Álvaro, deprimido porque a sua mulher o deixou, torna-se incapaz de amar e vive uma vida amargurada, ganhando um rosto sem feições. A sua única razão de viver passa a ser o Tango, em especial o tango interpretado por Carlos Gardel. “Por una Cabeza” é, justamente, o tango que mais se popularizou entre nós e não terá sido por mero acaso que o trágico percurso de vida do cantor, que culminou num estúpido acidente de aviação em Medellin, na Colômbia - corria o ano de 1935 – foi fonte de inspiração literária para o nosso mais insigne escritor vivo. A Argentina, ou mais cirurgicamente, Buenos Aires, ainda transpira e ecoa a sensualidade da voz de Carlos Gardel. Dentro de pouquíssimos dias, vou ao encontro dessas memórias vivas onde espero encontrar os antónimos da tristeza e do vazio. Vou apenas pelo sentimentalismo.
sábado, 8 de novembro de 2008
Na Ilha da Insónia
“Vedere Venezia e più successivamente morte” – Ninguém sabe ao certo se foram os italianos que inventaram esta frase, mas já a li aplicada a Nápoles e também a Roma, creio. Eu diria: “Ver, falar com ele, ainda que por segundos, sentir o aperto simultâneo das suas duas mãos na minha mão direita, e escutar algumas palavras sinceras especialmente dirigidas a mim; depois, eventualmente, morrer – ele ou eu, tanto faz qual de nós o primeiro.” Todos temos direito aos nossos heróis e heroínas, aos nossos ídolos, àqueles que adoramos e tomamos, de uma certa forma, como modelos de ser: alguém de quem não enjeitaríamos vestir a pele ou possuir a verve. Quando pensamos em pessoas deslumbradas, a conotação negativa fica bem perto, ainda assim deslumbramo-nos constantemente. Eu deslumbro-me com pessoas muito inteligentes, com sentido estético apurado; belas, sensíveis, especialmente bondosas, em suma, com todas as que exalam uma áurea especial que as distingue das demais e se nota logo às primeiras impressões – a maioria deslumbra-se com o que lhe é dado para se deslumbrar, o que, sendo pouco e prefabricado, tem o mérito de fazer do quotidiano um lugar inacabado e desejante, pouco ou muito ligado a grandes e nobres causas ou a pequenas e insignificantes necessidades. O deslumbramento, sem dúvida, diz muito de nós mesmos e da nossa possibilidade de emoção. E é esta disposição emocional, esta susceptibilidade de relevar uns aspectos e não outros, que, em última análise, nos permite sermos exactamente quem somos: com os nossos gostos, desgostos e idiossincrasias pessoais e intransmissíveis, ainda que, por outros, sejam julgadas demasiado estranhas ou dificilmente explicáveis.
Ontem deslumbrei-me e isso já não me sucedia há bastante tempo.
Larguei o trabalho cinco minutos antes da hora de saída e, apesar da chegada do escritor só estar prevista para as 18.30, tratei de aparcar o carro num dos muitos estacionamentos da cidade, e dirigi-me de imediato para a “Arquivo”. Aproveitei para lanchar, no simpático bar da livraria, um croissant estaladiço com fiambre acompanhado por um chá delicioso que, curiosamente, anunciava propriedades terapêuticas muito apropriadas: “chá verde anti-stress”. De qualquer forma, foi uma tisana muito gostosa, sorvida aos golinhos, por estar demasiado quente, ao som de um solo de violino de Sergei Profiev que inundava o espaço e ressoava nos escaparates cobertos de livros até ao tecto. Não tardou muito, a “Arquivo” encheu-se de gente – a “inteligentzia” de Leiria, os suspeitos do costume, compareceu em peso – e rapidamente as poucas cadeiras disponíveis deixaram de o estar. Ainda o escritor não tinha chegado, na rua, à porta da tertúlia anunciada, avolumavam-se os “crentes” de última hora que já não teriam o privilégio de apanhar um lugar sentado. Eu fiquei na segunda fila e, durante as duas horas que durou a sessão, sorvi, o melhor que pude, da expressão dos seus olhos azul-água-doce, cansados de tantos relatos efabulados de toda uma vida transformada em palavras; das noites longas e solitárias em que os cigarros se acendem uns atrás dos outros; das angustias dos vocábulos que não saem e teimam em se manterem escondidos atrás dos reposteiros soltando risadas ciânicas. Compreendi que para ser escritor são necessários desertos de solidão, memórias e, sobretudo, possuir a paciência necessária para esperar que as palavras certas e desejadas surjam, por vezes vindas do nada.
No fim da sessão – tratava-se da apresentação do seu último livro “O Arquipélago da Insónia” –, durante a qual toda a irreverência e o sarcasmo do escritor, acompanhados pelo seu característico humor cáustico, tiveram pano para mangas, seguiu-se a usual sessão de autógrafos. “Agora é para dar autógrafos? Que coisa chata, mas vá lá. Hoje até estou bem disposto e vim aqui para me divertir. Acho que começo a sentir-me uma marca, tipo “Kellogs”, aqueles cereais que tomamos ao pequeno-almoço. Conhecem? Estou a brincar... vamos a isso!” Depois de deixar algumas fãs mais afoitas, eivadas de laivos histriónicos incontidos, passarem-me à frente e ofertarem-lhe as submissões e graxas costumeiras, chegou a minha vez de lhe estender o livro que havia comprado. O escritor olhou para mim – as suas mãos raramente se aquietam: esfregam-se uma na outra, coçam a cabeça, mexem no aparelho auditivo, apertam o nariz, tocam as pálpebras, tudo num frenesim inexplicável, como se ele padecesse de uma hiperactividade tardia, ou já não soubesse o que fazer com elas (mãos) que não fosse justamente escrever – e perguntou-me de rajada: “Você gosta de me ler? Compreende os meus livros? Os seus olhos são verdes?” – Eu respondi-lhe: “Sim, adoro os seus livros. Aliás, já os li quase todos. A princípio achava-o um escritor demasiado difícil e só mais tarde, sinto, ganhei maturidade suficiente como leitor para me entrosar com a sua escrita. Sim, são verdes...” Ele retorquiu-me: “Simpatizo consigo e se não fosse por coisas levantava-me e dava-lhe um beijo. Obrigado por gostar dos meus livros e por gostar de mim!” – Ao mesmo tempo que apertava a minha mão com as suas duas mãos. Não lhe disse nem mais uma palavra. A voz embargou-se-me. Esbocei um sorriso tímido e despedi-me emocionado.
São 06.50 da madrugada. Ontem à noite cumpriu-se mais um dos meus sonhos e, por estranho que pareça, acho que tal não augura nada de bom. Sinto, sem que para tal tenha uma explicação racional, apenas por mera intuição ou misticismo, que, cumpridos a maioria dos meus sonhos, se aproxima uma qualquer hora especial. Ainda que por escassos dois ou três minutos, falei com António Lobo Antunes, o escritor português vivo por quem nutro maior admiração. Tenho neste momento diante de mim “O Arquipélago da Insónia” – o livro por ele autografado com os seguintes dizeres: “Para o Rui Jorge. Afectuosamente. António Lobo Antunes. 7.11.2008.” Olho para a obra – já a cheirei! – e sei que foi a emoção que me fez levantar pela madrugada para escrever este texto, talvez por as minhas noites, ou uma grande maioria delas, serem também arquipélagos de insónias.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Dormente
Poema
(Quinta das Lágrimas - Coimbra - 2008)
Neste jardim colhi um antúrio
Num dia penumbroso sem sol,
Na orla vermelha de um caminho,
Enfeitado a missangas de orvalho.
Era o silêncio submerso de mim mesmo
Que ninguém consegue ouvir,
Como as almas das coisas mortas
Ou o cheiro oculto das algas azuis
- Que já não emergem.
Ah! A carga psicológica do tempo
Sobre a humanidade!
O cansaço das coisas que não esperam
Para o outro dia...
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Era uma vez...
domingo, 2 de novembro de 2008
O velho saudosista
Frondoso
À beira do Liz
Noir et noir
sábado, 1 de novembro de 2008
Poema matinal

