sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Elogio da poesia

(Copacabana e Leblon - Rio de Janeiro - Novembro 2008)
Altas horas da noite, encontro-me na praia, frente a um morro em forma de cone, e detenho-me perante o deslumbre da grande cidade, agora em repouso, iluminada pela fluída lactescência de um luar opalino, que cobre as réstias de uma tarde sufocante. As montanhas, ao fundo, diluem-se perante uma imprecisa luz argêntea e azulada de reflexos cambiantes. Na vizinhança, as árvores farfalham e do seu interior chegam-me os gritos fantásticos de pássaros - que sei que existem, mas não os vejo. E o mar, mesmo atrás de mim, muge soturno, plangente, como se fora uma melodia arrastada. A leve ondulação, em vagas rendilhadas de alva espuma, vem morrer no frescor da areia tenra, perto do lugar que os meus pés pisam. Penso nos poetas. Em todos os poetas e poetisas deste mundo. Vejo-os como seres injustiçados, que sofrem mais porque sentem mais. Gente que vive para o coração e pelo coração. Grandes loucos, eternos sonhadores, ignotos das leis da lógica, possuídos pela vidência de um cosmo indefinível, todo feito de névoas e visões sobrenaturais. Uma raça em extinção, votada ao ostracismo, nesta época absurda que desvaloriza a estética, a arte e a sensibilidade, em prol da coroação de ídolos nascidos da imbecilidade humana, frutos deste tempo dissoluto, vergonhoso, de canalhocracia, incultura e arrivismo. Por tudo isto, prezo todos os que conseguem escrever “doce e clara manhã”, ainda que a manhã esteja, na verdade, agreste, feia e chuvosa. Na mente de um poeta é possível acender um sol de Verão na mais nevoenta alvorada de Inverno. E a poesia faz-se, sobretudo, destes instantes mágicos, sempre que dentro de nós o coração e a sensibilidade conseguem ver para além do olhar. Ao longe vejo uma enorme fogueira, quase no fim da praia, e é para lá que me dirijo.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A eternidade

(Cemitério Solano López - Paraguai - Novembro 2008)
Estavam-se amando há dois séculos que não eram séculos porque não existia o tempo. O pássaro pousou na árvore e cantou e todo o chão se encheu de flores. Chegaram mais pássaros, mais cantos e o ar era cálido e perfumado e os dois já não eram jovens e continuaram-se amando. Dois séculos mais se passaram que não eram séculos porque não existia o tempo. Olharam-se, eram de novo belos e jovens e o céu estava tão azul e claro que se divisava o planeta Terra. E como eram belos e jovens voltaram-se a amar outros séculos que não eram séculos porque não existia o tempo. Todo o chão se encheu de flores, de cantos. Porém o céu já não estava azul e não se divisava nenhum planeta.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Erudição em overdose

(Imagem rotina nas cidades sul-americanas - Novembro 2008)
Por vezes revelam-se-me assustadoras certas coisas que leio e, confesso, fico a matutar nelas como se certas idéias expostas já me tivessem assombrado a mente muito antes de descobri-las pensadas e relatadas por outrém. Por exemplo, quando Schopenhauer, no seu célebre ensaio “A arte de escrever” defende abertamente a tese de que o excesso de leitura tira do espírito toda a elasticidade, da mesma maneira que uma pressão contínua tira a elasticidade de uma mola; e vai mais longe quando afirma, sem peias, que “o meio mais seguro para não possuir nenhum pensamento próprio é pegar um livro nas mãos a cada minuto livre”. Essa prática, segundo o ilustríssimo filósofo, explica porque a erudição torna a maioria dos homens ainda mais pobres de espírito e simplórios do que são por natureza, privando também os seus escritos de todo e qualquer êxito. Malgrado o exagero da tese e descontando a conhecida faceta pessimista do filósofo germânico - que, com as suas ferinas, entusiasmadas e, por vezes, cómicas, reflexões, como se sabe, influenciou grandemente o pensamento de Nietzche, Bérgson e também de Freud - não deixa de tocar em assuntos sobre os quais, à medida da minha singela escala, eu mesmo muitas vezes me interroguei. Os eruditos são aqueles que leram coisas nos livros - sempre lendo para nunca serem lidos - e dotaram-se de doses maciças de informação abrangente, mas os pensadores, os génios, os fachos de luz, não serão antes aqueles que conseguiram ler directamente no livro do mundo? Afastada, em definitivo, por mim, a tese absurda do insígne pensador de que a leitura não passa de um substituto do pensamento próprio e que não é mais do que a melhor forma de deixar que os nossos pensamentos sejam conduzidos em andadeiras por outras pessoas, resta-me a conciliação dos extremos onde, quase sempre, mora a verdade. Como seria possível possuir-se um pensamento próprio, com algum grau de elaboração e maturidade, se não estivéssemos de antemão apetrechados com muitas leituras e, obviamente, na posse de pensamentos alheios? Uma pessoa não deve ler só quando a fonte dos seus próprios pensamentos seca, o que ocorre com bastante frequência mesmo entre as melhores cabeças, mas deve conciliar a experiência mental que a leitura proporciona – que é sempre “um ver através dos olhos de outrém" – com vivências próprias, ainda que consideradas, sabe-se lá por quem, comportamentos border line ou socialmente menos correctos. Por exemplo, eu encontro-me neste momento a viajar. Todos os dias confronto-me com situações novas, num mundo diametralmente diferente daquele onde aprendi a viver. E quero com isto dizer que não me basto com a experiência mental das coisas, como aquelas pessoas que passam as suas vidas lendo e tiram toda a sua sabedoria dos livros. Se assim fosse, para quê viajar, entrosar-me com culturas diferentes, outros lugares, por vezes até perigosos, quando podia ficar confortavelmente no sofá lendo descrições de viagens a respeito dos países que pretendo conhecer? Elas, as descrições, podiam dar-me informações precisas acerca de muitas coisas, fornecer-me, inclusive, detalhes sobre os sítios e a sua História, mas nada que se pudesse comparar com a experiência in loco. Se Schopenhauer, pecando pelo exagero, acabou por cair um pouco no esquecimento da Filosofia, face a doutrinas muito mais consistentes, tais como as defendidas por Hegel ou Kant, não é menos verdade que ainda possui o poder de atiçar a dúvida e fazer abalar a "consistência da verdade", ou não fosse esse o papel mor de qualquer filósofo!
[A chuva cai como lágrimas de cristal e bate nas vidraças. O ar está abafado. Já passa da meia noite aqui nos trópicos. Ao longe acabei de escutar um som rouco, talvez produzido por uma qualquer ave noctívaga. Talvez este mormaço que convida o corpo a ficar nú e o odor perfumado que se desprende da amendoeira gigante que assoma à minha janela, me tenham, por estas horas, levado até às margens da filosofia de pacotilha. Mas, aqui, agora, estou certo que em qualquer lugar - perdoe-me este apoderamento o criativo do anúncio do Martini - sempre foi meu desejo trespassar as sombras da noite, entrar dentro do próprio medo, e partir para os solilóquios que me habitam. De resto, não tenho sono e a Internet é um pouco como Nova York: Uma cidade que nunca dorme.]

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Aeroporto da Portela - madrugada

(Portela-Lisboa - Novembro 2008)

É a terceira vez que viajo para a América do Sul. Nos últimos dois anos tem sido assim. Estranho ver-me nestes trajes - no preciso momento em que escrevo estas linhas, estão mais de 30º positivos e chove torrencialmente: uma tempestade tropical, com todos os ingredientes, assola há vários dias o sul do Brasil - completamente entrapado, no frio de uma madrugada infinita, aguardando pela abertura do check-in do balcão da Ibéria. No fiar dessa noite, ainda na gare do aeroporto, aproveitei para terminar a leitura de uma biografia de Olavo Bilac - dos poetas brasileiros, lado a lado com Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Morais, o meu predilecto - e comecei a leitura de um romance da Inês Pedrosa que há muito queria ler: "Nas tuas mãos". Como a viagem prometia ser longa, o que veio efectivamente a suceder, e como é meu hábito, também escrevi algumas notas soltas, apontamentos, e esbocei alguns poeminhas. Aqui fica um deles, talvez o mais coincidente com o estado de espírito do momento:

Entrou no espaço e sentiu-se acariciado. Descobriu a luz do além e penetrou ainda mais. Viajou na suavidade do escuro e era a imensidão. E era dormir sem chegar era dormir sem despertar e quando a luz iluminou a sua face retrocedeu e viajou infinitas noites buscando a imensidão.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

¡Suramérica espera para mí!

(Air Bus A 340-600 - Ibéria - cortesia do Google)
Nos países ocidentais, uma grande percentagem de homens e mulheres necessita, para a sua felicidade, mais do que os simples meios de subsistência: deseja também o consumo desenfreado e o êxito. Mas, pior do que tudo, a vida que levamos conduz-nos à insaciedade e à desvaloração do frugal e das coisas simples - dois enormes obstáculos impeditivos à felicidade. Viajo para lugares onde uma grande parte da população reinventou formas diferentes de ser/estar feliz e espero reencontrar-me com uma ambiência que já conheço. Para além de uma atracção inexplicável por essa parte do mundo, é sobretudo esse o sentimento que me impulsiona.
Hasta la vista!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Trinta anos atrás

(retrato do aspirante a artista ainda na fase nefelibata - Almada - 1978)
NB. Um cabelo igual, nos tempos que correm, só com peruca, implante ou extensões.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Insone

(O velho guitarrista - Pablo Picasso)
Silenciosa e escura a noite
Vai longo o negro manto que a rodeia.
Não adormeço; assim minh'alma anseia
Que nasça a madrugada e a luz se afoite.
Tudo dorme... só eu, como um açoite
Despertando a matéria triste e feia
Me faz pensar na treva que se enleia
P'ra me roubar sentido onde me acoite.
Pergunto então às trevas o motivo
Para o meu estar alerta, sempre vivo,
Quando tudo parece adormecer...
Nem Morfeu acalenta os meus receios.
Jamais alguém entende os meus anseios
Por estar na vida só e... não viver!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A autarquia mais romântica

(Amor - Terras do Lis - Novembro 2008)
Viajando de bicicleta "allterraine", dista uns escassos 30 minutos da minha casa a freguesia mais romântica de Portugal. O topónimo deve-se aos amores de D.Dinis que, segundo reza a História, ficou conhecido como "O Lavrador"; mas, de acordo com fontes avisadas, e para grande desgosto da senhora do Milagre das Rosas, o que o homem gostava mesmo era de lavrar em seara alheia. Há quem defenda a alteração do nome da freguesia para "lugar de bastardos", já que foram tantos os ilegítimos que El Rei deixou no ventre de toda a camponesa noviça que assomava rente ao seu corcel. A título de curiosidade, certamente por marialvismo desfasado ou vergonha de camponês, as gentes cá da terra recusam-se a dizer que moram em "Amor". Dizem, sim, e todos sem excepção, que são de "Ámor". Que mariquice dizer que se mora em Amor! Eu não moro em Amor, mas numa freguesia vizinha da dita e creiam-me: dá-me um gozo irreprimível ignorar a silaba tónica que os nativos daqui arranjaram para se salvarem da palavra proibida, indizível. Eu digo sempre, Amor, quando me quero referir ao lugar em questão. Quer-se lá coisa mais linda do que dizer que se mora em Amor, que se faz amor em Amor, ou que se é filho de Amor?!

domingo, 9 de novembro de 2008

Amanhecer

(Amanhecer ténue - janela do escritório - Leiria - Novembro 2008)
Por entre o arvoredo e a ramagem Oiços os trinados d'aves graciosas Oiço ao longe canções harmoniosas Sinfonias de cor numa mensagem. Andam vozes loquazes pela aragem Da fragrância das flores, tão caprichosas O céu e as nuvens, agrestes, buliçosas, Que me visitam nesta curta passagem. A Terra a renascer tudo o que é velho Faz o Céu mais azul, o mar um espelho A reflectir a luz que tudo encanta. [Sinto sono e torno ao ninho E idealizo coisas com imenso carinho Que me apertam este nó na garganta]

É proibido proibir!

(Vale do Liz - Leiria - Novembro 2008)

A apologia do silêncio

Há quem aprecie uma boa conversa, e ainda bem! Mas parece muito mais frequente, muito mais atractivo e desafiante o desconversar. Num tempo em que falar se vai espartilhando à necessidade de dar e obter informações, e se usam subterfúgios sofisticados para falar sem se confrontar com cúmplices ou antagonistas, os ensaios de desconversar ainda são um reduto com um qualquer sentido. Cada vez tenho menos paciência para as pessoas com toques polifónicos na voz - à semelhança dos telemóveis 3G -, que adaptam o tom vocal à medida da circunstância e do interlocutor; e muito menos para os/as intelectualóides incandescentes que fazem jus de exibir constantemente as suas imensas riquezas culturais: "Olha bem que culto/a que eu sou! Conheces o escritor X? Não?! Não acredito que nunca tenhas lido nada dele! É tão conhecido!" - Leia-se: És burro e eu sou mais culto/a do que tu. Por causa da minha absoluta falta de paciência para aturar esta gentinha com necessidade constante de auto-afirmação, cada vez me remeto mais para um género de comunicação unilateral - um pouco autista mas, seguramente, menos conflituante: o monólogo. Recuso-me a participar de discussões grupais. Ou muito me engano e, porventura, estarei ficando irremediavelmente chalado, caso tal não seja verdade, ou nessas circunstâncias, sempre que discordo de uma ideia, ou do simples pensamento de alguém - que estava decidido a deslumbrar os outros e tinha a expectativa da anuência e do consequente aplauso geral - sou imediatamente atacado por uma matilha de intelectuais assanhados (em regra os meus voluntários algozes) que só atinge a saciedade após garantir a conquista do meu silêncio. E é por essas e por outras que cada vez dialogo menos. Monologo. Escrevo. Estou indisponível para: "Vai uma corridinha?" Vrrrummmm vrrrummmm!!!

Auto-retrato

(Monte-Real - Leiria - Novembro 2008)
Como formiguinhas, mais do que poderosos Sísifos, carregamos as nossas necessidades e as nossas possibilidades de consolação. Às vezes tropeçamos no útil, outras no belo, outras no nosso desajeitamento, coisa mais frequente em mim. Sabe-se lá porquê, desde há uns tempos a esta parte, virei ciclista multidisciplinar: tanto pedalo em troços de estrada como em picadas. A dois anos e pouco de atingir o meio século, constatei que não me é muito difícil fazer 40 kms de bicicleta numa manhã. Para tanto, bastou-me deixar a "pasteleira" sexagenária a gozar o já merecido descanso na garagem e optar por um corcel mais novo, com desmultiplicação de velocidades, suspensão dianteira e uns pneus aptos para todo-o-terreno. E foi apenas assim. Mas gosto da bicicleta velhinha na mesma. Apenas passei a respeitá-la mais e já não lhe peço os impossíveis que a sua provecta idade não permite. A velha senhora disse-me que se prazenteia mais com curtos passeios à beira do Liz e eu, como gentleman que sou, faço-lhe naturalmente a vontade.

Esta é a minha luz

(Leiria- Baixa- Novembro 2008)
É muitas vezes na transgressão, no delito que não é, porque não se inscreve naquilo que a lei considera, mas ultrapassa em muitos sentidos o instituído e o bem-pensante, que se torna para mim importante inovar. Muito mais importante do que continuar nos trilhos, ou deixar-me marinar nos lugares-comuns da vida, apetece-me encontrar respostas e combinações diferentes e, por vezes, com um prazer imenso, transgredir naquilo que os sábios e os sensatos afirmam ser a forma certa de ser ou fazer isto ou aquilo. Afinal quem é o dono da verdade? Eu? Eles? Entrega-se a mesma (verdade) a quem provar poder legitimamente possui-la. Eu tenho as minhas verdades que, para outros, podem ser perfeitas mentiras. E agora?

Por una Cabeza - Gardel

Carlos Gardel, um dos mais famosos cantores do tango argentino, celebrado em toda a América Latina pela divulgação do género musical, é curiosamente, apontado com uma das influências primordiais de Amália Rodrigues. “A Morte de Carlos Gardel”, o livro de António Lobo Antunes, por mim adquirido, depois de ter estado em não sei quantas mãos, mas em óptimo estado de ser lido, na Feira de velharias e antiguidades que mensalmente acontece junto ao Mosteiro de Alcobaça, é o terceiro livro de uma trilogia do escritor. O romance é uma espécie de buraco negro, onde apenas se encontra doença, morte, ódio, cinismo e amargura. A acção localiza-se num bairro de Lisboa do passado século XX e o tango ocupa o lugar central na vida de várias personagens do livro. O protagonista, Álvaro, deprimido porque a sua mulher o deixou, torna-se incapaz de amar e vive uma vida amargurada, ganhando um rosto sem feições. A sua única razão de viver passa a ser o Tango, em especial o tango interpretado por Carlos Gardel. “Por una Cabeza” é, justamente, o tango que mais se popularizou entre nós e não terá sido por mero acaso que o trágico percurso de vida do cantor, que culminou num estúpido acidente de aviação em Medellin, na Colômbia - corria o ano de 1935 – foi fonte de inspiração literária para o nosso mais insigne escritor vivo. A Argentina, ou mais cirurgicamente, Buenos Aires, ainda transpira e ecoa a sensualidade da voz de Carlos Gardel. Dentro de pouquíssimos dias, vou ao encontro dessas memórias vivas onde espero encontrar os antónimos da tristeza e do vazio. Vou apenas pelo sentimentalismo.

sábado, 8 de novembro de 2008

Na Ilha da Insónia

“Vedere Venezia e più successivamente morte” – Ninguém sabe ao certo se foram os italianos que inventaram esta frase, mas já a li aplicada a Nápoles e também a Roma, creio. Eu diria: “Ver, falar com ele, ainda que por segundos, sentir o aperto simultâneo das suas duas mãos na minha mão direita, e escutar algumas palavras sinceras especialmente dirigidas a mim; depois, eventualmente, morrer – ele ou eu, tanto faz qual de nós o primeiro.” Todos temos direito aos nossos heróis e heroínas, aos nossos ídolos, àqueles que adoramos e tomamos, de uma certa forma, como modelos de ser: alguém de quem não enjeitaríamos vestir a pele ou possuir a verve. Quando pensamos em pessoas deslumbradas, a conotação negativa fica bem perto, ainda assim deslumbramo-nos constantemente. Eu deslumbro-me com pessoas muito inteligentes, com sentido estético apurado; belas, sensíveis, especialmente bondosas, em suma, com todas as que exalam uma áurea especial que as distingue das demais e se nota logo às primeiras impressões – a maioria deslumbra-se com o que lhe é dado para se deslumbrar, o que, sendo pouco e prefabricado, tem o mérito de fazer do quotidiano um lugar inacabado e desejante, pouco ou muito ligado a grandes e nobres causas ou a pequenas e insignificantes necessidades. O deslumbramento, sem dúvida, diz muito de nós mesmos e da nossa possibilidade de emoção. E é esta disposição emocional, esta susceptibilidade de relevar uns aspectos e não outros, que, em última análise, nos permite sermos exactamente quem somos: com os nossos gostos, desgostos e idiossincrasias pessoais e intransmissíveis, ainda que, por outros, sejam julgadas demasiado estranhas ou dificilmente explicáveis. Ontem deslumbrei-me e isso já não me sucedia há bastante tempo. Larguei o trabalho cinco minutos antes da hora de saída e, apesar da chegada do escritor só estar prevista para as 18.30, tratei de aparcar o carro num dos muitos estacionamentos da cidade, e dirigi-me de imediato para a “Arquivo”. Aproveitei para lanchar, no simpático bar da livraria, um croissant estaladiço com fiambre acompanhado por um chá delicioso que, curiosamente, anunciava propriedades terapêuticas muito apropriadas: “chá verde anti-stress”. De qualquer forma, foi uma tisana muito gostosa, sorvida aos golinhos, por estar demasiado quente, ao som de um solo de violino de Sergei Profiev que inundava o espaço e ressoava nos escaparates cobertos de livros até ao tecto. Não tardou muito, a “Arquivo” encheu-se de gente – a “inteligentzia” de Leiria, os suspeitos do costume, compareceu em peso – e rapidamente as poucas cadeiras disponíveis deixaram de o estar. Ainda o escritor não tinha chegado, na rua, à porta da tertúlia anunciada, avolumavam-se os “crentes” de última hora que já não teriam o privilégio de apanhar um lugar sentado. Eu fiquei na segunda fila e, durante as duas horas que durou a sessão, sorvi, o melhor que pude, da expressão dos seus olhos azul-água-doce, cansados de tantos relatos efabulados de toda uma vida transformada em palavras; das noites longas e solitárias em que os cigarros se acendem uns atrás dos outros; das angustias dos vocábulos que não saem e teimam em se manterem escondidos atrás dos reposteiros soltando risadas ciânicas. Compreendi que para ser escritor são necessários desertos de solidão, memórias e, sobretudo, possuir a paciência necessária para esperar que as palavras certas e desejadas surjam, por vezes vindas do nada. No fim da sessão – tratava-se da apresentação do seu último livro “O Arquipélago da Insónia” –, durante a qual toda a irreverência e o sarcasmo do escritor, acompanhados pelo seu característico humor cáustico, tiveram pano para mangas, seguiu-se a usual sessão de autógrafos. “Agora é para dar autógrafos? Que coisa chata, mas vá lá. Hoje até estou bem disposto e vim aqui para me divertir. Acho que começo a sentir-me uma marca, tipo “Kellogs”, aqueles cereais que tomamos ao pequeno-almoço. Conhecem? Estou a brincar... vamos a isso!” Depois de deixar algumas fãs mais afoitas, eivadas de laivos histriónicos incontidos, passarem-me à frente e ofertarem-lhe as submissões e graxas costumeiras, chegou a minha vez de lhe estender o livro que havia comprado. O escritor olhou para mim – as suas mãos raramente se aquietam: esfregam-se uma na outra, coçam a cabeça, mexem no aparelho auditivo, apertam o nariz, tocam as pálpebras, tudo num frenesim inexplicável, como se ele padecesse de uma hiperactividade tardia, ou já não soubesse o que fazer com elas (mãos) que não fosse justamente escrever – e perguntou-me de rajada: “Você gosta de me ler? Compreende os meus livros? Os seus olhos são verdes?” – Eu respondi-lhe: “Sim, adoro os seus livros. Aliás, já os li quase todos. A princípio achava-o um escritor demasiado difícil e só mais tarde, sinto, ganhei maturidade suficiente como leitor para me entrosar com a sua escrita. Sim, são verdes...” Ele retorquiu-me: “Simpatizo consigo e se não fosse por coisas levantava-me e dava-lhe um beijo. Obrigado por gostar dos meus livros e por gostar de mim!” – Ao mesmo tempo que apertava a minha mão com as suas duas mãos. Não lhe disse nem mais uma palavra. A voz embargou-se-me. Esbocei um sorriso tímido e despedi-me emocionado. São 06.50 da madrugada. Ontem à noite cumpriu-se mais um dos meus sonhos e, por estranho que pareça, acho que tal não augura nada de bom. Sinto, sem que para tal tenha uma explicação racional, apenas por mera intuição ou misticismo, que, cumpridos a maioria dos meus sonhos, se aproxima uma qualquer hora especial. Ainda que por escassos dois ou três minutos, falei com António Lobo Antunes, o escritor português vivo por quem nutro maior admiração. Tenho neste momento diante de mim “O Arquipélago da Insónia” – o livro por ele autografado com os seguintes dizeres: “Para o Rui Jorge. Afectuosamente. António Lobo Antunes. 7.11.2008.” Olho para a obra – já a cheirei! – e sei que foi a emoção que me fez levantar pela madrugada para escrever este texto, talvez por as minhas noites, ou uma grande maioria delas, serem também arquipélagos de insónias.
Era óptimo podermos dizer cheios de convicção quais as grandes qualidades e os grandes defeitos das pessoas. Era mais tranquilizante, era absolutamente descansativo, termos uma lista de aspectos a banir e outros a incentivar. Até dava imenso jeito em termos de interacção social dispor de uma catalogação simples sobre as boas e as más pessoas, a partir de dois ou três aspectos da sua personalidade ou, pelo menos, do seu comportamento. Claro que todos nós temos um rol de pecados. Parece que as características das pessoas tornam-se em qualidades ou defeitos segundo as circunstâncias e mais uma data de variáveis de difícil enunciação. Mas o que é certo é que, face à inevitável roupagem de imperfeição e banalidade que a todos nos assenta, a obra de um grande escritor é sempre melhor do que a pessoa. Eu só quero ficar no meu cantinho e continuar a acreditar que, um dia, com preserverança, muito trabalho, acompanhado pela impermeável solidão do rodar dos dias, escreverei um livro – talvez com publicação a título póstumo. Sou pai, já plantei muitas árvores e também flores. Será que me falta um único item antes de poder partir?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Dormente

(Praia de Santa Cruz - Ericeira - 2008) Estás adormecida Nestes sóis raiados - Lanterna liberta Da núvem que passa No tempo volvido Que a vida desperta. Estás adormecida Na onda que passa Junto à maresia: - Fogueira apagada Do tempo perdido Em que o sol ardia. Estás adormecida Não me lembro mais Do sol com que ardias Nas manhãs já frias Dos sóis outonais.

Poema

(Quinta das Lágrimas - Coimbra - 2008) Neste jardim colhi um antúrio Num dia penumbroso sem sol, Na orla vermelha de um caminho, Enfeitado a missangas de orvalho. Era o silêncio submerso de mim mesmo Que ninguém consegue ouvir, Como as almas das coisas mortas Ou o cheiro oculto das algas azuis - Que já não emergem. Ah! A carga psicológica do tempo Sobre a humanidade! O cansaço das coisas que não esperam Para o outro dia...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Era uma vez...

Já tentei anteriormente escrever coisas para crianças mas, com excepção de dois ou três pequenos contos, mais ou menos bem sucedidos, confesso que não possuo a magia necessária para tais concretizações. Escrever para crianças é um dom. Conseguir desbravar no oceano dos vocábulos os mais adequados para cativar os pirralhos, fazendo-os sentir e sonhar, não é tarefa para todos. No universo dos fabricantes de letras, há escritores de literatura infantil, assim como há poetas, cronistas, romancistas, critícos, ensaistas, contistas, novelistas, bloguistas, e afins. Embora seja raro, também existem aqueles que conseguem ser bons em vários estilos. Mas a regra é, sem dúvida, a da propensão natural para um certo género de escrita. E isso cedo se revela naqueles que escrevem com alguma regularidade. Assim como há flores silvestres cujas essências, equilibrando-nos as emoções, nos ajudam a eliminar medos, ansiedades, dúvidas, inseguranças, mas também a desenvolver as nossas potencialidades; e, assim, a estar melhor connosco mesmos, com os outros, e também com o mundo, há pessoas para quem estar na presença de crianças, o poder interagir com elas, é suficiente para lhes mostrar um sentido para a vida. Os terapeutas florais costumam dizer que "as flores são o sorriso da Natureza", tal como se atribui ao poeta Fernando Pessoa a frase: "As crianças são a coisa melhor do mundo!" - embora, do que dele conheço, e não foram poucas as suas biografias que li, mantenha bastantes reservas acerca da propensão do poeta para os seres de palmo e meio. Pessoa era demasiado narciso, centrado nas suas "pessoas", para conseguir amar a sério alguém que não fosse ele mesmo. O carinho, como se sabe, para algumas pessoas, passou de moda, e já ninguém é, ou quer ser, ou invoca que um outro deva ser carinhoso. Parece que o meigo é quem está a dar. E, mais grave, também há o miminho, que é um sucedâneo da ternura e da meiguice, que já foi reservado às crianças e aos comportamentos infantis e hoje cobre um enorme leque de atitudes e comportamentos. A mim já me colaram vários epítetos desde: carente, meigo, criança/adulto, queixinhas, poeta, liríco [no sentido mais depreciativo do termo, claro], demasiado sensível [como se pode ser sensível em demasia?], num ror de adjectivos sem fim. Creio que, como em tudo, há sempre fundos de verdade nas coisas que se dizem. E, talvez, o facto de não ter tido, no devido tempo, os afectos e a serenidade que toda e qualquer criança merece, para se fortalecer como Ser e desabrochar num adulto seguro, seja uma explicação razoável para não conseguir escrever histórias infantis. No entanto, desejo aos pais, aos amigos e aos familiares próximos das crianças, que não continuem contidos e sóbrios na expressão dos afectos e reneguem o "gosto muito", que, além de ser mais leve e descomprometido, fica sempre bem como todas as expressões multiusos, mas é cobarde e pouco emotivo. Dizer: "Amo-te" e "amo-te muito" pode, por alguns, ser julgado piroso, mas uma coisa é certa: Ninguém consegue retirar a carga emocional que acompanha tais expressões e uma criança que se sente amada vai, seguramente, ser um adulto melhor, capaz de ser feliz. Bem-amado, mal-amado, muito pouco, ou nada... é um jogo infantil para desfolhar malmequeres. As crianças são mesmo a melhor coisa do mundo, quer tenha ou não sido o poeta a dizê-lo. Escrever para crianças, pelas crianças, é uma atitude mais sublime e pedagógica do que qualquer texto ou poesia, por mais belos que sejam.

domingo, 2 de novembro de 2008

O velho saudosista

("O velho saudosista" - Sociedade Recreativa Centenária - Tomar - Outubro 2008)
Empurrando-nos para lá daquilo que julgamos serem os nossos limites e do que nos rodeia, a experiência da vida expande-nos a consciência. Revela-nos que somos habitados por algo maior do que nós. E que, à nossa frente, existe uma infinidade de caminhos possíveis e nunca um único - ensina-nos a gastar com mais parcimónia o tempo precioso. E, assim, poder escutar a voz do silêncio. Olhar para as várias circunstâncias da vida, ou para aqueles com quem nos relacionámos ou cruzámos pelos caminhos da vida, sem ficarmos retidos em quaisquer preconceitos, rancores, ou juízos de valor inúteis. A maturidade ajuda-nos a descobri a alma e acolher os mistérios que nos fazem ser o que somos e acontecer-nos o que nos acontece. Estou esforçadamente a aprender a meditar, coisa diferentissíma de pensar. Meditar é como que estar a dormir profundamente mas com a consciência perfeitamente desperta. Eu medito naquilo que verdadeiramente merece preocupação. Trata-se de uma espécie de reciclagem de pensamentos e emoções que me conduzem à triagem das essencialidades.

Arte Xávega - Praia da Vieira de Leiria - Outono 2008

Sendo uma actividade antiga, a Arte Xávega tem vindo a sofrer evoluções com o tempo. As juntas de bois foram substituídas pelos tractores. A força dos braços sobre os remos, pelos motores, mas ainda mantém o encantamento de outrora.
(Praia da Vieira de Leiria - Um Sábado ensolarado de Outono)

Frondoso

(Bosque da Barosa - Terras do Liz - Outono 2008)
Pelas dunas, bosques, ribeiros,
Caminhei milénios em busca de um Ser,
Ora vestido de espuma e areia,
Seiva ou água pura.
Sabia que, à minha semelhança,
A sua imagem iria um dia aparecer.
Levantei diques quebrados,
Elevei árvores derrubadas pelo vento,
Construi pontes em pântanos lamacentos.
- E o Ser veio calmo -
Como uma miragem,
Pelas pontes que criei.
E firme, forte, vibrante,
Ergueu-me até à copa das árvores
Para depois me deixar tombado,
Perdido no restolho,
Do chão da floresta.

À beira do Liz

(À beira do Liz - Leiria - Outubro 2008)
Os girinos emergem
À superficíe
Esperando crescer no rio.
As folhas amarelecem
Ganham escarlates lindos!
As flores ainda abrem
As corolas ao sol
Num perfume vago...
As crianças cantam
À volta das árvores
- Como as aves -
E crescem para elas
- Para as árvores velhas.
Ei-lo que surgiu:
O Outono!
Na outra margem
Entre as árvores
Com as suas cores
Mas sempre a mesma:
Na pétala da rosa
Ou na folha da hera.

Noir et noir

O poeta é um sonhador
- Que se diz e contradiz -
Que sonha que a própria dor
O pode tornar feliz!
Pateta do poeta!
Sem sonho não há beleza
Sem beleza não há vida.
A vida feita de tristeza
Não merece ser vivida!

sábado, 1 de novembro de 2008

Poema matinal

Quis rolar em esfera
A minha solidão
Limar-lhe as arestas
Criar-lhe dois polos
Chutá-la para longe
Do meu coração
Só para ver quando as chuvas
De inverno voltassem
Em que polo iria morar a minha solidão!
E se a luz do pensamento
É o essencial
Porquê atribuir às coisas
Do vivido que não trazem nada
Não dizem nada
Importância tão veemente
Que distorce o pensamento
E até a própria mente
Como uma luz frágil matinal?