terça-feira, 31 de março de 2009

Manifesto anti-sujidade

(Largo da Graça - Lisboa - Março 2009)
1. Por imperativos estéticos e de higiene visual - e não só - abomino grafities ou quaisquer outras manifestações gráficas em murais, desde que destituídos de senso artistíco. Para quem não percebe bem o que eu quero dizer, aconselha-se uma visita ao Bairro Alto, em Lisboa, onde nem as portas das casas particulares escaparam à onda esquizotímica dos criminosos do spray. Trata-se de rabiscar, sem sentido ou valor artistíco, pelo vão e doentio prazer de vandalizar. Um bairro, outrora belo e pitoresco, que eternizou Lisboa aos olhos do mundo como a cidade do fado, encontra as portas e as paredes do Café Luso e da Adega Machado, as catedrais do fado, onde Amália Rodrigues, Herminía Silva e Alfredo Marceneiro, entre tantos, conheceram noites de glória, totalmente rabiscadas, ao que parece, sem solução. 2. A brandura da nossa Justiça e Autoridade (que já se discute se efectivamente existem no tecido social, que não seja por via meramente formal - um dos pressupostos da lei, não esqueçamos, é a possibilidade da sua aplicação coerciva) têm, por laxismo, ou por razões que eu próprio não consigo explicar, conduzido a este estado de coisas. Custava alguma coisa implantar câmaras de segurança nos locais mais valiosos - à semelhança do que fazem em Espanha -, identificar os vândalos, obrigá-los a passar horas, dias, a esfregar as paredes com ácidos apropriados para a limpeza integral, até que as suas unhas encolhessem, e, de seguida aplicar-lhes uma coima? Será que tinham vontade de prevaricar? 3. Este grafity, desenhado numa parede de um prédio em ruínas, para além de não constituir lixo gráfico, revela um sentido de humor a todos os títulos notável. Porque não colocam painéis espalhados pela cidade, para que os esquizóides das latinhas de spray se entretenham a pintalgar à vontade sem danificarem o património? Acho que não resultaria. O que eles querem mesmo é destruir. Essa é a raiz do problema. Uma espécie de contra-cultura que os domina: a cultura da destruição, da contra-corrente:"Eu não sou capaz de ser melhor, logo vou mostrar o pior de mim. Esta é a minha única forma de afirmação." - uma eventual interpretação freudiana do problema que ajuda a perceber, mas não resolve. É a hora da resposta musculada surgir. NB. Sem querer parecer demasiado elitista, presunçoso, intelectualóide, ou adjectivado com epítetos similares, cada vez acredito mais que a cultura salva. E refiro-me, naturalmente, à cultura superior. Aquela que leva uma vida inteira para "aculturar".

Lisboa outra vez

(Panteão Nacional e casario antigo - Cerca Velha - Lisboa Março 2009)
Foi mais um Domingo em que desci até à grande cidade para sorver um pouco do bulício que me impregnou anos a fio. Lisboa estava solarenga, mas fria. Fiquei-me sobretudo pela baixa, calcorreando as ruelas estreitas do Bairro Alto e de Alfama, com as suas galerias de arte e lojas pitorescas; admirei as vistas do Jardim de São Pedro de Alcântara, mesclei-me com hordas de turistas dos mais diversos cantos do planeta, a que se somavam largas centenas de imigrantes de etnia africana e asiática - gente que, por certo, nunca entrou em nenhuma Delegação do SEF, nem aparenta possuir modo de vida capaz de sobreviver na capital da lusofonia. A cidade parecia uma verdadeira Babel, tantos os dialectos e línguas que se sobrepunham. Era raro encontrar nas ruas um lisboeta residente, ou um simples português. O que torna uma cidade genuína e única é o modo como ela integra o passado. Quando o tradicional e o moderno convivem lado a lado, quando se recriam mutuamente, quando acompanham as andanças do tempo sem se descaracterizarem. Só assim uma cidade, um bairro, vive a sua singularidade, o seu presente, e torna-se único e inconfundível. Amo ver as ruas cheias de vida e energia, repletas de gente de todos os lugares, como um mosaico colorido, onde as suas peças se integram harmoniosamente. Gostaria, no entanto, de ver uma maior inclusão social. Não me agradaria saber que os novos habitantes da cidade pudessem devassar o seu passado histórico - o que pode muito bem acontecer por incompreensão e/ou desintegração cultural - mas, antes, que lhe ganhassem o mesmo amor de todos quantos nela habitam e, sendo de fora, a visitam. Isso só se consegue com mais educação e cultura, qualidades que só podem despertar depois de satisfeitas as necessidades elementares de qualquer ser-humano: ter um emprego, um salário e uma habitação condignos, e acesso à educação e aos cuidados de saúde primários. [Para quê pagamos tantos impostos? Para onde vai o nosso dinheiro? Sufragámos que fossem aplicados desta ou de outra forma os descontos mensais que nos retiram do vencimento? Faz imensos anos que não via tantos sem-abrigo, sobretudo homens, nas arcadas do Terreiro do Paço, aninhando-se em cartões encardidos e mantas velhas, preparando-se para a chegada da noite. Estou certo que, depois de cortado o cabelo e as longas barbas, que quase lhes escondem as feições; depois de um banho e vestidos com roupas limpas, apareceriam homens-novos, com feições em tudo semelhantes às minhas e às de todos nós, que não vivemos os seus infortúnios.] Atravessei as ruas de calçada portuguesa, que embelezam toda a baixa lisboeta, e fui desembocar na Rua da Conceição. Cansado de tanto andar, já com o "Bife à Trindade" meio ruminado, parei junto à Sé para matar a sede num bebedouro público centenário. Na igreja matriz estava a acontecer uma missa dominical presidida por S. Eminência o Cardeal Patriarca, daí a afluência de peões, automóveis, e um policiamento fora do comum. No largo fronteiriço, perto da Casa-Museu de Santo António, invadiu-me um batalhão de aromas, cobertos de uma poeira dourada pelos raios tímidos do sol, em que se mesclavam odores primaveris, gases de automóveis e cheiro a pastéis de nata acabadinhos de cozer. Já no Jardim de Santa Luzia, um pouco acima do Centro de Estudos Judiciários (antiga Cadeia do Limoeiro) e do Pátio do Carrasco, parei de novo para admirar o Tejo e ver, ao longe, a minha antiga cidade: o Barreiro. No terraço, onde a ténue presença do sol não aplacava o frio que se insinuava, revi mentalmente uma noite de Verão, passada naquele mesmo lugar, sob um vasto céu azul-indigo decorado de estrelas que pareciam frutos a brilhar. Deixei-me ficar até que o frio me impôs de novo o movimento. Fui andado para os lados da novíssima estação de metro do Terreiro do Paço, com a sensação de que, apesar de ter passado mais de 45 anos nas cercanias de Lisboa, nunca perderei a sensação de ser nela um eterno viajante. Ainda fotografei o Panteão Nacional, desde a Cerca Velha, empoleirado no gradeamento, com a luz do entardecer a beijar suavemente o casario. Era meia-noite quando cheguei a casa. Cansado, sim, mas relativamente feliz.

domingo, 29 de março de 2009

M.M.Guedes em cueiros

(Manuela Moura Guedes em bébé -
cortesia do Google)

sábado, 28 de março de 2009

A causadora-mor da dor lombar

(Aveiro - Março - 2009)
O motociclista, trajado a rigor, antes de ter descoberto as maravilhas da cinta lombar que protege o esqueleto das muitas horas passadas em posições fatidícas para a coluna vertebral. Por estas alturas, ainda as costas me doíam levemente. Nada que não se suportasse. É da PDI, disseram-me vozes maldosas, ansiosas por me chamar caduco - ainda essa gentinha, que assim fala, mudava fraldas a cada meia hora, já aqui o motard conduzia, com os seus implumes 16 aninhos, uma Honda CB 50, em franco pavoneio no pátio do liceu. Claro que já não consigo "sacar" cavalinhos! E, com uma 650 cc, era só o que me faltava! Nesta época, que outra coisa impressionaria mais uma rapariga que não fosse uma voltinha de moto até à Costa da Caparica? Ver o pôr-do-sol, o mar, e, depois, quem sabe não calhasse acontecer um beijinho, ainda que repenicadinho e fugitivo?! E nas curvas?! Era senti-las apertarem-se ao condutor, cheinhas de medo de cairem! O nosso altruísmo de outrora era infinito. Éramos uns autênticos "cavalheiros do asfalto", totalmente despidos de más intenções. Apenas gostávamos de dar boleia às miúdas - àquelas que "choravam para andar de lambreta". A única coisa que admito é que, sempre que levava um pendura feminino, entrava nas curvas com velocidade excessiva e deitado. Desse modo sentia que nos tornávamos "dois em um ", tal como o champô e o amaciador. Só que já não me lembro quem fazia de champô e quem fazia de amaciador. Coisas sem importância que a idade esquece.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Cinta dorsal, Edelweiss e Montaigne - mixed

1. Com o passar dos dias a dor lombar que tanto me tem atormentado começou a aplacar. Apesar da proibição médica de passar longas horas sentado à frente do computador e de fazer longas tiradas de moto, as imperiosas necessidades de escrever e viajar têm-me provocado uma vontade acrescida de prevaricar. Não creio que vá deixar a moto marinar muito mais tempo na garagem, nem que vá passar o resto da vida fazendo exercícios de extensão de braços num varal. Por vezes sinto-me um orangotango indonésio em fase aguda de exibicionismo, e receio que algum transeunte, que deambule pelo parque da cidade e me veja nesses propósitos, tenha uma vontade inusitada de me oferecer uma banana. Que reacção seria a minha? Aposto que a aceitaria de bom grado e esboçaria um sorriso tímido de agradecimento, não fosse a banana o meu fruto preferido! 2. Escrever e viajar são para mim carências iguais às necessidades homeostáticas: nutrientes indispensáveis para manter constante algum do equilíbrio que careço, para que a vida faça sentido. Se tiver que ficar entrevadinho, pois que fique. Tantos foram os motociclistas, pilotos, escreventes, pintores, artistas, e outros, que nunca perderam a certeza de pertencerem a algum "clube" especial, só porque pararam de andar! [Pesa-me a consciência de não ter glosado com maior acuidade o diário da minha vida, que tem sido bastante agitada para ser isenta de interesse. Quem sabe um dia não o farei para o deixar junto ao meu espólio, já de si repleto de sentimentos que se atropelam e vêm parar quase num balbuciar infantil. Nós, que não temos refúgio em nenhum lado, é nestes templos que podemos encontrar o começo do caminho para algum lado…] 3. E, curioso, não é que a cinta lombar que estou usando por debaixo da camisa, tornou a minha silhueta bastante mais elegante! A julgar pelo olhar insinuado de algumas damas mais vivaças, que passam por mim na rua, sinto que o súbito adelgaçamento da minha cintura e uma postura mais erecta no andar, transformaram-me, como por magia, num (quase) cinquentão elegante – o segredo consiste em só retirar a cinta lombar dentro de casa. Agora entendo o drama das damas de outrora que, em nome da estética, se espartilhavam num sufoco quase masoquista. E as carnes apertadinhas que transbordassem em casa! Era um aperto que valia tudo – “tudo para inglês ver” – num tempo em que ter uma cintura de abelhinha era o zénite da moda. 4. Desde que aqui cheguei, há uma hora e meia, vejo um indivíduo de joelhos, dobrado sobre si mesmo, a um canto do lado direito do jardim. Não vejo o que faz, porque o seu corpo encobre a cabeça e as mãos, mas fico cada vez mais curioso. Penso que pratica uma espécie de yoga ou algo relacionado com a meditação. Estou estendido de costas sobre a relva, olhando as nuvens que passam alto, quando certos pensamentos acabaram de levantar voo devagar da minha mente. Demasiadas vezes, refugio-me ora na melancolia, ora na tristeza, duas dores doces e bem diferentes que me sorvem no hiato das alegrias breves. Há coisas tão confusas quando começamos a pensar nelas… Vejo os plátanos, lindamente podados, do outro lado da margem, começarem a despontar folhagens. O que será para uma árvore reconhecer a Primavera, o Outono, o Inverno? Faço um esforço para me colocar no lugar do plátano, desisto. Qual será o nome daquelas árvores onde florescem umas flores lilases lindíssimas, que salpicam as avenidas de Leiria enchendo-as de graça? Eu não sei o nome de tantas árvores e flores… Sei que amo a Primavera, a vida que desponta em cada canto, as aves saltitando de ramo em ramo, trinando melodias incompletas; os dias cada vez maiores e o azuláceo que pintalga o céu. 5. Acaba de passar por mim uma mulher. Tem os olhos perfeitamente azuis, os ossos da cara largos, os lábios desenhados e vivos, os olhos, como dois lagos profundos, ligeiramente enviesados, um ar germânico. Presumo que seja alemã ou austríaca. Recorda-me uma viagem feita há bastantes anos à Áustria. Em Salzburg, armado em saloio, fui visitar, entre outras maravilhas, o Palácio da família Von Trappen – um percurso lindíssimo pela montanha – e, tal como todos os camaradas turistas, engoli as historietas que a guia local, que falava um péssimo castelhano, entendeu contar – o meu alemão é deplorável e datado. Edelweiss. Sim é esse nome que tinha em mente. Uma flor que se pode encontrar no alto das montanhas e Alpes da Suíça, da França, da Áustria e da Itália. Desenvolve-se de modo espantoso nos cumes mais elevados da montanha. Edelweiss significa "branco precioso" e é uma linda flor em formato de estrela. Dizem que quando se quer presentear alguém com algo que signifique amor ou amizade eterna, oferece-se uma flor de Edelweiss a essa pessoa, a flor eterna. Diz-se, também, que a sua duração, depois de seca, é superior a cem anos. Tenho uma Edelweiss, dentro de uma caixa de vidro, adquirida há cerca de 18 anos numa loja de lembranças, em Salzburg, e, realmente, não noto que tenha ocorrido qualquer mudança na sua morfologia desde então. Hoje, mesmo, li – facto que desconhecia em absoluto – que a dita flor já é considerada Património da Humanidade, pela sua raridade e carga simbólica que encerra. Sei que a Edelweiss inspirou poetas um pouco por todo o mundo, e uma das composições é essa que leva o nome da flor: "Edelweiss", tão linda e emocionante quanto a flor. A música é da autoria de Richard Rodgers e Oscar Hammestein, e é realmente maravilhosa. É do musical "The Sound of Music," de 1959, interpretada por Christopher Plummer, que todos quantos pertencem à minha geração recordam pelo nome de "Música no coração" - "A Noviça Rebelde", no Brasil, sem dúvida, numa tradução demasiado redutora e desfasada face à história que é contada no filme. 6. A posição horizontal sobre a relva faz nascer em mim pensamentos dispersos e voláteis. Recordo, a propósito de nada, com excepção do exercício livre e impoluto de poder pensar à rédea solta, coisa que em mim nunca censurei, algumas leituras de Montaigne, o glosador das tristezas, o magnifico ensaiador de “Filosofar é aprender a morrer”, que, um dia, encheu parte das minhas meditações presuntivamente relevantes. Dizia ele que não há consolo mais doce, na perda dos nossos amigos, do que a certeza de não lhes ter ocultado nada, e de ter tido com eles perfeita comunicação. E eu pergunto: onde está esse consolo para mim? Onde está a certeza de não ter esquecido de dizer tudo o que sinto, se perdi alguém importante quando as minhas palavras ainda eram balbuciares incoerentes? Mesmo com todas as palavras do vocabulário, haveria tido o bastante para esculpir a minha sinceridade? Perguntas que ficam sem resposta. Levanto-me. A relva manchou-me a roupa de verde. Regresso ao local donde saí e, por pouco vento que faça, fecho os olhos e percebo o ténue roçar das folhas a dançarem a sinfonia do vento na copa das árvores. Assumo que sou uma espécie de emaranhado. Um conjunto de peças de um puzzle todas jogadas dentro de um saco. Algo que não vale a pena dar coerência. Talvez que a minha coerência seja o ser (quase sempre) incoerente. O que não tem remédio remediado está. Quem sabe, depois de tantos cuidados, não conheçam melhoras os meus costados?! Inaugurei a "dor de dorso," já que há tantas outras dores com nomes bem conhecidos e popularizados pela inventiva metáfora popular.