Tudo o que me apeteça dizer sem exclusão de temáticas ou conteúdos, através de textos que tanto podem ser crónicas, contos, poesia, ficção, diários, ou meros pensamentos surgidos no momento.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
O mar fala de ti
| Marrocos ao longe - Setembro de 2010 |
O mar fala de ti - Por Mafalda Arnauth
Eu nasci nalgum lugar
donde se avista o mar
tecendo o horizonte
E ouvindo o mar gemer
Nasci como a água a correr
da fonte
E eu vivi noutro lugar
onde se escuta o mar
batendo contra o cais
Mas vivi, não sei porquê
como um barco à mercê
dos temporais.
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
que te levei ao mar quando te vi
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
quem dele se perdeu
assim que te perdi.
Vou morrer nalgum lugar
de onde possa avistar
a onda que me tente
a morrer livre e sem pressa
como um rio que regressa
à nascente.
Talvez ali seja o lugar
onde eu possa afirmar
que me fiz mais humano
quando, por perder o pé,
senti que a alma é
um oceano.
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
que te levei ao mar quando te vi
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
quem dele se perdeu
assim que te perdi.
donde se avista o mar
tecendo o horizonte
E ouvindo o mar gemer
Nasci como a água a correr
da fonte
E eu vivi noutro lugar
onde se escuta o mar
batendo contra o cais
Mas vivi, não sei porquê
como um barco à mercê
dos temporais.
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
que te levei ao mar quando te vi
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
quem dele se perdeu
assim que te perdi.
Vou morrer nalgum lugar
de onde possa avistar
a onda que me tente
a morrer livre e sem pressa
como um rio que regressa
à nascente.
Talvez ali seja o lugar
onde eu possa afirmar
que me fiz mais humano
quando, por perder o pé,
senti que a alma é
um oceano.
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
que te levei ao mar quando te vi
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
quem dele se perdeu
assim que te perdi.
Letra de Tiago Torres da Silva e música de Ernesto Leite
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Deixem-me dormir!
Oiço muita gente comentar que vai passar o Réveillon aqui e acolá, em casinos, em hotéis, em discotecas, em danceterias, ou em casa de amigos. Também já escutei algumas pessoas dizendo que vão celebrar o fim-de-ano de forma 'originalíssima': batendo em tachos e panelas à janela, em uníssono com os vizinhos da frente, para que ninguém fique imune à sua esfuziante alegria - fazem-me lembrar aquela celebérrima questão do Juca Chaves: 'A hiena é um animal que, além dos seus próprios excrementos, come carne morta; e ri do quê?'. Ainda não escutei ninguém dizer que planeia passar a noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, da forma serena que para mim mesmo planeei: na cama, aconchegado no calor do edredão de penas e, se possível, acompanhado de um bom livro. O Réveillon é um evento que acontece quando uma cultura celebra o fim de um ano e o começo do próximo. E todas as culturas que têm calendários anuais celebram o "Ano-Novo". Réveillon é um termo oriundo do verbo francês réveiller, que em português significa "despertar". Ora, a mim o que mais me chateia é que alguns foliões possam efectivamente despertar o meu sono e eu nada possa fazer, já que parece existir uma cláusula de salvaguarda consuetudinária, com respeito à Lei do Ruído, que, nesta data, os absolve do pagamento de coimas. Mas, afinal, vão celebrar o quê? As diabólicas medidas de austeridade, o desemprego e empobrecimento assustador para a população que daí advém? Deixem-me, sim, dormir em paz e sonhar com um novo ano onde nada disso vá acontecer. Essa é a minha grande fantasia para essa friorenta noite que se avizinha.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
As máquinas com este frio não se querem paradas
Este fim-de-semana, apesar do frio intenso que se tem feito sentir, decidi, mais não fosse para não deixar descarregar a bateria, uma vez que há mais de duas semanas que não punha a mota a trabalhar, dar um giro pelas redondezas; mas o pior dos meus temores concretizou-se: chegado à garagem, já todo equipado para sair, a bichinha não pegou. Como não é viável empurrar uma mota com mais de 220 kgs até à oficina, e percebendo eu népia de carregadores de baterias, tudo para mim coisas esotéricas, lá tive de chamar uma furgoneta especial para a transportar para o representante da marca.
Especialistas que são na venda e reparação de motas multi-marcas, e também na prática de preços exorbitantes, do representante, já me foram avisando por telefone: 'Olhe, dr., pode não ser só da bateria... pode ser uma avaria na parte eléctrica, na peça *****, mas uma bateria nova vai ter de levar com toda a certeza; e também uma ficha para manter a bateria ligada ao carregador sempre que passe algum tempo sem a colocar a trabalhar. As máquinas com este frio não se querem paradas! Quando soubermos alguma coisa de concreto ligamos-lhe'.
Esta conversa teve lugar na segunda-feira ao fim do dia e até hoje nunca mais me deram noticias sobre o estado de saúde da mota. Os pessimistas por (de)formação, como julgo ser o meu caso, estão quase sempre mais próximos da verdade do que os optimistas crónicos, por isso não imagino que outra coisa possa estar a acontecer que não seja estar a dita empresa a preparar-se para adicionar, na folha-de-obra que eu assinei, uma conta choruda de euros.
Há quem tenha como passatempo a caça, a pesca, o jogo, a bebida, ou o futebol. Uns hobbies são mais caros ou mais nefastos para a saúde do que outros, mas todos são entretenimentos legítimos de quem trabalha para os poder manter. E apesar das máquinas com este frio não se quererem paradas, com os tempos negros que se avizinham, em caso de necessidade, não tenho quaisquer dúvidas sobre onde começarei por abdicar.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
O livro de cabeceira (para manusear com a ponta dos dedos)
Sinopse:
"Numa manhã de 1945, um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, A Sombra do Vento (2004) é sobretudo uma trágica história de amor cujo eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página". *
Publicações D. Quixote* Já liguei o aquecimento no quarto-de-dormir, coloquei um segundo cobertor sobre o edredão, e vou tentar enganar este frio horrível, mantendo-me todo enrolado, somente com alguns dedos da mão direita de fora - que espero seja suficiente para conseguir passar as folhas do livro sem ter de as soprar, ou ainda mais frio iria sentir. Esta noite, deito-me com as galinhas e na companhia do romance do catalão Carlos Ruiz Zafón. Amanhã, ao acordar, logo vejo se sonhei que me aventurava sozinho pelas Ramblas ao anoitecer.
sábado, 25 de dezembro de 2010
Saldanha Sanches - figura do ano 2010
![]() |
| A Mizé e o seu Zé Luís |
Fiquei naturalmente contente de saber que o meu antigo Professor de Finanças Públicas, o carismático José Saldanha Sanches, marido de Maria José Morgado, recentemente falecido, vai ser nomeado figura do ano 2010. Acho que a escolha não poderia ter sido melhor, pois faz jus a uma vida inteira dedicada ao ensino e ao combate pelas desigualdades sociais, qualidades que fizeram dele um paladino da justiça, admirado por todos os quadrantes políticos e sociais. Nunca esquecerei o Professor Saldanha Sanches, nem as suas famosas prelecções no Anfiteatro I da FDL, com a sua dicção difícil e o olhar entabuado por uma miopia residente, que não chegavam para esconder a face de um homem bom e inteligente, com uma frontalidade ímpar. Só com gente da estirpe de Saldanha Sanches será possível construir um país mais justo e não tanto com a casta hoje dominante. Por último, transcrevo aqui o testemunho sentido da sua mulher, que o acompanhou nas suas últimas horas.
Zé Luís: começámos esta tua última viagem (tu gostavas de viagens) na cama 56 dos serviços de cirurgia 1 do Hospital de Santa Maria. Lia-te poesia e um dia parámos neste poema da Sophia de Mello Breyner:
“Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A Força dos teus sonhos é tão forte,
Que tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”.
Assim foi.
No teu visionário e intenso mundo, a voracidade de um cancro traiçoeiro não te consumiu a alegria, a coragem, a liberdade. Entraste pela morte dentro de olhos abertos. O mundo que habitavas era rico de ideias, de sonhos, de projectos, de honradez e carinho. Percebemos o que ia acontecer quando no fundo do teu olhar sorridente brilhava uma estrela de tristeza. Quando te deixava ao fim do dia na cama 56 e te trazia no coração enquanto descia a Alameda da Cidade Universitária a respirar o teu ar da Universidade, das aulas e dos alunos que adoravas, do futuro em que acreditavas sempre.
Foste intolerável com a corrupção, com os cobardes e oportunistas. Não suportavas facilidades. Resististe à sordidez, à subserviência, à canalhice disfarçada de respeitabilidade e morreste como sempre viveste – livre.
Uma palavra para aqueles que te acompanharam nesta última viagem: para os melhores médicos do mundo, para as melhores equipas de enfermagem e de apoio, num exemplo de inexcedível dedicação ao serviço médico público. Vivi com emoção diária o carinho com que te cuidaram. Uma palavra de gratidão sentida para o Professor Luís Costa e para o Paulo Costa. E para um velho amigo de sempre o Miguel. Também para Laura e para o Jorge e para a minha mãe e toda a família que nunca te deixou. Por fim uma palavra para aqueles amigos que inventaram uma barricada contra a morte no serviço de cirurgia 1, cama 56, e te ajudaram a escrever, a pensar, a continuar a trabalhar: o João Gama, o João Pereira e senhor Albuquerque, cada um à sua maneira.
Suspiraste nos meus braços pela última vez cerca da 1,15 da madrugada do dia 14 de Maio. Vai faltar-me a tua mão a agarrar na minha enquanto passeávamos e conversávamos. Provavelmente uma saudade ridícula, perante a força do exemplo e da obra que nos deixaste e me foi trazido por todos aqueles que te homenagearam – a quem deixo a tua eterna gratidão.
Tenham a coragem de continuar.
16.05.2010 - Maria José Morgado
A apologia dos livros, num Natal à lareira
Eu sou um bibliófilo assumido e um leitor compulsivo. Adoro livros, tenho que ler quase todos os dias e tenho uma biblioteca grande que aumenta sempre e sempre. Acho a maior tristeza ver uma casa sem livros. Não posso falar simplesmente do meu gosto pela leitura, porque em matéria de livros o meu caso é muito mais grave: é um amor que vem desde a infância, que me tem acompanhado a vida inteira e é incurável. Não se trata, portanto, de um interesse periférico, e o prazer que me tem proporcionado faz com que eu procure, permanentemente, levar mais pessoas a também desfrutá-lo. Daí eu aproveitar qualquer oportunidade para inocular o vírus do amor ao livro em todos os possíveis leitores.
O prazer que um livro pode proporcionar tem múltiplos aspectos e abre horizontes ilimitados, no entanto ainda é mais fácil promover a leitura na infância do que na juventude ou na idade adulta, uma vez que a televisão e a Internet absorveram a maior parte do tempo vago das pessoas. Isso é uma pena, pois a concentração provocada pela leitura, desperta muito mais a imaginação e a criatividade do que a imagem fugaz de um ecrán ou as informações facilitadoras da web. O que quero dizer é que tanto a televisão como a Internet têm o inconveniente de vir como pratos feitos, não exigindo criação, reflexão ou análise, ao passo que um livro pode desencadear um processo mental bem menos efémero, indo muito além de ser um instrumento essencial de informação.
Se o livro, antes da televisão e do computador, atingia um número limitado de pessoas, o facto é bem mais preocupante nos nossos dias, mas um esforço em favor da leitura ainda pode dar bons frutos. O livro transmite pensamentos, traduz emoções, estimula a imaginação e o sonho, permite que as nossas vivências quotidianas se transformem num mundo cheio de encantos e seduções, dando à vida um sentido intelectual e espiritual de inestimável valor. O romance, a poesia, o drama e a comédia, permitem ao leitor identificar-se com personagens ideais, amparar as suas angústias e inquietações. Poder-se-ia dizer que tudo isso também pode ser proporcionado pela televisão, mas a imagem dos modernos meios de comunicação é fugidia, ao passo que o livro, companheiro de todas as horas, tem uma facilidade de acesso e de uso insuperáveis. Reconheço que o perigo da obsessão existe e deve ser combatido, mas os livros e os outros meios de comunicação não são, necessariamente, excludentes e o prazer da leitura deveria ser proclamado por todos os meios e modos, especialmente pelos media, que com isso pagariam boa parte de seus pecados.
A minha experiência em matéria de leitura, começou cedo. O que não consegui, nem quis, foi estabelecer uma leitura metódica, com objectivos determinados. Fui sempre um leitor indisciplinado, achando que o livro foi feito para nós e não nós para o livro. Portanto, sempre me bastou, para ler uma obra, que ela me interessasse, sem me preocupar se era importante ou não. Com isso, perdi certamente muito tempo lendo coisas de que nem sequer me lembro, mas não lamento pois na hora, provavelmente, senti prazer e consolidei o hábito da leitura. Nunca consegui acompanhar a opinião de Thomas Mann, de que a leitura dos bons livros deveria ser proibida, porque existem os óptimos. Em primeiro lugar porque o conceito de óptimo é muito relativo, e depois porque há muitas outras razões para se ler um livro, além da sua qualidade literária intrínseca. É claro que há limites que não se consegue transpor. O principal é o tempo. Por mais que se leia, não se consegue ler tudo e uma certa selectividade se impõe. Mas cada um deve fazer as suas próprias escolhas, procurando não se ater a critérios rígidos, nem se considerar culpado por ocasionais desvios, passando de Flaubert a Astérix ou de Shakespeare a Stephen King. O mundo da leitura deve ser um mundo de liberdade intelectual. E este Natal, invariavelmente, as minhas prendas incluíram livros. Livros ao gosto de quem os lê.
A minha experiência em matéria de leitura, começou cedo. O que não consegui, nem quis, foi estabelecer uma leitura metódica, com objectivos determinados. Fui sempre um leitor indisciplinado, achando que o livro foi feito para nós e não nós para o livro. Portanto, sempre me bastou, para ler uma obra, que ela me interessasse, sem me preocupar se era importante ou não. Com isso, perdi certamente muito tempo lendo coisas de que nem sequer me lembro, mas não lamento pois na hora, provavelmente, senti prazer e consolidei o hábito da leitura. Nunca consegui acompanhar a opinião de Thomas Mann, de que a leitura dos bons livros deveria ser proibida, porque existem os óptimos. Em primeiro lugar porque o conceito de óptimo é muito relativo, e depois porque há muitas outras razões para se ler um livro, além da sua qualidade literária intrínseca. É claro que há limites que não se consegue transpor. O principal é o tempo. Por mais que se leia, não se consegue ler tudo e uma certa selectividade se impõe. Mas cada um deve fazer as suas próprias escolhas, procurando não se ater a critérios rígidos, nem se considerar culpado por ocasionais desvios, passando de Flaubert a Astérix ou de Shakespeare a Stephen King. O mundo da leitura deve ser um mundo de liberdade intelectual. E este Natal, invariavelmente, as minhas prendas incluíram livros. Livros ao gosto de quem os lê.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Memórias do Rio de Janeiro
| Morro do Pão de Açúcar - vista do alto |
| Arranha-céus na Avenida Rio Branco |
| Rio de Janeiro, onde a opulência convive com a miséria |
Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil.
Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n’alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente.
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil.
Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n’alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente.
"Cidade Maravilhosa " André Filho 1934
| Cristo Redentor - as favelas nos morros |
Foi na década de 60 do século passado, os afamados anos dourados, que nasceu a Bossa Nova. Os cariocas conviviam o dia-dia nas areias de Copacabana com o grupo que a originou: Menescal, Boscoli, Carlos Lira, João Gilberto, Nara Leão, que, por sua vez, se cruzavam nos bares de Ipanema com Vinicius de Morais e Tom Jobim. De tantas mulheres bonitas, a Garota de Ipanema foi apenas um símbolo para todas as demais. Nessa época, ainda se andava por todo lado sem risco algum. Ir aos ensaios das escolas de samba era uma rotina comum, tanto que não houve um personagem vip sequer que não tenha sambado na Mangueira. O Rio continua lindo, mas, infelizmente, só na sua plástica. Pela falta de novos talentos esvai-se a memória e o único remanescente desta época mágica e assíduo frequentador da orla da praia, é a estátua de Carlos Drumonnd de Andrade, lamentavelmente acompanhado de uma “vaca mimosa”. Quando o Rio era cantado em verso e prosa, a sua beleza não se limitava tão somente à sua natureza, mas sim à irreverência de um povo romântico, alegre, bonacheirão e também bonito, o que o diferenciava de todo o resto do país. Hoje o Rio de Janeiro é: baile funky, favelas, tiros, bandidos, PMs, ambulantes, prostitutas, gringos, drogados e tarjas pretas vendidos sem receita médica. Os cenários típicos são: bares, terreiros de umbanda e botecos. Assim, vê-se de tudo um pouco.
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| Morro do Pão de Açúcar - visto da Praia Vermelha |
As saudades do Verão já apertam e em Fevereiro próximo, se Deus quiser, vou de novo cometer a proeza de gozar duas épocas estivais num único ano. Não falta muito até que possa de novo saborear águas tão quentes que não provocam choque térmico quando se sai da areia e se mergulha no mar. Não falta muito para sorver pelo canudinho águas de côco geladinhas, numa esplanada do Calçadão de Copacabana. Não falta muito para comer churrasquinhos no centro da cidade, acompanhados de sucos de manga-laranja geladinhos; e, de seguida, viajar no Bonde de Santa Teresa, com passagem no viaduto da pitoresca zona da Lapa - lugar de jazz e boémia infinita. Não falta muito para revisitar a 'Rua dos Sebos', à cata de boa literatura em segunda mão - da última vez que estive no Rio trouxe um malão carregado de livros a cheirar a bolor. Não falta muito para vaguear pela Rua da Alfândega - o maior mercado ao ar livre do Rio de Janeiro - com o olho preparado para encontrar coisas 'boas e baratas'. Não falta muito para ir cuscar o cartaz do Canecão para ver os artistas que estão anunciados. Não falta muito para ver as folias carnavalescas e os Blocos de Carnaval desfilarem pelas ruas da cidade. Não falta muito para ver os barbeiros de rua a trabalhar com afinco as carapinhas dos mulatos que querem ir todos jóia para o baile funky da Mineira. Não falta muito para ver os bicheiros - o Jogo do Bicho é uma lotaria ilegal que prolifera por todo o Brasil - com banca em tudo o que é ruela da cidade à espera de clientes. Não falta muito para tornar a viajar nas Volkswagen Kombi, de cor branca, com os seus irresistíveis faróis de halogeno, ornados por longas pestanas (localmente apelidadas Kombies, são os transportes populares alternativos das cidades brasileiras). Não falta muito para voltar a tomar atenção especial na forma como me visto, e como transporto o dinheiro, sempre que me desloco pelas ruas do Rio de Janeiro - quanto mais discreto for o aspecto, sem quaisquer manifestações de riqueza, maiores são as hipóteses de não ser abordado por um bandido. Não falta muito para ser de novo confrontado com um país onde quase nada é levado a sério e em que todas as práticas sociais mais parecem um 'never ending carnival'. Não falta muito para tornar a assistir aos frequentes apagões da luz eléctrica e a cortes nas linhas telefónicas, que deixam zonas residenciais inteiras às escuras, sem telefone ou Internet. Não falta muito para que, logo que a noite cai, veja exércitos de sem-abrigo acampados debaixo de tudo o que é ponte ou viaduto. Não falta muito para ver de novo pessoas a revirar caixotes do lixo, na mira de encontrarem algo que aplaque a fome que as consome. Não falta muito para tornar a assistir ao espectáculo trágico-cómico das favelas, que estão descendo dos morros para infectarem com miséria, e altíssimas taxas de criminalidade, a parte baixa da cidade, habitada pela quase insignificante classe média. Não falta muito para rever o espectáculo de son et lumiére das balas tracejantes, trocadas entre os morros, rasgando o céu nocturno de uma cidade onde tudo é 'normal'.
| Copacabana em dia enevoado |
| Um artigo popular na Rua da Alfândega |
| Uma lanchonete popular |
| A preocupação com o tráfico de aves por partes dos 'gringos' |
| O silêncio da indiferença - Avenida Rio Branco |
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Divulgação aos escreventes
Uma nova revista semestral para 2011, que publica contos seleccionados. Quem queira por à prova o seu talento como contista, e sujeitar-se ao escrutínio dos editores da revista, quem sabe não verá o seu conto publicado.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Algumas considerações de final de ano
§ O Natal aproxima-se tão rapidamente que até assusta. A pobreza das decorações e das iluminações nas ruas, dantes tão mimosas por esta altura do ano, fruto dos cortes substanciais nos orçamentos das autarquias locais, faz temer o pior. A Aldeia de Natal da cidade de Leiria parece a caricatura da realizada no ano passado. Daqui a pouco estamos no fim do ano e esperam-nos novas más notícias para os tempos que se avizinham. O governo, entretanto, perdeu o pudor que até agora tinha mantido e já vai anunciando que não descura a hipótese de ter de recorrer a novas medidas de austeridade. É por todos sabido que a pertença à UE implica grandes cedências de soberania por parte dos estados aderentes, pelo que muita da legislação nacional é fruto de decisões tomadas a um nível supra nacional. Por isso, não resta muita margem de manobra aos governos nacionais que, independentemente da sua família política, têm de acatar sem reservas o que for decidido a nível europeu. Estaremos nós preparados para o embate que se avizinha? Isso depende da dureza das novas medidas que estão para vir. Ao que parece, dando crédito aos rumores que circulam na imprensa, o aumento da flexibilização laboral é uma das áreas onde vão acontecer medidas legislativas substanciais. Curiosamente, os media internacionais têm veiculado muitas notícias sobre o que vai acontecer em Portugal, notícias essas que têm sido rapidamente desmentidas pelo nosso governo, mas que se vem a apurar mais tarde corresponderem à verdade. O nosso governo, como sempre, em nome do não alarmismo social, tem preferido dar as más notícias a conta gotas, e de preferência numa posição de facto consumado. É, no fundo, não mais do que a expressão daquele estilo rasteiro, manhoso e filibusteiro, a que o socratismo nos tem vindo a habituar.
§ Tem estado tanto frio e chuva que nem tenho tido coragem para sair de mota. Apesar de possuir equipamento para as intempéries, onde se inclui uma parafernália de acessórios tais como: camisolas térmicas, impermeáveis, passa-montanhas, luvas e botas Gore Tex, entre outros, não sou um motard fundamentalista - como muitos que conheço -, nem tão pouco abomino os automóveis. Passear de mota tem de ser uma coisa prazenteira e acho que as temperaturas têm estado demasiado baixas para que se possa extrair algum gozo disso. Conheço motociclistas que, a menos que tenham de transportar a família, por sistema não utilizam o automóvel. Para eles o carro tornou-se um segundo veículo, um transporte de recurso, que só utilizam quando a mota é completamente inepta para o efeito. Estes hard motards - um fenómeno recorrente entre os adeptos ferrenhos de actividades desportivas ou de outra índole - só consideram verdadeiros motociclistas aqueles que, sejam quais forem as condições atmosféricas, se deslocam sempre de mota. Aos restantes apelidam-nos de motards ocasionais, como se fossem seres incompletos ou indignos de pertencer à sua tribo. E são estas as coisas que nos federalismos, associativismos, e outros ismos, mais me chateiam. Porque raio teria eu de ter prazer em deslocar-me de mota, em pleno período invernal, sob nevões intensos, à concentração motard "Os Pinguins", em Valladolid? Ou acampar durante o Inverno, no sopé da Serra da Estrela, com temperaturas negativas? Definitivamente, não encaro os passeios de mota como actividades radicais. Gosto de viajar em segurança, sem excessos de velocidade, apreciando a paisagem e, sobretudo, que o piso em que me desloco, em duas rodas, esteja seguro, e não sob uma camada de gelo, que é trambolhão pela certa. Vaya con Dios à Valladolid, motoqueros radicales! Jo me quedo en casa (dito assim em portunhol para ver se melhor me entendem!)
§ Neste ano, quase a findar, ou porque me deixo dormir mais cedo, ou porque esqueço os óculos no escritório ou na sala, ou porque a voragem de ler anda mais aplacada, li poucos livros, comparativamente a períodos anteriores da minha vida em que consumia uma média de dois/três livros por semana. A sede de cultura livresca não se apodera de mim como outrora, e já não padeço do medo de morrer sem ter lido todos os livros que gostaria. Há definitivamente outras coisas agradáveis para fazer na vida para além da escrita e da leitura. Não muitas mais, mas que as há, há - parafraseando o final da famosa frase galega acerca da crença em bruxas. Viajar muito, caso a saúde e a economia o permitam, está entre os meus planos de vida; e no viajar estão inclusas muitas actividades, tais como a fotografia, as visitas a museus, as exposições de pintura, o arejamento do inglês e do francês, as culinárias surpreendentes, ou tão só o deleite da partilha dos seus costumes com a gente local. Ler é sempre um "ver a vida através dos olhos de outrem." Não há nada que substitua o sensorial, nem nenhuma actividade intelectual abstracta - no caso, a leitura - que se possa comparar à vivência pessoal de um acontecimento. Por mais livros que eu pudesse ter lido sobre Auschwitz-Birkenau, e não foram tão poucos assim, nada se compara à visita in loco que fiz o ano passado a esse lugar mítico, hoje o maior memorial ao Holocausto. Ler é uma forma económica de viajar, mas também um gozo intelectual tremendo e uma fonte inesgotável de conhecimento, e não fora as muitas leituras sobre o fenómeno dos Lager - Campos de Concentração Nazis -, nunca teria conseguido interpretar tão bem a visita que fiz ao antigo campo de extermínio. Neste caso as duas coisas completaram-se maravilhosamente, como a narrativa e a ilustração.
§ Mas, ainda falando de livros, gostaria de destacar vinte obras de autores portugueses, que li este ano, com imenso prazer, e que naturalmente recomendo: de Pedro Paixão - Paixão por Xangai e Imagens Proibidas; de Agustina Bessa Luís - A Ronda da Noite; de Inês Pedrosa - A Eternidade e o Desejo; de António Lobo Antunes - Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?; de Nuno Júdice - Meditação Sobre Ruínas; de Olav Bilac - A Alma Inquieta; de Eça de Queirós - Cartas de Amor; de Sophia de Mello Breyner Andressen - Obra Poética; de Maria Gabriela Llansol - Um Falcão no Punho; de Fernando Dacosta - O Viúvo-Memórias do Fim do Império; de Joana Amaral Dias - Maníacos de Qualidade; de Gonçalo M. Tavares - Histórias Falsas e Um Homem Klaus Klump; de Ana Paula Castro - Sou Jornalista você é Árabe; de Fernando Pessoa - Os Portugueses; Os Portugueses - A Maçonaria; de Walter Hugo Mãe e Jorge Reis - A Alma não é Pequena: 100 poemas portugueses para SMS; de José Viale Moutinho - Os Melhores Contos Portugueses do Século XIX; de Eugénio de Andrade - Poemas Portugueses para a Juventude; e de Virgílio Ferreira - Até ao Fim.
Li outros livros de autores nacionais e estrangeiros, fossem eles de ficção ou não, bem como jornais, revistas, crónicas, colectâneas de poesia e, sobretudo, muitos textos escritos em blogues. Realço, no entanto, das minhas leituras deste ano que finda, estes vinte livros - escritos em português e por portugueses, - por terem sido particularmente bem escritos, e também por me ter dado imenso prazer a sua leitura. No que respeita aos livros, inclino-me perigosamente para a literatura portuguesa, talvez por achar que isso pode enriquecer a minha escrita. Quanto ao resto, já nem tanto...
§ Tem estado tanto frio e chuva que nem tenho tido coragem para sair de mota. Apesar de possuir equipamento para as intempéries, onde se inclui uma parafernália de acessórios tais como: camisolas térmicas, impermeáveis, passa-montanhas, luvas e botas Gore Tex, entre outros, não sou um motard fundamentalista - como muitos que conheço -, nem tão pouco abomino os automóveis. Passear de mota tem de ser uma coisa prazenteira e acho que as temperaturas têm estado demasiado baixas para que se possa extrair algum gozo disso. Conheço motociclistas que, a menos que tenham de transportar a família, por sistema não utilizam o automóvel. Para eles o carro tornou-se um segundo veículo, um transporte de recurso, que só utilizam quando a mota é completamente inepta para o efeito. Estes hard motards - um fenómeno recorrente entre os adeptos ferrenhos de actividades desportivas ou de outra índole - só consideram verdadeiros motociclistas aqueles que, sejam quais forem as condições atmosféricas, se deslocam sempre de mota. Aos restantes apelidam-nos de motards ocasionais, como se fossem seres incompletos ou indignos de pertencer à sua tribo. E são estas as coisas que nos federalismos, associativismos, e outros ismos, mais me chateiam. Porque raio teria eu de ter prazer em deslocar-me de mota, em pleno período invernal, sob nevões intensos, à concentração motard "Os Pinguins", em Valladolid? Ou acampar durante o Inverno, no sopé da Serra da Estrela, com temperaturas negativas? Definitivamente, não encaro os passeios de mota como actividades radicais. Gosto de viajar em segurança, sem excessos de velocidade, apreciando a paisagem e, sobretudo, que o piso em que me desloco, em duas rodas, esteja seguro, e não sob uma camada de gelo, que é trambolhão pela certa. Vaya con Dios à Valladolid, motoqueros radicales! Jo me quedo en casa (dito assim em portunhol para ver se melhor me entendem!)
§ Neste ano, quase a findar, ou porque me deixo dormir mais cedo, ou porque esqueço os óculos no escritório ou na sala, ou porque a voragem de ler anda mais aplacada, li poucos livros, comparativamente a períodos anteriores da minha vida em que consumia uma média de dois/três livros por semana. A sede de cultura livresca não se apodera de mim como outrora, e já não padeço do medo de morrer sem ter lido todos os livros que gostaria. Há definitivamente outras coisas agradáveis para fazer na vida para além da escrita e da leitura. Não muitas mais, mas que as há, há - parafraseando o final da famosa frase galega acerca da crença em bruxas. Viajar muito, caso a saúde e a economia o permitam, está entre os meus planos de vida; e no viajar estão inclusas muitas actividades, tais como a fotografia, as visitas a museus, as exposições de pintura, o arejamento do inglês e do francês, as culinárias surpreendentes, ou tão só o deleite da partilha dos seus costumes com a gente local. Ler é sempre um "ver a vida através dos olhos de outrem." Não há nada que substitua o sensorial, nem nenhuma actividade intelectual abstracta - no caso, a leitura - que se possa comparar à vivência pessoal de um acontecimento. Por mais livros que eu pudesse ter lido sobre Auschwitz-Birkenau, e não foram tão poucos assim, nada se compara à visita in loco que fiz o ano passado a esse lugar mítico, hoje o maior memorial ao Holocausto. Ler é uma forma económica de viajar, mas também um gozo intelectual tremendo e uma fonte inesgotável de conhecimento, e não fora as muitas leituras sobre o fenómeno dos Lager - Campos de Concentração Nazis -, nunca teria conseguido interpretar tão bem a visita que fiz ao antigo campo de extermínio. Neste caso as duas coisas completaram-se maravilhosamente, como a narrativa e a ilustração.
§ Mas, ainda falando de livros, gostaria de destacar vinte obras de autores portugueses, que li este ano, com imenso prazer, e que naturalmente recomendo: de Pedro Paixão - Paixão por Xangai e Imagens Proibidas; de Agustina Bessa Luís - A Ronda da Noite; de Inês Pedrosa - A Eternidade e o Desejo; de António Lobo Antunes - Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?; de Nuno Júdice - Meditação Sobre Ruínas; de Olav Bilac - A Alma Inquieta; de Eça de Queirós - Cartas de Amor; de Sophia de Mello Breyner Andressen - Obra Poética; de Maria Gabriela Llansol - Um Falcão no Punho; de Fernando Dacosta - O Viúvo-Memórias do Fim do Império; de Joana Amaral Dias - Maníacos de Qualidade; de Gonçalo M. Tavares - Histórias Falsas e Um Homem Klaus Klump; de Ana Paula Castro - Sou Jornalista você é Árabe; de Fernando Pessoa - Os Portugueses; Os Portugueses - A Maçonaria; de Walter Hugo Mãe e Jorge Reis - A Alma não é Pequena: 100 poemas portugueses para SMS; de José Viale Moutinho - Os Melhores Contos Portugueses do Século XIX; de Eugénio de Andrade - Poemas Portugueses para a Juventude; e de Virgílio Ferreira - Até ao Fim.
Li outros livros de autores nacionais e estrangeiros, fossem eles de ficção ou não, bem como jornais, revistas, crónicas, colectâneas de poesia e, sobretudo, muitos textos escritos em blogues. Realço, no entanto, das minhas leituras deste ano que finda, estes vinte livros - escritos em português e por portugueses, - por terem sido particularmente bem escritos, e também por me ter dado imenso prazer a sua leitura. No que respeita aos livros, inclino-me perigosamente para a literatura portuguesa, talvez por achar que isso pode enriquecer a minha escrita. Quanto ao resto, já nem tanto...
sábado, 18 de dezembro de 2010
A beleza ao poder!
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| Joana Amaral Dias |
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| Ana Drago |
O Bloco de Esquerda representa a lufada de ar fresco que a esquerda portuguesa há muito precisava. Ao contrário do Partido Comunista, envelhecido e amarrado a dogmas e discursos de "disco riscado", que já ninguém suporta escutar, os bloquistas atreveram-se de tal forma nos últimos anos, que foram premiados com um aumento substancial do número de deputados no seu grupo parlamentar. O argumento primitivo de que se tratava de um partido "a brincar", sem causas maturadas, utópico e demagogo, que apenas pretendia ver consignado na lei o uso livre dos charros e as capacidades matrimonial e de adopção das comunidades gay, já não colhe. Também os ecologistas, nos idos anos setenta, foram tratados de forma igual e hoje já ninguém tem coragem para lhes chamar bando de guedelhudos, preocupados com questões de lana caprina. O tempo deu-lhes razão e as preocupações ambientais estão, hoje mais do que nunca, no topo da agenda de qualquer governo responsável. Esta é a prova de que as mentalidades se educam. É preciso tempo, paciência, e, sobretudo, muita persistência. Não me desagradaria ver, num futuro não muito longínquo, a Joana Amaral Dias e a Ana Drago, duas mulheres inteligentes e lindíssimas, ocupando cargos ministeriais. Não digam que o Bloco não escolhe as suas elites femininas a dedo!
Sofia Vieira - igual a si mesma
Este texto, publicado originalmente em 2008 na revista "Psicologia Actual", e agora em "repost", foi escrito pela Sofia Vieira, cuja escrita admiro, apesar de não concordar com muitas das suas posições. No que ao conteúdo do texto concerne, pas touché: não é esta a minha atitude, nem certamente a da maioria das pessoas que têm um blogue, pelo que as generalizações são perigosas. E, por incrível que pareça à Sofia, ainda há pessoas que, além dela mesma - que todos ficámos a saber estar acima de qualquer suspeita, no que a este tipo de comportamentos que denuncia respeita -, mantêm uma página pessoal na Internet, tão só pelo prazer, nobre e legítimo, de escrever.
Uma solução expedita para nós pitosgas
Para os leitores/as que reclamam do tamanho das letras do texto e que, tal como eu, já sofrem daquilo que as toupeiras há muito se queixam.
Existe uma tecla no lado esquerdo do teclado ( Ctrl ) que, usada em simultâneo com a função scroll do rato, permite ampliar ou diminuir o tamanho dos textos das páginas que visualizamos. E, caso o uso desta função não resulte claro, é também possível através da função Ver, aumentar ou diminuir o tamanho do texto.
Obrigado vossa pela paciência.
Sobre os que mais tremem de frio
“O nosso quotidiano civilizado está cheio desses seres que mantendo uma similar aparência física, se afastaram de tal maneira da humanidade que perderam o laço comum. Pelo que estão reunidas as condições objectivas e morais para a chacina dos homens-lixo. E essa é já uma prática quotidiana. Imposta pelas autoridades, desculpada pela moral pública, exigida pela economia” (Moura, 2000, p.14)
O país está a tremer de frio. A avaliar pelas temperaturas registadas durante a madrugada, temo que os sem-abrigo das nossas grandes cidades sejam os primeiros a sofrer, no corpo e na alma, os efeitos deste tempo agreste. Na maioria das capitais europeias, existe o hábito humanista de manter, durante o Inverno, as estações de metropolitano sempre abertas, por forma a que os sem-abrigo se possam recolher. Não faço ideia se esta prática já foi acolhida pelas nossas entidades responsáveis, mas seria bom que assim fosse. A condição de sem-abrigo nos países ocidentais, ditos "ricos", resulta, na maioria das vezes, de um estado de doença mental profunda: só dorme na rua quem obstinadamente se recusa a aceitar a sua própria institucionalização, seja ela crónica ou passageira. A falta de resiliência nas pessoas sem abrigo é, infelizmente, uma característica comum: mesmo depois de ajudados, a maioria deles volta à vida que dantes levava. Com mais ou menos condições, tanto quanto sei, no nosso país, há forma de acolher, ainda que de forma temporária, todos aqueles que não têm onde dormir. Deus queira que, a coberto da crise, com a cegueira de cortar em tudo o que é despesa, não sejam abolidas as verbas que ajudam as diversas instituições de apoio social, a continuar essas práticas de um humanismo elementar.
Não foi há muito tempo que, salvo erro, na SIC, assisti a uma reportagem muito interessante sobre os sem-abrigo da cidade de Lisboa. Na peça apresentada, a jornalista, ávida por experimentar o dia-a-dia dos sem-abrigo, passa uma noite invernal, envolta em pedaços de cartão, para sentir na pele as agruras porque passam os deserdados da vida que infestam as artérias da capital. Os perigos a que eles estão sujeitos são diversos. Além da hipotermia, é comum estarem à mercê de agressões, que muitas vezes redundam em ferimentos graves e, nalguns casos, em morte. É um sono em estado de alerta, em que se dorme com um olho aberto e o outro fechado. A privação social dos sem-abrigo, a que muitas vezes se chama nudez social, tem sobretudo a ver com as peculiaridades do seu modo de vida - a rua. Uma das consequências reside no facto de eles não terem relações sociais próximas, mas sim superficiais. Este processo auto-destrutivo é ainda agravado pelo facto de os sem-abrigo se moverem num contexto de rotinas muito pobre, feito de repetidos e monótonos dias, que parecem sempre os mesmos, onde a lógica da sobrevivência absorve toda a atenção do indivíduo. Assim, vivendo constantemente nos limites, a pessoa sem-abrigo tem de se adaptar ela própria à rua, universo que exclui qualquer outro, ao mesmo tempo que vai desenvolvendo estratégias de sobrevivência. Consequentemente, estas pessoas são incapazes de definir quais são as suas preocupações assim como os seus desejos. Os sem-abrigo estão parados numa vida vazia de sonhos em que a satisfação de necessidades básicas, tais como encontrar comida e um lugar para dormir, está omnipresente.
Todos os seres humanos tem direitos e deveres. Encarar o fenómeno dos sem abrigo como "coitados dos pobrezinhos" não ajuda ninguém a sair do ciclo reprodutivo da pobreza. A visão paternalista, de cima para baixo, de lidar com as questões da pobreza não promove a eliminação da mesma. A igualdade de oportunidades para todos exige o exercício pleno de uma democracia participativa. Quem detém alguma responsabilidade sobre estas questões da pobreza deverá encará-la como uma questão humanista e não paternalista. Todos os seres humanos independentemente da sua condição socioeconómica têm direito à felicidade, ao amor, à ternura, ao bem estar de um lar. Não se trata de os abrigos darem comida e uma cama, trata-se de se criarem estruturas que possam conferir ao ser humano que se encontra na situação de sem-abrigo o acesso à felicidade, ao amor e ao exercício pleno da cidadania de acordo com as suas reais capacidades. Não podemos exigir a um ser humano que já nasceu nas piores condições socioeconómicas, sem acesso à saúde, à educação, à cultura, ao desporto, ao trabalho e a um lar, o mesmo que exigimos a quem sempre teve tudo à nascença. Mas tudo o que acabei de escrever nada tem de original - as palavras leva-as o vento! -, e é tão só um refrescamento de ideias sobre as complexas matizes deste grave problema. Faltam, sim, atitudes concretas por parte da sociedade civil, com enfoque no voluntariado e no envolvimento individual; e essas ainda não tive eu a coragem de as tomar.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Aconteceu no Sudão
Hoje, no Correio da Manhã on line, assisti a um vídeo, filmado no Sudão, em que uma mulher é chicoteada selvaticamente por usar calças. Em pleno século XXI, ainda assistimos a comportamentos bárbaros, fanáticos, próprios de uma mentalidade medieval. Como é possível, pergunto-me eu, que países ditos democráticos, e tributários dos direitos humanos, possam reconhecer, como membros da comunidade internacional, estados selváticos, impregnados de fanatismos religiosos, onde a vida humana, mormente a das mulheres, vale menos do que a existência de um cão? Só por puro cinismo é possível aceitar que os países ditos civilizados façam bons negócios com esta barbárie, e que os nossos chefes de estado e de governo cumprimentem sorridentes esta cáfila desprezível. Por coerência de princípios, e por estarem em causa crimes contra a humanidade, a comunidade internacional devia pura e simplesmente ocupar militarmente estes "pseudo-estados", punir severamente a sua classe dirigente, e todos quantos têm responsabilidades neste tipo de acontecimentos, colocando o país e a sua população sob a tutela internacional. O Direito de não ingerência na soberania de outros estados, deve claudicar sempre que estejam em causa crimes como estes, já que princípios mais fortes de justiça assim o clamam. Mas o Direito Internacional Público, como todos sabem, é uma ficção jurídica, entre tantas outras. O Mal triunfa porque o Bem consente, cala-se e nada faz. E se assim é, rasgo todos os catrapázios por onde andei a estudar anos a fio!
domingo, 12 de dezembro de 2010
Enquanto conduzo... penso
Sempre que o sono teima em chegar, há uma de duas coisas que costumo fazer: ou leio, ou escrevo. Se opto por escrever e não tenho nenhum assunto especial em mente que queira relatar, mas tão só a vontade de escrever, geralmente fico a matutar durante algum tempo e acabo por ser condescendente comigo mesmo: deixo que as palavras surjam naturalmente, motivadas por algum pensamento peculiar que se tenha apropriado da minha mente durante o dia, sem cuidar de grandes elaborações. O que fiz eu este sábado? Para não variar, fiz muitos quilómetros de mota. Fui até à Figueirinha e ao Portinho da Arrábida, com paragem para almoço nos arredores de Setúbal, e cheguei a Leiria já perto das oito horas da noite. O dia esteve sempre com uma tonalidade monocromática, sem que estivesse muito frio, e pouco convidativo a tirar fotografias. Foi uma viagem longa e também ela com pouca cor.
Como conduzo veículos de duas rodas desde muito novo, consegui criar uma espécie de piloto automático, que se encarrega dos reflexos e das abordagens das curvas, e uma parte da minha mente encontra-se sempre liberta para pensamentos que nada têm a ver com a condução. A nossa cabeça é um imenso sótão, capaz de albergar toda uma panóplia de recordações, e o mundo um caleidoscópio, eternamente fazendo formas e contrastes. O avivamento das memórias é muitas vezes despoletado por coisas triviais. Hoje, em Setúbal, passei em frente à casa onde nasci, há praticamente meio século atrás, e vieram-me à memória imensas recordações de infância. As brincadeiras, com o meu irmão mais velho e a minha prima, no quintal traseiro. O enorme caramachão feito de canas entrançadas ao fundo do quintal; o aroma forte das roseiras; as ameixas maduras e suculentas que surripiávamos às escondidas da avó; as parreiras carregadas de uvas doces com as abelhas a zumbir à volta; a cadela perdigueira do meu tio, a Jóia, sempre a ladrar sem parar; a minha avó, na janela do primeiro andar, a chamar-nos para irmos comer a tapioca que já estava a esfriar na mesa. Ao longe, às horas certas, o inconfundível apito lúgubre da automotora que saía da Estação do Quebedo com destino às Praias Sado.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Imagens nostálgicas - produtos dos anos 60/70 do século XX
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| Laranjina "C" - bebiam-se às meias dúzias |
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| A mítica gasosa espanhola |
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| O restaurador Olex |
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| A pasta de dentes milagrosa |
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| A Bomba H - o insecticida dos tempos modernos |
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| Com Dum Dum não escapa nenhum! |
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| O Master Mind - só para intelectuais |
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| O view master - um peça da tecnologia audiovisual da época |
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| Quem era a dona de casa que não usava caldos Maggi? |
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| O chocolate para o leite dos meninos finos - à venda nas farmácias |
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| O saudoso Canada Dry |
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| O Tody - uma bebida diária deliciosa |
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| As sombrinhas de chocolate da Regina que a minha avó materna me dava |
Quem, na faixa etária dos 50 anos, não se recorda destes produtos que, entre outros, faziam parte do nosso quotidiano de crianças? Na época, a publicidade conseguia ser mais eficaz do que é hoje. As pessoas, os meios usados, a forma de fazer marketing, tudo era mais ingénuo e simples. Os produtos eram incomensuravelmente menos e toda a gente os conhecia. A sofisticação que atingiu a publicidade nos dias de hoje é de tal forma esmagadora, que tarda em chegar ao coração das pessoas. Nos tempos actuais, a oferta de novos e variados produtos levou a um incremento de marcas como até antes nunca tinha sido visto; mas a forma quase artesanal de fazer publicidade nos idos anos sessenta, as frases e as músicas "amigas" que ficavam no ouvido, e que todos os dias nos entravam pela casa dentro, tornavam-se parte da família.
Imagens com fonte na Internet.
Imagens com fonte na Internet.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Ennio Morricone
Fonte: Internet
Um dos mais fantásticos compositores e maestros contemporâneos. Compôs as bandas sonoras de inúmeros filmes que marcaram toda uma geração. Sem dúvida, um génio musical que já se tornou uma lenda e um clássico.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Um dia de chuva, com a memória do Miguel
Hoje foi mais um dia de chuva, com ventos fortes, em que o céu se apresentou sempre com uma carapuça acinzentada. Choveu torrencialmente desde a madrugada, e o barulho que a chuva fazia ao bater na janela do quarto, quebrou o silêncio das primeiras horas da manhã. Quando a chuva vem em força, geralmente o frio acalma; e foi mesmo o que sucedeu. O dia de hoje já esteve com temperaturas mais amenas. Estes feriados, caídos abruptamente a meio da semana, quebram-nos o ritmo de trabalho e descompõe-nos o sono. Era de todo preferível que os juntassem aos fins-de-semana.
Mas não foi só o barulho da chuva que me atravancou o sono e me fez passear a insónia com o constante revirar da almofada. Um companheiro das motas, um rapaz com 35 anos de idade chamado Miguel, que esteve connosco no sábado passado em Coimbra, num jantar de Natal, faleceu ante-ontem vítima de um ataque cardíaco fulminante. Parece inacreditável como é possível que um jovem alegre e bem disposto, com quem estivemos a confraternizar há tão pouco tempo, tenha falecido tão subitamente. Eu sei, todos sabemos, que a vida é mesmo assim, apesar de teimarmos em não a aceitar tal qual ela é. Quando chega a nossa hora temos mesmo de partir; e o destino, por crueldade ou desígnio insondável, não quis que o Miguel passasse a fronteira da juventude. Esta noite que se avizinha, espero que a imagem do Miguel paire de balançar na minha mente, ou vai ser outra noite insone, em que as horas não passam e o relógio parece ter espaçado mais o seu tic-tac. Uma daquelas noites em que a casa toda ela dorme... menos eu.
Mas não foi só o barulho da chuva que me atravancou o sono e me fez passear a insónia com o constante revirar da almofada. Um companheiro das motas, um rapaz com 35 anos de idade chamado Miguel, que esteve connosco no sábado passado em Coimbra, num jantar de Natal, faleceu ante-ontem vítima de um ataque cardíaco fulminante. Parece inacreditável como é possível que um jovem alegre e bem disposto, com quem estivemos a confraternizar há tão pouco tempo, tenha falecido tão subitamente. Eu sei, todos sabemos, que a vida é mesmo assim, apesar de teimarmos em não a aceitar tal qual ela é. Quando chega a nossa hora temos mesmo de partir; e o destino, por crueldade ou desígnio insondável, não quis que o Miguel passasse a fronteira da juventude. Esta noite que se avizinha, espero que a imagem do Miguel paire de balançar na minha mente, ou vai ser outra noite insone, em que as horas não passam e o relógio parece ter espaçado mais o seu tic-tac. Uma daquelas noites em que a casa toda ela dorme... menos eu.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Uma visita de Natal
Ontem, integrado numa iniciativa do MTC, visitei em Coimbra, pela primeira vez, crianças institucionalizadas. Fomos ofertar-lhes alguns presentes de natal, almoçámos com elas, e tirámos algumas fotos, que a reserva da sua intimidade me impede de publicar. Havia crianças desde a faixa etária dos três, quatro anos, até à adolescência. Em particular, afligiu-me um jovem, que não teria mais de catorze anos, com um tumor na hipófise, diabético, com cegueira total, que, ainda assim, sorria ao apalpar as prendas que lhe eram oferecidas. Soube que, à semelhança da grande maioria das crianças internadas na instituição, tinha sido abandonado pelos pais à nascença, rejeitado em virtude das suas enfermidades. Uma das monitoras afiançou-nos que a criança não iria ter muito mais tempo de vida, já que, apesar dos tratamentos diários, a progressão do tumor era notável. A visão daquelas crianças pequeninas, todas em magote, a almoçar juntas, comoveu-me deveras. Afinal é nestas idades que elas precisam mais do aconchego de um pai e de uma mãe. Em alguns, notava-se-lhes uma certa tristeza a pairar no olhar; noutros, em especial nos mais novinhos, talvez por uma dúctil inconsciência, própria da idade, parecia que não havia nada que os demovesse das correrias e das brincadeiras. Já com os miúdos todos vestidos de pais natal, dissemos adeus às crianças. Parti com a absoluta consciência de não ter feito nada de importante para minorar a desvalida daqueles seres de palmo e meio, que tiveram o azar de nascer no seio de famílias disfuncionais; e, naquilo que tanto critico, também eu me aproveitei da altura do Natal para aliviar a minha consciência e arvorar-me em bom samaritano. Mais um altruísta sazonal, a juntar a tantos, como é próprio da época que se avizinha.
Uma obra de arte improvável
Os críticos de arte, ou de qualquer outra coisa, são, regra geral, fazedores frustrados que, à falta de concretizações pessoais satisfatórias, optam por tecer, com uma verbosidade arrogante, considerações, a maioria das vezes improváveis, sobre as obras que relatam. E como ninguém quer ficar mal na fotografia, também o cidadão comum, quando é chamado a opinar sobre uma obra de arte, tece considerações incríveis, a maioria das vezes decalcadas no estilo dos críticos da especialidade, sobre as obras em que lhe é pedida opinião. O que aconteceu na exposição ARCO, uma das mais importantes mostras de arte de Espanha, para além da demonstração do elevado sentido de humor dos idealizadores do vídeo, resume em imagens o que é o snobismo inerente à espécie humana. Todos queremos parecer aos olhos dos outros seres inteligentes, sensíveis, dotados de bom gosto e capacidade para vislumbrar muito para além do provável. E foi isso mesmo que aconteceu: um desenho pintalgado por um grupo de crianças de cerca de dois anos de idade deu o mote; a sobranceria humana fez o resto.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Um relógio engraçado
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| O relógio dos elfos e dos duendes |
Ofereceram-me este relógio engraçado que, garantiram-me, dá sempre as horas certas. Já experimentei e é mesmo verdade! Clicando sucessivamente em cima das figurinhas humanas, repara-se que as horas estão sempre correctas.
Pelos caminhos da neve
| Boneco de neve - algures entre as Penhas da Saúde e a Covilhã |
| Estrada para a Aldeia do Sabugueiro |
| Aldeia do Sabugueiro |
| Estrada para Manteigas |
| Aldeia do Piódão |
| Penhas Douradas |
| Penhas Douradas |
| Penhas da Saúde |
| Lá, onde o asfalto acaba e o gelo começa |
| Unhais da Serra - a caminho de Chãs de Égua e do Piódão |
| Sanatório abandonado |
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