quinta-feira, 30 de abril de 2009

Peregrinação interior

É a desintegração da matéria; é a rebentação do corpo contra o sofrimento; é o sinal do pecado original; é o trágico farrapo da couraça de barro do meu peito, ao chocar com a vontade divina; é o espasmo do subconsciente que me liga com a terra. Que mais? Mas eu direi que no fundo da minha dor, quando o pensamento volta a ser árbitro da minha vida, sinto uma grande piedade de mim. E todas as coisas me parecem benignas, e todos os sentimentos quase místicos. E, como uma magnólia de luz, abre-se na minha frente o cruel mundo dos homens. Para além desse mundo é o nada? Não, não! E se assim fosse? Prefiro sonhar-me num campo onde musgos, abetos e faias brincam às escondidas e perder-me, criança, no bosque frondoso. Não quero mais olhar para aquelas árvores, aquele céu, aquelas montanhas que olhávamos, tu e eu, navegando na imensidade do nosso amor sem mácula. Mas, agora que passei num lugar onde as cores se perseguiam atrevidas, descaradas, azul e vermelho, como numa pintura de Chagall, provo o fel da nostalgia da tua ausência. E esta morte trava-me os pés e não me deixa andar; e a cada unhada que a morte cravar no meu cérebro, do meu silêncio farei um grito, e da minha dor uma oração.

DIXIT

(Praia de Vagos - Abril de 2009)
"Todas as coisas que amo deixo-as livres. Se voltarem é porque as conquistei.
Caso contrário, nunca realmente as possui!"
Citação: autor desconhecido

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Da natureza humana

A causa das irritações é mais do que ambígua. É sempre uma resposta emocional, abrupta, insidiosa, que nos colhe de surpresa, nos tira do sério e que às vezes tem até consequências gravosas. O mais desagradável é mesmo a consciência da desproporção entre o estímulo desencandeador (uma tendência para más interpretações, com recidivas, uma sensibilidade de flor-de-estufa, uma azia momentânea, um pré-juízo) e a resposta dada que nos deixa um enorme amargo de boca e uma desconfiança justificada sobre o suposto bom feitio do nosso interlocutor e das suas boas maneiras. Irritamo-nos por tudo e por nada, todos os dias e várias vezes no mesmo dia e aproveitamos as irritações para dizer coisas desagradáveis, boçais, para dar largas aos aspectos menos simpáticos da nossa personalidade que, noutras vezes, até é supostamente encantadora. "Passamo-nos" porque alguém nos interroga a propósito de um pequeno equívoco, uma pergunta mal colocada, uma ínfima troca de palavras e fazemos desse reparo uma enorme discussão, aproveitamo-la até ao tutano para dar largas às nossas reclamações sobre o não sermos compreendidos. Irritamo-nos e ligamos a irritação à impaciência, a impaciência ao cansaço. A irritação é uma caracteristíca de temperamentos coléricos e há quem faça da irritação, das explosões, gritos e mau feitio que ela propicia, uma fórmula de aliviar tensões e alimentar o equilibrio instável que sustenta as pessoas que se movem neste nosso mundo. Às vezes é bem irritante lidar com pessoas assim. Há pessoas mais amáveis do que outras, mais capazes de desencandear afectos positivos, de serem contidas. E perdoar não é, nem tem de ser, uma possibilidade aplicável a todos os que nos ofendem. Sentir algumas ofensas como definitivas e irremediáveis é fácil quando o ofensor é alguém que não receamos perder, porque não faz parte do círculo das pessoas que reputamos "imprescindíveis". Quanto muito podemos sofrer uma decepção profunda, mas esclarecedora, pelo inusitado da situação criada. E, dos nossos demónios, o único que nos pode conduzir seguro ao mais vexatório desamor de nós mesmos chama-se medo. Medo de perder. E esse, felizmente, no caso em apreço, não existe. Vaya con Dios!

terça-feira, 28 de abril de 2009

Sobre a Nelly

A minha nova empregada doméstica chama-se Nelly. Nunca lhe perguntei pelo seu nome verdadeiro. Creio que tanto se pode chamar Nélia, Amélia, como possuir qualquer outro nome próprio com uma fonética que justifique o diminutivo. Mas isso foi coisa que nunca indaguei. Limito-me a chamar-lhe Nelly e ela gosta de ser tratada assim. A Nelly tem 24 anos mas já é uma mocinha muito responsável. Possui o 12º ano de escolaridade e faz limpezas em part-time. Durante a manhã, é portageira na auto-estrada A17, a mais recente ligação rodoviária entre Leiria e Aveiro. Já teve trabalho em full time, mas a politica de diminuição de custos da Brisa transformou-lhe o posto de trabalho num part-time. A rapariga não teve outro remédio senão arregaçar as mangas e encarar as opções disponíveis no mercado de trabalho. Além da minha casa, faz limpezas em mais dois ou três locais. Acorda todos os dias às 06.30 da manhã para ir trabalhar e só chega a casa à noitinha. Mora com os pais em Monte Redondo, uma aldeia sonolenta e simpática situada na estrada que conduz à Figueira da Foz; e, mesmo sendo tão novinha, já é um dos sustentáculos da economia familiar. Faz-me lembrar algumas das pessoas da minha geração que, desde muito cedo, assumiam responsabilidades e tudo o que obtinham era fruto do seu empenho e trabalho. Eu saí de casa com cerca de 17 anos e, desde então, com mais ou menos dificuldades, tenho-me sustentado a mim mesmo sem depender absolutamente de ninguém. Olhando para a novíssima geração dos jovens com idades próximas da Nelly - aqueles que conheço, e são a amostragem da esmagadora maioria, completamente obcecados pelo último grito em Play Stations, pelos telemóveis mais in, pelos jogos de computador e pelas roupas de marcas sonantes - vejo nesta mocinha valorosa, labutadora, sempre com um sorriso de satisfação a bailar-lhe no rosto, uma heroína: uma espécie de pedra preciosa no meio do cascalho, em tudo diferente da geração rasca e mimada que deambula por aí, parasitando em casa dos pais, arquitectando, paulatinamente, a construção de uma sociedade desprovida de valores que mereçam a pena ser cultivados. É com imenso gosto que retribuo monetariamente o trabalho doméstico desenvolvido pela Nelly em minha casa, e nutro por ela uma profunda admiração. A Nelly confessou-me que gosta muito de ler e ficou extasiada por ver tantos livros cá em casa. Inclusive, já lhe aconselhei várias leituras e propus-me emprestar-lhe livros. Ela agradeceu a minha cordialidade mas disse-me que, infelizmente, não tem tempo para ler pois quando chega a casa está tão cansada que só pensa em dormir. Entristeceu-me sabê-lo. Acho que muitos jovens como a Nelly fariam da sociedade futura um lugar melhor para se viver. Quero ajudar a Nelly no que puder. Não podemos ajudar toda a gente, é quixotesco pensarmos assim, mas se cada um de nós fizer algo para amortizar as dificuldades de quem lhe está próximo, estamos definitivamente a contribuir para a construção de um mundo solidário; e, mais importante, tornamo-nos definitivamente mais humanos.

sábado, 25 de abril de 2009

Azul

O teu rosto era imaterial como o de uma virgem de Frei Angélico. De joelhos, em frente do altar do teu leito, oferecer-te-ia o sacrifício do meu amor. Nua do peso da carne, minha alma beberia delicadamente o néctar das tuas escondidas lágrimas. Não te assustes, querida. Aonde nos conduziria o vendaval do medo? Lembro-me do tempo em que o nosso amor arrulhava melodias azuis e róseas no silêncio dos nossos corações, ainda maravilhados do nosso encontro. Agora, a tua face, como a dos anjos e das virgens, reflecte a ausência de carne. Não te assustes, querida, com as pequenas aves que andam sempre aos pulinhos na minha varanda. Elas gostam da minha casa, não sei porquê. Juro-te que, um dia, os teus olhos serão novamente iluminados pela jóia da vida e na ramagem azul-pérola do nosso amor florescerão, mais puros ainda, os nosso beijos. Quantos mais desenganos vejo no mundo das realidades, mais sublimes são as tuas mãos, a tua cara e o teu pensamento. Parece que do mundo que tinha imaginado, ficaste só tu; como se fosses tu este mundo e o resto somente quimeras. E este mundo que sobeja para mim, e que és tu, tornou-se superior ao que eu poderia imaginar. Somos duas malvas-rosas num jarro, adormecidos num estranho torpor, como agonizantes silêncios de cor. Já só sinto, cada vez mais ténue, a tua respiração ofegando dentro de mim. Sei que a tua pessoa está algures no cetim do firmamento e, por vezes, brinda-me com a sua presença através dos raios da lua prateada que odoram o beiral da minha janela. E, na minha varanda perfumada da tua luz, o meu olhar, de um salto, pousa em ti, beijando-te o rosto e as mãos. Parece que ainda sinto os lábios húmidos da delícia dos teus beijos! Doce fantasia!

Que me veio à ideia

Como Sócrates, o grande ateniense que ia pelas ruas, explicando a sua verdade, eu iria explicando o meu amor. E a cada pergunta que me lançassem, como um dardo, para ferir-me, apresentaria o coração, já magoado por todos os sacrifícios. E, da minha verdade, diria somente que não sei nada de nada, porque a verdade és tu, e eu apresento só o esplendor desta verdade. Ofereceria dolorosamente a minha vida corporal para a defender; não para defender a minha vida, mas para evitar a injustiça de que fosse condenada a minha verdade.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O amor (não) acontece

Que me aconteceu hoje, que tanto tenho sofrido e tanto tenho gozado? Que mulher és tu que me cortas as palavras e me enevoas o pensamento, fazendo acelerar o meu coração, e me secas todas as lágrimas que já nem os olhos sabem chorar? Depois de uma tarde horrível de palavras cruéis, beijo-te como um bárbaro e ainda me dizes que não estás zangada? Como és? Que pensas de mim? Qual é o teu pensamento? Que queres que eu faça? O que há no teu olhar que parece querer entrar no fundo da minha alma? E na delícia dos teus olhos o que tenho de procurar? Amor, compaixão, pena, o quê? Meu Deus, em que enorme confusão me encontro, que vivo e morro ao mesmo tempo; que ouço neste momento, agora que não estás mais disponível para mim, as tuas palavras a me dizerem que não podes querer-me. Vejo agora, pelos teus olhos, que as tuas palavras são falsas! Se não, como permitiste que eu te beijasse? Que espécie de nervosismo tinha eu então? Que senti dentro de mim? Não tinha dito antes que pelo prazer de te beijar uma só vez eu daria toda a minha vida? E não vivo ainda? Que pensas, que pensas, que pensas? Quero ler o teu pensamento, pois compreendi que não és feliz, mas que és bondosa; sei que és a mulher mais bela deste mundo; tudo em ti é alma, e eu queria que essa alma fosse minha! Sabes, às vezes vejo nos teus olhos toda a minha vida reflectida. A noite passa serena, e eu invejo a felicidade dos pobres pedintes que dormem debaixo de uma ponte. Amanhã, despertarão e seguirão o seu caminho pela estrada fora. E eu, amanhã, que farei? Voltarei a ver-te e serei feliz um instante? Depois, a incógnita do devir ditará o que me espera. Se soubesses o que eu penso do teu corpo! Acarinho-o como a uma coisa sagrada para mim, com uma veneração, com uma voluptuosidade, como se fosse de seda, de pétalas de rosa, como se um perfume que se tivesse transformado em carne. Mas posso eu exigir que me digas se me amas? Não é o medo de confessares a razão do teu silêncio?

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sobre o momento

Esta crise global, que contamina em primeira linha as pessoas que se encontram em situação mais precária, muito por causa do entrosamento que existe em quase todas as actividades económicas, não augura nada de bom para a manutenção de qualquer posto de trabalho. Se em cada dia que passa os empregos se esfumam, seja porque os patrões não escoam os seus produtos, abrem falência e não têm dinheiro para pagar salários; se cada vez as pessoas têm menor poder aquisitivo; se, devido ao crédito malparado, cada vez mais os Bancos se retraem na concessão de crédito às famílias para compra de habitação própria e permanente; se cada vez se fazem menos negócios, não há, no presente, nenhuma actividade económica que esteja a salvo do colapso. O local onde trabalho, a actividade que desenvolvo, é um bom barómetro para avaliar este estado de coisas, e o marasmo que actualmente se vive, reflexo da diminuição drástica das solicitações, que ainda há bem pouco tempo existiam em número satisfatório, começam a ser para mim motivo de alguma preocupação. A consciência de que, hoje, quem não faz falta é "dispensável", ainda que queira efectivamente trabalhar, causa instabilidade e incerteza. E o único remédio para este género de situações é manter algum positivismo e esperança de que hão-de surgir dias melhores. Consola-me o facto de ter aprendido, há muitos anos atrás, numa disciplina universitária que se chamava "Economia Politica", que as crises são cíclicas, tal como as ondas do mar. Chegam e partem. Eventualmente assim também sucederá, porque até a vida, assim como chega, um dia também parte. Para quê, então, a excessiva preocupação?

terça-feira, 14 de abril de 2009

Palavras III

Não é extraordinário sermos semelhantes? Conhecendo a minha pessoa, conheço-te, porque és como eu. Toda a fonte de delicadezas e sentimentos, que não se podem definir porque são alma, e que estão dentro de mim, equivale à mesma que tu tens. É por isso que nos compreendemos perfeitamente. Por este motivo os nossos pedidos são nulos, porque as nossas vontades estão sempre satisfeitas. Assim, sem nada dizeres, compreendi que estavas triste, porque essa mágoa também era minha.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Palavras II

Começa hoje para mim outro combate com a vida, comigo mesmo. Os últimos dias têm sido de prova, prova cruel e amarga, mas realmente prova, que suportei com uma coragem - deixa-me dizer - de herói. Deixei de possuir, por momentos, o melhor de mim mesmo, mas ainda assim sinto força suficiente para recomeçar. Sei que iremos juntos, eu pelo caminho da claridade dos teus olhos e tu pelo caminho do meu suplício. Se assim for a tua vontade. Fui, para ti, como um entre tantos desconhecidos que encontras pelo caminho, em que por isso não reparas, embevecida com os teus pensamentos. Já sei que irei deixando nesta hora tudo o que resta da mocidade. Talvez, quando me abrires os teus braços e me ofereceres todo o mel da tua boca, só reste de mim uma ruína de todos os sofrimentos e de todas as agonias. Sem o ar do céu não posso respirar, e tu és o meu ar e a minha luz e o pensamento do meu pensamento. Nada importa, porém, se ainda me restar um pouco de voz para te dizer que te quero!

domingo, 12 de abril de 2009

Palavras I

Foram nestes dias que tomei consciência aguda de muita coisa. Voltou a mim aquele silêncio que tem sido meu companheiro toda a vida. E eu, desesperado porque dei conta disso, pus inconscientemente outra gota de fel no meu coração. É tão triste ver-me triste e não poder remediá-lo! Verás que chegarei a ser o homem que tu queres que eu seja:alegria nos olhos e alegria no coração. Deixa, no entanto, que sofra ainda um pouco, ou muito; que tenha bastante fortaleza para não demonstrar que sofro.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

De perna ao léu

Páscoa é o motivo deste feriadão de 4 dias e meio que começa hoje? Então gosto da Páscoa. Venham mais Páscoas! Uma belíssima altura para ficar perto de casa e não viajar pelas estradas, nesta época, apinhadas de trânsito, onde a probabilidade do acidente espreita a cada momento. Superstição ou não, eis a questão.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Emerita Augusta

(Arco de Trajano - antiga entrada triunfal - Mérida - Abril 2009)
(Restaurante para obcecados pelas "Corridas" - Mérida - Abril - 2009
(Uma calle peculiar - Mérida - Abril 2009)
(Mérida - Calle Trajano - Abril - 2009)
Emérita Augusta, chamada "A Roma Ibérica", antiga capital da Lusitânia, foi fundada pelo imperador romano Augusto, no ano de 25 A.C., para premiar os seus legionários (emeriti) que lutaram bravamente contra os Cantábros e os Astures. Em 1993, por decisão unânime, em Cartagena, em vésperas de comemorar o seu bi-milénio, Mérida foi integrada no núcleo das cidades que constituem Património Mundial; e, tanto quanto sei, é a única urbe espanhola a ostentar tal distinção. Trata-se de um passeio que vale a pena, mas um fim-de-semana revela-se curto para apreciar tantas belezas e legados históricos. A cidade fica nas margens do Guadiana e dista cerca de 60 kms de Badajoz - um percurso que acontece num ápice já que é feito numa auto-pista - gratuita, como de resto todas o são em Espanha. Existem percursos pedonais muito bem assinalados, graças à sinalética existente em toda a cidade a qual, para além de realçar a existência do Património, auxilia o visitante quer em termos direccionais, quer em termos de estacionamento - que no meu caso não constituiu problema pois viajei de moto, e uma das vantagens dos motociclos é precisamente o de caberem em quase todo o lugar. Sem querer entrar em grandes detalhes acerca do conjunto monumental e arqueológico que a cidade alberga, até porque pode ser consultado em qualquer guia turistíco, realço a importância de se fazer o percurso num pequeno trem, à semelhança do que existe em Sintra, à disposição dos visitantes pela módica quantia de três euros. Não é complicado entender o castelhano da gravação e fica-se com a panorâmica geral dos principais pontos de interesse, para além de uma resenha histórica sobre os mesmos. Desde muito jovem que não ia a Mérida e, confesso, achei-a muitíssimo mais bonita do que outrora. Os beneficíos do Programa Polis, aliados aos fundos monetários de que a cidade passou a dispor em virtude da sua classificação como Património da Humanidade, operaram melhorias significativas em todo o casco urbano e arredores, com realce para a criação de uma zona verde, com bastantes quilómetros de extensão, ao longo do Guadiana, envolvendo tanto a ponte romana, como a nova ponte arquitectada pelo Calatrava - o tal da Gare do Oriente em Lisboa! Ainda pensei em trazer na cabeça um capacete de centurião romano - que os há, entre outros souvenires, em enorme quantidade à venda nas tiendas de recuerdos - mas achei que a Guarda Civil Espanhola e a Brigada de Trânsito da GNR, não afinariam pelo diapasão do meu sentido de humor. Enfim, vim novamente encapuçado com o AGV integral, metido no fato de cabedal, e debaixo de uma torreira de cerca de 30º, que só esfriou depois de passar Elvas. Fica para uma segunda oportunidade uma visita mais detalhada à Emerita Augusta, mas Espanha com calor só de aire acondicionado!

terça-feira, 7 de abril de 2009

Nos céus da minha zona costeira

(Cessna Skymaster bi-lugar antes de rumar aos céus do Oeste - Abril 2009)
(São Martinho do Porto)
(São Martinho do Porto)
(Foz do Arelho - ao fundo, a Lagoa de Óbidos)
(Nazaré)
"Se Deus quizesse que nós voássemos tinha-nos dados asas!"
Esta frase, que ficou famosa mas cuja autoria desconheço, surgiu aquando das tremendas discussões havidas no início do século XX, entre, por um lado, os defensores do "mais leve do que o ar" - balonistas e afins; e, por outro, os que defendiam a primazia do "mais pesado do que o ar" - os crentes nos aparelhos com asas e impulsionados por um motor rotativo. Estes últimos, à época apelidados de lunáticos e motivo da chacota geral, acabaram por demonstrar a validade dos seus argumentos. A moderna aviação deve-lhes tudo. Sinto que descobri, embora tardiamente, uma nova paixão, nada condizente com as minhas possibilidades económicas. Tudo seria mais fácil e consentâneo com os meus desejos se pudesse transformar-me, ainda que por instantes, num albatroz, ou numa gaivota, para poder planar graciosamente no azul dos céus. Por isso, limito-me ao possível que é o de quando em quando.

Amanhecer

(Vista do quarto - amanhecer - Igreja Matriz - Badajoz - Abril 2009)
Os badalares dos sinos desesperam-me. Quantos poemas eu tenho lido nos quais o relógio, ou o sino, eram os metafóricos protagonistas (o tiquetaque persistente, as badaladas a cada hora) e eu o frio analisador! Muitas vezes a obsessão da originalidade mata o sentimento no poeta. Da ginástica do sentimento fica a poesia pura, a lógica abstracta. E agora compreendi - e não me rio - que há momentos na vida em que o tiquetaque do relógio e as badaladas dos sinos fazem eco dentro de nós até se converterem no centro do nosso sentimento. Esta manhã, nesta cidade das extremas, fui a um concerto de Júlio Pons Casado, o artista - afirmava o programa - revolucionário, e não encontrei nele outra revolução além de se apresentar de fato de etiqueta com a gola do casaco puxada para cima, parecendo um homem saído de uma cova, onde soprassem todos os ventos. Conhece a técnica, sem dúvida, e na marcha fúnebre de Chopin esteve sublime. Quando regressei ao quarto, ao cair da tarde, por momentos, julguei que eras tu que brilhavas na luz cansada das minhas desditas. Mas enganei-me. Ainda assim, saída do pó mágico da minha imaginação, perguntaste-me: "De onde vens?" - E eu, que haveria de responder? Acaso saberia eu de onde vinha? "De mim mesmo! - respondi-te -, do torpor do meu mundo, da preocupação constante de não te ter ao meu lado. Sabes, sinto a tua falta! "A minha saudade, nesse momento, era como um perfume de brisa, toda azul do mar, que me deve ter colorido os olhos; e tão silenciosa da confiança que depositava em ti.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Um sonho chamado quimera

(Badajoz - Igreja matriz - anoitecer - Abril 2009)
Terás de civilizar-me gradualmente. Fiz-te prometer que aceitarias de mim tudo o que precisasses para o teu uso íntimo. E à primeira coisa que tens a franqueza de me pedir - essa franqueza que tanto desejo em ti - fico sem palavras e passam-me pelo cérebro todos os prejuízos de homem antiquado, de homem que não é capaz de compreender e querer o mais encantador, o mais adorável de uma mulher: a sua feminilidade. Gosto de evocar os momentos em que te conheci. Lembras-te? Foi num lugar bastante comum que os nossos olhos se encontraram. No silêncio luminoso dos nossos olhares transparecia o mesmo pensamento. Pressenti naquela altura que o tule do amor esvoaçava em nosso redor. O teu sorriso era infinito e brilhante como o mar e todo eu submergi na luz dos teus olhos. Estou em casa. É noite cerrada e este silêncio acentua ainda mais a tua lembrança. E as horas da noite devem passar silenciosamente, porque tu dormes. O nosso amor é um só, inviolável, fervoroso, sem receios, com transparências divinas e sensações humanas ao mesmo tempo. Agora adoras a vida, porque sabes que eu a protejo e porque também sabes que a luz dos teus olhos ilumina outra existência. Vou guardar o segredo do nosso amor, que é de uma beleza imponderável. E esta nossa irrequieta paixão não é mais do que um eterno noivado, a acontecer numa varanda perfumada de luz, plena de estremecimentos invisíveis. Às vezes, parece que brincas com a tristeza, tal como eu brinco com a dor, e quando te falo, sei que fechas os olhos e ouves-me com atenção, e as palavras rolam dentro de ti, como um sonho. O nosso sonho chama-se quimera, mas podia ter outro nome qualquer.

Lisboa em ascensão turística

(In Folha de Curitiba)
Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o poder da palavra, aqui fica, em resenha, mais uma pérola do mau jornalismo brasileiro, porque também existem no Brasil profissionais de altissíma qualidade. Lisboa é deste modo aviltante promovida no Brasil. Como será possivel dizer tantos disparates em tão poucas linhas?! Aqui fica a pergunta para meditação.

Livro do Desejo - Leonard Cohen

O "Livro do Desejo", do judeu Leonard Cohen, reúne, em edição bilingue, poemas escritos ao longo de 20 anos, acompanhados por surpreendentes ilustrações do próprio Cohen. Desejo, solidão, amor, são os temas tratados, num estilo intimista e meditativo, nele tão caracteristícos. Trata-se de um dos maiores autores de poemas para serem cantados do nosso tempo. Quem gosta de poesias transformadas em letras de canções, vai decerto adorar lê-lo, tanto quanto eu.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Água fresca

Tirei esta fotografia por três motivos que para mim são importantes, ainda que para outros, porventura, não o possam ser. O azul fascina-me. Todos os tons de azul têm esse efeito sobre mim, daí gostar tanto da "fase azul" em Picasso, malgrado ser um pobre conhecedor de pintura; a água fresca, em movimento, transporta-me o pensamento até aos dias do Verão, que é a minha estação predilecta, e para as águas azuis e esverdeadas do mar, separadas pela linha ténue do azul profundo do céu. Além do mais, a água é uma fonte de vida. Já são três razões bastantes para o meu merecimento.

Cervejaria Trindade

(Cervejaria Trindade Lisboa - Março 2009)
Um espaço que dispensa apresentações, que já foi convento e posteriormente a primeira fábrica de cerveja em Portugal, onde se podem comer os bifes mais deliciosos de Lisboa. As fotos estão um pouco tremidas pois, por estas alturas, a fome já pouca firmeza concedia à mão direita, mais inclinada para segurar talheres do que câmaras digitais. No cardápio, em letras pouco visíveis, consegue-se ler: "O seu prato foi temperado por dois incêndios, um terramoto, e sete séculos de História, não admira que seja saboroso". Perdoem-me os portuenses, mas a Capa Negra, um espaço algo similar, que bem conheço e onde se come soberbamente, ainda assim, não chega aos calcanhares da Cervejaria Trindade.
NB. Não consegui reprimir este impulso bairrista...

Livraria Barateira - ainda em Lisboa

(Livraria Barateira - Trindade - Lisboa Março 2009)
Umas portas abaixo da Cervejaria Trindade, onde almocei, reencontrei-me com a minha querida Livraria Barateira, o espaço de alfarrábio maior de Lisboa, mesmo defronte do Teatro da Trindade, onde, anos atrás, chegava a permanecer mais de quatro horas, perdido na imensidão dos seus corredores, pelejados de livros até ao tecto. Este espaço, inaugurado em 1914, é um dos ex-libris do Bairro Alto e paragem obrigatória para todos os aditivados em livros, como eu. Felizmente para as minhas economias, e para quem me acompanhava, era Domingo e a livraria estava encerrada, caso contrário, receio que não resistisse a uma "breve" visitinha. Aliás, lembro-me que uma vez, um sábado de manhã, entrei na Livraria Barateira com a promessa solene de que seria breve. Aconteceu que, quando procurei a pessoa que me acompanhava, já ela tinha saído. Acabei por encontrá-la um pouco mais abaixo, no Chiado, num lugar bastante previsível para uma mulher: a montra de uma loja de sapatos e malas de marca reputada. Tratava-se da mãe da minha filha, que também gostava bastante de livros (e penso que ainda gosta), mas talvez não tanto como de sapatos e malas. Enfim, é preciso metermo-nos na pele de uma mulher para entendermos as pulsões naturais do sexo oposto. E se o sentir-se bela é o atributo preferencial de uma mulher, porque não aceitá-las como são?! Eu trocava todos os meus sapatos por bons livros - e a minha colecção de calçado, contando com os sapatos a pedir remendões e meias-solas, não é tão despiciente assim! -, mas temos de ser tolerantes com as diferenças e aceitá-las. A natureza, felizmente, não nos fez iguais. Fez-nos, sim, diferentes, para que nos completemos. Assim haja amor e vontade e, já agora, um pouco de reciprocidade.

Terreiro do Paço

(Terreiro do Paço - azulejaria do séc. XVIII)

Casa do poeta - uma singela homenagem

(Lisboa - Março 2009)
Longuissímos braços têm os olhos que tudo abraçam. Somente, só olhos vêem os olhos que por mim passam. Clandestinamente os lanço, braços de mar, olhos de água. Longo ser líquido avanço, abraço a vida, e alago-a. Destino do amor triste que não se ouve nem se vê. Ama apenas porque existe. Não sabe a quem nem porquê. Nesta obrigação de estar que a cada um de nós cabe, coube-me esta de amar. E ninguém sabe.
Rio Triste António Gedeão Poesias Completas (1956-1967)