Oiço muita gente comentar que vai passar o Réveillon aqui e acolá, em casinos, em hotéis, em discotecas, em danceterias, ou em casa de amigos. Também já escutei algumas pessoas dizendo que vão celebrar o fim-de-ano de forma 'originalíssima': batendo em tachos e panelas à janela, em uníssono com os vizinhos da frente, para que ninguém fique imune à sua esfuziante alegria - fazem-me lembrar aquela celebérrima questão do Juca Chaves: 'A hiena é um animal que, além dos seus próprios excrementos, come carne morta; e ri do quê?'. Ainda não escutei ninguém dizer que planeia passar a noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, da forma serena que para mim mesmo planeei: na cama, aconchegado no calor do edredão de penas e, se possível, acompanhado de um bom livro. O Réveillon é um evento que acontece quando uma cultura celebra o fim de um ano e o começo do próximo. E todas as culturas que têm calendários anuais celebram o "Ano-Novo". Réveillon é um termo oriundo do verbo francês réveiller, que em português significa "despertar". Ora, a mim o que mais me chateia é que alguns foliões possam efectivamente despertar o meu sono e eu nada possa fazer, já que parece existir uma cláusula de salvaguarda consuetudinária, com respeito à Lei do Ruído, que, nesta data, os absolve do pagamento de coimas. Mas, afinal, vão celebrar o quê? As diabólicas medidas de austeridade, o desemprego e empobrecimento assustador para a população que daí advém? Deixem-me, sim, dormir em paz e sonhar com um novo ano onde nada disso vá acontecer. Essa é a minha grande fantasia para essa friorenta noite que se avizinha.
