quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A frio

E as borbulhas protuberantes que se vêem na cara de alguns transeuntes? Os dentes putrificados, o rosto coberto de varicoses, o ventre saliente como um odre, o cheiro fétido a suor e a vinho que exalam, a roupa suja e maculada de tanta decadência; corpos de nojo, que, sem motivo aparente, ainda riem... Isso sim, mais do que a genialidade, constitui para mim um dos mais insondáveis mistérios da Humanidade.

Apascentando os sonhos

(Chegada da noite - Rio de Janeiro - Copacabana - Dezembro 2008)
  • Assim vou apascentando a fantasia,
  • Neste final de tarde de um dia vulgar
  • Sem algo singular que valha a alegria
  • Destes versos que me apraz cantar;
  • Sou rolo de fumo, astro perdido,
  • Um vapor nulo de inspiração
  • Com a fé militante do poeta agradecido
  • Num dia a mais, sem celebração;
  • E dou-me todo neste poente outonal.
  • Sou espasmo de luz, brisa dos oceanos,
  • Aquele que define o seu capítulo final:
  • Acabar floricultor num bosque de enganos;
  • Vivo há muito com o ensejo de não escapar,
  • A enigmas que tanto me seduzem
  • Mas vou contendo-me, extraindo fôlegos do ar
  • Sonhando sempre que as estrelas fulgem;
  • Amanhã, de novo, espreguiçarei ao alvor,
  • Esta vontade que reputo salutar,
  • Rendido ao melífluo clamor
  • Desta crença por mim aberta de par em par.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A Lua

  • É tão belo ver a noite dormir
  • Embalada em silêncio lento
  • E sonhar suave que o devir
  • Vai ser o lindo encantamento
  • Da doçura maior que está por vir
  • É tão belo o esplendor desta visão
  • Como um eco que ressoa no final dos dias
  • A noite como confidente e boa razão
  • Das almas que choraram um dia, vazias
  • É tão belo sentir a noite chegada
  • Derramando a sua luz no céu de breu
  • Com os pés nus e a bagagem aligeirada
  • Sonhando que o destino dela sou eu

domingo, 27 de setembro de 2009

Notícias do Gato Ruca, seguidas de um breve comentário politíco

(Quando a noite se abeira do jardim fronteiriço à minha casa - foto tirada da varanda dianteira, espaço interdito ao Ruca)
1. O Ruca está o dia inteiro sem me ver e mal eu meto a chave à porta, no final do dia, recebe-me com um repertório de miaus e ronrons que nunca mais acabam. Depois segue-se a costumeira sessão de dentadinhas e lambidelas, à mistura com mais ronrons e arranhadelas. Até ao momento, a sua diversão predilecta tem sido morder-me os pés mal me descalço. Apesar de ser um gatinho de tenra idade, já tem as unhas e os dentes muito afiados e quero ver se, pelo menos quanto às unhas, resolvo o problema para não ter de ir para o trabalho constantemente com as mãos e os pés arranhados. Tenho uma camisa nova que já apresenta dois rasgões consideráveis, resultado do hábito do bichano subir por mim sem aviso prévio. No resto, come com regularidade, é bastante asseado e adora mamar nos meus braços e na minha camisa com uma sofreguidão enorme. Creio que o bichinho vê em mim a mãe que tão precocemente perdeu. Enfim, trata-se de um gato em fase de crescimento, com uma necessidade natural de afiar as suas presas e desenvolver todas as artimanhas do caçador nato que é. Queria ver se nos entretantos lhe ensinava a caçar moscas, mas o problema é que há pouquíssimos desses insectos cá por casa.
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2. O Ruca, com a prestimosa colaboração da minha querida G., que me ajudou a transportar o animal, foi ontem pela primeira vez ao médico. O veterinário colocou-lhe sob o dorso um pingo de uma substância qualquer, que fiquei depois a saber tratar-se de um remédio desparasitante. Além disso, mediu-lhe a temperatura (apesar de ter o termómetro enfiado no ânus, o bichano não pareceu ter ficado muito incomodado, durante os breves minutos que durou a consulta) e, de uma forma geral, tacteou-o e conclui que o mefistófeles em miniatura está de plena saúde e recomenda-se. Quanto ao facto de miar insistentemente, diz o Dr., é fruto da sua idade precoce e só os laivos da maturidade nascente vão amainar essa sua têmpera aflitiva. No próximo sábado o bichano vai levar a primeira vacina e, por este andar, começo a sentir-me um gato-pai.
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3. Acabei de chegar das bandas de Lisboa e soube que o BE praticamente duplicou o número de deputados no Parlamento e que o PS perdeu a maioria absoluta - estas são as duas boas notícias. A má notícia é a quase confirmação do CDS como terceira força partidária, o que não augura nada de bom. Sempre achei estranho, incompreensível até, como é possível que pessoas que ganham pouco mais de 300 euros por mês, algumas delas com vidas que são infernos de dificuldades, sintam apetência para votarem numa força politica onde se acoitam as famílias mais poderosas da sociedade portuguesa, donos de imensas fortunas, aqueles que, por explorarem sem dó nem piedade os seus assalariados, permitem-se viver como sultões das arábias, nas maiores das sumptuosidades. E são eles, o mais das vezes, os directamente responsáveis pelos salários de miséria que as condenam a uma vida aflitiva assim. Sem querer chamar menos inteligente a ninguém, até porque respeito a opção de voto e o pensamento de cada um, não deixo de ficar atónito com a postura desta gente, pois tudo o que desafia a lógica causa-me uma natural perplexidade. Será por desconhecimento, ignorância, medo do papão do comunismo, ou pelas tão propagandeadas promessas de maior segurança, contingentação da entrada de imigrantes ou hiper-valoração dos símbolos patrióticos, que há pessoas com fraquissímo poder económico a votarem no CDS? Será que acreditam que o partido mais à direita no espectro politico português, está realmente preocupado com a classe trabalhadora, os pobres, os explorados, os mais fracos e os indigentes? Não foi com promessas de uma semelhança quase sinistra que Hitler conquistou o poder na Alemanha, em 1933? Apelando à expulsão dos judeus - na sua óptica, os responsáveis pelo desaire económico da Alemanha - à hiper-valoração do patriotismo, prometendo segurança, ordem, paz e reabilitação do orgulho perdido?

De fugida...para Lisboa

Não estou com o melhor dos humores, é certo, mas não quero tornar-me num ser espacial e omnipresente que faz da lamuria uma forma de vida, da narrativa detalhada dos seus males e sofrimentos a única comunicação relevante. E se me alongo neste solilóquio, arrisco a elevar a queixa a uma forma superior de comunicação, transformando-a numa inexcedível e bizarra arte. Um dos meus grandes males tem sido o sofrer de saudade, talvez por não viver tão projectado no advir como seria desejável; e sei que só o tempo, esse careca flibusteiro que tudo ameniza, me pode valer. São estas as parcas palavras que me apetece dizer. Nada mais. Agora vou tomar banho, vestir-me, e viajar até ao Barreiro para ir votar, na esquerda válida e iluminada, obviamente.

sábado, 26 de setembro de 2009

Azulo-me... por ti

  • Quis o destino que deixasses de ver
  • Este rosto parado em horror por te ter
  • Nas núvens rendadas e esfarrapadas
  • Num céu que apainela a visão dum olhar
  • Que quer trazer a eternidade
  • A mão que ajuda, ampara e acolhe
  • Todas as mágoas, como rio a encher
  • Florestas vedando o nosso encontro a correr
  • Na corrida de fadiga, mentira e sofrer
  • Porque vieste ampliar a minha dor, amor
  • Nas vagas rotundas, na brisa do mar
  • Se a ti eu amei e sofri com a dor
  • De sentir a tua ausência esfumada em bruma
  • Num longo silêncio que fere e anula
  • O coração de alguém que de dor trespassado
  • Não quer mais sorrir, não quer mais ouvir
  • A voz doutro alguém que teu lugar roube
  • E que da vida ainda não soube
  • O que é querer, perder e sofrer
  • Na solidão que fere e que mata...

domingo, 20 de setembro de 2009

O Gato Ruca

Há imenso tempo que não tinha um bichano a deambular cá por casa. A última vez que me recordo de ter tido gatos, ou melhor, gatas, porque é a primeira vez que tenho um gato, foi há cerca de sete anos. Não foi uma experiência muito animadora, porque a dona gata adorava arranhar sofás, partir toda a sorte de objectos, e quando estava com o cio miava como uma desalmada noite adentro. Recordo-me que, nesse períodos, nas fases mais agudas, por vezes só de madrugada conseguia fechar os olhos e dormir com algum sossego; e por isso, apesar de sempre ter gostado imenso de felinos, confesso que senti um certo alivio aquando da saída da bichana. No resto, estou certo que ela continuou a viver feliz e muito acarinhada até à sua morte, ao lado da pessoa com quem ficou.
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Outro dos motivos que sempre me impediu de ter animais foi o facto de viajar com alguma frequência e não ter com quem os deixar, mas desta vez resolvi que quando chegar esse momento alguma solução hei-de encontrar - que não vai passar certamente pelo abandono, atitude que seria incapaz de ter, até porque já existem hotéis para animais; por outro lado, quem sabe alguma pessoa amiga não se preste a ficar uns dias com o bichano. Mas, tecidas estas considerações iniciais, o facto é que desde há poucos instantes fiquei de novo dono de um gatinho. O mefistófeles em miniatura custou a módica quantia de nove euros - a comida, a caixa e as pedrinhas foram, todas juntas, mais caras do que o preço simbólico que paguei pelo animal. É preto e branco, rechonchudo, com os olhos azul-água, adora mordiscar e subir por mim acima, tem umas unhas e uns dentes afiadissímos, já faz uns ronrons fabulosos e dá pulinhos como se tivesse molas sob as patas, enquanto corre pela casa fora todo desengonçado. Ainda só tem dois meses e duas semanas e, contra a vontade da minha mãe, a quem entretanto telefonei e ficou completamente chocada com a ideia, decidi chamá-lo Ruca.
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Espero que isto seja o princípio de uma grande amizade, pois de ora em diante esta casa, não sendo propriamente uma capoeira, passa a ter dois machos: o Ruca e o Jorge, sendo que ele, por decisão unânime (estou certo que se pudesse falar votaria favoravelmente na ideia) ficou com um pet name derivado do meu primeiro nome, do qual não gosto nem nunca gostei, reservando eu para mim o segundo. Tenho a certeza de que ele não se vai importar quando eu o chamar: Ruca..bichaninho, anda cá ao dono! A ver vamos.

sábado, 19 de setembro de 2009

O que é o amor?

  • Amor, é não saber o que se quer
  • É ter o que não se quer, e tem
  • É querer o que se não tem, e quer
  • E não saber afinal o que se tem
  • Amor é aquilo que dá a vida
  • É estrela a brilhar entre as estrelas
  • É gota cristalina numa flor caída
  • É a razão da existência entre as mais belas
  • Amor, é um mistério de enganar
  • Mostrando muitas vezes falsidade
  • Dizendo que se ama e não amar
  • Amor? Parece fogo que nos queima
  • É amar muitas vezes na obscuridade
  • Fingindo não amar, quando se ama
[Obs. Em tempos, foi-me oferecido um pequeno livrinho que reunia várias tentativas de definição sobre "o que é o amor?", escritas por bloggers. Não tive oportunidade de escrever a minha e, por mero acaso, encontrei esse mesmo livrinho numa das prateleiras da estante, daí a inspiração para o presente poema]

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Murmurando as palavras

Estou sentado num banco de jardim composto por um tronco de eucalipto cortado em duas metades iguais e não me recordo de alguma vez ter visto um assento tão original. Tento apanhar os raios solares do final da tarde que teimam em atravessar algumas nuvens brancas espalhadas no céu e dou por mim balouçando as pernas, tocando ao de leve com a biqueira dos sapatos no chão, levantando pequenas nuvens de poeira, tal como fazia quando era criança. Por breves instantes, interrompo a leitura de um conto de Dostoievski e deixo o meu pensamento fluir. À medida que os dias vão correndo, os fantasmas e certas recordações vão-se esbatendo na minha mente. É curioso como a terapia do tempo torna tudo tão distante, tão leve. Não tarda estamos no Outono e idealizo o cenário que me rodeia vestido de uma forma que me é familiar: as folhas cárneas e amarelo mostarda, dos plátanos gigantes que cercam as margens do Lis, cobrindo por completo os caminhos pedonais ao longo de todo o Marachão. O vento bufando cada vez mais forte, formando pequenas espirais e incitando as folhas que dormitam no chão a dançarem em rodopio. As longas pernadas das árvores vergando o seu peso sobre o leito do rio, fazendo aparecer pequenas represas; e nos ramos mais elevados, a muitos metros do chão, longe dos gatos esfaimados e dos pequenos roedores que habitam as redondezas, orquestras de pequenos cantores ensaiando gorjeios ao desafio, enquanto o frescor do vento agita a restante folhagem que teima em não cair. De quando em quando, bátegas de chuva amolecendo a terra, molham as plantas e as flores, para de seguida odores adocicados, de uma intensidade indizível, inebriarem quem passa por este lugar. Assim acontece nas margens do Lis.
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[Duas horas passaram. O ruído das vozes é cada vez mais escasso. A noite cai. Meto-me no carro e venho devagarinho até casa. Cheguei por volta das vinte horas. Dentro de casa havia uma certa penumbra que me agradou e um silêncio que me confortou. Afinal sempre é bom termo-nos a nós mesmos, ainda que seja das poucas coisas que tenhamos]

domingo, 13 de setembro de 2009

Devagarinho

  • Coração que bates devagarinho
  • Não te entregues não, tanto
  • Tens o sopro de um passarinho
  • Mas de bondade, que tamanho...tanto
  • Se é assim teu coração a amar
  • A bater devagarinho, vem
  • Que bom poder tanto dar
  • A quem tanto amor não tem
  • E quando aqui chegares, olha bem...
  • Escuta este bater que te presente
  • E sem receio, devagarinho vem...
  • Apenas confia em quem não mente
  • E não te entregues, não, tanto
  • Mas dá-me a tua mão assim... suavemente

sábado, 12 de setembro de 2009

A tua flor

  • Fiz um ramo com flores
  • E todas eram tão belas
  • No jardim dos meus amores
  • Achei-me a sonhar com elas
  • Uma orquídea eu fui pôr
  • No meu lugar de eleição
  • Para ver se o teu amor
  • Tinha a mesma duração
  • Veio então uma rosa
  • Com o seu espinho aguçado
  • Que me deixou a sofrer...
  • Não quero mais orquídea nem rosa!
  • Quero só andar enganado
  • Até quando eu morrer

Palavras na tua/minha boca (Fevereiro de 2005)

Há palavras que têm sabor, palavras que se deixam degustar enquanto as sentimos rolar por sobre a língua, antes de abrirmos ao de leve os lábios para as deixarmos sair;

Enquanto existem em mim, sabem a sonhos, a esperança, mas quando mas calas com um beijo e fogem para a tua boca, sabem-me a amor e a paixão; quando mais tarde as exalas inesperadamente, sabem-me a destino;

Quando mas sussurras ao ouvido; quando mas gravas com os dedos sobre a pele; quando mergulho os meus olhos nos teus e as vejo navegar na tua alma; quando vislumbro uma sílaba perdida no canto da tua boca e provo uma letra apressada no gosto do teu sorriso...

Há palavras que têm cheiro a mil passeios de mãos dadas, no parque, na praia…; que soam como música perdida nas estrofes de vento que refrescam o verão…; que uivam na tempestade para que as lembremos para sempre…; que cantam para nós de manhã para que o nosso despertar seja suave e melodioso…; que nos imprimem vida, movimento, ritmo…

Há palavras que nascem bem dentro de nós e que ficam lá mesmo depois de as gritarmos ao vento e de as levarmos pela mão a conhecer o mundo de outra pessoa. Palavras que embalamos sem mesmo nos darmos conta e das quais nos alimentamos com cada vez mais avidez…

São palavras que um dia nos batem à porta de mansinho e nos pedem para entrar… e não encontramos forças para as mandar embora… e deixamos que fiquem e que, aos poucos, vão tomando conta de nós… exigindo ser o nosso centro… o âmago de tudo…

E, quando enfim, derrubadas todas as barreiras, nos preenchem, querem mais, querem ser partilhadas, porque são especiais, porque querem colorir os dias daqueles que amamos e unir-nos ainda mais, sem pressas, porque têm todo o tempo do mundo para fazer-nos felizes…

São palavras assim como: Amo-te!… que me aproximam de ti a cada dia que passa, palavras que me preencheram os silêncios e me elevaram os sonhos e, em cada um deles, consigo entrever linhas de vida ainda inenarradas, acenando-me por entre os traços do teu sorriso, convidando-me a aproximar-me, a prová-las na tua boca para sentir que são iguais às minhas, e que também elas querem que fiquemos juntos para sempre…

(Publicado no meu 1º Blog, em Fevereiro de 2005)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A sorte do gato dorminhoco

Uma amiga minha tinha acabado de começar a conduzir quando de repente ouviu um estrondo enorme vindo dos lados do motor, tendo o veículo se imobilizado de imediato o que por pouco não provocou um acidente. Após ter chamado o reboque, uma vez que o automóvel deixou de funcionar, e, posteriormente, já com o veículo na oficina, informaram-na que a correia de distribuição e outras peças conexas tinham ficado pura e simplesmente pulverizadas. Além disso, demoraram imenso tempo a retirar pedaços de um gato que, eventualmente, se fora aninhar em cima da roda dianteira e acabara por subir para dentro do habitáculo onde se situa o motor. Quando o carro iniciou a marcha estava ditada a sorte do felino. No preço final cobrado pela mão-de-obra da oficina e peças, foi incluído o tempo que levou a retirada completa dos restos mortais do felídeo. Ficou tudo num balúrdio que rondou os 700 euros. Resultado: Antes de entrarmos para o nosso carro e o colocarmos em marcha devemos, salvo conselhos mais avisados, adoptar os seguintes procedimentos: Dizer repetidas vezes as palavras, e se possível com ênfase nos sons: "Bichanoooo... pstttttt... Bichanooo... pssttttttt, miau, miau, ronronron..." - As onomatopeias nunca são de mais, e para quem tenha tempo e queira ter uma certeza maior de que não há bichanos a dormir dentro do capôt, recomenda-se abrir uma lata de whiskas, derramar o seu conteúdo no passeio, junto às rodas dianteiras do automóvel e bater repetidas vezes com uma colher na lata. Depois de esperar cerca de cinco minutos sem que nenhum gatito apareça, então, sim, é fiável entrar no carro e pô-lo em marcha. O seguro morreu de velho, mas a curiosidade de experimentar uma cama singular matou o gato.

Causa perdida

  • Passei a vida a sonhar
  • Com uma causa perdida
  • Era um sonho ao luar
  • Era um desejo de vida
  • Uma vidraça separa
  • O que desejo e não tenho
  • Daquilo que tenho e não pára
  • O meu desejo tamanho
  • Esse desejo, essa causa
  • Que perdida já nasceu
  • Na vida fez uma pausa
  • Mas essa pausa perdeu
  • Da vida, a perdida causa
  • E quem por essa causa viveu

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Eu, os Uns e os Outros

1. Há cerca de quatro anos que frequento a blogosfera e já mantive mais do que um espaço de escrita em simultâneo. Hoje, no que à Internet respeita, só escrevo no Madrigal, embora não rejeite a possibilidade de voltar a escrever nos espaços anteriores, que são registos de escrita bastante diferentes, onde o anonimato marca presença. Possuir um blog e manter no anonimato a autoria dos textos, é uma possibilidade única de ter o feed back de pessoas, que eventualmente até nos conhecem, completamente despido das cortesias normais de quem pretende agradar (noblesse oblige), tão comuns na amizade e/ou na gente que nos quer bem. Há mais liberdade criativa, menos barreiras, e seguramente menos preconceitos, se o juízo que acerca de nós fizerem cair na abstracção gerada pelo anonimato - não na orfandade - no que à autoria das palavras diz respeito.
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2. Frequento alguns blogs, sou mais assíduo nuns do que noutros, e penso que, com excepção de duas ou três pessoas, nunca conheci pessoalmente os seus autores. Creio inclusive que o facto de virmos a conhecer pessoalmente os remetentes das palavras que nos cativam, pela eventual não correspondência dos textos com a imagem que do seu autor construimos, é contra producente e macula a fantasia e a especulação construtiva do nosso imaginário. A blogosfera também carece destes pequenos-grandes mistérios para ser cativante, pois se quem está por detrás dos blogs fosse sempre uma cara nossa conhecida, um amigo, a nossa imaginação e curiosidade não seriam tão férteis, nem tão pouco a sinceridade mental para fazer, ainda que não publicitado, um juízo de valor ou desvalor sobre o que lemos.
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3. Malgrado estas considerações, seria uma atitude perfeitamente asocial a postura de não querer conhecer autores de blogs ou achar que tal é definitivamente desaconselhável. Em tese geral, o anonimato é giro e desejável, mas a vida corre os seus trâmites e por vezes também é bom, ainda que por momentos, descobrimos a fantasia com que nos tapamos neste imenso baile de máscaras que é a blogosfera. Daí, estar na disposição de finalmente vir a conhecer algumas das pessoas que estão por detrás da autoria de textos, ou da poética, que tanto admiro.
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4. Frequentemente, acusam-me de autismo, narcisismo, centrismo, enfim, uma série de ismos que, todos bem espremidos, resultam numa única ideia: só falo de mim. Mas acho que um blog serve para isso mesmo: para nos expressarmos, seja através da poesia, da crónica, de pensamentos avulsos, de memórias, ou mesmo de ficções, sem penhorarmos a privacidade de quem nos rodeia e que não deu o seu consentimento a eventuais revelações. A medida da exposição que queremos dar de nós mesmos, somos nós que a definimos, mas o contrário já não se poderá dizer da privacidade de outrém, mormente de pessoas que nos estejam próximas. Um blog é por excelência um espaço do EU e, como tal, é normal que possua um cunho marcadamente individualista - a leitura de um blog deve remeter-nos de imediato para a conexão com o seu autor.
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5. Penso a blogosfera como uma imagem perfeita de como deve funcionar uma Democracia. Todos têm iguais direitos de possuir um espaço de escrita onde são livres de publicar, sem censura, toda a sorte de textos que entendam escrever, desde que não plagiem nem vilipendiem a escrita dos outros. Os méritos ou deméritos de cada um são livremente ajuizados, o que não significa que sejam concedidos direitos de ofensa, e cada autor é livre de se publicitar, caso careça das luzes da ribalta e dos aplausos para se sentir feliz como escrevente. Por outro lado, como um blog é a casa privada do seu autor, este tem o legitimo direito de moderar os comentários que fazem aos seus escritos - alguns gratuitamente agressivos e depreciativos, sem razão que os fundamente - bem como, caso o entenda, barrar o acesso do seu blog ao público em geral e facultá-lo somente a quem entender. Como em todas as situações de interacção, também a blogosfera possui as suas regras e, como tal, contempla direitos e deveres; e a nossa liberdade acaba justamente quando começa a liberdade do outro. Essa é a única e justa medida que reconheço.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

The Beatles - Hey Jude

Os Fabulous Four, por justaposição com os Fabulous Five, os heróis da saudosa Enid Blyton, que, embora de uma outra forma, também ajudaram a preencher o imaginário da nossa mais iniciática infância, aqui ao vivo, num programa da televisão britânica. À época ainda não havia play back. Viviam-se os momentos do purismo e as coisas saíam assim: "Hey Jude, dont make it bad. Take a sad song and make it better. Remember to let her into your heart, Then you can start to make it better. Hey Jude..."

A lenda do FIAT 127

Certo dia, ía eu na estrada com o meu FIAT 127 e, como era de esperar, a lata velha avariou. Então, encostei a relíquia na berma e fiquei à espera que passasse alguém. Apareceu um Porsche Boxter bi-turbo, a 170km/h. O tipo do Porsche faz marcha-atrás e vem até ao FIAT. Oferece-se para rebocar a porcaria do FIAT e eu aceitei a ajuda, mas pedi para não acelerar muito senão a lata velha desmontava-se (óbvio). Combinei que piscaria o farol sempre que o Porsche estivesse a acelerar demais. Então, o Porsche começou a rebocar o carro e sempre que passava dos 60km/h, eu fazia sinal com o farol (no singular) porque, para variar, um deles tinha um curto-circuito e não funcionava. E o tipo do Porsche ia puxando a 'batedeira' a 60 km/h, no máximo, morrendo de tédio... Aparece um Mitsubishi 3000 GT, que "pica" o Porsche e este não não vai de modas e arranca! 120, 130, 150, 190, 210, 240 Km/h... Eu já estava desesperado, a piscar o farol que nem um louco, e os dois alinhados... Os tipos passam por uma patrulha da polícia, mas nem vêem o radar, que regista uns impressionantes 240 km/h! A polícia avisa pelo rádio a próxima patrulha: "Atenção, um Porsche vermelho e um Mitsubishi preto a disputar uma corrida a mais de 240 km/h na estrada, e ...juro pela minha santa mãezinha... um FIAT 127, colado à traseira deles, a dar sinal de luz para ultrapassar!"
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(anedota já velhinha, mas faz-me sempre rir...)

No heart feeling

  • This sad word missing
  • Makes me feel a great pain
  • But, no heart feeling
  • I'll wait for you again
  • If my heart suffers so
  • I am compelled to cry
  • My eyes become blind
  • Only looking to the sky
  • Come, my love, and see
  • How anxious is my soul
  • When I stay far of thee
  • Your coming is the light
  • Wich dawns from the sky
  • And gives me peace and bright

domingo, 6 de setembro de 2009

Sem nome

  • Esta abóboda imensa
  • De um azul celestial
  • É atracção propensa
  • A um sonhar irreal
  • E este mar de solidão
  • Que me persegue sem fim
  • Afoga dentro de mim
  • O que resta de ilusão...

Fumo na bruma

  • Na terra árida e ressequida
  • Não há uma gota mais, para enganar
  • A sede de uma água pura e límpida
  • Que faz um coração viver e amar
  • E sobre este meu corpo, a fina pele
  • Encobre a frescura dum ribeiro
  • Que transborda do seu leito, e assim repele
  • Feito lágrima, um amor primeiro
  • Saindo do meu corpo em louca frágoa
  • O ribeiro me deixou tão imutável
  • Que tudo secou, de tanta mágoa
  • Eu, já não sou eu
  • O que sou nem a mim pertence
  • Coisa vaga, pessoa, alma?
  • Sombra leve que esvanece
  • Toda a força, toda a esperança
  • Fumo brando na bruma
  • Pó desfeito no ar que amanhece...

Inglourious Bastards - Official Trailer [HD]

"Inglorious Basterds", em tradução portuguesa, "Sacanas sem Lei", é o último filme de Quentin Tarantino. Para quem gosta do género, trata-se, na minha opinião, de uma obra prima da realização. Tarantino está no seu melhor e todos os ingredientes que marcaram o estilo inconfundível do realizador de "Pulp Fiction" estão aqui ao rubro. A violência, marca presente em todos os filmes do consagrado realizador, ganha nesta película foros inimagináveis, com a cenas da morte à paulada de um sargento do exército alemão e os escalpes perpretados pelo pelotão de judeus ressabiados que jurou matar o máximo de nazis que pudesse. Trata-se de uma saga onde sadismo e o cinismo, levados às últimas consequências, conjugam-se no desenrolar de uma aventura, sempre ao ritmo frenético das histórias de banda desenhada. Os cenários são deslumbrantes e a técnica de realização irrepreensível. O clímax da história acontece com o sucesso da "Operação Kino", quando os maiorais da cúpula nazi, encerrados dentro de um cinema, são todos mortos. Não falta em todo o filme a marca do peculiar sentido de humor de Tarantino, que resolveu dar aos judeus a imperdível oportunidade de recriarem a História do período nazi, praticando uma vindicta, a ser concretizável, algo satisfatória perante as atrocidades de que foram vítimas. O sentido moral da coisa é, a meu ver, no mínimo, duvidoso e os propósitos do realizador algo assombrosos, mas o resultado do conjunto é sem dúvida impressionante. Aconselho vivamente o visionamento deste filme, excepto naturalmente a pessoas facilmente impressionáveis.

Tarantino acabou de me provar que continua nos píncaros de todos quantos actualmente realizam filmes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Incólume - just because

No final da tarde de quinta-feira passada, telefonaram-me da Assistência em Viagem para me informarem que o meu automóvel tinha acabado de chegar num TIR, vindo de Espanha, e já tinha sido entregue na oficina que eu previamente indicara. Fez ontem um mês que numa ensolarada manhã catalã, no regresso de umas curtas férias pela Europa oriental, me despistei na auto-estrada que liga o sul de França a Barcelona, depois do rebentamento de um dos pneumáticos traseiros. Nesse dia, que hoje penosamente recordo, senti o hálito da morte passar rente a mim. Ao rever o carro de que eu tanto gostava, com a parte lateral quase desfeita e o capôt e a bagageira completamente amolgados, cheio de poeira, triste a um canto, junto a outros comparsas, como ele, também feridos de morte, uma súbita tristeza tomou-me; mas, dominada a emoção inicial, lentamente, lá fui retirando do seu interior o resto das bagagens que na altura não tinha conseguido salvar e tratei de passá-las para o pequeno Peugeot que, num ápice, ficou lotado como um odre. Houve um certo carinho, um denodo quase exagerado até, na forma como abri as portinholas do tablier e os arrumos junto dos bancos dianteiros para retirar os objectos pessoais que ainda lá estavam. Levantei os tapetes, revolvi a bagageira, os bancos traseiros, as consolas, os encaixes das portas e os meus pertences não paravam de aparecer. Por último, antes de abalar, não resisti a sentar-me no banco do condutor com a porta fechada e, por alguns momentos, recordar os muitos milhares de quilómetros que ambos fizemos juntos. Tratou-se de uma espécie de despedida íntima.
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Já escutei algumas ofertas para a compra do veículo sinistrado e, uma vez que não encontro justificação económica para o reparar, tenho de me decidir a vendê-lo pelo melhor preço. Dadas as circunstâncias, sinto que o melhor é não voltar a ver o adorado automóvel, que só o tempo mo fará esquecer. Resta agarrar-me ao melhor dos finais, pois foi graças a ele, à sua estrutura forte e bem concebida, que conservei a integridade fisíca e, talvez, a vida. Não fechei a porta sem antes ter apanhado do chão, junto ao tapete dianteiro, a figura da Nossa Senhora de Fátima, com um íman para acoplar ao tablier, que já existia quando comprei o carro e que com a violência do embate saiu do seu lugar habitual. Sempre achei piroso tê-la no tablier, por isso ultimamente estava na consola central, mas nunca tive coragem para me desfazer dela. Sem hesitação, agarrei na figurinha e levei-a para o meu actual carrito. Hoje está na sua nova casa, num lugar semelhante ao anterior: a consola do pequeno Peugeot. Não sou religioso, nem tão pouco dado a crenças ligadas ao logicamente inexplicável, por isso não me perguntem porque o fiz. Fi-lo porque sim, ou como dizem os nossos mais velhos aliados: "Just because".

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Pretérito rarefeito

(Áustria - Bergensen - Abril de 2000)
  • Tudo da vida se vai
  • Como um castelo que cai
  • Sonhos meus, que bem sonhei
  • Tudo de bom te encontrei
  • Foste a água das fontes
  • Que sai correndo dos montes
  • Costas voltadas à alma
  • Agora nada acalma
  • Pensamento que não vem
  • Recordar o que não tem
  • Já amor aos anos idos
  • Tão belos que foram vividos
  • E por ser por olhos teus
  • Tão doces, presos nos meus
  • A felicidade viveu
  • A paz e ternura no céu
  • Hoje, esperança morta
  • A bater à nossa porta
  • Como estrondoso trovão
  • Já não estendes essa mão
  • Com a florzinha mimosa
  • Que vinha, tão graciosa
  • Direitinha ao meu coração...