domingo, 31 de maio de 2009

O meu Moleskine

"Moleskine, the legendary notebook of Hemingway, Picasso, Van Gogh, Bruce Chatwin, among others"
Nestes tempos de twitters, Internet, chats, e-mails, blogs e tanta tecnologia disponível, eis-me a aderir definitivamente ao Moleskin. Talvez por mera irreverência; talvez porque o "retro "é algo que me atrai irrevogavelmente; talvez porque me queira sentir, ainda que por lampejos fantasiados, um escrevente com uma dimensão que não tenho; talvez porque goste do formato do Moleskine e da ideia de poder transportar sempre comigo um mini-diário, de capa negra e dura, com um elástico funcional, resistente qb; talvez por tudo isso e por outros motivos que agora não me vêm à memória, o certo é que o hábito veio para ficar. O Moleskine é o mítico livro de notas que utilizavam os artistas e intelectuais europeus dos últimos dois séculos. Tem um formato de bolso - talvez só caiba mesmo num bolso demasiado grande - e eternizou-se como sendo o fiável companheiro de viagens de muitos escritores e artistas que nele guardaram esboços, apontamentos, histórias, sugestões, ideias, antes de chegarem a converter-se em imagens fantásticas ou em páginas de livros míticos - Estou a lembrar-me das "Viagens na Patagónia", do escritor inglês Bruce Chatwin, um livro fabuloso, resultado dos imensos apontamentos de viagem colhidos pelo seu autor e anotados no seu Moleskin pessoal, que, depois de depurados os elementos não essenciais e desenvolvidas as ideias-chave, resultou numa das obras essenciais do século XX, no campo da literatura de viagens. O Moleskin começou a ser manufacturado em pequenas fábricas francesas, que abasteciam as livrarias parisienses frequentadas pela vanguarda intelectual europeia, e converteu-se em algo impossível de encontrar nos finais do século passado: em 1986 desapareceu o seu último fabricante, uma empresa familiar de Tours: "Le vrai Moleskin nést plus", anunciavam. Era a morte do celebérrimo diário, feito artesanalmente. Mas em 1998, graças à cumplicidade de uma pequena editora milanesa, o Moleskin voltou a existir. Fiel depositário de uma tradição extraordinária, retomou de novo a sua viagem e os propósitos para os quais foi concebido. O meu Moleskin, ou melhor, os meus Moleskins, uma vez que já preenchi com as minhas anotações e esboços uns quantos exemplares, funciona como uma espécie de acumulador de ideias e emoções ainda em bruto, vividas no momento, antes de depuradas do irrisório e buriladas por uma escrita mais maturada e atenta. A perda de um único exemplar seria, para mim, uma perda irreparável, pois é neles que guardo os tópicos, os instântaneos genuínos, íntimos, que, a maioria das vezes, são o embrião de poemas, prosas poéticas, simples crónicas, ou pensamentos que careço aligeirar. Quem sabe se o uso do Moleskin não vai gerar em mim, por osmose, uma qualidade de escrita superior? Só a simples sugestão já é uma ajuda.

sábado, 30 de maio de 2009

Paul McCartney - A Day In The Life [Live at Liverpool, 2008]

Um dos músicos mais espectaculares a que já assisti "ao vivo", uma vez em França, em Biarritz, outra vez no "Vicente Calderon", em Madrid. McCartney é um ícone da minha geração, enquanto jovem e apreciador de música. Os "The Beatles" foram, e são, a maior banda musical que alguma vez existiu. Os anos 60 do século que passou ainda pairam sobre o meu imaginário como o exemplo magnânimo de felicidade e estilo de vida - os comigo condizentes.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Os teus olhos meus

É possível tudo o que tem passado? Será que, de tanto sofrer, esteja completamente aniquilado, e a mesma fraqueza do corpo e do pensamento me faça ver o que não é, e me faça viver o que nunca foi? Beijei hoje os teus lábios, respirei o teu hálito, abracei o teu corpo, senti o contacto dos meus dentes com os teus de nácar, e senti que o teu coração pulsava contra o meu e que os dois, pulsando, se confundiam. Quanto tempo durou essa emoção vivíssima, essa tua respiração vivificadora, esse desfalecimento que tinhas e que me devorava de paixão? Não sei. Uma eternidade, toda uma eternidade num momento, um momento que vale por toda a minha vida passada! Senti-me transportado numa voluptuosidade, como se fugisse de mim, como se tivesse mergulhado num banho de carícias. E depois, que se passou ainda? Riste por ver meus lábios tingidos. Não te zangaste, não repudiaste, riste como uma criança. Os meus lábios estavam vermelhos do carmim ou da emoção? Nem sei... Naquele momento estava cioso de ti, do que tu me tinhas dado. Lembras-te do que me tens dito? Que não mereces que te queira tanto? Não és a mulher mais perfeita deste mundo? Estas palavras não são uma grande humildade, mais uma perfeição em ti? Iremos juntos, eu pelo caminho da claridade dos teus olhos e tu pelo caminho do meu suplício, até que as palavras me doam tanto que já não as consiga escrever.

domingo, 24 de maio de 2009

A luz dos teus olhos

(Uma tela em óleo da autoria de Bete Brito - por cortesia)
Naquela hora do final da tarde tão luminosa, fui, sem saber o motivo, até à marginal junto à praia. Passava muita gente ao pé de mim, mas eu não reparava em ninguém. Segui até ao molhe para observar os pescadores e perder o olhar na imensidão do mar. Certamente se alguém reparasse em mim, poderia pensar que eu era um homem desesperado. Não pensava em nada, e a tua imagem, que enche o meu pensamento, tinha perdido aquela alegria, aquela luz, aquela suavidade de sempre. Era uma imagem ténue, sem forma; não eras tu, mas sim uma agonia, que procurava mortificar-me, desmanchar ou destroçar a pureza que pode haver dentro de mim. É que sinto um bem-estar que não poderei nunca explicar-te, que somente se sente, que somente se vive... É sonhar desperto. É uma beatitude de alma. É provar uma emoção que vem de ti sem que a tua imagem esteja presente. É como se visse o teu corpo transformado em espiríto; ou, ainda melhor, como se o teu corpo estivesse dentro dos meus olhos. E isto faz-me insensível, de tanta sensibilidade que tenho. Deves pensar que então, quando não sei o que hei-de dizer, é que acontecem precisamente os momentos mais intensos do amor que te ofereço. E tens toda a razão.

The Carpenters "Can't smile Without You"

Hoje apeteceu-me escutar de novo a voz da Karen. A sua morte, provocada pela aneroxia de que há muito padecia, sempre me pareceu demasiado estúpida, impossível, desmerecida. Há pessoas que nascem com a sombra da tragédia no olhar e pré-destinadas a uma breve, mas ilustre, passagem pela centelha da vida. A Karen Carpenter foi sem dúvida uma delas. Uma estrela cintilante, de um brilho raro.

Casas de Romaria - Aldeia de Brotas - apontamentos de viagem

(Santuário de Nossa Senhora - Aldeia de Brotas. Fonte: Internet)
1. Sexta-feira, 22 de Maio, dia do feriado municipal de Leiria, ainda as primeiras horas da manhã não tinham espreguiçado por completo os laivos do sono nocturno, já eu conduzia a minha moto rumo às extremas do Ribatejo, na direcção de Coruche. O meu destino final era Brotas, uma aldeia alentejana perdida algures entre Montemor-o-Novo e Mora, de cujo topónimo nunca antes ouvira falar, a fim de assistir a uma concentração motard – a minha primeira experiência do género, uma vez que há muitos anos que sou adepto do motociclismo, na vertente turística, mas nunca havia sentido a necessidade ou, sequer, o apelo de sentir-me membro de algum clã de cavaleiros do asfalto. No entanto, esta curiosidade, como tantas outras que ainda me restam satisfazer e espero poder vir a concretizar, tinha de ser saciada. Se a curiosidade matou o gato, talvez me mate a mim também, mas a verdade é que tem sido ela o motor da maior parte das coisas, boas e más, que me têm sucedido ao longo da vida. Inscrito como associado no Moto Clube de Leiria e, desde então, a par de todos os eventos nacionais e internacionais que envolvam motociclistas, tomei conhecimento da concentração em questão e, de mente e coração abertos, fiz-me à estrada preparado para enfrentar as aventuras com que me iria deparar.
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2. Foi uma viagem tranquila, com pouco trânsito, a manhã estava um pouco nublada mas, de quando em quando, o sol aparecia por entre as nuvens e a paisagem ribatejana ganhava cores magníficas que pareciam perseguir-se umas às outras à medida que a BMW rolava pela lezíria adentro. Enfim, estava a temperatura ideal para andar de mota: nem muito calor nem muito frio; isto para quem usa fato de cabedal completo e protecções térmicas, como é o meu caso. Pelo caminho, fiz uma única pausa para abastecer combustível e tomar o segundo café da manhã. De resto, só tornei a parar já em Mora para me certificar de que ia na direcção correcta, uma vez que não aderi, nem penso fazê-lo, à moda GPS. Ainda sou um motociclista à antiga e não dispenso a mala sobre o depósito que, além de dar imenso jeito para guardar objectos de primeira necessidade, tem no topo uma bolsa impermeável transparente, que serve justamente para colocar um mapa desdobrado na área geográfica que tenciono percorrer. A mentalidade "rally paper" nunca me abandonou por completo e, confesso, sinto um gozo irreprimível em me rever nestes arcaísmos multirresistentes às novas tecnologias.
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3. A chegada ao recinto da concentração, uma vez em Brotas, não foi nada difícil, pois alguns quilómetros antes da aldeia já se avistavam, pendurados em chaparros – nome alentejano para o sobreiro, a árvore que dá a cortiça e que, como de resto toda a gente sabe, já fez deste nosso jardim à beira-mar plantado o primeiro exportador mundial da dita matéria prima – pequenos cartazes a anunciar o acontecimento. Uns caracteres, pela sua grandeza e cor, destacavam-se dos demais, pois a organização deste tipo de eventos, como é aliás natural, também tem por objectivo o lucro económico, e sabe quais são, para alguns, as atracções com maior apelo. Então, podia-se ler o seguinte: "Sábado à noite, três sessões de streap-tease!" – Em letras mais modestas, desfiavam-se o resto das atracções: "Sexta-feira à noite e Domingo à tarde, vacadas, grupos de rock da região, desfile de motos, concursos, karaoke, bar aberto, comes e bebes e, no final, distribuição de prémios e certificados de presença para todos os participantes". Enfim, uma concentração de motociclistas a acontecer em pleno Alentejo com o seguinte cenário: um recinto enorme bordejado por chaparros, em terreno contíguo a um pequeno campo de futebol, um palco montado, um redondel cercado para as vacadas e uma enorme clareira transformada em mini parque de campismo, onde se podiam observar mais de uma centena de motos estacionadas junto a pequenas tendas. Aliás, a chegada de novos motociclistas era uma constante, a qualquer hora da tarde e da noite; e sempre objecto da curiosidade geral, tal a variedade das motas, bem como as vestimentas dos seus condutores e respectivos penduras.
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4. Senti o impacto desagrável, tão familiar em mim que já o trato por tu, de não me rever no ambiente circundante. No corredor central, podia-se observar uma fiada de barracas improvisadas onde se vendiam desde t-shirts alusivas à "onda motard", acessórios básicos para uso de motociclistas e até peças de "artesanato picante" das Caldas da Rainha. Mais adiante, em pequenas roulottes transformadas em bares de comes e bebes, onde a cerveja à pressão saía ininterruptamente, podiam-se escutar as risadas estridentes dos motoqueiros com os “carburadores” já bastante aquecidos. Alguns feirantes, certamente useiros e vezeiros neste tipo de "happenings", vendiam miniaturas dos modelos mais célebres e intemporais de todo o género de motas. Fiquei conhecer o celebérrimo "Manivelas", um homem na casa dos sessenta e poucos anos, sempre sorridente, de semblante avermelhado por indisfarçáveis varicosas e voz agastada pelo álcool, há mais de 25 anos, sempre presente nas mais importantes concentrações de motociclistas. Artesão de profissão, como me foi apresentado, é também, off record, o fornecedor habitual das "ervas aromáticas" que exponenciam a alegria e a boa disposição de alguns dos participantes. Fiquei quase perito na ciência do conhecimento no que respeita aos nomes de alguns dos mais distintos Moto Clubes deste país; e foram-me, inclusive, apresentados alguns dos seus membros mas carismáticos: Os “Adega Boys”, “Os Moto-Copos” os “Cães do Asfalto”, os “Chupa-Cabras”, entre outros epítetos de gosto discutível - Associar o álcool, a droga, a propensão para a violência e a boçalidade gratuita à prática do motociclismo, não creio que tenha de ser uma fatalidade. Se assim for, estou condenado a viajar tendo-me a mim mesmo como única companhia, ou eventualmente com quem partilhe de uma forma de estar semelhante à minha. Viajei só, como é habitual, e senti neles, malgrado a simpatia com que sempre fui tratado, alguma decepção por ter recusado ingerir bebidas alcoólicas, declinado o convite para provar o famoso salpicão picante do "Manivelas" e, sobretudo, insistir vir-me embora antes da noite de Sábado, momento em que o evento, nas suas palavras, atingia o ponto alto da festa: os streap-teases.
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5. Para eles, um motard que não beba até cair para o lado, não diga asneiras, não fume cigarros, nem charros; não aprecie espectáculos de "gajas boas" a despirem-se; e, como se tudo ainda não bastasse, conduza uma BMW F 650 GS e vista-se todo “straight", sem os adereços que a ocasião reputaria indispensáveis, tais como: emblemas com caveiras, tatuagens no corpo, piercings, lenço motard ajustado na cabeça, colete de cabedal repleto com os dísticos alusivos às concentrações em que já se participou, é considerado um outsider. Uma intrusão incómoda no seu habitat natural. Aos seus olhos terei, porventura, deixado menos bem visto o Moto Clube de Leiria? - Isto caso me tenham olhado como uma espécie de embaixador plenipotenciário da associação em questão, o que não é difícil de imaginar sendo eu o único associado ali presente. Fica a dúvida. Mas que me importa? No fundo, eles é que estão certos, integrados no ambiente que lhes é agradável, partilhando gostos, formas de sentir e agir semelhantes. Tudo em verdadeira empatia. A verdadeira ave rara que pousou naquele lugar fui eu, não eles, mas depressa levantei voo para outras paragens mais consonantes com a minha pessoa.
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6. Como tento tirar o melhor partido de tudo o que faço, virei-me para os meus gostos naturais: a vertente turistíca e cultural do lugar em que me encontrava. Como é óbvio, não fiquei a dormir em tendas – longe vão esses tempos e as minhas costas têm quase cinquenta anos – e fui procurar um alojamento de qualidade. Fiquei maravilhado com o que descobri. Brotas é uma aldeia belíssima, diria, de uma tímida beleza, que aconselho vivamente qualquer um visitá-la; e onde penso voltar, de preferência com uma boa companhia. Fui encontrar o conceito de “Turismo em Espaço Rural “ – Casas de Campo – Turismo de Aldeia – “Casas de Romaria”, cuja principal razão de existência é a sua inserção em localidades calmas e pacatas, com séculos de história, fora do bulício das grandes cidades, em que o silêncio, a beleza, o servir e o bem-estar são as grandes mais-valias. Fiquei alojado na “Confraria do Lavre”, uma casa quadricentenária, tipo T 1, em duplex, decorada em tons de azul, com todas as comodidades de uma villa de 4 estrelas: cozinha completamente equipada, televisão de plasma, aquecimento central, lareira, caldeira para banhos, terraço exterior, quintal. Enfim, uma demasia de luxo e bem-estar para uma pessoa só, uma vez que possuía quatro camas: três no primeiro piso e uma no rés-do-chão. O pequeno-almoço, utilizando um neologismo que me é querido, foi fabulástico: pãezinhos tradicionais, bolo caseiro, mel, frutas diversas, queijos, nozes, cereais, sumos naturais. Uma delícia!
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Brotas faz fronteira com o Ribatejo e creio que é o local indicado para se fazer um merecido descanso ou, porque não, partilhar um ninho de amor com alguém que nos seja querido. Tive oportunidade de dar uma vista de olhos no artesanato tradicional, moldagem e pintura de barro e confecção de pintura de azulejo em ateliê. Dei uma vista de olhos no Santuário de Nossa Senhora de Brotas, originário do século XV, fruto de profundas reformas no decurso dos séculos seguintes, em cuja traça ainda são evidentes as características de raiz popular, embora já enquadrada por uma estética que concilia os estilos manuelino e barroco. As Casas-Confraria – Confraria de Palmela; Confraria do Lavre (onde fiquei alojado); Confraria de Setúbal; Confraria de Mora; Confraria de Cabeção e Confraria de Cabrela, ladeiam o Santuário e constituem o primeiro aglomerado urbano da aldeia – exemplo máximo da profunda devoção que se vivia em redor da famosa igreja. Há, aliás, uma lenda que explica a devoção e a existência do Santuário de Brotas, cuja passagem retirei de um livro que comprei no turismo local, que tem por título "Literatura Popular Alentejana”, de que é autora Maria Soeiro de Brito que tem um poema que retrata bem a origem da crença, que passo a transcrever:
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Havia um pobre varão Que tinha uma vaca Que d’Inverno mais de Verão Lhe sustentava A mulher e filhos sem pão Um dia lhe aconteceu Deitar a vaca a pastar: D’ali lhe desappar’ceu Por muito que correu Nunca mais a poude achar O’ quando d’alto a viu Como morta a conheceu Começou a chorar os males E os dias em que nasceu Vendo o homem que remédio À vacca não podia dar; Tomou a faca na mão E começou-a a desfollar Tendo uma mão cortada E outra meio desfolhada, Ali lhe apareceu uma Virgem consagrada: “Anda cá homem, não chores. Não chores, por meu amor, Que a tua vaca viverá: Tu de mim terás favor Vae allem aquelle logar Alguma gente chamar, Que me venha redificar Uma casa brevemente Vae e vem com brevidade Não te queiras mais deter. Diz-lhe que é minha vontade E o meu último querer” Partiu o homem chorando Áquella gente chamar, Logo contas lhe dando Tornou ao mesmo logar Achou a vacca pastando Mais gorda e mais formosa Que elle d’antes a tinha Por ser Virgem milagrosa E a mãe piedosa Que lhe poz a mão por mesinha
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7. Regressei a Leiria no Sábado de tarde sem esperar pelas tão apregoadas três sessões de streap-tease da noite, mas não sem antes voltar ao recinto dos motards para agradecer a forma calorosa como me receberam. Julgaram-me, sim, um betinho caído de pára-quedas no meio de motoqueiros de barba rija, mas nem por isso me receberam mal. Antes pelo contrário. Ainda escutei palavras do género, entrecortadas pela música fina do Quim Barreiros que, ao que parece, é um ingrediente essencial neste tipo de eventos, bem como nas Queimas das Fitas: “Vá sempre aparecendo que vai ver que começa a gostar e depois isto torna-se um vício, sabe?! Acredite!” Vencido, mas não convencido, no caminho de regresso, ainda parei no fluviário de Mora, que é também uma visita espectacular a não perder e à passagem por Alcoentre – viajei pelo IC 2 – a chuva começou a cair com força o que me obrigou a fazer mais de 80 quilómetros até Leiria debaixo de uma enxurrada. Curiosamente, não me molhei nem um pouco (o fato de cabedal, estou a vê-lo no estendal da varanda, é que deve ter ganho cerca de 100 quilos extra!) Na estrada, deparei-me com um acidente horrível: perto da Abrigada, antes de Rio Maior, uma mãe com duas crianças a bordo, capotou o carro numa descida que terminava numa curva apertada. Tiveram de ser desencarcerados pelos bombeiros e a estrada ficou cortada ao trânsito durante quase uma hora. Não imagino se sobreviveram, mas a avaliar pelo estado em que o automóvel ficou, só consigo imaginar o pior dos cenários. Não tirei fotos da viagem, porque me esqueci de levar a máquina, mas como penso voltar, não hão-de faltar oportunidades.
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Os “motards puros” que desculpem alguma coisinha menos boa que deles tenha dito, mas eu sou mesmo assim: desbocado, directo, às vezes até menos conveniente. Sei que desconfiaram das intenções deste moto-turista de farpela, bem apessoado, demasiado “old fashion”, careta qb, mas “old habits die hard”; e, para mim, tudo tem um tempo e um modo; ou, dito em vernáculo puro: "Cada um é como cada quali!" - não estivesse eu ainda imbuído da justeza, oportunidade e sapiência dos famosos ditos alentejanos.

sábado, 23 de maio de 2009

Andy Williams - Moon River (1961)

(Fonte: Internet)

A versão mais conhecida de "Moon River", mais do que a cantada por Frank Sinatra, foi a interpretação de Andy Williams. Corria o ano de 1961, eu acabara de nascer e, comigo, nasciam também as guerras coloniais em África, responsáveis pela interrupção abrupta dos anseios de toda uma geração de jovens, a maioria ainda imberbes, que viu a vida e os sonhos, de um dia para o outro, transformados em cacos. Portugal, à época, era o país anti-sonho, enquanto nas ilhas britânicas e do outro lado do Atlântico, bandas como os Beatles, os Rolling Stones ou os The Doors, faziam furor no seio da juventude esclarecida. Por cá, num país semi-feudal, atolado na imundície do "orgulhosamente sós", rural qb, salazarento, tacanho, o clone da Albânia [versão europa ocidental], enviavam-se hordas de jovens, arrancados à ruralidade das beiras, para o cais de Alcântara, a fim de tomarem parte numa guerra e matarem pessoas que nunca algum mal lhes fizaram, nem a eles, nem às suas familias. Matar para não ser morto, ou não fosse esse o lema intemporal de todos os guerreiros em todas as guerras. A memória dos homens é curta e essa é, porventura, uma das causas da sua tragédia: os erros que nunca pedagogizam nem impedem a sua ulterior repetição em situações semelhantes.

NB. O vídeo original que se encontrava no post, em nome da protecção dos Direitos de Autor, ao que parece, deixou de estar disponível para colocação no blog. Como forma de remediar a situação e porque uma pessoa amiga me enviou um e-mail propositadamente a alertar-me para o facto, aqui fica a minha interpretação possível de Moon River, que espero apreciem:

Moon River, wider than a mile, I'm crossin' you in style some day. Oh, dream maker, you heart breaker, Wherever you're goin', I'm goin' your way.

Two drifters, off to see the world. There's such a lot of world to see. We're after the same rainbow's end... Waitin' 'round the bend, My huckleberry friend, Moon River and me.

1. Bem, o som está péssimo, confesso que a coisa não resultou lá mt bem.

2. De qualquer forma, obrigado AG pelo reparo.

Beijo

Jorge

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Carla Quevedo - opinion maker

A Rádio da Carla Quevedo, onde muitas vezes opino - anda muito por lá o Rui Zink com aquela sua vozinha sibilante de "sopinha de massa": sons do meu desagrado mas com os quais aprendi salutarmente a conviver.

A(menosidades)

(O receio da nova estirpe do vírus da gripe já chegou à BD ? Se isto não é um comportamento de exclusão, vou ali e já venho!)
Hoje apetecem-me pensamentos amenos, coisas leves, frescas e simpáticas, contrariando o clima geral de peso, desgraça e pessimismo, que grassa por esse país fora e que nos intoxica sempre que abrimos um jornal ou assistimos a um mero noticiário. Os comportamentos humanos, todos eles - bons, maus, assim-assim, coscuvilhices, ilusões, mentiras, verdades, injustiças, patifarias, alegrias e pilhérias -, sucedem-se desde que o mundo é mundo. Parece que são inerentes aos seres-humanos e que todos nós nos entretemos metade do tempo a criar regras que facilitem e normalizem o viver em sociedade e a outra metade do tempo a transgredir, a driblar, a distrairmo-nos das regras e dos valores que lhes estão associados e que, afirmamos convictamente, são os nossos. A natureza humana é mesmo assim e não há volta a dar-lhe. Mesmo quando nada de novo acontece, como neste exacto momento em que me entretenho a escrevinhar estas linhas, depois de ter degustado uns nacos de leitão à Bairrada - ácido úrico em estado puro! -, aqui estou eu, ávido por dar um toque de novidade onde ela não existe, a dizer banalidades, a enfeitar o correr dos dias com mini-crónicas que relatam eventos de série B - veja-se o derradeiro post sobre o meu grande anseio: uma nova mota! -, a fazer de conta que descobri a fórmula para as grandes conjecturas que vão dar novos rumos à minha vida e, finalmente, transformá-la numa saga de heroísmos inquietantes. Nada disso! E quando pensamos em pessoas constantemente positivas, efusivas e deslumbradas, a conotação negativa fica bem perto. Ainda assim, deslumbramo-nos constantemente, talvez porque seja essa a fórmula mágica que carecemos para sentir o enorme valor que é possuir um dia de cada vez. E, mais importante, ficarmos com a grata sensação de que não há dias iguais.

On the road

(BMW 1200 RT)
Apresento-vos a minha próxima menina, caso, entretanto, não perca o emprego; não sofra um abaixamento salarial; viva o tempo suficiente para a obter; não mude de ideias, por chegar à conclusão de que a futilidade de querer um brinquedo novo - ainda mais potente do que aquele que já tenho - é, mais do que um sonho, a concretização de um imenso disparate. [Será que a minha vida não está já tão recheada deles? Para quê então mais um? Sou definitivamente um coleccionador de disparates.] Vade retro Rui Sousa da BMW Motorrad mais os teus convites constantes para test drives!

A Festa dos Vizinhos

O Dia Europeu dos Vizinhos, que se comemora mais uma vez em Portugal, está a menos de uma semana. É já na próxima terça-feira, 26 de Maio, que centenas de portugueses se vão juntar a milhares de europeus na Festa dos Vizinhos que se realiza em diversas cidades de todo o país, incluindo os Açores e Madeira. O Dia Europeu dos Vizinhos pretende, sem outras motivações, promover a solidariedade e a coesão social entre os cidadãos. Este evento, que se comemora pelo terceiro ano em Portugal, conseguiu no ano passado juntar em mais de 250 festas, 21 mil pessoas espalhadas por todo o continente e ilhas das 25 cidades participantes. Este ano já são várias as juntas de freguesia, câmaras municipais e empresas de gestão habitacional que quiseram aderir a esta celebração. O objectivo é manter estes números e aumentá-los, tornando esta festa maior de ano para ano, fazendo com que os portugueses se tornem mais solidários. Fonte: noticía por mim lida na Agenda Cultural

terça-feira, 19 de maio de 2009

Uma nesga do passado

(Fim dos anos 80 do século XX - ainda antes de tu nasceres, Inês)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Para ser mais, para ser melhor

(Alfredo da Silva - "um homem na cidade" - Barreiro 2007)
Quando escrevo sinto o estranho poder de permitir-me quebrar quase todas as normas que, regra geral, me acanham enquanto actor social. Dizer o que me vem à cabeça, inclusive com falta de senso comum; falar quando devia permanecer calado, porque o que se diz em voz alta, no âmbito dos outros, pode, quantas vezes, magoar, ofender, incomodar e escancarar as portas a interpretações erróneas; ou mesmo criar convicções e simulacros. Sei que me desnudo, mas também são demasiadas as vezes que não chego a tirar a roupa por completo: ficam sempre algumas peças básicas para cobrir a minha vetusta timidez. Da pureza da verdade, que também eu advogo como valor fundador das relações humanas, sinto que na escrita, em nome de relâmpagos de fantasia, do discurso libertário que me caracteriza, posso ser relapso e desalinhar por completo com os trilhos da denotação e da coerência. Este é, porventura, um dos maiores fascínios que o acto de escrever exerce em mim; e sempre assim foi: a escrita como catarse, pura, sem amarras a estilos pré-concebidos, ou motes; um exercicío ecléctico, anárquico, nefelibata, apenas comprometido com as aragens que temperam as nuances dos meus estados de alma. O aligeirar o fardo de pensamentos que, por vezes, tanto magoam e depois sentir o grato alivio de os abandonar, sem dó nem piedade, algures num texto ou numa frase, à mercê de quem vier. É incontornável em mim esta necessidade diarista, epistolar, por vezes poética - a poesia é uma espécie de sala de maquilhagem, que existe na antecâmara do balbuciar das palavras prestes a sair dentro de nós: mascara as verdades e as inverdades que a prosa tem vergonha de enunciar; e fá-lo de uma forma subtil, adocicada, melodramática, pungente, artistíca, dúbia quanto (nos) baste. Não creio que hajam respostas únicas seja para o que for. Como pessoas diferentes que somos, preocupamo-nos com diferentes coisas. Todos temos uma história e todos precisamos de significar a nossa história de uma certa maneira: carecemos de ter um sentido, um norte; sem ele, desorganizamo-nos, sentimo-nos perdidos, sem identidade. E muitos dos sentidos que dantes atribuíamos às coisas, hoje definitivamente já não nos servem. Portanto é preciso diminuir o hiato entre o que sentimos e o que pensamos; e talvez seja esse, por ora, um dos desafios mais difíceis que o devir, com gestos de flagrante sedução, há muito me anda a querer propor. Cabe-me a mim aceitar, ou não.

domingo, 17 de maio de 2009

Até ao fim

Ao encontrar-me só contigo, não haviam fatalmente de transbordar todas as emoções contidas de tantos dias, todas as dores e insónias, todos os olhares retidos, os receios que havia querido semear em ti, todas as agonias que me tinham torturado, o majestoso silêncio, com o qual sempre abraçava como um náufrago, todo o peso e todo o lastro da minha existência apagada? E como poderia demonstrar-te que me encontrava no último grau da loucura de amor? Entregando-me a ti, fazendo-te minha, depositando em teu corpo e em tua alma tudo o que possuía: vontade, sentido, boca, olhos, coração, cérebro, vida, tudo, tudo; havia sofrido muito, pensava jamais chegar a possuir-te, e já te possuía. Que mais podia fazer? E que menos podia fazer? O nosso amor não era um sentimento eterno? Esta noite aparecerás no tule dos meus sonhos, não como és, mas sim como te vi agora na varanda, tão longínqua, tão inacessível, que até o teu pensamento estará muito longe de mim. Amanhã voltarei a ver-te longe, igualmente inacessível. Andarei sem ti e sem a ilusão de ter levado o melhor de ti, com a mesma indulgência e com o mesmo desgosto que sinto agora dentro do meu coração. Agora mesmo, fiquei ausente das palavras e rendo o olhar à chama tremelicante da vela de cheiro que acendi, como se fosse a metáfora mais sublime do espectáculo da minha própria vida que se consome.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um breviário de amor

(Entardecer nas águas do Mondego - Coimbra - Maio 2009)
Quando amamos, temos de procurar somente a alegria da pessoa querida, pois não posso pensar num amor que semeia lágrimas nos olhos e mágoas no espírito; seria então uma doença, um desiquilibrio moral. É tão triste ver-te triste e não poder remediá-lo! Ao menos pudesse eu fazer esquecer as pequenas amarguras que são faíscas de dor, se as compararmos com o fogo de duas almas que se compreendem e que se querem! Muitas vezes fui cruel contigo, porque ainda não sabia pôr-me ao nível da tua delicadeza e feminilidade. Hoje disseste-me magnanimamente: «Tanto precisas de mim?» E, no silêncio dos meus olhos, rolaram duas lágrimas. Lembro-me quando seguia os teus passos como um alucinado, acariciando com os olhos o teu corpo perfeito. Gostava que pressentisses o meu passo, e que respirasses a minha emoção ao contemplar-te. Olhava-te de longe, e o meu pensamento beijava o teu corpo e a tua alma. Dizem que a felicidade não existe, mas eu tenho-a dentro de mim, porque és tu. E sei que o nosso silêncio faz mover as palavras. E quando fala a voz do poeta que me habita, é como se fosse o momento em que a gota do orvalho cai dentro de uma flor; ruído que os nossos ouvidos não ouvem mas a nossa sensibilidade apreendeu. E esta manhã falavas-me da comoção do amanhecer. No outro dia pressentias quão bela deve ser a vida dos passarinhos. Esta tua sensibilidade para todas as coisas, diz-me como sabes amar. Sei que, quanto te falo, fechas os olhos e ouves-me com atenção, apesar de saber que nos teus olhos bailam nuvens breves de tristeza.

Barriga Killer

(Fonte: Internet)
Quando me perguntam: «É pá, ainda tens pachorra para ir fazer natação depois de um dia de trabalho?» - apetece-me distribuir-lhes postaizinhos com estas imagens delicodoces.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A pequena história do Sr. X

Estava eu a jantar há poucos instantes no self-service que frequento já vão fazer 3 anos, quando encontrei um importante empresário da cidade, useiro e vezeiro utente da minha repartição, acompanhado pela mulher e por um outro casal, que presumo sejam seus sócios num dos muitos negócios que ele lidera na região. O Sr. X, vou-lhe chamar assim por comodidade de expressão, e porque o seu anonimato é um direito que me sinto obrigado a manter, cumprimentou-me efusivamente tendo eu perguntado se já lhe podia apertar a mão. Com aquele sorriso mágico que sempre lhe vi pairar no rosto, mesmo nos momentos mais dolorosos, respondeu-me: «Claro, Dr.! Claro! Olhe para as minhas mãos! Daqui a mais duas ou três cirurgias, a que ainda vou ter de me submeter para reparar as atrofias musculares, e passados mais dois anos, não se vai notar quase nada!» O Sr. X é industrial de moldes, um dos homens de negócios mais prósperos da zona oeste, e teve o infortúnio de ficar gravemente queimado nas mãos e nos braços, quando um molde de aço, acabado de sair de um alto forno, onde a temperatura atinge o ponto de fusão, escorregou das pinças e caiu-lhe em cima. Quando o conheci, o acidente tinha-se dado há cerca de 1 ano, ainda o Sr. X andava todo entrapado, cheio de dores horríveis - as dores dos queimados -, e no calvário das operações plástico-reconstrutivas, em que lhe retiravam pele de uma parte do corpo para lha enxertarem nos lugares onde ela fazia mais falta. À data, não sei porquê - acho que a empatia entre as pessoas acontece sem que para tal hajam grandes explicações - contou-me, em traços largos, a história da sua vida e a atitude positiva com que sempre encarou todos os dissabores com que se deparou. Segundo ele, essa era a chave do seu sucesso, já que o curso de Engenheiro, por ele obtido há muitos anos na Escola Naval de Lisboa, em nada tinha contribuído para a sua afirmação no mundo empresarial. Estava a aguentar a coisa tal como se de um novo desafio se tratasse. As dores é que eram o pior, mas tomava amíude injecções de morfina para conseguir dormir. Dizia-me, rindo, com um misto de esgar de dor e sorriso nos lábios, que o que mais o chateava era o facto de não poder acariciar a esposa. Mas fazia-o com o nariz, com os olhos, com a face, e com todas as partes do corpo que não tinham ficado deformadas pelo acidente. Hoje, pela primeira vez, vi-lhe as mãos e uma estranha alegria apoderou-se de mim. Não é que o homem, que só me conhece da repartição, a quem fiz umas poucas escrituras e com quem mantenho uma relação estritamente profissional, sente por mim uma amizade fortíssima, só porque eu lhe perguntava constantemente pelos progressos do seu processo de recuperação?! Apresentou-me à mulher, ao outro casal, estranhou eu estar a jantar sozinho, ofereceu-se para me pagar a refeição - que eu de imediato recusei - e fez-me prometer que aceitava o convite para almoçar num próximo fim-de-semana, a combinar, numa das suas propriedades ali para os lados de Tomar. Perguntou-me também se eu sabia montar a cavalo. Agradeci-lhe, por mera cortesia, e disse que ia pensar no assunto. É verdade que nunca nos disseram que viver era fácil, que passaríamos incólumes por situações difíceis. De certeza que nunca ninguém nos informou de que viver, amar, chegar, partir, ter amantes e amigos e perdê-los não doía. Aposto que ninguém foi ensinado a acreditar que nem todos os encontros eram frutíferos e todos os males ficavam à porta. A esperança é o hino à vida de cada um de nós. Um ritmo íntimo, mesmo secreto e, ainda assim, potente e mobilizador que nos faz sentir que há sempre um outro devir, um outro sentido, um outro amanhecer. Do Sr. X, colhi as lições da esperança, do positivismo e da paciência, que, segundo ele, são a chave do seu sucesso económico; de resto, as mesmas máximas que ele tem aplicado a todas as circunstâncias da sua vida. «Olhe, Dr.! Olhe-me para estas mãos! Estão um pouco farruscadas, um pouco encarquilhadas, mas já consigo pegar em talheres, conduzir, apertar-lhe a mão e, sobretudo, acariciar a minha mulher e os meus filhotes. Perdi quase por completo a sensibilidade táctil, mas sei que eles me sentem. Isso eu sei!»

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Provas de Português - Geração "Morangos com açúcar"

(extracto de uma notícia de jornal recebida por e-mail)
NB. A minha filha está no 9ºano e já li, escrito por ela, o substantivo "cansasso" no estilo bué de blasé dos "Morangos com Açúcar". Ou eu estou a ficar um velho careta, demasiado ralhento e desinteressante, sempre com o lápis afiado da censura em riste, ou estamos a assistir àquilo a que os linguistas excessivamente optimistas apelidam de "metamorfose da língua portuguesa" - se é que alguém me pode explicar o que têm as crisálidas a ver com os erros ortográficos, de semântica ou de morfologia. Desculpo-lhes (aos jovens alunos) as tautologias, por vezes, os "quaisqueres" ou mesmo quando afirmam peremptoriamente que são jovens "entilegentes" e "sobem as escadas para cima", mas custava alguma coisa passar o corrector ortográfico por cima dos textos que escrevem no computador, de forma a que da próxima vez não cometam os mesmos erros grosseiros? Errar é uma forma de aprender (a não errar de novo, claro!) Os hábitos continuados de leitura que faziam parte da minha geração - ler bastante, e, de preferência, bons livros, de autores portugueses, imprescindíveis para escrever bem - perderam-se por completo. Confesso que não me revejo neste admirável mundo novo do facilitismo.

Vida íntima

Acariciarei, a pouco e pouco, o teu corpo tão perfumado. E voltarei a viver aquele momento de doce agonia, como se morresse, pois muitas vezes tenho vivido de ti aquele instante. E sorrirás com ar de triunfo, e eu sentir-me-ei vencedor, pois não há melhor momento da minha vitória do que aquele em que me imagino vencido por ti. Às vezes, de tanto abraçar-te, chego a fazer-te mal. Acarinho-te sem te tocar, com receio de fazer um sacrilégio à tua grande pureza. É certo que nos lembramos do passado, mas ainda nos lembramos muito mais do que nunca vivemos e que foi idealizado no fundo dos nossos pensamentos. Porque, repara, a felicidade é viver intensamente a nossa vida, e mais nada. Vivê-la com todas as alegrias e tristezas. Um dia inteiro de saudades, como o de ontem, não é nada mau. É o lado triste da minha vida, o momento doloroso da minha felicidade; mas vem a ser felicidade no fim e esta saudade é de um bem-estar que eu sei que me acompanha, porque é toda minha. Olha: não me lembro que rainha foi, julgo que uma rainha austríaca, que, tendo mais de 60 anos, ainda despertava paixões. Naquela idade era a mulher mais bela e espiritual da Europa. Claro que da sua beleza tinha feito um culto. Teve uma bela morte. Um anarquista assassinou-a com um punhal e ela, esvaindo-se em sangue, ainda era formosa. Tu, minha vida, serás sempre bonita como agora. O teu corpo, que hoje parece de porcelana, amanhã terá a suavidade de uma rosa, e em outro dia terá o frescor de um cravo. Ofereceste-me uma manhã iluminada pelo teu olhar e revestida do teu sorriso e compreendi que na tua vida de mulher há uma grande tragédia, a que só a tua bondade pode resistir. Esta é, afinal, a tragédia do verdadeiro amor. Uma lua que se lança de uma ponte, consciente que vai ao encontro da morte, encantada pelo apelo das estrelas que brilham à tona da água e lhe sussurram, no esplendor da noite, palavras de amor; tudo acontece com naturalidade e suavemente.

domingo, 10 de maio de 2009

PROCURA DE RUI PEDRO

Sou jurista de formação e aprendi que a Justiça deve ser redentora, reparadora e ressocializadora. Aprendi que a Lei de Talião é uma forma primitiva de aplicação da Justiça: o "olho por olho, dente por dente" -, mas no caso de pedófilos que molestam crianças inocentes não vislumbro outra sanção que não seja, nuns casos, a castração química compulsiva; noutros, inclusive, a privação do direito à vida: o Bem maior tutelado pela nossa Ordem Juridíca. Sei que isto choca, sobretudo vindo de alguém que, em virtude de ter estudado leis, deveria ser moderado, não populista, mas já não acredito nas "branduras da Justiça", nem em tretas afins. Vivemos em sociedade e os seres abjectos que atentam contra as normas elementares e fazem perigar o modelo que reputamos essencial, merecem ser pura e simplesmente aniquilados. Tudo em nome da paz social e de valores que prezamos e sem a manutenção dos quais estamos a cavar a nossa própria extinção.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Silêncio - breves palavras

(O silêncio dos meus livros é, por vezes, ruidoso)
Já se sabe que, se a palavra é de prata, o silêncio é de oiro. Já se sabe que muito mais difícil do que abrir a boca e soltar o verbo para largar frases feitas, impressões ambivalentes, palavras entre o muito e o nenhum conteúdo é guardar silêncio. A maioria das vezes o silêncio é uma pausa comunicacional, uma forma de pontuar o discurso, de terminar um assunto e partir para outro. Há, no entanto, silêncios interrogativos, em que quase se vê as mil perguntas por articular. E a grande dificuldade desse género de silêncio é a mesma que preside a todos os exercicíos de contenção: o desgaste que lhe está associado.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Comentários

(Lisboa-Madrid - algures nos céus da Península Ibérica)
Há uns seres espaciais e omnipresentes que conseguiram fazer da lamúria, da melancolia, da nostalgia, do desejo inconformado, dos anseios do amor que não vem, uma forma de vida. Ou seja, parece que uns poucos, que parecem muitos mais pelo imenso espaço que ocupam, onde eu me incluo, conseguiram elevar a queixa a uma forma superior de contacto, raiando a poesia, a prosa poética e a filosofia de pacotilha, transformando-a numa dificíl e inexcedível forma bizarra de arte. Às vezes, a queixa fica tóxica, envenenando o próprio ambiente, auto-alimentando-se e fechando-se sobre si mesma, sem porta de saída, sem redenção, sem alternativa, sem solução. Fazer percursos de infelicidade e patinhar nela sem remédio num mar de desolação, felizmente não é a minha perene intenção. Faz dois anos, ou talvez mais, que interditei os comentários neste blog. Enfastiava-me ter de responder, fosse por cortesia, delicadeza, respeito, ou gratidão, a todos quantos se davam ao trabalho de comentar os meus escritos. Entretanto, varreu-se-me a aptidão técnica para configurar o blog por forma a permitir de novo o feed back há muito por mim desconsentido. Hoje volto atrás. Permito comentários, tudo sem censura. Não prometo responder a todos, seja por falta de tempo, ou por outro motivo qualquer, que agora não me vem à cabeça. Nunca o feed back dos outros me impeliu a escrever. Faço-o por catarse, uma necessidade por mim esclarecidamente assumida e com uma consciência algo difusa sobre quem sejam os meus leitores. Acho, egoisticamente, que escrevo por mim e para mim, ainda que parte das minhas letras, mormente da minha poesia, tenham pessoas corpóreas por inspiração. Obrigado, desde já, a todos quantos os que daqui em diante visitarem este espaço, com vontade de deixar rasto sobre as palavras que lerem, bem como aos que passam e partem em silêncio. Todos serão bem-vindos. Renovo as minhas desculpas pela descortesia que sei que foi para algumas pessoas o facto deste espaço ter perdido durante tanto tempo a saudável dialéctica. Jorge Rebelo

terça-feira, 5 de maio de 2009

Auto-retrato - antes do vôo para uma pequena felicidade

[Portela - Lisboa (Lisboa-Madrid) - Março 2009]
Há quem, mesmo não sendo poeta, acredite que pode haver, no fim do desânimo, uma janela aberta, uma janela iluminada, ou um trilho repleto de estrelas cadentes. E há. Muitas vezes há. Porque há sempre um sitio de chegada quando se é capaz de trilhar todo o caminho. A questão da felicidade, uma espécie de estado quase permanente que todos nós procuramos, como se fosse a busca do Graal, é redonda como todas as questões pejadas da subjectividade própria dos mortais. Parece que estamos condenados a seguir o sonho, a ir atrás de pessoas ou de ideias que sabem uma coisa qualquer que nós não sabemos e que, por isso mesmo, detêm o mistério ou o segredo de um estado de bem-aventurança que, não só queremos encontrar, mas julgamos nosso por direito. A felicidade, sendo o antónimo de infelicidade, não é o seu inverso. Se estar feliz quer dizer que não se está infeliz, não estar infeliz significa apenas isso mesmo, podendo ser um estado longuíssimo de qualquer sentimento de felicidade. Parece que não se passa de uma polaridade a outra e que a maior parte da vida das pessoas decorre naquela zona intermédia, mediana, terrivelmente aborrecida mas bastante pragmática que entre nós se traduz deliciosamente nas expressões de resposta quando perguntamos a alguém como está: "mais ou menos" ou "menos mal" ou "vai-se andando". Quando me perguntam antes de uma viagem: "Estás feliz?", eu, obviamente respondo que sim. Se aquilo que nos faz feliz é algo que vai cambiando ao longo das nossas vidas e se temos forçosamente de aceitar - de uma vez por todas - a ideia de que a felicidade não é um estado permanente, mas algo com foros de intermitência, é caso para sintetizarmos aquilo que nos faz feliz e lutar pela repetição. Voar até Madrid, por uns dias que seja, tomar banhos de cultura no Museu do Prado, apreciar telas de Goya, Velasquez, Miró; passear à tarde nos Jardins do Retiro e deambular à noite pelas calles junto à Plaza Cybel, comendo uns churros junto ao fontanário, são coisas aparentemente simples mas que me proporcionam as tais intermitências de felicidade. Afinal até é fácil ser feliz, se for para ser de vez em quando.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Do título

Vivemos num mundo em que a afirmação individual dos sujeitos se faz pelo que têm. Não basta ser inteligente, bonito, elegante, simpático, charmoso, espirituoso, culto, desembaraçado, pleno de sentido de humor, divertido, ou tudo isso em doses massivas. Espera-se que essas habilidades, esses "skills", ou caracteristícas, rendam e dêem frutos e sejam significados pelo meio envolvente como adquiridos de mais-valia. A velha discussão sobre a dicotomia entre o ser e o ter parece, pelo menos por agora, resolvida de uma forma expedita: o ter está ao serviço do ser e o ser é uma abstracção monumental a que muitos poucos têm acesso. Valorizam-se os sinais exteriores e o que serve de moeda de troca numa rede complicada de significações: dinheiro, um título nobiliárquico, académico, um cargo importante, um nome sonante. Não ter é o mesmo que não ser. Logo não ter qualquer coisa com jeito, qualquer coisa que os outros reconheçam e avaliem como boa ou desejável, é a desclassificação suprema. É assim que casar com uma determinada mulher ou homem com caracteristícas seleccionadas é uma aquisição de estatuto. E o problema desta expansão possidente não está na aquisição mas na perda. Ninguém gosta de perder o que quer que seja. E perder pessoas que, para lá do seu valor intrínseco, sejam um leit motiv para a razão da existência, é, para alguns imbecis, igual a perder os sinais exteriores de uma qualquer riqueza que julgavam possuir. Como é difícil admitir que o sentimento de posse em relação a pessoas seja dominante e mais difícil ainda assumir que se quer alguém mais pelo que ela significa do que pelo que ela é, confundem-se a amizade e o amor com outras valências quaisquer que nada têm a ver com a nobreza desses sentimentos. E foi por este motivo, e por outros, que neste final de tarde, dominado por uma persistente má disposição, saí da farmácia próxima à minha casa sem aviar o medicamento que carecia, só porque o funcionário - um tinhoso serviçal de Doutores, Engenheiros, gente importante e afins - descuidou o atendimento de uma velhinha que, coitada, mal se conseguia expressar, só porque entrou no estabelecimento, imagine-se?! Um Doutor! Uma pessoa de título, um médico, a quem ele de imediato fez uma vénia, gesto que lhe acentuou ainda mais a sua pronunciada escoliose - uma doença crónica e progressiva tão caracteristíca de todos os serviçais que atingem o Nirvana cada vez que beijam o chão que os aludidos finórios pisam. P. que o pariu! - pensei, mas, claro, nada disse. Limitei-me a sair sem o medicamento que precisava e ainda mais nauseado do que quando entrei.

domingo, 3 de maio de 2009

Noire

(São Pedro de Moel - 2009 - imagem modificada)
Leio, pondo nas minhas leituras um deleite mórbido como se quizesse vingar-me da vida, profundando-a. Os homens, as mulheres e as crianças parecem-me títeres. A vida brinca, incitando-os ao grotesco, e por fim são destroçados. Às vezes apetece-me dizer: "Vem Morte! Que o teu riso estremeça a minha mágoa dorida e cansada. Sinto-me crucificado neste "Eu" que é a cruz do outro "Eu" que palpita sangrando entre açucenas. Vem, Morte! Solta o sarcasmo do teu riso brutal e fosforescente sobre o que ficou do meu coração sofredor. Vem Morte! A paisagem desolada da minha vida espera o teu raio anulador".

No teu poema

Neste dia tão especial, dedico esta música à minha mãe, a minha maior amiga, aquela que ama incondicionalmente as minhas qualidades e os meus defeitos. Uma mulher que nunca me desiludiu. Obrigado mãe, por seres, por seres...

A ti!

(São Pedro de Moel - Maio 2009)
Que vida tão intensa de amor eu tenho tido nestes dias! Amor de desespero e amor de esperança; amor de não viver e amor de não morrer; de beijar-te e não ter coragem de olhar-te face a face; de aspirar o teu hálito e afastar-me de ti; de acariciar os teus cabelos e de sentir a minha paixão petrificada; de absorver as tuas palavras uma a uma e de as sentir cravadas no peito como um punhal; misturar as tuas lágrimas com a minha emoção; aspirar suavemente todo o perfume que sai das janelas dos teus olhos, desses olhos que sempre iluminaram tudo o que olhem, e que até, olhando-me uma vez com ódio, souberam acarinhar. Um dia disseste que necessitavas das minhas carícias, pois quando as lês, falas comigo e explicas muitas coisas numa grande intimidade. Isto não pode ser senão uma necessidade de ser amada. Se encontrasses em tudo o que digo uma mentira dourada, uma volúpia de mentira, não as aceitarias, chegaria infalivelmente um momento de reacção, e afirmarias que uma mentira é sempre, no fundo, uma coisa má. O amor só se consegue pouco a pouco; a ilusão passa devagar. O amor foge-nos sem o pressentirmos; a ilusão vai fugindo, e nós damos conta, e sentimos um grande vácuo dentro do coração. Um dia, segui-te sem o resplendor das coisas que cegam, somente com o fato cinzento da minha emoção e das minhas lágrimas, e com a luz apagada das minhas palavras perante o romper da luz do teu sorrir. Despedimo-nos para sempre, mas o meu coração ainda está tépido da tua beleza, e hei-de guardar eternamente nos meus olhos a visão da tua formosura.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Menino perdido

Durante a noite, o menino levantava-se da cama. Caminhava pela casa vazia e às vezes cismava frente às janelas que pensava terem ficado abertas. Todos os dias era o mesmo. Deixava tudo aberto porque se sentia abandonado. Era uma grande casa, repleta de quartos e corredores intermináveis. Como criança que era, erguia os olhos ao céu e à noite e escutava lá fora o pranto dos campos. Escutava os grilos e as cigarras e julgava-os gambozinos. Nessa noite o menino olhou pela janela fora com os olhos muito abertos e tudo era uma escuridão enorme por não se saber onde terminavam aqueles frutos tão nocturnos da vida. A casa também chorava com ele. Toda aquela casa envelhecia durante o tempo. Dentro de si, o menino agastava-se com o seu próprio silêncio. Trazia em si aquele choro das magnólias e das hortênsias, vergadas sob o seu próprio peso, que já pendem para a terra. Aquele mesmo choro dos presentes nunca oferecidos, daqueles presentes para sempre esquecidos, para sempre ausentes no amor. O menino repetia para consigo mesmo: «um dia morrerei», e voltava a repetir, «tudo isto que eu vejo é transitório, todo este nada que eu sou é absolutamente transitório». E com estes ditos, inclinava-se cada vez mais para o silêncio e no seu coração, cada vez mais cansado, a morte, terna, mas petulante, aconchegava-se cada vez mais no seu peito como se fora o tão ansiado abraço do amor.