1. Sexta-feira, 22 de Maio, dia do feriado municipal de Leiria, ainda as primeiras horas da manhã não tinham espreguiçado por completo os laivos do sono nocturno, já eu conduzia a minha moto rumo às extremas do Ribatejo, na direcção de Coruche. O meu destino final era Brotas, uma aldeia alentejana perdida algures entre Montemor-o-Novo e Mora, de cujo topónimo nunca antes ouvira falar, a fim de assistir a uma concentração motard – a minha primeira experiência do género, uma vez que há muitos anos que sou adepto do motociclismo, na vertente turística, mas nunca havia sentido a necessidade ou, sequer, o apelo de sentir-me membro de algum clã de cavaleiros do asfalto. No entanto, esta curiosidade, como tantas outras que ainda me restam satisfazer e espero poder vir a concretizar, tinha de ser saciada. Se a curiosidade matou o gato, talvez me mate a mim também, mas a verdade é que tem sido ela o motor da maior parte das coisas, boas e más, que me têm sucedido ao longo da vida. Inscrito como associado no Moto Clube de Leiria e, desde então, a par de todos os eventos nacionais e internacionais que envolvam motociclistas, tomei conhecimento da concentração em questão e, de mente e coração abertos, fiz-me à estrada preparado para enfrentar as aventuras com que me iria deparar.
___________________________________
2. Foi uma viagem tranquila, com pouco trânsito, a manhã estava um pouco nublada mas, de quando em quando, o sol aparecia por entre as nuvens e a paisagem ribatejana ganhava cores magníficas que pareciam perseguir-se umas às outras à medida que a BMW rolava pela lezíria adentro. Enfim, estava a temperatura ideal para andar de mota: nem muito calor nem muito frio; isto para quem usa fato de cabedal completo e protecções térmicas, como é o meu caso. Pelo caminho, fiz uma única pausa para abastecer combustível e tomar o segundo café da manhã. De resto, só tornei a parar já em Mora para me certificar de que ia na direcção correcta, uma vez que não aderi, nem penso fazê-lo, à moda GPS. Ainda sou um motociclista à antiga e não dispenso a mala sobre o depósito que, além de dar imenso jeito para guardar objectos de primeira necessidade, tem no topo uma bolsa impermeável transparente, que serve justamente para colocar um mapa desdobrado na área geográfica que tenciono percorrer. A mentalidade "rally paper" nunca me abandonou por completo e, confesso, sinto um gozo irreprimível em me rever nestes arcaísmos multirresistentes às novas tecnologias.
______________________________________
3. A chegada ao recinto da concentração, uma vez em Brotas, não foi nada difícil, pois alguns quilómetros antes da aldeia já se avistavam, pendurados em chaparros – nome alentejano para o sobreiro, a árvore que dá a cortiça e que, como de resto toda a gente sabe, já fez deste nosso jardim à beira-mar plantado o primeiro exportador mundial da dita matéria prima – pequenos cartazes a anunciar o acontecimento. Uns caracteres, pela sua grandeza e cor, destacavam-se dos demais, pois a organização deste tipo de eventos, como é aliás natural, também tem por objectivo o lucro económico, e sabe quais são, para alguns, as atracções com maior apelo. Então, podia-se ler o seguinte: "Sábado à noite, três sessões de streap-tease!" – Em letras mais modestas, desfiavam-se o resto das atracções: "Sexta-feira à noite e Domingo à tarde, vacadas, grupos de rock da região, desfile de motos, concursos, karaoke, bar aberto, comes e bebes e, no final, distribuição de prémios e certificados de presença para todos os participantes". Enfim, uma concentração de motociclistas a acontecer em pleno Alentejo com o seguinte cenário: um recinto enorme bordejado por chaparros, em terreno contíguo a um pequeno campo de futebol, um palco montado, um redondel cercado para as vacadas e uma enorme clareira transformada em mini parque de campismo, onde se podiam observar mais de uma centena de motos estacionadas junto a pequenas tendas. Aliás, a chegada de novos motociclistas era uma constante, a qualquer hora da tarde e da noite; e sempre objecto da curiosidade geral, tal a variedade das motas, bem como as vestimentas dos seus condutores e respectivos penduras.
________________________________________
4. Senti o impacto desagrável, tão familiar em mim que já o trato por tu, de não me rever no ambiente circundante. No corredor central, podia-se observar uma fiada de barracas improvisadas onde se vendiam desde t-shirts alusivas à "onda motard", acessórios básicos para uso de motociclistas e até peças de "artesanato picante" das Caldas da Rainha. Mais adiante, em pequenas roulottes transformadas em bares de comes e bebes, onde a cerveja à pressão saía ininterruptamente, podiam-se escutar as risadas estridentes dos motoqueiros com os “carburadores” já bastante aquecidos. Alguns feirantes, certamente useiros e vezeiros neste tipo de "happenings", vendiam miniaturas dos modelos mais célebres e intemporais de todo o género de motas. Fiquei conhecer o celebérrimo "Manivelas", um homem na casa dos sessenta e poucos anos, sempre sorridente, de semblante avermelhado por indisfarçáveis varicosas e voz agastada pelo álcool, há mais de 25 anos, sempre presente nas mais importantes concentrações de motociclistas. Artesão de profissão, como me foi apresentado, é também, off record, o fornecedor habitual das "ervas aromáticas" que exponenciam a alegria e a boa disposição de alguns dos participantes. Fiquei quase perito na ciência do conhecimento no que respeita aos nomes de alguns dos mais distintos Moto Clubes deste país; e foram-me, inclusive, apresentados alguns dos seus membros mas carismáticos: Os “Adega Boys”, “Os Moto-Copos” os “Cães do Asfalto”, os “Chupa-Cabras”, entre outros epítetos de gosto discutível - Associar o álcool, a droga, a propensão para a violência e a boçalidade gratuita à prática do motociclismo, não creio que tenha de ser uma fatalidade. Se assim for, estou condenado a viajar tendo-me a mim mesmo como única companhia, ou eventualmente com quem partilhe de uma forma de estar semelhante à minha. Viajei só, como é habitual, e senti neles, malgrado a simpatia com que sempre fui tratado, alguma decepção por ter recusado ingerir bebidas alcoólicas, declinado o convite para provar o famoso salpicão picante do "Manivelas" e, sobretudo, insistir vir-me embora antes da noite de Sábado, momento em que o evento, nas suas palavras, atingia o ponto alto da festa: os streap-teases.
___________________________________
5. Para eles, um motard que não beba até cair para o lado, não diga asneiras, não fume cigarros, nem charros; não aprecie espectáculos de "gajas boas" a despirem-se; e, como se tudo ainda não bastasse, conduza uma BMW F 650 GS e vista-se todo “straight", sem os adereços que a ocasião reputaria indispensáveis, tais como: emblemas com caveiras, tatuagens no corpo, piercings, lenço motard ajustado na cabeça, colete de cabedal repleto com os dísticos alusivos às concentrações em que já se participou, é considerado um outsider. Uma intrusão incómoda no seu habitat natural. Aos seus olhos terei, porventura, deixado menos bem visto o Moto Clube de Leiria? - Isto caso me tenham olhado como uma espécie de embaixador plenipotenciário da associação em questão, o que não é difícil de imaginar sendo eu o único associado ali presente. Fica a dúvida. Mas que me importa? No fundo, eles é que estão certos, integrados no ambiente que lhes é agradável, partilhando gostos, formas de sentir e agir semelhantes. Tudo em verdadeira empatia. A verdadeira ave rara que pousou naquele lugar fui eu, não eles, mas depressa levantei voo para outras paragens mais consonantes com a minha pessoa.
________________________________
6. Como tento tirar o melhor partido de tudo o que faço, virei-me para os meus gostos naturais: a vertente turistíca e cultural do lugar em que me encontrava. Como é óbvio, não fiquei a dormir em tendas – longe vão esses tempos e as minhas costas têm quase cinquenta anos – e fui procurar um alojamento de qualidade. Fiquei maravilhado com o que descobri. Brotas é uma aldeia belíssima, diria, de uma tímida beleza, que aconselho vivamente qualquer um visitá-la; e onde penso voltar, de preferência com uma boa companhia. Fui encontrar o conceito de “Turismo em Espaço Rural “ – Casas de Campo – Turismo de Aldeia – “Casas de Romaria”, cuja principal razão de existência é a sua inserção em localidades calmas e pacatas, com séculos de história, fora do bulício das grandes cidades, em que o silêncio, a beleza, o servir e o bem-estar são as grandes mais-valias. Fiquei alojado na “Confraria do Lavre”, uma casa quadricentenária, tipo T 1, em duplex, decorada em tons de azul, com todas as comodidades de uma villa de 4 estrelas: cozinha completamente equipada, televisão de plasma, aquecimento central, lareira, caldeira para banhos, terraço exterior, quintal. Enfim, uma demasia de luxo e bem-estar para uma pessoa só, uma vez que possuía quatro camas: três no primeiro piso e uma no rés-do-chão. O pequeno-almoço, utilizando um neologismo que me é querido, foi fabulástico: pãezinhos tradicionais, bolo caseiro, mel, frutas diversas, queijos, nozes, cereais, sumos naturais. Uma delícia!
_______________________________________________
Brotas faz fronteira com o Ribatejo e creio que é o local indicado para se fazer um merecido descanso ou, porque não, partilhar um ninho de amor com alguém que nos seja querido. Tive oportunidade de dar uma vista de olhos no artesanato tradicional, moldagem e pintura de barro e confecção de pintura de azulejo em ateliê. Dei uma vista de olhos no Santuário de Nossa Senhora de Brotas, originário do século XV, fruto de profundas reformas no decurso dos séculos seguintes, em cuja traça ainda são evidentes as características de raiz popular, embora já enquadrada por uma estética que concilia os estilos manuelino e barroco. As Casas-Confraria – Confraria de Palmela; Confraria do Lavre (onde fiquei alojado); Confraria de Setúbal; Confraria de Mora; Confraria de Cabeção e Confraria de Cabrela, ladeiam o Santuário e constituem o primeiro aglomerado urbano da aldeia – exemplo máximo da profunda devoção que se vivia em redor da famosa igreja. Há, aliás, uma lenda que explica a devoção e a existência do Santuário de Brotas, cuja passagem retirei de um livro que comprei no turismo local, que tem por título "Literatura Popular Alentejana”, de que é autora Maria Soeiro de Brito que tem um poema que retrata bem a origem da crença, que passo a transcrever:
____________________________________________
Havia um pobre varão
Que tinha uma vaca
Que d’Inverno mais de Verão
Lhe sustentava
A mulher e filhos sem pão
Um dia lhe aconteceu
Deitar a vaca a pastar:
D’ali lhe desappar’ceu
Por muito que correu
Nunca mais a poude achar
O’ quando d’alto a viu
Como morta a conheceu
Começou a chorar os males
E os dias em que nasceu
Vendo o homem que remédio
À vacca não podia dar;
Tomou a faca na mão
E começou-a a desfollar
Tendo uma mão cortada
E outra meio desfolhada,
Ali lhe apareceu uma
Virgem consagrada:
“Anda cá homem, não chores.
Não chores, por meu amor,
Que a tua vaca viverá:
Tu de mim terás favor
Vae allem aquelle logar
Alguma gente chamar,
Que me venha redificar
Uma casa brevemente
Vae e vem com brevidade
Não te queiras mais deter.
Diz-lhe que é minha vontade
E o meu último querer”
Partiu o homem chorando
Áquella gente chamar,
Logo contas lhe dando
Tornou ao mesmo logar
Achou a vacca pastando
Mais gorda e mais formosa
Que elle d’antes a tinha
Por ser Virgem milagrosa
E a mãe piedosa
Que lhe poz a mão por mesinha
_______________________________
7. Regressei a Leiria no Sábado de tarde sem esperar pelas tão apregoadas três sessões de streap-tease da noite, mas não sem antes voltar ao recinto dos motards para agradecer a forma calorosa como me receberam. Julgaram-me, sim, um betinho caído de pára-quedas no meio de motoqueiros de barba rija, mas nem por isso me receberam mal. Antes pelo contrário. Ainda escutei palavras do género, entrecortadas pela música fina do Quim Barreiros que, ao que parece, é um ingrediente essencial neste tipo de eventos, bem como nas Queimas das Fitas: “Vá sempre aparecendo que vai ver que começa a gostar e depois isto torna-se um vício, sabe?! Acredite!” Vencido, mas não convencido, no caminho de regresso, ainda parei no fluviário de Mora, que é também uma visita espectacular a não perder e à passagem por Alcoentre – viajei pelo IC 2 – a chuva começou a cair com força o que me obrigou a fazer mais de 80 quilómetros até Leiria debaixo de uma enxurrada. Curiosamente, não me molhei nem um pouco (o fato de cabedal, estou a vê-lo no estendal da varanda, é que deve ter ganho cerca de 100 quilos extra!) Na estrada, deparei-me com um acidente horrível: perto da Abrigada, antes de Rio Maior, uma mãe com duas crianças a bordo, capotou o carro numa descida que terminava numa curva apertada. Tiveram de ser desencarcerados pelos bombeiros e a estrada ficou cortada ao trânsito durante quase uma hora. Não imagino se sobreviveram, mas a avaliar pelo estado em que o automóvel ficou, só consigo imaginar o pior dos cenários. Não tirei fotos da viagem, porque me esqueci de levar a máquina, mas como penso voltar, não hão-de faltar oportunidades.
_________________________________________
Os “motards puros” que desculpem alguma coisinha menos boa que deles tenha dito, mas eu sou mesmo assim: desbocado, directo, às vezes até menos conveniente. Sei que desconfiaram das intenções deste moto-turista de farpela, bem apessoado, demasiado “old fashion”, careta qb, mas “old habits die hard”; e, para mim, tudo tem um tempo e um modo; ou, dito em vernáculo puro: "
Cada um é como cada quali!" - não estivesse eu ainda imbuído da justeza, oportunidade e sapiência dos famosos ditos alentejanos.