[Um conto escrito a quatro mãos, iniciado por mim e continuado pela minha amiga, Luísa Azevedo. Uma experiência de partilha de escrita, duas sensibilidades, dois estilos, quatro mãos.]
Chamo-me Hélio Isidoro Cassiano Marofas. Nunca gostei do meu nome. Quando me perguntam o que faço na vida nunca sei ao certo o que responder. Sou fazedor de códigos. Tirei uma licenciatura em jurisprudência há mais de trinta anos e, passados que foram mais de vinte anos de ensino público, dediquei-me a esta tarefa inglória. Actualmente é com isto que governo a minha vida: compilo legislação, recolho leis avulsas, reúno colectâneas, plagio códigos e limito-me a oferendar-lhes um preâmbulo cujo título começa invariavelmente pelas mesmas palavras: Nota do autor. O autor não pode ser a minha pessoa, como é evidente; e é aqui que começa a desonestidade intelectual e a trama da culpabilidade que se desenrola dentro de mim.
Arrogo-me autor de leis arquitectadas por juristas cujas identidades se perdem no tempo, diplomas que foram mais tarde modificados por outros; gentes que labutam no anonimato nos gabinetes esconsos dos ministérios e cujos nomes nunca vêm à ribalta. Tenho a ousadia de editar códigos jurídicos com o meu nome impresso na capa, como se tratassem de realizações saídas da imaginação e labor de um autor de prosas. Sirvo-me indecentemente dos meus estafados pergaminhos académicos e das influências que granjeei junto das editoras da especialidade, para juntar umas patacoadas, a título de intróito, e dar a uma colectânea legislativa o privilégio de me ter como pretenso progenitor.
Os meus colegas dizem-me para não me sentir assim. Dizem eles que até um código carece de alguma humanidade e é um beneficio que concedo à aridez das régulas dar-lhes um nome, uma paternidade. Ganho bastante dinheiro com este mecanismo fraudulento e sei de antemão que é o meu nome que vende e não a a falácia do meu trabalho – esse nem existe!
Moro só e tenho caspa abundante no cabelo. Já fiz sessenta e dois anos e não tenho mulher, filhos, nem pretendentes a uma coisa ou outra. Sou aquilo que se pode chamar um homem desinteressante, credenciado pela mediocridade institucional de uma escola de propaladores de doutrinas alheias. Aprendi, como todos, a arte e o engenho da reformulação, de forma a dar a entender que aquilo que escrevo é algo original e não a redundância clássica do lente universitário que precisa granjear uma escola para sobreviver como tal.
Actualmente estou de férias na Patagónia, planejando mentalmente um homicídio, ou talvez isso seja só um desejo insano que nunca terá concretização. Nem sempre o corpo docente de uma Universidade se anima de boas intenções. São conhecidas as rivalidades, os extremos da maledicência, as teias de intriga que por lá se desenvolvem e encontram-se aí exemplos de baixeza sem par, mantidos sotto voce e, felizmente, ignorados pelos discentes e pelas gentes em geral. No entanto, os casos em que se resolvem por homicídio são, quero esperá-lo, bastante raros, constituindo uma excepção. Não gostava de ficar conhecido como o professor assassino mas, por outro lado, o que tenho eu a perder?
Um colega mais novo, cheio de mestrados e doutoramentos obtidos em universidades americanas, anda a arruinar-me o negócio próspero das edições. Será que ele não se apercebe que nestas coisas há monopólios, uma primazia tácita dos mais velhos face aos que ainda não chegaram às luzes da ribalta?
A vingança não é uma modalidade criminosa simples. É muito subjectiva. Fundamental na vingança é que o objecto do ódio tenha a perspicácia de dar por ela. Se cremos que nos vingámos e o outro prossegue na sua vida bonaçoso, indiferente, então não nos vingámos. Isto implica um conhecimento profundo do sujeito de quem pretendemos vingar-nos. Mas o que é o nosso conhecimento do outro senão um caos de interpretações, de pressupostos, de hipóteses, de mal-entendidos, pousados eles mesmos sobre uma série de omissões, máscaras, de silêncios, de vazios? É um estranho conhecimento, uma quase ignorância. Não é o medo da retaliação que impede vingar-me dele. É antes este aspecto contingente. Não o vejo minimamente preocupado com os meus anteriores avisos e a manifestação clara do meu desagrado.
Quando regressar destas férias auscultarei a minha real vontade. Para já, faltam quinze minutos para a meia-noite e não quero perder por nada deste mundo a reprise da abertura dos Jogos Pan-Americanos. Já pedi que me trouxessem uma garrafa de rum cá acima ao quarto. O reclamo luminoso do hotel está quase a fundir-se e receio que não passe desta noite. Agradeço à divina providência por isso, pois já não suporto mais a intermitência do néon abusando do interior do meu quarto noite dentro.
Jorge Rebelo
19.07.2007
Contrariamente ao meu receio, o reclamo sobreviveu toda a noite no seu odioso piscar contínuo. Não suportarei outra noite igual. Urge apresentar a devida reclamação, a tempo de resolverem esta questão durante o dia de hoje. Felizmente não é sábado ou domingo e não creio que seja dia festivo, não haverá lugar a desculpas do tipo "perdoe mas só na próxima segunda-feira poderemos chamar um técnico". Sei que não há outro quarto vago pois, à chegada, assisti a um pequeno desaguisado entre o gerente e um casal que se queria instalar. De nada me adiantaria exigir mudar, pois não teriam como o fazer.
Nas voltas dadas na cama, numa luta contra um néon, num funde não funde, desembestado, não relembrei os bonitos momentos dos jogos. A luz sibilada trazia-me à memória aquele ser bem apessoado, bem posto, de cabelo farto, sempre com a mesma colónia que deixava à passagem. Indubitavelmente incomparável à minha pessoa. Cada minuto passado, cada volta dada na cama, cada piscar de néon me impunham o planejar de uma vingança.
O dia amanheceu com o sibilo do reclamo quase no seu fim, deixou de fazer sentido estar acesso, pois terminara o tempo de me atormentar.
A vontade de sair daquele leito desconfortável não era grande. De longe a luz do sol àquela tortura. Ainda hesitei e tentei aconchegar-me nas covas permanentes do reles colchão, fazendo um esforço por passar pelas brasas. De nada valeu a minha exaustão. Acabei num duche morno que demoradamente tentei apreciar num wc acanhado e pouco iluminado.
Sai do quarto com roupa quente apesar do cabelo molhado, penteado para trás. Pensei comprar uma colónia no primeiro supermercado que encontrasse.
Olhei os meus pequenos pés e perguntei-me que fazia eu numa região assim baptizada, dado o vistoso tamanho dos pés dos seus habitantes. Aliás, que fazia eu num local tão longínquo e com tantos contrastes naturais. Neste pensar, fui andando até ao salão reservado às refeições. O pequeno-almoço foi muito bem servido, dispôs-me bem. Que faria um homem mais jovem, bem parecido, a exalar um perfume masculino, de cabelo molhado puxado para trás, nestas paragens? O meu percurso, os meus dias, não estavam ainda organizados. De repente passou-me pela cabeça gozar as férias de outro. Planear os passeios como imagino os planearia. Talvez esta vivência me trouxesse algum conhecimento interior do outro, os seus gostos, os seus medos. Talvez os meus intentos saíssem valorizados com esta nova experiência de vida.
Sai do quarto com roupa quente apesar do cabelo molhado, penteado para trás. Pensei comprar uma colónia no primeiro supermercado que encontrasse.
Apesar da noite mal dormida ou não dormida de todo, os meus sessenta e dois anos estavam rejuvenescidos.
Havia ainda o caso do néon para resolver e sentia-me vigoroso para a abordagem.
A sua resposta foi pronta e curta, não disse mais que "com certeza, chamarei o técnico imediatamente." Agradeci e sai levando comigo um prospecto a anunciar as viagens aos glaciares, uma vista a uma "loberia". Lobos marinhos? Seria um passeio gélido. Interessante para um homem jovem? Vou informar-me sobre estas excursões, mas não antes de encontrar um aroma que permaneça nos locais por onde passo. Já na recepção, depois de ter ido ao quarto buscar um agasalho, confrontei o funcionário com a minha indignação. Apeteceu-me ser trocista e perguntei-lhe como tinha passado a noite. Afável, respondeu que bem e devolveu-me a pergunta. Era a minha deixa. Pois meu amigo, devo confessar-lhe que simplesmente não a passei, foi a minha resposta. Força de expressão, naturalmente. O que quero dizer com isto, é que a passei em claro. Toda a noite os meus olhos dançaram ao som do sibilo do vosso reclamo acompanhados pelo contínuo piscar do mesmo. Venho pedir-lhe o favor de o mandar consertar hoje mesmo ou, caso isto não seja possível, o mande desligar. Não aturo outra noite de dança como a que passei.
A sua resposta foi pronta e curta, não disse mais que "com certeza, chamarei o técnico imediatamente."
Agradeci e sai levando comigo um prospecto a anunciar as viagens aos glaciares, uma vista a uma "loberia". Lobos marinhos? Seria um passeio gélido. Interessante para um homem jovem?
Vou informar-me sobre estas excursões, mas não antes de encontrar um aroma que permaneça nos locais por onde passo.
Luísa Azevedo 23.07.2007
«Dependendo das definições, a Patagónia é a região mais austral da América do Sul, rodeada pelos oceanos Pacífico e Atlântico e tendo por limites, a Norte, os rios Colorado e Bío-Bío. Esta enorme península com mais de um milhão de quilómetros quadrados corresponde a um terço do Chile e da Argentina, mas é habitada por apenas cinco por cento da população dos dois países. Verdadeira espinha dorsal, os Andes (com picos acima dos sete mil metros) fazem da Patagónia um território de extremos naturais: a Oeste, a faixa de montanhas chilenas densamente povoadas de florestas; a Este, a meseta semi-árida argentina.»
«Em Puerto Montt, só temos duas estações: a do Inverno e a dos comboios» - o comentário ouvido da boca de um guia turístico poderia, certamente, ter algo de exagerado. Mas o vento frio e a chuva que caía ininterruptamente naquela manhã de Agosto (Inverno, no Hemisfério Sul), fazia temer o pior relativamente ao clima na Terra do Fogo. As temperaturas médias não ultrapassam os dez graus centígrados, no Verão, e os zero graus, no Inverno.
Hélio estava sentado no átrio gigantesco do aeroporto internacional de Buenos Aires. Amarfanhava nas mãos um folheto turístico enquanto olhava os aviões que se movimentavam vagarosamente nos taxi ways. A Argentina em breve ficaria para trás. Uma música antiga de Astor Piazolla, soando ao de leve vinda das colunas de som penduradas nas paredes, impregnava o ar de um halo de mistério. De tempos a tempos, os informativos monocórdicos, ditos num castelhano quase imperceptível, informavam os passageiros dos atrasos nos voos. Aguardava-o uma viagem de cerca de quinze horas até Barajas-Madrid e depois ainda mais uma hora e pouco de avião até ao Porto, cidade onde apanharia um táxi até ao seu destino final. Só no dia seguinte chegaria a casa, provavelmente exausto, em parte devido à sua incapacidade absoluta de dormir em voos de longo curso. Um tédio absurdo apoderara-se dele.
Já sentado no avião, com a face encostada à janela minúscula embaciada pelo frio exterior, sentiu um grato alivio por ir deixar para trás aquele país. Já não sentia a paciência necessária para lidar com a corrupção crónica que por lá grassava, a começar nos níveis mais elementares da cadeia social. A pobreza intimista, impregnada, que latejava em cada esquina, em cada bairro, na mente das pessoas, enojava-o. A Argentina pertence aquele grupo de países onde a vida é um concerto sem conserto, um pouco à imagem da sua vida. Em breve retomaria as suas actividades editoriais e, curioso, a ideia do assassínio começara a ganhar novos contornos na sua mente. Restava-lhe engendrar um plano e concretizá-lo. Porque não ensaiar o crime perfeito? Uma quimera, na lógica da literatura policial, de impossível concretização. Seria, porventura, o maior dos desafios que se colocariam à sua inteligência: urdir um plano que conduzisse à morte do Dr. Fábio sem que a sua pessoa em algum momento pudesse ser associada ao crime. Envolto nestes pensamentos, nem se apercebeu no imediato do homem que se sentara ao seu lado. A descoberta da sua própria homossexualidade era relativamente recente, já que sempre se julgara assexuado, ou fazendo parte de uma espécie ambígua, que se bastava sem as trivialidades da carne. Hélio era um homem de livros, sem tempo para essas coisas, ou pelo menos até há bem pouco tempo era assim que se via. Quando o aparelho acelerou na pista, passados uns momentos, sentiu que o chão já não fazia parte do seu mundo. Estava no meio das nuvens e a noite aproximava-se com grande rapidez.
Jorge Rebelo
24.07.2007
Madrid, 25 de Julho de 2007.
A aterragem foi atribulada, ao fim da terceira tentativa. Nunca tinha passado por uma situação destas, o suor cobriu-me a testa e escorreu-me pelas mãos já de si húmidas. Um momento de quase pânico sem ter um braço para agarrar, um olhar para trocar. Uma dualidade de sentimentos. Se me for não deixarei lágrimas, que ficariam talvez por anos. Da mesma forma, se me for, não tenho a meu lado ninguém a partilhar a ida, nem tenho um amor ou outro sentimento em que pensar. Pensei naquele cheiroso doutorzinho, vi-o rir-se do seu monopólio com a minha partida. Não! Esta coisa há-de aterrar sã e salva e assim foi. Nunca o sangue me tinha corrido tão rapidamente nas veias, nunca senti este calor invadir-me o corpo como num acto de amor. Não fora o medo, tive-o, tenho que admitir, consegui imaginar o prazer desta adrenalina a viajar-me pelo corpo. Consegui transpô-la para uma situação que nunca vivi e apenas presenciei em filmes ou li num ou noutro livro. Sempre que me deparei com essas imagens, com o sons e os gemidos que as acompanhavam, tinha a certeza tratar-se de momentos farsantes, de um abuso de sensações para provocar o espectador ou o leitor. Um contorcionismo improvável de causar tanto êxtase, tanto suor ou tantas lágrimas. Senti o meu arfar perder-se, à medida que a calma se instalava de novo no avião. Ouvi-o nessas recordações que nunca me tinham assolado, que eram para mim vagas, transvios de gente banal. Afastei-me desses pensamentos, recostei-me na cadeira até o avião parar por completo. Sem pressas, deixei sair os meus companheiros de viagem, que parecendo ainda com medo de algum acidente, atropelando-se, se precipitavam para a saída. A temperatura em Madrid era insuportável, impondo-me um suadouro desconfortável. Tenho que aguardar duas horas pelo próximo voo. A frescura do ar condicionado em Barajas, contrasta demasiado com a temperatura exterior. Uma tímida e forçada primavera, seja qual for a indumentária do turista. Não me agradam ambientes artificiais, mas suportar os 40ºC exteriores também não faz parte do que poderia chamar nem de pequeno prazer.
A bagagem seguia o seu percurso, sem ter que me preocupar em recolhê-la. Resta-me uma bolsa de mão em pele castanha um pouco gasta, ainda que não tanto como eu. Um mundo de gentes num vaivém de chegadas e partidas. Na diversidade, passo por um qualquer cidadão do mundo, sem que alguém me olhe desta ou daquela forma mais ou menos aprovadora, ou o inverso. Numa tabacaria atrai-me a atenção um dos títulos de um jornal - "Vive-se o inferno na zona da Lousã". Em Madrid também se informa a tragédia do país vizinho, também se vende a imprensa diária do nosso pequeno país. Novamente os incêndios em pleno Agosto. Uma foto de terror acompanha a notícia, gentes que fogem das chamas, casas fustigadas pelo fogo, bombeiros impotentes. O ar condicionado arrefeceu o ambiente em Barajas. São os meus conterrâneos que estão naquela foto, uns que fogem outros que tentam enfrentar a fera, mas são gente do meu país. Ao lado, outro jornal Português destaca o mesmo assunto. Quão alheado estou desta realidade, com o meu cabelo oleado puxado atrás e o meu perfume masculino pelo ar! Comprei um. Paguei com o cartão sem que a funcionária mostrasse algum sinal de aborrecimento, dada a quantia. Imaginei-me em Portugal a comprar um diário desta forma, impensável! A leitura devolveu-me ao mundo real, escrito na minha língua. Sabia que tinha ainda bastante tempo para me deliciar com textos e textos na língua de Camões. Acertei o relógio pela hora Portuguesa para não ter que me preocupar mais com o assunto. Tinham passado não mais que 45 minutos desde que iniciei a leitura, quando ouvi chamar para o meu voo, num castelhano exemplar seguido de um Inglês espanholado. Sem grande pressa, encaminhei-me para a porta 42 que anteriormente tinha verificado não distar do meu sofá. Dez passos dados e, qual não é o meu espanto, dou de caras com o candidato a cadáver.
Luísa Azevedo 25.07.2007
Formigal já não é mais aquele lugarejo inóspito nos arrabaldes do Porto. Uma espécie de aldeola frugal composta por ruas estreitas, bordejadas por um casario raso, que até há pouco tempo nenhum mapa reconhecia com detalhe e atenção. No espaço de poucos anos, a povoação cresceu numa progressão geométrica e de forma assustadora. Tem dois museus, uma biblioteca, um cinema, restaurantes e bares; instituições e empreendimentos; e inclui mesmo um hospital psiquiátrico onde se cuidam, pelas mais iluminadas técnicas anti-depressivas, as vítimas do psicologicamente implacável estilo de vida solitário.
Já estou internado neste hospício há mais de três anos e sinto-me bastante melhor. Hoje, nem sei já a que propósito, acordei com vontade de esmiuçar as ténues memórias da minha vida passada. Talvez por ter encontrado no forro do meu casaco beije, um escrito completamente amarrotado que me fez relembrar acontecimentos que julgava arredados da minha memória. Li, com a hesitação mais própria de um iletrado, o texto de fio a pavio e conclui que só podia ter sido mesmo eu a escrevê-lo. Levantei os olhos das folhas pautadas e senti a brisa morna do final da tarde tocar-me ao de leve na face. Os meus pensamentos erguiam-se para longe, como se fossem levados pelo voo de uma águia, e continuavam pelo oceano fora, sobrevoando barcos minúsculos, cristas de espuma, águas esverdeadas profundas, picos de gelo e de fogo; voando sem parar sobre campos infinitos, casas brancas, telhados negros e cidades atulhadas de tudo. A Patagónia. A Argentina. Tudo voltara.
Porque o matara eu? Ninguém conseguiu aduzir argumentos que o explicassem de forma satisfatória. Embora tivesse sido considerado inimputável pela justiça, por me ter sido diagnosticada uma «síndrome de insanidade momentânea, com total incapacidade de autodeterminação» – assim rezava o despacho do juiz do capachinho: um ser pequenino, franzino, com voz aflautada, que decidira deste modo o meu destino, após uma extensa bateria de exames psiquiátricos, feitos pelos mais reputados físicos da especialidade. Perante o meu estado de confusão mental e a incapacidade absoluta de explicar as razões do meu tresloucado acto, impuseram-se a reforma compulsiva e o encarceramento por dez anos neste estabelecimento que já sinto como sendo a minha casa. A verdade só eu a sei e creio que morrerá comigo, pois não deve interessar a mais ninguém. No aeroporto madrileno, naquele início de tarde sufocante, em que aguardava em trânsito o avião que me levaria a Portugal, a minha obsessiva vontade de matar julgou ver o objecto dos seus instintos assassinos. Acabei por espetar o estilete para fondue, que acabara de roubar na cozinha do restaurante junto ao free-shop, no pescoço da minha vítima - um pacato pai de familia que tivera a má sorte de se parecer em fisionomia com o Dr. Fábio Leite. E espetei-o várias vezes, tresloucadamente, até ficar completamente alagado com o sangue vermelho escuro que saia às golfadas das suas artérias esventradas. Só parei quando fui segurado por mãos fortes e não me lembro de mais nada. A minha consciência só se recuperou muito tempo depois. Contaram-me que, nos momentos que se seguiram ao acontecimento, cai num estado de letargia muito próximo do autismo e fiquei desse modo durante bastante tempo.
Há muito que aprendi a guardar os comprimidos num canto da boca para os cuspir de seguida. Mantenho-me pouco comunicável mas sempre com a docilidade e bonomia que por aqui granjeei. A consciência da minha inteira lucidez é coisa que só a mim me diz respeito. Tenciono, na altura devida, agir, isto é: escapulir-me daqui e corrigir certos erros na minha trajectória de vida. A verdade é que se pode aprender muito sobre os doentes mentais e a sua relação com os médicos, mantendo a cabeça fria e os olhos abertos. Como em todas as relações humanas, também este contacto tem por base a confiança. É aí que a minha inteligência vai de novo guindar-me aos pícaros das soluções mágicas que sempre encontro para os meus problemas. O Fábio tem de morrer e isso é para mim uma verdade inquestionável. Palavra de Hélio.
Jorge Rebelo
26.07.2007
Senhor? Senti uma mão a abanar-me ligeiramente o ombro que me obrigou a abrir os olhos.
«Agradeço que endireite as costas do assento e aperte o sinto de segurança, estamos a aproximar-nos do Porto».
A voz era doce, feminina e induziu-me uma estranha tranquilidade.
Por momentos perdi-me no tempo, procurei em vão o meu quarto. Formigal? O meu casaco bege? Tentei relembrar o meu estado de loucura, alguma bata branca… nada. Formigal não podia ter ficado para trás! As golfadas de sangue pelo chão de Barajas!
Endireitei a cadeira, respirei fundo, olhei a jovem a meu lado sentada, reconheci-a. Cerca de duas horas antes tinha-me pedido para trocar de lugar com ela, ficando lado da janela.
Pela primeira vez em anos, nem podia crer… pela primeira vez em anos. Nunca tinha sucumbido ao cansaço num voo.
Que sinal! Que me quereriam dizer as nuvens? Foi tudo tão real, tão vivido… talvez também pela primeira vez em anos. Palavra de Hélio, foi o que me restou das horas anteriores.
Senti fome. Optei por não comer nada em Barajas e este voo a seco deixou-me o estômago numa longa solidão.
Levantar a bagagem era algo que dispensaria. Não trazia recordações palpáveis, das roupas poderia abrir mão. Havia um ou outro livro, uns escritos. Nada de comprometedor mas, não sabendo que consequência teria deixar a minha mala às voltas sem fim, nem dei ouvidos à minha vontade.
«Táxi!» Agora já nem é necessário chamar. Perfilam-se entre beges e negros de telhado verde. Saem à vez do tapete que lhes está destinado, sem os antigos atropelos de clientes e motoristas.
«S. Mamede, se faz favor, junto à igreja!»
Ainda não tinha o cansaço resolvido e, tendo em conta o que se passou no ar, achei que recostando a cabeça ainda passaria pelas brasas.
O trajecto pareceu curto, dada a rapidez com que cheguei a casa.
De novo em casa, um ambiente que me acolhe há anos. Tudo parecia no sítio, limpo e arrumado. A Dª Celeste vinha duas vezes por semana para fazer a limpeza, arranjar-me a roupa, fazer uma panela de sopa de quando em vez. Durante as minhas férias manteve as visitas, arejou a casa aproveitando a ausência. Não gosto das correntes de ar que por vezes diz serem necessárias às limpezas. Devem ter aberto todas as janelas. Deixou a luz entrar e instalar-se em todos os cantinhos, mesmo os mais escondidos. Usou e abusou da água, da cera e dos seus esfregões. Até a minha estante parecia mais luminosa. As capas dos meus velhos livros tinham uma cor menos pálida. O tapete de Arraiolos herdado da avó paterna tinha sido ligeiramente restaurado e, de tão limpo, tinha novamente o seu tom vermelho em destaque. A senhorinha tinha sido limpa com algum óleo e o tecido parecia ter mais flores que nunca. Quadros de cara lavada, cortinados aprumados e flores do campo numa jarra, cuja boca partida virou para a parede.
É uma mulher de trabalho, uma lutadora. Com um filho deficiente e um marido amigo de uma boa pinga, trabalha para os três sem maldizer a vida.
É sábado, ainda terei o domingo para pôr o sono em dia. O excesso de arrumação está a baralhar-me um pouco mas a verdade é que gostava de a conseguir manter. Arrumei os livros que levara comigo, meti toda a roupa no balde e decidi tomar um duche.
S. Mamede não está mais arrumada que quando a deixei. A Dª Celeste teve comigo uma preocupação que ninguém dedicou à vila.
Ainda o mesmo carro abandonado quase à porta da igreja, já com erva a crescer acima dos pneus. Os dejectos dos cães seriam recentes, mas vinham para substituir os que cá deixei.
Dei uma volta pelo centro sem encontrar nenhuma cara conhecida.
A vida faço-a no Porto. Aos fins-de-semana pouco ou nada saio. Rendo-me à leitura, à sonolência, ao isolamento.
Luísa Azevedo 27.07.2007