terça-feira, 31 de julho de 2007

Viagens na minha terra

Surripiei o título do texto ao Visconde para dar alma ao escrito que se segue. Não pertenço ao Vale de Santarém, nem tão pouco o meu humilde parentesco se assemelha a figuras que ficaram para sempre na mente de quem leu boa prosa. Por outras palavras, juro-vos que a Joaninha não me é nada! A minha actual conexão com o Ribatejo não passa de uma relação de servidão de passagem (sou eu quem dele se serve, evidentemente), encravada no caminho semanal que empreendo rumo à zona centro. Sou um homem do sul, nado e criado perto da luz e do calor, e sei que morreria por dentro se me ofertassem como alternativa de vida a carência destes ingredientes que me afagam o coração e beijam o rosto. Amo os ósculos do sol e a sua língua de fogo que me enleva e amarrota a mente com desejos constantes de evasão. Está um tempo peganhento, viscoso, um daqueles finais de tarde tórridos em que custa respirar e apetece despir a própria pele. Já bebi uma quantidade incomensurável de água mas a minha sede não parece querer aplacar-se. Custa-me à segunda-feira, nos momentos em que viajo de automóvel, cedinho pela manhã, com o sol alaranjado erguendo-se no horizonte, pronto para atormentar quem não pode suster-se nos refúgios frescos, saber que vou a caminho do trabalho, rumo aos papéis – trágico destino. Congemino, por entre assobiadelas e estações de rádio mal sintonizadas, que deixo para trás a grata memória de um fim-de-semana pleno que começou na noite de sexta-feira em Cascais. Por entre fiadas de mesas perfiladas nas ruas, engalanadas com cotos de velas de chamas hirtas, para gáudio das muitas cabeças loiras que acenavam copos de verdete e riam, soavam músicas tradicionais portuguesas; canções da minha longínqua infância que derretiam ternuras nos ouvidos dos turistas. No passeio, por entre as árvores, uma Feira do Livro fabulosa, plena de novidades, com bancas de volumes usados, outros somente manuseados, verdadeiras pechinchas literárias a céu aberto, faziam as delícias dos leitores que por lá passavam. Muito perto, uma barraca de churros – os famosos «les frites» – maculou-me a contenção e não pude evitar comer logo ali meia dúzia deles, bem regados com canela e polvilhados de açúcar. ["A linha, a linha!" - dizem-me - La Línea faz-me sempre recordar o sul de Espanha, perto do rochedo de Gibraltar e os muitos bons momentos aí passados.] Já perto da meia-noite seguiu-se o Estoril, o Casino; evidentemente, não para jogar, mas para me deixar escorregar num sofá, junto ao palco do «Du Art Garden», deliciando-me com o profissionalismo da orquestra residente. Todas as noites aqueles musicantes anosos, de fatiota escarlate mal amanhada, lendo com fluidez as pautas, interpretam, com o glamour da época, glórias dos anos sessenta. Fechando os olhos, sem esforço, imagino-me algures num salão chiquérrimo de Las Vegas, espectador de um concerto do Tom Jones, do Sinatra ou do Donny Osmond. O caso é deveras sério pois até nos gostos musicais estou ficando cada vez mais bizantino. Mas que hei-de fazer se me sinto feliz assim, envolto em revoadas de nostalgia?... Às quatro da madrugada o meu Corsa esgueira-se timidamente por entre as pernas maiúsculas dos Lamborguini Murciélago e dos Bentleys Cabriolets, cujos proprietários começam a abandonar as salas da roleta. Na marginal, já de volta a Lisboa, múltiplas auto-caravanas servem comidas e bebidas noite dentro aos últimos resistentes. Há muitos carros estacionados à beira-mar e no interior parezinhos entrelaçam-se como se estivessem interpretando bailados de sombras chinesas, sugerindo bizarrias no lusco-fusco do teatro da noite. A lua aguenta-se firme, lá em cima, sem cair. Eu conduzo de vidros abertos, peito ao léu, e obviamente sorrio. Sábado, onze horas da manhã, a Lagoa de Albufeira está atulhada. A temperatura exterior ronda os 41º positivos e as margens de um lado e do outro pululam de gente. No Cabo Espichel, junto às brisas oceânicas, sempre está mais fresco. É para lá que vou. Impressionante foi ver dois automóveis completamente desfeitos no fim da arriba, junto à água, num local quase inacessível. Tratava-se dos dois derradeiros suicidíos, entre os muitos que todos os anos por ali têm lugar. É um ritual que já vem de longe: aceleram os carros desde a Capela da Nossa Senhora do Cabo, sempre em direcção à falésia, e depois é um salto em queda livre, de mais de cem metros, que acaba inevitavelmente na explosão da viatura e na morte imediata dos ocupantes. É infalível. Mais tarde, Sesimbra, o Castelo, uma das vistas mais maravilhosas da região. Lá em baixo, na vila, perto do molhe e do Porto-de-Abrigo, uma sardinhada, com salada de tomate, pepino alface, azeite, batata cozida e pão, rematam o dia tórrido. À noite soube bem o passeio pela marginal. A companhia era bastante agradável, condizente com a noite. Domingo, um caldo de cultura impregnado de requintes: Ópera germânica no Museu Nacional dos Coches – obras de O. Nicolai, C.M. Von Weber, interpretadas pela Belle Epóque Salon Orquestra. Um festival memorável! Um jantar na Portugália, junto ao espelho de água do Padrão dos Descobrimentos, pôs fim às breves viagens na minha terra. Agora que aqui estou de novo, nesta auto-estrada sem rasto, de dedo indicador direito encristado no botão de sintonia do rádio, tento com desespero afastar as estações regionais da insistente invasão da minha privacidade. Os meus ouvidos oram pela familiar sonoridade da RFM. À direita o Mosteiro da Batalha já se apresenta. Estou perto. Jorge Rebelo 31.07.2007

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Esvaimento de adjectivos

São precisos inúmeros adjectivos para qualificar o peso da minha substância neste preciso momento. Ensaio, por isso, mencionar apenas alguns dos muitos que se soltaram da minha mente, sem que para tal tivessem pedido licença: absorto; aceite; aceso; assente; cativo; convicto; correcto; descalço; directo; dissoluto; entregue; envolto; ganho; gasto; nado; morto; salvo; solto… (soltissímo no grau superlativo). Acrescento que o vocábulo «morto» é o particípio de morrer, mas tem tendência a estender-se a matar. Todos os cuidados são poucos nesta matéria de vida e/ou morte; e a esta preocupação não é alheia a temática de escrita do conto instantâneo que vai nascendo neste blog, à boca de cena dos dias em que (ele) acontece. Jorge Rebelo 27.07.2007

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Belle Epóque Salon

Belle Epóque Salon Orquestra
Viajando pelo Mundo da Ópera e da Opereta, em concerto nos dias 29 de Julho, 26 de Agosto e a 30 de Setembro, sempre às 17h.00 horas. O Museu Nacional dos Coches organiza até ao fim do ano uma série de concertos de ópera com entrada gratuita. No ano em que se comemoram 4 séculos de ópera, o objectivo é possibilitar ao público uma viagem pelo mundo da ópera e da opereta, ao som da Belle Époque Salon Orquestra.
Ópera Alemã, Obras de O. Nicolai, C. M. von Weber, Fr. von Flotow - 29 de Julho O Esplendor da Opereta, Obras de Fr. Lehár, E. Kalmann - 26 de Agosto Ópera Francesa, Obras de G. Bizet, J. Massenet, Ch. Gounod - 30 de Setembro
Eu não vou perder o espectáculo este Domingo, em Belém, no Museu Nacional dos Coches.
PS. É óbvio que são meus/minhas convidados (as) e, inclusive, se preciso for, pagos os ingressos.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Hiper - realismo II - O post em si mesmo

A fotografia que faltava. O PC dentro do PC visto dentro de outro PC. Uma espécie de matrioska netiana tardia, ou os devaneios de quem está a fim de efectuar experiências do VI grau às 22.40 do dia seguinte. Antes as mãos...
J.R.
25.07.2007

Hiper-realismo - o post em si mesmo

Foto em tempo real (00.05 minutos). O Madrigal anda à cata de letras, o sono tarda e uma estranha vontade de fotografar as mãos apoderou-se dele. Eis a mesinha minuscula onde colocou o seu note book, a placa Vodafone aprestada do lado esquerdo, o ratinho a postos sobre o suporte azul. Quem sabe que partes do corpo se seguirão? Esperemos que este insano desejo não evolua para outros territórios e não reste na memória de alguém imagens de ideias menos felizes...
J.R. 25.07.2007

terça-feira, 24 de julho de 2007

A minha mão direita ( um caso de ciumes)

O ciume é uma coisa muito feia, em especial quando se trata dos ciumes que a minha mão direita sente em relação à sua irmã esquerdina. Assim que se apercebeu que a sua vizinha tinha direito a uma postagem no blog, a dextra logo tratou de me enfrenizar a cabeça com uma crise de ciumeira terrível. E não se bastou por aí. Aduziu-me argumentos de peso: que ela era a mão mais importante, a outra não passava de uma mera coadjuvante; que nos momentos mais difíceis, era sempre ela quem engendrava as soluções necessárias; que era ela quem detinha o recorde dos carinhos e afagos ao longo destes quarenta e seis anos de existência como mão; que era dela que certas pessoas se iriam lembrar para sempre e não da esquerdina: «um mero apêndice secundário que mora do outro lado»; que eu tinha de lhe estar eternamente agradecido, inclusive pelas conquistas amorosas, pois era ela, não a outra, a mais sedutora de ambas. Enfim, pintou-se como sendo o supra-sumo das mãos e quase me fez acreditar que algum dia eu dispensaria uma em prol da outra. Deus me dê paciência para as aturar já que estou condenado a viver por mais algum tempo na companhia de ambas.
Jorge Rebelo
24.07.2007

A minha mão esquerda

Apeteceu-me publicar uma foto da minha mão esquerda, talvez porque a direita tivesse de ficar a segurar a máquina e não por uma questão de discriminação de mãos. Vi um dia no blog da minha amiga virtual, Noz Moscada, um post com fotos das suas mãos e achei tão intimista a ideia que resolvi plagiá-la, só que, claro está, usei a minha mão esquerda como modelo fotográfico, à falta de outras mãos que estivessem por perto. As mãos, logo a seguir aos olhos são, em minha opinião, as peças do corpo mais importantes para a expressão das nossas emoções. São elas que acariciam, que tacteiam, que se entrelaçam noutras mãos, que seguram as coisas, que gesticulam, que apontam caminhos a seguir...que seria de mim sem as minhas mãos? É com elas que escrevo estas palavras singelas, sem grandeza de significado mas eivadas de verdade.
Jorge Rebelo
24.07.2007

Noites brancas

Despertei com a onomatopeia da ausência. Um sono sem som: indemne, inepto, lasso, Que me tomou o corpo inteiro pelo braço, Arrastando-me p'ra fora da cama sem anuência, Como se a noite já não tivesse espaço, Para lustrar, no dormir, mais do que a aparência. O facto de estar acordado comigo a meu lado, Sem a morfina do sono que o atiça, É como uma vela sem vento numa noite mortiça, Uma enfermaria lúgubre que guarda, no cuidado, Ecos entrosados de gemidos ténues já sem chamiça. Sou um sono sem sono à espera da vontade, Daquela mesma que não vem porque não há. Só o martelo pungente, recidivo, de cá, Troa, nas fraldas da noite, uma tal infelicidade: Ser de novo o herói malquisto num romance de Sade. Já não durmo o sono nos caracóis loiros da fada, Nem sinto mais a sua fragrância sensual: Esse apelo irreprimível de não abrir os olhos até ao final, De uma noite sonhada p'ra lá dos salpicos da madrugada, Sem idas e vindas à casa-de-banho que, por sinal, É testemunha cúmplice do catre suado que me guarda. Oh, que vontade de dormir um sono mais justo! Malsinar toda a insónia, por serva do Diabo, Desafinar da consciência o interruptor do afago, Irradiando da noctívaga vigília a cor do susto, Ser mesmo verdade que com esta catarse me basto. (Barreiro 2003)

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Um lente na Patagónia (conto a quatro mãos)

[Um conto escrito a quatro mãos, iniciado por mim e continuado pela minha amiga, Luísa Azevedo. Uma experiência de partilha de escrita, duas sensibilidades, dois estilos, quatro mãos.]
Chamo-me Hélio Isidoro Cassiano Marofas. Nunca gostei do meu nome. Quando me perguntam o que faço na vida nunca sei ao certo o que responder. Sou fazedor de códigos. Tirei uma licenciatura em jurisprudência há mais de trinta anos e, passados que foram mais de vinte anos de ensino público, dediquei-me a esta tarefa inglória. Actualmente é com isto que governo a minha vida: compilo legislação, recolho leis avulsas, reúno colectâneas, plagio códigos e limito-me a oferendar-lhes um preâmbulo cujo título começa invariavelmente pelas mesmas palavras: Nota do autor. O autor não pode ser a minha pessoa, como é evidente; e é aqui que começa a desonestidade intelectual e a trama da culpabilidade que se desenrola dentro de mim. Arrogo-me autor de leis arquitectadas por juristas cujas identidades se perdem no tempo, diplomas que foram mais tarde modificados por outros; gentes que labutam no anonimato nos gabinetes esconsos dos ministérios e cujos nomes nunca vêm à ribalta. Tenho a ousadia de editar códigos jurídicos com o meu nome impresso na capa, como se tratassem de realizações saídas da imaginação e labor de um autor de prosas. Sirvo-me indecentemente dos meus estafados pergaminhos académicos e das influências que granjeei junto das editoras da especialidade, para juntar umas patacoadas, a título de intróito, e dar a uma colectânea legislativa o privilégio de me ter como pretenso progenitor. Os meus colegas dizem-me para não me sentir assim. Dizem eles que até um código carece de alguma humanidade e é um beneficio que concedo à aridez das régulas dar-lhes um nome, uma paternidade. Ganho bastante dinheiro com este mecanismo fraudulento e sei de antemão que é o meu nome que vende e não a a falácia do meu trabalho – esse nem existe! Moro só e tenho caspa abundante no cabelo. Já fiz sessenta e dois anos e não tenho mulher, filhos, nem pretendentes a uma coisa ou outra. Sou aquilo que se pode chamar um homem desinteressante, credenciado pela mediocridade institucional de uma escola de propaladores de doutrinas alheias. Aprendi, como todos, a arte e o engenho da reformulação, de forma a dar a entender que aquilo que escrevo é algo original e não a redundância clássica do lente universitário que precisa granjear uma escola para sobreviver como tal. Actualmente estou de férias na Patagónia, planejando mentalmente um homicídio, ou talvez isso seja só um desejo insano que nunca terá concretização. Nem sempre o corpo docente de uma Universidade se anima de boas intenções. São conhecidas as rivalidades, os extremos da maledicência, as teias de intriga que por lá se desenvolvem e encontram-se aí exemplos de baixeza sem par, mantidos sotto voce e, felizmente, ignorados pelos discentes e pelas gentes em geral. No entanto, os casos em que se resolvem por homicídio são, quero esperá-lo, bastante raros, constituindo uma excepção. Não gostava de ficar conhecido como o professor assassino mas, por outro lado, o que tenho eu a perder? Um colega mais novo, cheio de mestrados e doutoramentos obtidos em universidades americanas, anda a arruinar-me o negócio próspero das edições. Será que ele não se apercebe que nestas coisas há monopólios, uma primazia tácita dos mais velhos face aos que ainda não chegaram às luzes da ribalta? A vingança não é uma modalidade criminosa simples. É muito subjectiva. Fundamental na vingança é que o objecto do ódio tenha a perspicácia de dar por ela. Se cremos que nos vingámos e o outro prossegue na sua vida bonaçoso, indiferente, então não nos vingámos. Isto implica um conhecimento profundo do sujeito de quem pretendemos vingar-nos. Mas o que é o nosso conhecimento do outro senão um caos de interpretações, de pressupostos, de hipóteses, de mal-entendidos, pousados eles mesmos sobre uma série de omissões, máscaras, de silêncios, de vazios? É um estranho conhecimento, uma quase ignorância. Não é o medo da retaliação que impede vingar-me dele. É antes este aspecto contingente. Não o vejo minimamente preocupado com os meus anteriores avisos e a manifestação clara do meu desagrado. Quando regressar destas férias auscultarei a minha real vontade. Para já, faltam quinze minutos para a meia-noite e não quero perder por nada deste mundo a reprise da abertura dos Jogos Pan-Americanos. Já pedi que me trouxessem uma garrafa de rum cá acima ao quarto. O reclamo luminoso do hotel está quase a fundir-se e receio que não passe desta noite. Agradeço à divina providência por isso, pois já não suporto mais a intermitência do néon abusando do interior do meu quarto noite dentro. Jorge Rebelo 19.07.2007

Contrariamente ao meu receio, o reclamo sobreviveu toda a noite no seu odioso piscar contínuo. Não suportarei outra noite igual. Urge apresentar a devida reclamação, a tempo de resolverem esta questão durante o dia de hoje. Felizmente não é sábado ou domingo e não creio que seja dia festivo, não haverá lugar a desculpas do tipo "perdoe mas só na próxima segunda-feira poderemos chamar um técnico". Sei que não há outro quarto vago pois, à chegada, assisti a um pequeno desaguisado entre o gerente e um casal que se queria instalar. De nada me adiantaria exigir mudar, pois não teriam como o fazer. Nas voltas dadas na cama, numa luta contra um néon, num funde não funde, desembestado, não relembrei os bonitos momentos dos jogos. A luz sibilada trazia-me à memória aquele ser bem apessoado, bem posto, de cabelo farto, sempre com a mesma colónia que deixava à passagem. Indubitavelmente incomparável à minha pessoa. Cada minuto passado, cada volta dada na cama, cada piscar de néon me impunham o planejar de uma vingança. O dia amanheceu com o sibilo do reclamo quase no seu fim, deixou de fazer sentido estar acesso, pois terminara o tempo de me atormentar. A vontade de sair daquele leito desconfortável não era grande. De longe a luz do sol àquela tortura. Ainda hesitei e tentei aconchegar-me nas covas permanentes do reles colchão, fazendo um esforço por passar pelas brasas. De nada valeu a minha exaustão. Acabei num duche morno que demoradamente tentei apreciar num wc acanhado e pouco iluminado. Sai do quarto com roupa quente apesar do cabelo molhado, penteado para trás. Pensei comprar uma colónia no primeiro supermercado que encontrasse.

Olhei os meus pequenos pés e perguntei-me que fazia eu numa região assim baptizada, dado o vistoso tamanho dos pés dos seus habitantes. Aliás, que fazia eu num local tão longínquo e com tantos contrastes naturais. Neste pensar, fui andando até ao salão reservado às refeições. O pequeno-almoço foi muito bem servido, dispôs-me bem. Que faria um homem mais jovem, bem parecido, a exalar um perfume masculino, de cabelo molhado puxado para trás, nestas paragens? O meu percurso, os meus dias, não estavam ainda organizados. De repente passou-me pela cabeça gozar as férias de outro. Planear os passeios como imagino os planearia. Talvez esta vivência me trouxesse algum conhecimento interior do outro, os seus gostos, os seus medos. Talvez os meus intentos saíssem valorizados com esta nova experiência de vida. Sai do quarto com roupa quente apesar do cabelo molhado, penteado para trás. Pensei comprar uma colónia no primeiro supermercado que encontrasse. Apesar da noite mal dormida ou não dormida de todo, os meus sessenta e dois anos estavam rejuvenescidos. Havia ainda o caso do néon para resolver e sentia-me vigoroso para a abordagem. A sua resposta foi pronta e curta, não disse mais que "com certeza, chamarei o técnico imediatamente." Agradeci e sai levando comigo um prospecto a anunciar as viagens aos glaciares, uma vista a uma "loberia". Lobos marinhos? Seria um passeio gélido. Interessante para um homem jovem? Vou informar-me sobre estas excursões, mas não antes de encontrar um aroma que permaneça nos locais por onde passo. Já na recepção, depois de ter ido ao quarto buscar um agasalho, confrontei o funcionário com a minha indignação. Apeteceu-me ser trocista e perguntei-lhe como tinha passado a noite. Afável, respondeu que bem e devolveu-me a pergunta. Era a minha deixa. Pois meu amigo, devo confessar-lhe que simplesmente não a passei, foi a minha resposta. Força de expressão, naturalmente. O que quero dizer com isto, é que a passei em claro. Toda a noite os meus olhos dançaram ao som do sibilo do vosso reclamo acompanhados pelo contínuo piscar do mesmo. Venho pedir-lhe o favor de o mandar consertar hoje mesmo ou, caso isto não seja possível, o mande desligar. Não aturo outra noite de dança como a que passei. A sua resposta foi pronta e curta, não disse mais que "com certeza, chamarei o técnico imediatamente." Agradeci e sai levando comigo um prospecto a anunciar as viagens aos glaciares, uma vista a uma "loberia". Lobos marinhos? Seria um passeio gélido. Interessante para um homem jovem? Vou informar-me sobre estas excursões, mas não antes de encontrar um aroma que permaneça nos locais por onde passo. Luísa Azevedo 23.07.2007

«Dependendo das definições, a Patagónia é a região mais austral da América do Sul, rodeada pelos oceanos Pacífico e Atlântico e tendo por limites, a Norte, os rios Colorado e Bío-Bío. Esta enorme península com mais de um milhão de quilómetros quadrados corresponde a um terço do Chile e da Argentina, mas é habitada por apenas cinco por cento da população dos dois países. Verdadeira espinha dorsal, os Andes (com picos acima dos sete mil metros) fazem da Patagónia um território de extremos naturais: a Oeste, a faixa de montanhas chilenas densamente povoadas de florestas; a Este, a meseta semi-árida argentina.» «Em Puerto Montt, só temos duas estações: a do Inverno e a dos comboios» - o comentário ouvido da boca de um guia turístico poderia, certamente, ter algo de exagerado. Mas o vento frio e a chuva que caía ininterruptamente naquela manhã de Agosto (Inverno, no Hemisfério Sul), fazia temer o pior relativamente ao clima na Terra do Fogo. As temperaturas médias não ultrapassam os dez graus centígrados, no Verão, e os zero graus, no Inverno. Hélio estava sentado no átrio gigantesco do aeroporto internacional de Buenos Aires. Amarfanhava nas mãos um folheto turístico enquanto olhava os aviões que se movimentavam vagarosamente nos taxi ways. A Argentina em breve ficaria para trás. Uma música antiga de Astor Piazolla, soando ao de leve vinda das colunas de som penduradas nas paredes, impregnava o ar de um halo de mistério. De tempos a tempos, os informativos monocórdicos, ditos num castelhano quase imperceptível, informavam os passageiros dos atrasos nos voos. Aguardava-o uma viagem de cerca de quinze horas até Barajas-Madrid e depois ainda mais uma hora e pouco de avião até ao Porto, cidade onde apanharia um táxi até ao seu destino final. Só no dia seguinte chegaria a casa, provavelmente exausto, em parte devido à sua incapacidade absoluta de dormir em voos de longo curso. Um tédio absurdo apoderara-se dele. Já sentado no avião, com a face encostada à janela minúscula embaciada pelo frio exterior, sentiu um grato alivio por ir deixar para trás aquele país. Já não sentia a paciência necessária para lidar com a corrupção crónica que por lá grassava, a começar nos níveis mais elementares da cadeia social. A pobreza intimista, impregnada, que latejava em cada esquina, em cada bairro, na mente das pessoas, enojava-o. A Argentina pertence aquele grupo de países onde a vida é um concerto sem conserto, um pouco à imagem da sua vida. Em breve retomaria as suas actividades editoriais e, curioso, a ideia do assassínio começara a ganhar novos contornos na sua mente. Restava-lhe engendrar um plano e concretizá-lo. Porque não ensaiar o crime perfeito? Uma quimera, na lógica da literatura policial, de impossível concretização. Seria, porventura, o maior dos desafios que se colocariam à sua inteligência: urdir um plano que conduzisse à morte do Dr. Fábio sem que a sua pessoa em algum momento pudesse ser associada ao crime. Envolto nestes pensamentos, nem se apercebeu no imediato do homem que se sentara ao seu lado. A descoberta da sua própria homossexualidade era relativamente recente, já que sempre se julgara assexuado, ou fazendo parte de uma espécie ambígua, que se bastava sem as trivialidades da carne. Hélio era um homem de livros, sem tempo para essas coisas, ou pelo menos até há bem pouco tempo era assim que se via. Quando o aparelho acelerou na pista, passados uns momentos, sentiu que o chão já não fazia parte do seu mundo. Estava no meio das nuvens e a noite aproximava-se com grande rapidez.
Jorge Rebelo
24.07.2007
Madrid, 25 de Julho de 2007.
A aterragem foi atribulada, ao fim da terceira tentativa. Nunca tinha passado por uma situação destas, o suor cobriu-me a testa e escorreu-me pelas mãos já de si húmidas. Um momento de quase pânico sem ter um braço para agarrar, um olhar para trocar. Uma dualidade de sentimentos. Se me for não deixarei lágrimas, que ficariam talvez por anos. Da mesma forma, se me for, não tenho a meu lado ninguém a partilhar a ida, nem tenho um amor ou outro sentimento em que pensar. Pensei naquele cheiroso doutorzinho, vi-o rir-se do seu monopólio com a minha partida. Não! Esta coisa há-de aterrar sã e salva e assim foi. Nunca o sangue me tinha corrido tão rapidamente nas veias, nunca senti este calor invadir-me o corpo como num acto de amor. Não fora o medo, tive-o, tenho que admitir, consegui imaginar o prazer desta adrenalina a viajar-me pelo corpo. Consegui transpô-la para uma situação que nunca vivi e apenas presenciei em filmes ou li num ou noutro livro. Sempre que me deparei com essas imagens, com o sons e os gemidos que as acompanhavam, tinha a certeza tratar-se de momentos farsantes, de um abuso de sensações para provocar o espectador ou o leitor. Um contorcionismo improvável de causar tanto êxtase, tanto suor ou tantas lágrimas. Senti o meu arfar perder-se, à medida que a calma se instalava de novo no avião. Ouvi-o nessas recordações que nunca me tinham assolado, que eram para mim vagas, transvios de gente banal. Afastei-me desses pensamentos, recostei-me na cadeira até o avião parar por completo. Sem pressas, deixei sair os meus companheiros de viagem, que parecendo ainda com medo de algum acidente, atropelando-se, se precipitavam para a saída. A temperatura em Madrid era insuportável, impondo-me um suadouro desconfortável. Tenho que aguardar duas horas pelo próximo voo. A frescura do ar condicionado em Barajas, contrasta demasiado com a temperatura exterior. Uma tímida e forçada primavera, seja qual for a indumentária do turista. Não me agradam ambientes artificiais, mas suportar os 40ºC exteriores também não faz parte do que poderia chamar nem de pequeno prazer.
A bagagem seguia o seu percurso, sem ter que me preocupar em recolhê-la. Resta-me uma bolsa de mão em pele castanha um pouco gasta, ainda que não tanto como eu. Um mundo de gentes num vaivém de chegadas e partidas. Na diversidade, passo por um qualquer cidadão do mundo, sem que alguém me olhe desta ou daquela forma mais ou menos aprovadora, ou o inverso. Numa tabacaria atrai-me a atenção um dos títulos de um jornal - "Vive-se o inferno na zona da Lousã". Em Madrid também se informa a tragédia do país vizinho, também se vende a imprensa diária do nosso pequeno país. Novamente os incêndios em pleno Agosto. Uma foto de terror acompanha a notícia, gentes que fogem das chamas, casas fustigadas pelo fogo, bombeiros impotentes. O ar condicionado arrefeceu o ambiente em Barajas. São os meus conterrâneos que estão naquela foto, uns que fogem outros que tentam enfrentar a fera, mas são gente do meu país. Ao lado, outro jornal Português destaca o mesmo assunto. Quão alheado estou desta realidade, com o meu cabelo oleado puxado atrás e o meu perfume masculino pelo ar! Comprei um. Paguei com o cartão sem que a funcionária mostrasse algum sinal de aborrecimento, dada a quantia. Imaginei-me em Portugal a comprar um diário desta forma, impensável! A leitura devolveu-me ao mundo real, escrito na minha língua. Sabia que tinha ainda bastante tempo para me deliciar com textos e textos na língua de Camões. Acertei o relógio pela hora Portuguesa para não ter que me preocupar mais com o assunto. Tinham passado não mais que 45 minutos desde que iniciei a leitura, quando ouvi chamar para o meu voo, num castelhano exemplar seguido de um Inglês espanholado. Sem grande pressa, encaminhei-me para a porta 42 que anteriormente tinha verificado não distar do meu sofá. Dez passos dados e, qual não é o meu espanto, dou de caras com o candidato a cadáver.

Luísa Azevedo 25.07.2007

Formigal já não é mais aquele lugarejo inóspito nos arrabaldes do Porto. Uma espécie de aldeola frugal composta por ruas estreitas, bordejadas por um casario raso, que até há pouco tempo nenhum mapa reconhecia com detalhe e atenção. No espaço de poucos anos, a povoação cresceu numa progressão geométrica e de forma assustadora. Tem dois museus, uma biblioteca, um cinema, restaurantes e bares; instituições e empreendimentos; e inclui mesmo um hospital psiquiátrico onde se cuidam, pelas mais iluminadas técnicas anti-depressivas, as vítimas do psicologicamente implacável estilo de vida solitário. Já estou internado neste hospício há mais de três anos e sinto-me bastante melhor. Hoje, nem sei já a que propósito, acordei com vontade de esmiuçar as ténues memórias da minha vida passada. Talvez por ter encontrado no forro do meu casaco beije, um escrito completamente amarrotado que me fez relembrar acontecimentos que julgava arredados da minha memória. Li, com a hesitação mais própria de um iletrado, o texto de fio a pavio e conclui que só podia ter sido mesmo eu a escrevê-lo. Levantei os olhos das folhas pautadas e senti a brisa morna do final da tarde tocar-me ao de leve na face. Os meus pensamentos erguiam-se para longe, como se fossem levados pelo voo de uma águia, e continuavam pelo oceano fora, sobrevoando barcos minúsculos, cristas de espuma, águas esverdeadas profundas, picos de gelo e de fogo; voando sem parar sobre campos infinitos, casas brancas, telhados negros e cidades atulhadas de tudo. A Patagónia. A Argentina. Tudo voltara. Porque o matara eu? Ninguém conseguiu aduzir argumentos que o explicassem de forma satisfatória. Embora tivesse sido considerado inimputável pela justiça, por me ter sido diagnosticada uma «síndrome de insanidade momentânea, com total incapacidade de autodeterminação» – assim rezava o despacho do juiz do capachinho: um ser pequenino, franzino, com voz aflautada, que decidira deste modo o meu destino, após uma extensa bateria de exames psiquiátricos, feitos pelos mais reputados físicos da especialidade. Perante o meu estado de confusão mental e a incapacidade absoluta de explicar as razões do meu tresloucado acto, impuseram-se a reforma compulsiva e o encarceramento por dez anos neste estabelecimento que já sinto como sendo a minha casa. A verdade só eu a sei e creio que morrerá comigo, pois não deve interessar a mais ninguém. No aeroporto madrileno, naquele início de tarde sufocante, em que aguardava em trânsito o avião que me levaria a Portugal, a minha obsessiva vontade de matar julgou ver o objecto dos seus instintos assassinos. Acabei por espetar o estilete para fondue, que acabara de roubar na cozinha do restaurante junto ao free-shop, no pescoço da minha vítima - um pacato pai de familia que tivera a má sorte de se parecer em fisionomia com o Dr. Fábio Leite. E espetei-o várias vezes, tresloucadamente, até ficar completamente alagado com o sangue vermelho escuro que saia às golfadas das suas artérias esventradas. Só parei quando fui segurado por mãos fortes e não me lembro de mais nada. A minha consciência só se recuperou muito tempo depois. Contaram-me que, nos momentos que se seguiram ao acontecimento, cai num estado de letargia muito próximo do autismo e fiquei desse modo durante bastante tempo. Há muito que aprendi a guardar os comprimidos num canto da boca para os cuspir de seguida. Mantenho-me pouco comunicável mas sempre com a docilidade e bonomia que por aqui granjeei. A consciência da minha inteira lucidez é coisa que só a mim me diz respeito. Tenciono, na altura devida, agir, isto é: escapulir-me daqui e corrigir certos erros na minha trajectória de vida. A verdade é que se pode aprender muito sobre os doentes mentais e a sua relação com os médicos, mantendo a cabeça fria e os olhos abertos. Como em todas as relações humanas, também este contacto tem por base a confiança. É aí que a minha inteligência vai de novo guindar-me aos pícaros das soluções mágicas que sempre encontro para os meus problemas. O Fábio tem de morrer e isso é para mim uma verdade inquestionável. Palavra de Hélio.
Jorge Rebelo
26.07.2007
Senhor? Senti uma mão a abanar-me ligeiramente o ombro que me obrigou a abrir os olhos. «Agradeço que endireite as costas do assento e aperte o sinto de segurança, estamos a aproximar-nos do Porto». A voz era doce, feminina e induziu-me uma estranha tranquilidade. Por momentos perdi-me no tempo, procurei em vão o meu quarto. Formigal? O meu casaco bege? Tentei relembrar o meu estado de loucura, alguma bata branca… nada. Formigal não podia ter ficado para trás! As golfadas de sangue pelo chão de Barajas! Endireitei a cadeira, respirei fundo, olhei a jovem a meu lado sentada, reconheci-a. Cerca de duas horas antes tinha-me pedido para trocar de lugar com ela, ficando lado da janela. Pela primeira vez em anos, nem podia crer… pela primeira vez em anos. Nunca tinha sucumbido ao cansaço num voo. Que sinal! Que me quereriam dizer as nuvens? Foi tudo tão real, tão vivido… talvez também pela primeira vez em anos. Palavra de Hélio, foi o que me restou das horas anteriores. Senti fome. Optei por não comer nada em Barajas e este voo a seco deixou-me o estômago numa longa solidão. Levantar a bagagem era algo que dispensaria. Não trazia recordações palpáveis, das roupas poderia abrir mão. Havia um ou outro livro, uns escritos. Nada de comprometedor mas, não sabendo que consequência teria deixar a minha mala às voltas sem fim, nem dei ouvidos à minha vontade. «Táxi!» Agora já nem é necessário chamar. Perfilam-se entre beges e negros de telhado verde. Saem à vez do tapete que lhes está destinado, sem os antigos atropelos de clientes e motoristas. «S. Mamede, se faz favor, junto à igreja!» Ainda não tinha o cansaço resolvido e, tendo em conta o que se passou no ar, achei que recostando a cabeça ainda passaria pelas brasas. O trajecto pareceu curto, dada a rapidez com que cheguei a casa. De novo em casa, um ambiente que me acolhe há anos. Tudo parecia no sítio, limpo e arrumado. A Dª Celeste vinha duas vezes por semana para fazer a limpeza, arranjar-me a roupa, fazer uma panela de sopa de quando em vez. Durante as minhas férias manteve as visitas, arejou a casa aproveitando a ausência. Não gosto das correntes de ar que por vezes diz serem necessárias às limpezas. Devem ter aberto todas as janelas. Deixou a luz entrar e instalar-se em todos os cantinhos, mesmo os mais escondidos. Usou e abusou da água, da cera e dos seus esfregões. Até a minha estante parecia mais luminosa. As capas dos meus velhos livros tinham uma cor menos pálida. O tapete de Arraiolos herdado da avó paterna tinha sido ligeiramente restaurado e, de tão limpo, tinha novamente o seu tom vermelho em destaque. A senhorinha tinha sido limpa com algum óleo e o tecido parecia ter mais flores que nunca. Quadros de cara lavada, cortinados aprumados e flores do campo numa jarra, cuja boca partida virou para a parede. É uma mulher de trabalho, uma lutadora. Com um filho deficiente e um marido amigo de uma boa pinga, trabalha para os três sem maldizer a vida. É sábado, ainda terei o domingo para pôr o sono em dia. O excesso de arrumação está a baralhar-me um pouco mas a verdade é que gostava de a conseguir manter. Arrumei os livros que levara comigo, meti toda a roupa no balde e decidi tomar um duche. S. Mamede não está mais arrumada que quando a deixei. A Dª Celeste teve comigo uma preocupação que ninguém dedicou à vila. Ainda o mesmo carro abandonado quase à porta da igreja, já com erva a crescer acima dos pneus. Os dejectos dos cães seriam recentes, mas vinham para substituir os que cá deixei. Dei uma volta pelo centro sem encontrar nenhuma cara conhecida. A vida faço-a no Porto. Aos fins-de-semana pouco ou nada saio. Rendo-me à leitura, à sonolência, ao isolamento.

Luísa Azevedo 27.07.2007

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Ivo Pessoa || Uma Vez Mais (Alma Gémea)

Não é a primeira vez que coloco no «Madrigal» este clip de Ivo Pessoa. Quem sabe não vou conseguir vê-lo "ao vivo" no Festival de Niterói, em Dezembro, no Rio. Ivo é um dos grandes cantores românticos do Brasil e, para a minha sensibilidade acústica, com uma voz mais melódica do que Roberto Carlos. Gosto muito dele.

A ti

Vi chuvas cinzentas a correr para as ondas, erguendo os seus tenros braços lacerados, para não serem travadas pelas areias dormentes, Vi a chuva penetrar nos teus olhos, na tua boca, escorrendo sobre o teu peito, e o meu sentir por ti inundando-te com lágrimas de amor e sal, E sob a água, jazendo nestas palavras, limos de vozes perdidas, longe da margem, entre as árvores, onde resto eu, menino, ao relento do teu amor.

(Leiria 2007)

Ver-o-mar

Foi assim como Ver-o-mar, A primeira vez que os meus olhos se viram no seu olhar, não tive intenção de me apaixonar mas, ainda que por distracção, e já era o momento de gostar.
(Barreiro 2003)
Jorge Rebelo

Doce Quimera

Como outrora, Eu quisera Agora - Doce quimera – De novo encontrar Não um brinquedo lindo Que me pudesse encantar Mas um pouco de beleza Um pouco de alegria Que viesse aliviar Essa profunda tristeza A que chamava: a minha melancolia.
(Barreiro 2001)
Jorge Rebelo

O mistério da saudade

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro encantado. Ele era encantado essencialmente por duas razões: não vivia em gaiolas, vivia em liberdade e vinha quando queria, quando tinha saudades… e sempre que voltava as suas penas tinham cores diferentes, as cores dos lugares por onde tinha passado. Certa vez voltou com as penas imaculadamente brancas e contou histórias de montanhas cobertas de neve; outra vez, tinha as penas vermelhas e contou histórias de desertos incendiados pelo sol…era grande a felicidade quando eles estavam juntos, mas sempre chegava a hora do pássaro partir… A menina chorava e implorava: «Por favor, não vás! Terei saudades tuas e vou chorar…». «Eu também terei saudades» – dizia o pássaro - «mas vou-te contar um segredo: eu só sou encantado por causa da saudade. É ela que faz com que as minhas penas fiquem bonitas…senão tu deixarias de me amar.» E partiu. A menina, sozinha, chorava e certa noite teve uma ideia: «E se o pássaro não partir?! Seremos felizes para sempre! Para ele ficar basta que o prenda numa gaiola…». E assim fez. Comprou uma gaiola de prata, a mais linda que encontrou. Quando o pássaro voltou, abraçaram-se muito, ele contou as suas histórias e adormeceu. A menina aproveitou o seu sono e engaiolou-o. Quando o pássaro acordou deu um grito de dor: «Ah! O que fizeste? Quebraste o encanto!. As minhas penas ficarão feias e eu esquecerei as histórias. Sem a saudade o amor irá embora.» A menina não acreditou, achou que ele se acostumaria… Mas não foi isso que aconteceu. Caíram as plumas e as penas transformaram-se num cinzento triste. Não era mais aquele o pássaro que ela tanto amava…Até que um dia não aguentou mais, abriu a porta da gaiola e disse: «Podes ir, pássaro, volta quando quiseres…» - O pássaro disse-lhe: - «Obrigado! Irei e voltarei quando ficar encantado de novo. Tu sabes, ficarei encantado de novo quando a saudade voltar dentro de mim e dentro de ti…»
[Quantas vezes aprisionamos quem amamos pensando que estamos fazendo o melhor? Deixar livre é a forma mais singela de ter alguém e, quem sabe, a mais pura…Devemos direccionar o amor não para a prisão mas sim para a conquista, e sempre...]
(Barreiro 1999 - histórias contadas à filhota]

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Cavalo à Solta - Fernando Tordo (Ary dos Santos)

Uma canção dos meus tempos de juventude. A revolução ainda estava fresca. Tornei a rever Fernando Tordo numa festa partidária, há poucos anos atrás.

Lisboa menina e moça

Imagens da cidade mais bela de Portugal, sem desprimor para o Porto que também é inegavelmente muito bonito, sem que se aproxime da cidade-luz.

Auto-retrato

Nado dos humores, das ideias esparsas, sem idade, Filósofo, carnal, sensual, turbulento, instável, Como o voo errante de uma gaivota sobre uma tempestade; Intolerante com os falhos de sensibilidade, Amigo das artes, das flores, dos gatos, da natureza, Das paisagens de aguarela, dos poentes, concerteza, Dos cemitérios, das coisas tétricas, da amoralidade, Da poesia e prosa poética de catarse mais acesa; Amante fervoroso do ádito do feminino, em folia, E incansável desses prazeres, mas tão Grato, também, por certos momentos de solidão, Tão caros e condizentes com a sua melancolia; Amante dos livros, do saber, das mechas da cultura, Mas de inteligência mediana, quase trivial, Antes carente, movido por ternuras sem rival, Pelo amor de hoje, que é a presente ventura, Quiçá tolhido pelas dores de tanto insano ideal; E por assim ser, incapaz de mudar a génese do discurso, Gémeo da sua visão [que são uma e a mesma coisa], Inepto se torna medir-se a si mesmo em último recurso. (Barreiro 2002)

Sem ti...

Sem ti não há lua nem estrelas. Sem ti não há nada, Só este imenso vazio na madrugada, Que molha de lágrimas o meu rosto. E, desde que foste, Sem ti não há nada. Sem ti já não há primaveras nem mariposas. Sem ti perdeu-se o sentido das coisas, Todos os dias são obscuridade. Sem ti o silêncio é a eternidade, Só as sombras me esperam. Sem ti não há nuvens nem sóis. Sem ti não há nada: Não há mares doirados nem azul profundo; Não há paisagens neste mundo. Sem ti a vida vai como vem. Ficou-me, de ti, este choro de rebentar, A eternidade do teu silêncio, Este imenso vazio imigrado em mim, Que continua e dói madrugada dentro. (Barreiro 2003)
Jorge Rebelo

terça-feira, 10 de julho de 2007

O pior momento

O sol já raiou de olheiras e repassa com um brilho pardo, através de vidraças sujas de anos parados, o silvedo da minha secretária, o meu semblante, os meus livros, a minha síntese, os sobejos de mim. Sinto a hora como o apelo, a sinopse pintalegrete, de parar com as chalaças e voltar ao soturno da vida, deixar de ser esta picareta escrevente que tem, por zénite, uma pilha enorme de roupa por passar a ferro. O turbilhão disforme das ruas é por mim sentido como um estalo, uma mescla indizível e pictórica de seres que se movimentam, com o propósito revelador de um movimento espiral, resoluto mas sem reptos, antes represo, como o acto ou efeito de respirar, sebenteiro, e tornado secular, como a força atractiva que a terra exerce sobre os corpos, qual grazinas imoladas no altar do sacro quotidiano. Sou a sempiterna sentina destas visões que me atordoam, e que renego, por mera incapacidade de absorção, como o réu acusado de um crime que não cometeu, radiofundido por um ódio profundo e desbragado, de bicéfalas mentes, betumadas pela mediocridade impartível da intolerância imódica, impudente e embalsamada, na incapacidade de me aturarem como sou - tão diferente desses consórcios artificiados pelas circunstâncias. Nem me julgo melhor, nem pior que os outros, sou antes um inconformista de pesos pesados, eterno emigrante desta estranha forma de vida, um emissor dos meus enfermiços e expatriados pensamentos sem destinatário, que nobilito pela mera impertinência de senti-los em demasia, sem neutralidade negociável, como um trecho musical melancólico que se escuta pelo prazer inconfessável, e inato, de gostar de estar triste, ou como a dor indizível de uma felicidade achada e logo perdida... (Barreiro 1999)

Jorge Rebelo

O meu tempo

Já olhei para a minha mão, Para o meu rosto, E revi tanta afeição, tanto susto, Tanta caricia servida sem razão, Até amores que denunciam um novo gosto. Já olhei para mim de perto, E vi os anos deglutirem, Amarrotarem, As sedas do meu futuro incerto, E com os lenços acenarem. Já olhei para trás de mim, Para o pretérito imperfeito, Com que todos os dias me deito, Num rodopio semântico sem fim. Uma gramática com pêlos no peito. Já olhei para o recorte da minha sombra, Sombra que é igual a mim: Um livro de capa e espadachim, Um elefante que lhe falta a tromba, Um suave lenitivo p'ra não fugir assim. Já olhei para os outros, Trabucadores com que amiúde me cruzo, Fazendo o caminho contrário do talento: Semblante roto, pingando sonhos, Títeres que só pensam no momento. Já olhei bem para aquilo que escrevo, Quando o querer me trai, Ler os desmandos que esvai, Coisas de que só eu sei o enredo, Momentos em que Eu sou e não menti.
(Barreiro 1994)
Jorge Rebelo

Escrita intuitiva

Vou fazer algo que há muito tinha vontade e agora me deu na real gana: inaugurar um texto de escrita intuitiva – escrita de jorro – sem pausas relevantes, onde as palavras possam sair à rédea solta, como cavalos selvagens correndo contra o vento numa planície. Estou a cair de sono, positivamente a cair da cadeira abaixo, hipnotizado pela luz cintilante do ecrã do monitor; as letrinhas das escrituras dançam irrequietas, ensaiando significados indecifráveis, linguagens rebuscadas, frases gastas pelo uso, abusadas, sem originalidade ou graça, como um recurso estafado a que todos recorrem, não fora essa a estilística comum dos intróitos contratuais. Escrevo sem correcção ou censura e rio de mim mesmo, dos outros, de tudo quanto me rodeia, da solenidade, de farsa que a todos nos envolve, das cortesias profissionais, dos esgares, dos gestos estudados que abundam neste mester sem graça e concluo que sou um patinho feio, plantado por acidente nesta laguna de enganos. Identifico-me com o contrário disto, que nem sei bem o que seja, mas imagino que se trate de um mundo melhor. Nem sabia que o actor Henrique Viana falecera a semana passada, numa enfermaria do Hospital de Santo António dos Capuchos, vitimado por um tumor intestinal. Eu, que o cumprimentei algumas vezes, nem cheguei a despedir-me dele e nem sabia que já tinha partido, tudo porque vejo pouca televisão, leio poucos jornais e ando quase sempre com a cabeça noutros lugares, mais entre os gerânios e as orquídeas, por entre as brisas e os finais de tarde solarengos, pensativamente dentro de mim. Jorge Rebelo 10.07.2007

Um trecho de inegável valor poético

Por se tratar de um trecho de inegável valor poético, reproduzo aqui parte dos trabalhos que ocupam os meus quotidianos, na esperança que tal iniciativa tenha seguidores e seja fonte de inspiração para os escreventes falhos de imaginação para noveis temáticas.
"Que, conforme o que consta da referida certidão judicial, em execução do deliberado na Assembleia Definitiva de Credores da dita sociedade, homologada por despacho judicial, com trânsito em julgado, com vista à reestruturação financeira da mesma sociedade. Procede à redução do capital social da referida sociedade a zero euros, por incorporação de Resultados Transitados, devido ao facto de estes serem negativos em valor absoluto superior à totalidade das restantes rubricas do Capital Próprio;
Aumenta o capital social da referida sociedade para duzentos e cinquenta mil euros, mediante a transformação de créditos, de igual montante, que a sócia, Maria XXXXXX, detém sobre a aquela sociedade, consolidando-se os restantes suprimentos em médio/longo prazo. Adverti o outorgante da obrigatoriedade da requisição do registo deste acto no prazo de dois meses, a contar de hoje...”
[Haverá por aí alguém mais avisado do que eu que me possa explicar o que será que isto quer dizer?]

Quando penso em ti...

Quando penso em ti, meu amor, Vejo-te sempre como um ponto de luz, silencioso, florescente, num mar aberto, estrelado por milhares de astros argênteos, que aspergem halos... A luz não te mistura, nem te envolve. Tu tens uma áurea própria. Apenas a ondulação e o vento, [e nem sempre...], encobre a flama dos teus cabelos lindos, a flagrante beleza do teu rosto, do teu sorrir augusto e puro, onde habitam estrelas cadentes, traquinas, mortinhas por pregar partidas à Lua, logo após o enterro do Sol.
Barreiro 1990
Jorge Rebelo

Estrofes à rédea solta

Desconheço a autoria do quadro, mas gosto muito porque me revejo nele...
Um poema é um relâmpago de linguagem, Um choque frontal entre contrários que se aturam, E da aragem da nossa temperatura íntima, Há versos que matam, versos que curam... Morrer de amor é uma verdade poética, Sofrer por amar é uma dolorosa realidade, Escrever por amor é um imperativo de estética, Sentir a dor do amor não tem idade; O amor à poesia não se aprende: É fruto do contágio, da estesia, Um sentir que só aprende, Quem, da vida, já só espera a fantasia... (Barreiro 1990)
Jorge Rebelo

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Desejos de um plebeu

A imagem ténue do quartinho que à noite me abriga
(À falta de conteúdos novos para posts, o Madrigal decidiu, inspirado em alguns canais deficitários que também o fazem por estratégia de sobrevivência, re-publicar poesia antiga e esfalfada que dormitava algures, numa letargia de morte, na gaveta esconsa de uma secretária de mofos.) Na hora mais púbere da madrugada, Vejo o recorte da sua silhueta à janela, Pedaços de tule esvoaçando na amurada, Frémitos que são os espasmos dela; Sinto-me a morte-cor de uma aguarela, Gangrenado no pastiche dum artista, Uma moldura doiro que recusa a tela, Obcecado por um desejo de conquista; Deito-me a sonhar e acordo pensado: A minha vida é este avernal de sortes, Morgadete, só de leituras avultado, Pecúlios que mal dão para os portes; A janela fecha-se e com ela a luz, A febre nérvea de a possuir sem me ater, Trajada de sevilhana ou moira andaluz, Nos odores de Córdova ao alvorecer.
Jorge Rebelo
(algures numa esplanada em Córdoba em 1992 ou 1993)

quinta-feira, 5 de julho de 2007

O Madrigal reabriu ao público

[uma pintura lindissíma cujo autor/a desconheço]
Denunciando um propósito anteriormente assumido, o Madrigal decidiu reabrir as portas ao público por tempo (in)determinado. A partir de hoje a blogosfera vai poder ver as portas deste blog escancaradas à curiosidade alheia, sem que se saiba por quanto tempo...

Com/Sem óculos

Tal como prometido, aqui fica uma foto minha em duas versões: Com e Sem óculos.
[Mais tarde, seguir-se-á a verdadeira foto com os óculos novos. Para já é só para se ver o efeito]
Jorge Rebelo
05.07.2007
[Bolas! Onde estão as minhas minhas lunetas?!]

Fotos do Rio de Janeiro - Junho de 2007

Publico, sem comentários, algumas fotos do Rio de Janeiro que mostram lugares por todos sobejamente conhecidos: O Cristo Redentor - Corcovado; Copacabana, o Pão de Açúcar. A minha paixão pelo Brasil, recente e assumida, faz-me pensar lá voltar durante a 2ª quinzena de Dezembro. Algumas destas fotos, com orgulho meu, serão publicadas (a seu pedido) no blog privado de uma «amiga virtual» que reside em Nova York, cidade onde exerce o mester de jornalista num dos diários mais prestigiados da capital norte-americana.
Jorge Rebelo
05.07.2007

quarta-feira, 4 de julho de 2007

É da P.D.I! - P...da idade (dizem-me as pessoas versadas nestes assuntos oftalmológicos)

Hoje às 18.00 horas vou a uma consulta de oftalmologia. Já há algum tempo que sinto uma necessidade premente de afastar os papéis da vista para conseguir lê-los, em especial se tiverem letrinhas minúsculas. Foi numa vistoria de rotina, numa daquelas carrinhas da “Multiópticas” que propagandeiam pela rua, que a técnica me garantiu que eu precisava de usar óculos. Entrei como voluntário, para fazer o «teste da visão», e sai de lá cabisbaixo, com um papelito cheio de gráficos, meio amarrotado nas mãos, onde se podia ler o temível veredicto. «O Sr. lida muito com computadores, não é?».«Que idade tem?». «O Sr. tem a vista cansada e isso é uma coisa própria da sua idade, nada para admirar…» – uma forma simpatiquíssima de me classificarem de idoso. [Fiquei a saber em primeira-mão, bem como todos os que me lerem, que ficar pitosguinha em relação a objectos demasiado perto dos meus faróis, é uma coisa banalíssima de suceder com a provecta idade de 46 anos]. Coloquei o queixo num apoio e espreitei para uma espécie de um monóculo que indaga sobre os mistérios que os olhos encerram. Vi, então, os meus por dentro: enormes, iluminados por luzes amarelas; enfim, pareceu-me vislumbrar que eles vivem dentro de uma espécie de túnel, igualzinho àqueles que existem nas auto-estradas, aclarado por lâmpadas amarelas. Fiquei feliz por me «ver por dentro», pois são tantas as vezes que me indago sobre o meu insight, que achei que podia estar ali – naquele exacto momento, diante daquele sofisticado aparelho de visão – uma resposta possível para os meus recorrentes anseios. Hoje ao fim da tarde, se estiver bem disposto, vou pedir ao oftalmologista que me faça o «teste da nota de quinhentos euros». Dizem que o teste é infalível e que quem não acertar no reconhecimento da nota à distância, merece definitivamente usar lunetas encavalitadas na ponta do nariz. Como em tudo na vida, é urgente reter o lado lunar que quase todos os acontecimentos possuem. Estou morto de riso por ter de ir escolher uns óculos que me fiquem bem e condigam com o meu rosto miudinho. Talvez opte por uns de aros finos, redondos, como os do Harry Potter ou de Fernando Pessoa. A ver vamos, mas prometo que um dia publicarei uma foto com eles.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Da saudade que ficou

Da saudade que restou em pó, Ficou apenas trémula como uma ferida, Uma solidão trajada de negro, Como névoa envelhecida, Ou um relógio parado, Na parede do fundo da vida, Sem mais horas para dar, Igual às folhas desmoronadas, Que pairam suaves no chão, Devagarinho, como este contrito coração, Brotaram, então, cascatas de lágrimas, Que se dissolveram nas entranhas da terra, Regando saudades perdidas, na noite das várzeas... E foi num dia de solidão, sentado à beira da vida, Que me pus a pensar como a amei, Como foi louco esse amor que cantei em poesia, Forjando versos, burilando pensamentos, Sofrendo, revelando angustias, alegrias doces, Abandonos, enaltecimentos, cantando hinos ao amor. Como eterna confidente, restam-me estas laudas brancas, Onde derramo o sofrimento, revivo o alento, Sopro as vitualhas do pó da saudade que ficou. Com passos de mágica, faço regressar o sorriso das brumas de renda, Aproveitando as horas mortas da vazante, E refresco, nas areias indolentes que ainda a ecoam, Os momentos em que não suspendo a dor do vácuo das suas ternuras...
[Repescado do sótão das minhas poesias onde jazem vitualhas com vários anos.
Um poema com seguramente mais de 5/6 anos, sempre actual - one size fits all]

Jorge Rebelo

03.07.2007

O que se passa com o tempo?

O que se passa com o tempo? Estaremos mesmo no Verão? Hoje de manhã quando sai para a rua deparei-me com um dia chuvoso, demasiado invernal até, e, confesso, senti uma certa melancolia assomar-se de mim. Sem a presença da luz solar, as cores perdem a sua capacidade vibrátil e o monocromatismo invade tudo em redor. Parece que uma ditadura cinérea abraçou o mundo impondo a tirania da grei a todos os lugares. O tempo cinza é feio porque tudo uniformiza sem dar espaço à diferença: ser belo é ser diferente. A carroçaria do meu utilitário estava coberta de gotículas e por dentro sentia-se o odor a uma mescla de pó e humidade. Senti pena dele, coitado. Perdem-se nas noites do tempo as últimas vezes que foi limpo. Estou sempre à espera que apareça uma alma caridosa que se ofereça para lhe devolver (a ele carrinho) a glória resplandecente de outros tempos. A mim falta-me a alma e a paciência para o fazer.
Eu sou uma criatura profundamente solar e o meu bom ou mau humor estão umbilicalmente ligados aos caprichos do astro-rei. O sol positiva-me e o contrário também é verdade. Ainda este fim-de-semana estive no Castelo de São Jorge, na Graça, em Alfama, lugares que nunca me cansam o olhar, e perdi-me observando o casario imenso, o bulício da cidade lá em baixo, o Tejo grandioso prosseguindo-se rumo ao Atlântico, lá para os lados de Oeiras. Amei deixar-me ficar quedo nos bancos de pedra dos miradouros, sentindo a brisa fresca da tarde chegar, escutando o piar avulso dos pavões, ao longe, para lá das muralhas. Então, fechei os olhos e vi tudo laranja. Por mais que os cerrasse nunca consegui vislumbrar outra cor. Quando os tornei a abrir já o sol esmaecia no horizonte e um frescor maior afanava as folhas das árvores. Levantei-me e fui andando rumo à saída onde um trovador tocava uma maravilhosa ária medieval. Desapareci pelas ruelas estreitas de Lisboa, afincando severamente os pés no empedrado, e nessa tarde nunca mais ninguém me viu. Jorge Rebelo 03.07.2007

Definição de avó, nas palavras de uma menina de oito anos

[Está espantosa esta definição. Só mesmo vinda de uma criança!] Definição de Avó Artigo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do Cartaxo. Uma delícia! "Uma Avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As Avós não têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem 'Despacha-te!'. Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos. Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As Avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam historias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes. As Avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.Toda a gente deve fazer o possível por ter uma Avó, sobretudo se não tiver Televisão."
«O melhor do mundo são as crianças»
Fernando Pessoa
Jorge Rebelo
03.07.2007

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Música Romântica

Uma confissão atroz!

A síndrome do fecho

É recorrente vermos escrita esta afirmação: «Vou parar este blog por uns tempos: por falta de inspiração, por ele estar a ficar demasiado intimista, por falta de tempo disponível, por falta de inspiração, por falta de sentido, por falta de…». A falta, ou o excesso, de qualquer coisa leva a que todos os blogueiros, de tempos a tempos, sintam a premência de anunciar uma pausa, ou um abrandamento, ou mesmo o fim do seu espaço. Neste escrito não é disso que se trata pois, sem grandes prosaísmos filosóficos, temo que o fim de algo seja invariavelmente, e sempre, o começo de outra coisa qualquer. Simplesmente não sei o que escrever e assumo que este pensamento seja do momento, pois nada se fermentou na minha mente no que respeita a uma nova atitude face à escrita. A expressão escrita é minha companheira desde meados da adolescência e já nem concebo espraiar-me doutra forma que não seja desta. Paulatinamente, penso dosear a participação da Internet na minha vida, tornando-a menos dependente do virtual e valorando mais o mundo que me rodeia. Esta afasia de palavreado publicável, se calhar, é fruto do sentir do instante e já nem arrisco anunciar que a partir de agora vou tornar-me uma pessoa coerente. Esta afirmação é, porventura, a maior das coerências de que sou capaz. Jorge Rebelo 02.07.2007

A room with a view - E.M. Foster

Regressei às minhas leituras em inglês, pois creio que a prática de uma língua deve ser encarada da mesma forma que dispensamos ao tratamento a uma arma de defesa: não basta conservá-la oleada, enrolada num pano dentro de uma gaveta, é preciso, de quando em quando, fazer uso dela; isto é, dispará-la, antes que as estrias do cano ganhem resíduos e o mecanismo tenda a bloquear.
Desta vez a minha escolha recaiu sobre a obra clássica de Foster: "A room with a view". A novel that tells the story of a young english woman and her aunt when they go on holiday to Italy. There they meet a handsome young gentleman who falls in love with the youg woman. The aunt thinks the man is not suitable for her niece and there are many humorous incidents with all three of them and other interesting characters. When they return to England, there may be romance between the two young people.
Havia lido a obra em português e, inclusive, vi o filme. No entanto, soube-me bem regressar às leituras na língua de Shakespeare. A «ferrugem» já existe mas senti que depressa me consegui ver livre dela. Passadas algumas páginas já estava a ler com a fluidez dos velhos tempos quando lia em inglês com o mesmo à vontade com que o fazia na minha língua materna. Pena é que a parte da escrita e da conversação estejam mesmo a decair.
Foster é um autor que se lê sempre com redobrado prazer e porque não: «read him in the original words just for fun and learn with pleasure?»
Depois, ainda da Penguin Books, seguir-se-á: «Time to love, time to die» de Erich Maria Remarque.
Esta minha vontade abrupta de voltar ao treino linguistíco é dificilmente explicável...
Jorge Rebelo
02.07.2007