Tudo o que me apeteça dizer sem exclusão de temáticas ou conteúdos, através de textos que tanto podem ser crónicas, contos, poesia, ficção, diários, ou meros pensamentos surgidos no momento.
O famoso dueto Moustaki et Barbara é de uma beleza rara, a beijar o provençal: "une chanson au clair de la lune". Georges foi talvez o maior trovador do cançonetismo francês do século XX. Um génio da composição e da interpretação como poucos.
Georges Moustaki, autor de Méthèque, Milord, Dame Brune, Ma Solitude, entre outros grandes temas interpretados por prestigiados nomes da música francesa, é uma das figuras mais sedutoras e acarinhadas da chanson française. Nunca mais esquecerei o seu espectáculo a que assisti no CCB, fez em Maio passado um ano.Memorable!
[Estou a limpar tectos com lixívia e já tenho os dedos gretados, mas começo a ver uma superfície cada vez mais branca a formar-se sobre a minha cabeça. Será que não se pode, com algum esforço e boa vontade, vislumbrar algo de criativo, ou poético, nesta actividade? Acompanham-me as melodias de Georges Moustaki – «Nous Voulions» e «Un Jour Tu Es Parti», as minhas dilectas. Eu e o meu coração (somos seres distintos e nem sempre bons conviventes) aninhamo-nos com estes acordes de timbre doce e fraterno, como se alguém nos tivesse, com cuidados exagerados, enrolado numa manta de lã quentinha...]
No fundo a vida é isto, apenas isto: momentos. Já passa da meia-noite mas não tenho sono e, quando tal me sucede, nada melhor do que pôr-me a escrever, ainda que as palavras que se me furtam não sejam mais do que o resultado de uma vontade indómita de dizer algo – não fosse a outra (a melhor) opção ficar calado, neste caso, quieto. Mascreio que é difícil, se não mesmo impossível, calar aqueles que, como eu, têm por hábito "escrever pelos cotovelos" – uma metáfora inventada no momento. E uma das maravilhas da escrita, que muitos cultivam prazenteiramente, é a possibilidade efectiva de poderem debitar inúmeros vocábulos sem que daí resulte algum conteúdo ou mensagem capaz de ser apreendida por quem os leia. Escrever assim, é uma espécie defill in (all) the blanks improvisado, mas dá um certo gozo, mais não seja pelo desprendimento e pela possibilidade de se abusar de um estilo, talvez a arte maior dos políticos: conseguir debitar um sem número de palavras bonitas, barrocas, entremeadas em frases bem construídas e sonantes, sem responder, ou dar a mínima satisfação, às perguntas que lhes são feitas; ou transmitir aos eventuais destinatários o que quer que seja. A provocação de um ruído comunicacional, capaz de colocar em justaposição um emissor e um receptor, sem que haja da parte do destinatário a mínima percepção dos conteúdos expedidos, é uma arte vulgarizada.Mas as frases, sejam elas verbalizadas ou escritas, uma vez começadas têm de ser acabadas. E o desafio nesta hora lancinante, em que Morfeu me lança reptos aos quais não consigo responder, é o de tentar colocar-me, em simultâneo, no papel de emissor e receptor desta enxurrada de vocábulos inúteis, e tentar percepcionar uma utilidade mínima em tudo quanto estive a escrever. E acho que, após uma breve reflexão, acabei por descobrir o ground zero da escrita. Afinal ele sempre existe e não é mais um mito urbano igual a tantos outros.
Continuando a feição eclética que este blog tem ultimamente tomado, já que andava demasiado cismado na poesia e na crónica brejeira, publico aqui uma anedota, enviada por uma pessoa que me é muito querida, e estou certo me foi enviada por provocação pura, com uma alusão clara a um dos mais insignes habitantes da cidade que me acolhe. Não deixa de ser curiosa a oportunidade da piada, a parodiar a Igreja Católica – não há instituições, por mais sagradas, que possam constituir santuários imunes ao humor, e também não queremos, com toda a certeza, ver o José Saramago transformado no Salmon Rushdie lusitano, apostado, por via da sua fabricada martirização, em vender cada vez mais livros - que, de uma forma demasiado "muçulmana", tem vindo a terreiro abespinhar-se com as patacoadas do anoso Saramago sobre a Bíblia. Ainda que um pouco esclerótico, mas com a conhecida maledicência crónica que o habita desde há muito, o nosso prémio Nobel da Literatura, sente necessidade – um comportamento que nele conhece diversas recidivas – de se fazer notar, de "aparecer", e para isso nada melhor do que tecer umas quantas frases polémicas para alumar as já conhecidas más opiniões que gravitam, junto dos fiéis, a seu respeito. Saramago pertence ao género dos narcisos defensores da velha máxima: "Ainda que falem mal de mim, o que é preciso é que falem, pois isso só significa o quão importante eu sou".
Não sou fã do Saramago, não gosto da sua literatura – já li alguns livros seus, os bastantes, creio, para reconfirmar esta opinião, que eu próprio temia poder estar errada - e, com franqueza, no meio de tantos ilustres escritores portugueses, ainda hoje estou para perceber porque raio teria o homem ganho o prémio maior das letras?..
A Anedota
A barriga do padre crescia cada vez mais. Descartada a hipótese de cirrose, os médicos concluíram por uma cirurgia exploratória, já que não havia razão para aquilo. A cirurgia mostrou que era mera acumulação de líquidos e o problema foi sanado. Estudantes resolveram intervir e quando o padre estava a acordar da recuperação pós-cirúrgica colocaram-lhe um bebé nos seus braços. O padre, espantado, perguntou o que era aquilo e os rapazes disseram que era o que ele tinha na barriga. Passado o espanto e tomado de ternura, o padre abraçou a criança e não quis mais se separar dela. Como se tratava de um filho de mãe solteira que morrera durante o parto, os rapazes envidaram todos os esforços para que o padre ficasse com a criança. Os anos passaram e a criança transformou-se num homem que se formou em medicina. Um dia o padre, já velhinho e sentindo que estava chegando sua hora de partir, chamou o rapaz e disse:
- Meu filho! Tenho o maior segredo do mundo para te contar, mas tenho medo que fiques chocado.
O rapaz, que já havia intuído de que se tratava, disse compreensivo:
- Já sei. Adivinhei há muito tempo. O senhor vai dizer-me que é meu pai.
- Não, eu sou tua mãe! Teu pai é o bispo de Leiria.
Dois meses depois de se terem apaixonado perdidamente, António Lobo Antunes, de 66 anos, e Raquel dos Santos, de 31, decidiram pôr um ponto final no romance e nos planos de casamento. Raquel dos Santos regressou a São Paulo, no Brasil, e disse que iria manter as boas relações com o escritor português, que conheceu pessoalmente durante uma feira literária em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro, no final de Julho. '"A nossa relação acabou de forma tranquila. Vamos manter contacto. Nutri uma paixão platónica pelo António durante mais de quatro anos, mas às vezes as nossas ilusões não se adequam à realidade" - disse Raquel.
A brasileira, que está a tirar um doutoramento ligado a obras do escritor, afiançou que a diferença de 35 anos não foi a razão da ruptura e conta que as quatro semanas que passou ao lado de António Lobo Antunes em Portugal foram muito boas. '"Vou guardar para sempre os bons momentos que passámos. Vou lembrá-lo com muito carinho", conta.
Moral da história: o breve arrufo amoroso do nosso mais internacional escritor, que fez manchete nos principais jornais, não passou de um "fogo-fátuo literário"; e bem afirmava o "velho Lobo," numa entrevista concedida há uns anos a esta parte, com carradas de razão: "Infeliz da mulher que tiver a ousadia de se apaixonar por mim, pois não tenho condições, nem tempo, para fazer feliz ninguém".
Ser escritor tout court é isto: abraçar monarquicamente a profissão e fazer dela uma amante a tempo inteiro. Quanto à Raquel, estou certo que figurará como personagem de uma das suas futuras crónicas, ainda que fantasiada, ainda que com um nome diferente, já que nenhum escritor que se preze resiste a falar de si; ainda que ficcionalmente.
A minha empregada da limpeza, sem aviso prévio, deixou de aparecer. Nunca entendi as pessoas que desaparecem, falham uma relação contratual, sem dar a mínima satisfação; e menos percebo ainda quando, por mais que me esforce, não consigo encontrar qualquer explicação razoável para o facto. Entretanto, já arranjei outra empregada doméstica, por sinal, com um preço/hora substancialmente mais em conta. Felizmente para mim, não faltam pessoas a quererem trabalhar. Trata-se da senhora que dantes fazia a limpeza das partes comuns do edifício e que mora a uma centena de metros da minha casa.
Espera-a um apartamento grande, onde habita um homem só, com dois gatos jovens e irrequietos, e, num dos quartos, uma pirâmide de roupa para passar a ferro. Essa é a tarefa ciclópica que a aguarda na próxima quinta-feira, da qual já foi previamente avisada. Camisas por passar, serão na ordem das trinta; calças, uns quinze pares; lençóis, uns cinco conjuntos; meias e cuecas, umas largas dezenas. A isto tudo, junta-se o pó acumulado, os vidros sujos, o chão a precisar de ser encerado, o frigorifico e os armários da cozinha a precisarem de limpeza profunda.
Uma coisa que sempre achei curioso, e penso que se trata de uma forma natural das pessoas se auto-valorizarem, é o facto de todas as empregadas domésticas com quem tenho lidado, sem excepção, fazerem questão de dizer que fazem limpezas na casa do Sr. Engº X e também da médica Y, cujo marido é o Dr. W. Eu aceito, oiço-as com atenção e, sobretudo, faço um esforço por entender a mensagem que elas me querem passar: "Eu não sou uma mulher-a-dias qualquer, pois tenho por patrões Dr.(s) e Engº(s)." Pergunta sacramental: Será que a sujidade que estes ilustres académicos provocam dentro dos seus lares, é um tudo ou nada diferente da fabricada pelos "puros vira-latas", os sem título? Será mais honroso limpar os detritos de gente munida de um diploma académico do que os dos outros? São interrogações como estas que me angustiam, mas não tenho coragem de interpelar as ditas senhoras funcionárias da limpeza sobre a delicadeza do assunto...
Chamem-me machão, marialva, reaccionário, ultrapassado, whatever, mas uma casa sem uma "mão feminina", não tarda muito, transforma-se numa bagunça colossal. Apesar de saber fazer tudo, no que às lides domésticas respeita, acho que já tenho a minha dose de suplício diário - o meu trabalho é deveras desgastante - e dispenso-me de gastar os fins-de-semana, e as minhas poucas horas livres, de esfregona e ferro de engomar na mão. Confesso-me, pois, dependente de uma empregada doméstica e rendo-me à sua mais que útil função social. E já sei que a Dona Alice também faz limpezas na casa de um Sr. Engenheiro, que mora cá em Leiria e trabalha na Câmara Municipal, cuja mulher é médica anestesista no Hospital de Santo André. Portanto, para não fugir à regra, vou ter mais uma empregada doméstica que tem no seu curriculum vitae patrões que são Dr.(s) e Engº(s). Assim até dá gosto! Que classe!
A minha amiga virtual, a bloguista Rosa dos Ventos, cuja escrita muito admiro, bem como a sua paixão pelas viagens, fotografia, felídeos, culinária, e também pelos pelourinhos, já anda a ficar pelos ajustes com os meus azuis. Ela deve achar que eu, de tanto azular-me, já vejo leitões azuis nos meus passeios domingueiros e aconselha-me a temperar esta minha assumida obsessão com um bom branco, que cai sempre bem com o leitão. E não fora eu não beber álcool há vários anos, decerto que seguiria o seu mais que sensato conselho, pois acredito piamente que o leitão, seja ele azul, rosa, ou nacarado, desliza que é uma maravilha com um Alvarinho fresquinho. Entretanto, e a propósito da temática, deixo aqui o testemunho, em forma de livrinho infantil, de que é possível um leitão rosa apaixonar-se por uma dama azul, ainda que de outra espécie animal. O autor, de sua graça, Pedro Leitão - uma peculiar coincidência! - deixa-nos uma vez mais extasiados com as fantásticas "Aventuras do Zé Leitão e Maria Cavalinho"; e estou certo de que foi a cor dela que lhe tocou o coração de porco.
[Afinal, já não sou só eu a gostar do azul, e este inusitado amor do Zé Leitão pela Maria Cavalinho é para mim, mais do que uma fonte de inspiração, motivo suficiente para continuar... a azular-me]
Um abraço, Rosa dos Ventos, e espero que tenhas sentido de humor.
Comecei a ganhar o hábito nefasto de, em especial aos fins-de-semana, agarrar no telefone e encomendar uma pizza à Telepizza. Já começo a conhecer a voz de uma grande parte dos atendedores e até já sei de cor as perguntas que me vão fazer: "Telepizza boa tarde!" O que vai desejar? Não quer aderir à nossa promoção? Na compra de uma pizza média bananás, oferecemos-lhe dois pães de alho e uma Coca-Cola de litro". Regra geral, recuso quase sempre as promoções, pois trata-se de mais do mesmo: venenos gastronómicos a que se acrescentam outros ainda mais poderosos. Encomendar uma pizza é prático, pouco salutar, confesso, mas evita uma enormidade de chatices tais como: ter de tomar banho, vestir-me e sair de casa para ir ao restaurante, sempre que a fome aperta; ou, pior, abrir o frigorifico, rezar para que haja lá dentro alguma coisa comestível, cozinhar, colocar a loiça na máquina, limpar as bancadas da cozinha e os utensílios que utilizo - geralmente são sempre muitos. Além do mais, descobri que o gato Ruca adora pizza. Uma vez dei-lhe um bocadinho a provar, já que ele não parava de miar, ao mesmo tempo que ensaiava pulos com destino no meu colo, e o bichano adorou. Foi com uma enorme sofreguidão que devastou quase metade de uma fatia, enquanto emitia uns miados estranhíssimos que denunciavam o seu estado de inteira satisfação.
A propósito das pizzas, há uns largos meses atrás, mais ou menos na altura em que comecei a aderir a este american way of life, tal como hoje, encomendei uma pizza. Passados trinta minutos, que é o tempo médio da chegada do moto-boy, estando eu já completamente esquecido de que fizera a dita encomenda, tocam à campainha da entrada. Como tinha ido tomar banho, e já estava todo ensaboado, tive de rapidamente tomar uma chuveirada e enrolar-me numa toalha para ir abrir a porta. Sem o cuidado prévio de espreitar pelo orifício da porta, para ver quem estava do outro lado, deparei-me com uma jovem moto-girl, que, apesar do meu pedido de desculpas pelo facto de lhe aparecer todo molhado e enrolado numa toalha, não se mostrou minimamente surpreendida ou afectada por me ver em tais preparos. Enrolado no pedaço de turco, com a mão esquerda a segurar firmemente a toalha, tentei com a outra mão fazer as operações necessárias à recepção da pizza, a saber: entregar-lhe o cartão de débito, digitar o código do multibanco e recepcionar a pizza e a bebida. Mas as coisas na parte final não correram pelo melhor. Resultado: a toalha caiu e só tive tempo de fechar bruscamente a porta, que se encontrava entreaberta. Refeito do sucedido, cobri-me, abri de novo a porta e pedi imensas desculpas à senhora pelo acontecimento. Para meu espanto, a jovem continuava impávida e serena e afiançou-me " que não vira nada". Reiteradas as minhas desculpas, por ela aceites com um largo sorriso, recolhi-me, bastante envergonhado com toda a situação, não fora a menina pensar que eu era algum tarado que engendrara tudo aquilo. Ainda com a consciência pesada da descortesia que havia cometido, fruto da minha total falta de cuidado, decidi-me a telefonar à Telepizza para, junto do gerente, relatar o sucedido e reiterar uma vez mais as minhas desculpas. Do outro lado do telefone, a reacção foi demolidora: " Não se preocupe. A Sandra, tal como todos nós, está mais do que habituada a esse género de situações. Aliás, faz parte do trainning do pessoal a preparação para cenários semelhantes. Olhe, ainda andava eu nestas andanças há pouco tempo, fui chamado a um quarto de hotel aqui de Leiria para fazer a entrega de uma pizza e, acredite pois é verdade, tive de esperar que o casal terminasse... para poder fazer a entrega da pizza Não fique preocupado e conte sempre connosco!".
Se eu já estava com a consciência pesada ainda pior fiquei. O gerente acabara de me contar tudo aquilo sempre com um tom de riso incontido na voz, como se a minha preocupação não tivesse qualquer razão de ser e fosse antes fruto de um zêlo exagerado. Senti que, dai em diante, iria fazer parte do extenso anedotário dos entregadores de pizzas de Leiria. E creio, inclusive, que a minha fama como encomendador de pizzas ficou traçada. Já estou a imaginar um possível diálogo lá na loja: "Olha, o exibicionista de Vale Sepal, aquele da toalha, o do 4º D, acabou de encomendar uma bananás. Quem é que pode lá ir? Vais lá tu, Sandra?" "Eu? Porque não mandas antes a Deolinda? Ou será que os tarados têm sempre de sobrar para mim?"
[Nesse dia, depois do sucedido, recordo que deixei cair a toalha ao meu lado sob os lençóis desarrumados da alcova. Vi o meu corpo exposto, húmido, espalhado no colchão, próximo do que se entende como visceral e não senti vergonha dele. De seguida, descobri uma vestimenta confortável, resolvido a não sair de casa da mesma forma que vim ao mundo; e hoje sei que, deste singular acontecimento, ficou apenas uma memória vaga, para regalo e escrita]
A scooter estava parada há tanto tempo que o arranque eléctrico não quis funcionar e tive de usar o método tradicional, fazendo uso do pedal que provoca o arranque do motor. Depois, com a motoreta já em funcionamento e a gazada do motor a dois tempos, sem catalisador, a inundar a garagem de vapores mortíferos, lá sai para a estrada, sempre acompanhado de um sol radiante, nesta manhã de Outono que se recusa a largar o calorzinho do Verão. Quase por instinto, dirigi-me para as Meirinhas, para as bandas de Pombal, onde fui namorar uma Honda CBF 1000 ABS. No caminho de regresso, comi duas sandes de leitão na Boavista, a apregoada "capital do leitão", e em jeito de expiação pelo pecado cometido, jurei a mim mesmo ingerir algo de mais saudável ao jantar. Leitão é ácido úrico em doses concentradas e deve constituir uma excepção na nossa dieta alimentar, apesar da gente destas bandas, por costumes arreigados, usar e abusar nas comezainas de porquinhos bebés. Raramente sucumbo a estes desarranjos alimentares, mas, mais não seja de quando em quando, também é bom pisar o risco. Um dia li algures, já nem sei onde, uma frase com a qual concordo plenamente e que dizia mais ou menos o seguinte: "A pior circunstância da vida é morrer saudável!". Creio que é na mediana que reside a melhor das fontes para extrapolarmos as atitudes a tomar face a quase todos os planos da vida; e a harmonia não é mais do que isso: uma contenção entre o consenso imediato e o conflito total; ou a negação do exagero ou do extremado, sem no entanto fazer concessões à bruma fundamentalista das proibições absolutas.
Um homem escreve, vive e ama na escuridão. Catorze anos antes, foi vítima de um brutal choque automóvel, na ilha de Lanzarote. No acidente, não só perdeu a vista como também Lena, o amor da sua vida. Este homem usa dois nomes: Harry Caine, um pseudónimo com que assina os seus trabalhos literários, histórias e argumentos para cinema, e Mateo Blanco, o seu verdadeiro nome, com o qual vive e assina os filmes que dirige. Depois do acidente, Mateo Blanco reduz-se a si próprio ao seu pseudónimo, Harry Caine. Se não pode realizar mais filmes, só consegue sobreviver com a ideia de que Mateo Blanco morreu em Lanzarote com a sua amada Lena. Nos dias de hoje, Harry Caine vive graças aos argumentos que escreve e à ajuda da fiel e antiga produtora, Judit García, e do filho desta, Diego, o seu secretário, escrivão e guia. Desde que decidiu viver e contar histórias, Harry é um cego activo e atraente, que desenvolveu todos os outros sentidos para melhor gozar a vida, na base da ironia e da amnésia selectiva. Ele apagou da sua biografia todos os traços da sua primeira identidade, Mateo Blanco. Uma noite, Diego tem um acidente e Harry toma conta dele, já que Judit está fora de Madrid e os dois decidem não a avisar, para não a alarmar. Durante as primeiras noites de convalescença, Diego pergunta-lhe pelo tempo em que respondia pelo nome de Mateo Blanco. Depois de um momento de surpresa Harry não consegue recusar e conta a Diego o que aconteceu catorze anos antes, da mesma forma que um pai conta a um filho uma história para adormecer.
(Sinopse extraída do JN)
Talvez a melhor interpretação de Pénelope Cruz de que tenho memória. Um filme a não perder.Almodôvar no seu melhor.
Regresso aos posts por causa de uma novidade fantástica que achei valer a pena relatar. Hoje, após uma interminável dor num dente – um molar do siso que me supliciava há longo tempo - fui finalmente arrancá-lo. A dentista, uma jovem que não teria mais do que vinte e poucos anos, à medida que me dava a anestesia ia batendo com um instrumento de inox no dito dente e perguntava: "Então, ainda lhe dói?". Eu, com medo de poder vir a sentir alguma dor, respondia sempre que sim; e, naturalmente, a rapariga ia aumentando a dose até ao limite permitido. Resultado: extrai o dente às 11h00 e ainda agora, às 19h00, sinto os efeitos da anestesia. Fiquei com a boca, o nariz e, inclusive, parte da vista direita, sob o efeito de uma anestesia com dose cavalar.
Faz muito tempo que não me submetia a estas sevícias e, confesso, estava um nadinha nervoso. A minha ansiedade aumentou quando ela me informou que tinha acabado de suceder o que ela queria justamente evitar: o dente partira-se durante a extracção e a gengiva tinha de ser cortada - entenda-se, dissecada - para ser retirado o pedaço da raiz que ficara plantada no osso. Depois de uma breve hemorragia, derivada de um corte gengival extenso, a que se seguiu uma sutura com dez pontos, fiquei meio zonzo, deitado numa cadeira de dentista, à espera que o sangue estancasse para poder erguer-me em segurança. Munido de antibióticos, compridos para as dores e advertido para só comer coisas geladas e evitar os bochechos, que podiam estimular um novo surto hemorrágico, fiquei de lá voltar passado uma semana para retirar os pontos. De seguida, a senhora supliciadora-mor deseja que eu continue o tratamento, pois o Raio X panorâmico revelou que nem tudo está bem. Mistérios dentais...
Hoje, enquanto estava a almoçar dois gelados – o melhor e o mais agradável alimento do mundo para evitar infecções, já que as bactérias adoram os quentinhos para se desenvolverem - pensei para com os meus botões: "Depois de tirar os pontos, se calhar, nem tão cedo lá ponho os pés. Será que esta noite estarei capaz de ir às Danças de Salão? Não poderei ter alguma hemorragia no meio de uma Valsa ou, pior, quando estiver a ensaiar os passos do Cha Cha Cha?" - São pensamentos como estes que me angustiam e torturam...
Assiste-se, hoje em dia, a uma recente ameaça à existência dos blogs, em parte motivada pela insaciável apetência das pessoas em cada vez terem um acesso mais rápido a conteúdos informativos, sem perderem tempo com leituras demoradas. O telegrafismo bloguista, uma espécie de transformismo de escrita apelidado twitter, chegou e, em alguns países, tem vindo a tomar o espaço tradicionalmente ocupado pelos blogs. Entristece-me saber isto, em especial porque vejo-me obrigado a dar razão a todos quantos sempre (me) afirmaram que, cada vez mais, há menos gente disposta a ler conteúdos com extensão e/ou qualidade. O "pudim instântaneo da Internet", ao que parece, chegou com a missão especifíca de conceder a morte aos blogs: os tão queridos e desejados espaços individuais de escrita, possibilitados pela democratização do acto de escrever e publicar, que as novas tecnologias vieram colocar ao alcance de todos nós.
Eu cá por mim continuarei a blogar e não hão-de ser uns passarinhos negros armados em twitters que me vão meter medo. Eles que vão twittar para outras ramagens porque nós, os blogueiros, o que gostamos mesmo é de poder ser escritores, poetas, cronistas, ou o que seja, e não expedidores de telegramas onde a palavra (por desnecessária) ocupa um espaço diminuto. Queremos, isso sim, dar voz às (nossas) palavras e usá-las como nos aprouver, pois todas as que usamos são necessárias, ou não fossemos nós mesmos a escrevê-las e a entender a coisa assim.
Alguém consegue imaginar o que é ver Carlos Santana, "ao vivo", tocando o Samba Pa Ti, a peça mais famosa do mitíco albúm "Abraxas"? Em 2000, no Vicente Calderón, em Madrid, tive oportunidade de ver a interpretação desta música, e de muitas outras, pelas mãos do guitarrista mais virtuoso de que tenho memória. A idade parece que não passa por ele e, desde o Wood Stock Festival, em 1969, continua imparável, com a mesma energia de sempre.