sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Que dizer?

(Termas da Curia - Jardim de Aclimatização - Outubro 2008)
Que dizer da saudade
Das tempestades do ser
Na idade sem idade
Quando embarcavas
Em qualquer navio
Nos rústicos perfis do tempo
Quando a aurora te banhava a alma
E os teus olhos viam tudo iluminado
No crepúsculo do tempo enevoado
Que dizer do tempo em que a música
Era suave e doce
E lembrava uma bailarina
Que rodopiava, rodopiava
Leve, suave, quase evanescente
Que dizer dos meus olhos de orvalho
Velando melancólicos
A luz – a claridade
Do dia por nascer
E o sinistro silêncio
Dos gusanos Num amanhã por parir Que dizer de sentir-me assim Neste final de tarde outonal A lembrança inundando O meu estado d'alma Renascendo num constante Dentro de mim

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Percebes?

( Foto da vitrine de um restaurante em Albufeira - Fonte: Internet)
Saindo das grandes cidades e deambulando um nadinha "pelos caminhos de Portugal" - tal como na canção interpretada por Roberto Leal, essa pecha oxigenada famosissíma, talvez dos poucos músicos portugueses que grangearam fama a sério no Brasil - encontram-se anúncios e ditoches com uma graça inaudita. Vale a pena começar a fotografá-los para apreciação geral. É um passatempo futuro que encaro com seriedade e algum alento.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O novo layout dos Bancos

Por este andar... será que já chegámos ao Brasil ou é o pessoal da Favela da Rocinha que está chegando?!

A mão

(Cristo-Rei - Almada 2008)
Dedico estas curtissímas palavras às várias pessoas com as quais, ao longo da vida, me fui encontrando - e, por vezes, também a certa altura desencontrando - que, de uma forma ou de outra, me ajudaram a ir percebendo a um nível cada vez mais profundo que o único encontro, de facto, indispensável, é connosco próprios. Só a partir daí é que qualquer encontro com alguém - seja a que nível for e independentemente da sua intensidade ou duração - se pode tornar autêntico, e então, permanece, porque é aparentemente indestrutível - Até ao dia em que se percebe a falácia deste último raciocínio e temos que equacionar tudo de novo. A vida é mesmo assim: demasiado complicada.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Desejando as vésperas

A cerca de duas semanas de iniciar um período de férias por terras da América do Sul, imagino como vai ser boa a sensação de rever pessoas que não vejo há quase um ano. Desta vez não me vou limitar ao Brasil, pois também tenho a Argentina e o Paraguai em mente. Lembro-me bem de certas cidadezinhas do interior, das fachadas coloridas das casas, das igrejas, das luzes das velas acesas à entrada dos cemitérios, muitas vezes para invocar milagres mais próximos da macumba do que dos ideais cristãos. [O sul americano é mistíco por excelência. É algo que se lhe entranha na alma de forma igual ao seu temperamento festivo e esfusiante]. Antecipo sensações que julgo ir viver e digo para mim mesmo: "Até que enfim, agora que o General Inverno começa a apertar o cerco a Portugal, vai chegar para mim o bisar do Verão pleno; a rotina apagada, sem roupas que apertem o corpo; a roupa andrajosa, leve; as bermudas e os chinelos nos dedos dos pés; a suspensão das obrigações sociais. O poder, finalmente, esquecer agendas carregadas, burocracias por cumprir; aplicações informáticas que teimam em gerar erros que só a capacidade de criptógrafo dos informáticos do"Help Desk", em Lisboa, consegue solucionar; pressões imensas, apimentadas pela concorrência quase demencial de alguns colegas. Não vai, ainda que por um lapso curto de tempo, haver lugar para estados de alma, melancolias, crises depressivas. Os dias vão seguir-se, ao longo de quase três semanas, sem aflições, depressa ou devagar, ao ritmo que eu me impuser."
NB. Há um tom de leveza, um gosto de riso, sedução e festa, nos reencontros e surpresas que sinto irão acontecer. Um gosto de liberdade absoluta presente a toda a hora e, sensações que pareciam quase esquecidas dentro de mim, abrem-se subitamente na minha mente como uma flor acordada pelos primeiros raios do sol. Nada melhor do que esta inusitada viagem de final de ano para me dispor, e sentir (de novo) como a América do Sul fica a mil anos de distância do mundo em que me ensinaram a viver: um amoroso ordenamento desacertado da escala e do meio em que nasci. Mas a cativação reside, o mais das vezes, em inexplicabilidades que tanto nos atraem. E esta é uma irrefutável verdade.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pelo sonho é que vamos?

Há imagens, situações, pessoas, que nos fazem sonhar. E frequentemente é dessas de que mais gostamos. Pelo encantamento que nos trazem ao dia-a-dia. Mas, além disso, na medida em que nos levam a acreditar que não há impossíveis, despertam-nos a intuição, a criatividade, a confiança na vida, tornando-nos mais capazes de realizar os nossos objectivos. Pablo Neruda, poeta chileno que desde muito cedo admirei, definia o sonho como sendo "a doce aprendizagem do esquecimento definitivo". E a "triste alegria diária com que nos conformamos", nada mais do que "semente vã da flor do sonho".
Em geral diz-se que as crianças é que sonham - com aquilo que irão ser ou ter, com o que irão poder fazer - e que os adultos têm mas é de olhar para a realidade e de se conformar com a triste realidade do dia-a-dia. Errado! Para que, qualquer que seja a nossa idade, o futuro continue sempre a aparecer-nos como um livro em branco - que, mesmo quando já não tenha mais do que uma página, nos convida a que a preenchamos -, nunca podemos permitir que a capacidade de sonhar seja sufocada. Só assim a vida continua a aparecer-nos como podendo ser significativa. Eu, em definitivo, recusei o papel de mero espectador da minha própria vida e assumo que devo ser, na medida do possível, o actor principal da curta/longa metragem no centro do plateau em que ela se desenrola. E quando, por vezes - e todos nós, mesmo os mais racionais e cartesianos, temos desses momentos -, sentimos que a nossa vida é uma travessia no deserto, a melhor coisa que podemos fazer é olhar profundamente para dentro de nós mesmos, que é, porventura, o único lugar, por muita que seja a chuva ou o mau tempo, onde podemos sentir que há sempre um amanhã. É, afinal, sonhar que nos permite o encantamento necessário para sentir que a vida eterna existe. Que haverá sempre algo que podemos fazer, ver, aprender. Algo por descobrir e, sobretudo, ter a plena consciência de que o mal que hoje nos assola podia ser ainda bem pior. E, por incrível que pareça, depois desta quase apologia do individualismo como cerne do sonho, continuo a achar que a felicidade maiúscula atinge-se com a partilha amorosa, pese embora tenhamos de cuidar em primeiro lugar das rosas do nosso jardim. Se nós próprios não estivermos felizes, como poderemos fazer feliz alguém? É que essa coisa da tristeza pega-se. É aflitivo mas é verdade!

domingo, 26 de outubro de 2008

Messieur de La Palice (revisitado)

Creio ter feito uma descoberta: A felicidade não vem dos outros nem de nada exterior a nós, mas sim do nosso bem-estar interior. Há formas de pensar, falar, agir, que nos ajudam a estar bem connosco e com o mundo e outras que nos provocam precisamente o efeito contrário. Saborear a vida é uma aprendizagem solitária. A felicidade é, acima de tudo, estar atento às coisas simples da vida, aproveitar o instante que passa; embora seja tão difícil, impossível, até, colocar em prática evidências lapalicianas que, quase todos nós, maduros, sabemos de cor e salteado. Tão facilmente caímos na recidiva, sucumbimos de novo, apesar da pesada obrigação de termos aprendido bem todas as lições capazes de nos fazerem cambiar o rumo. O que mais me assusta mesmo é quando alguém me diz: "Faz-me feliz!" - como se coubesse em mim essa responsabilidade absoluta! Atirar para o colo de alguém esse tremendo ónus, como se um outro pudesse ser o apêndice de uma pessoa integral - com capacidade para ter sentires e emoções próprias. [Eu, que há quase cinco décadas todos os dias me reinvento e faço os possíveis e os impossíveis para que a felicidade pese mais na balança dos meus quotidianos do que o sentimento contrário!] Quero aclarar a minha actual noção de felicidade, bem-estar, ou o que se lhe quiser chamar. Trata-se, sobretudo, de assumir como firme a atitude de tentar tudo o que estiver ao meu alcance para que os sonhos e as coisas que me dão prazer se materializem. Tão simples quanto isso! Não digo, claro, que vou conseguir concretizar tudo o que tenho em mente, até porque obstáculos de ordem prática, parecidos com o impossível, a isso me impediriam; mas vou consagrar-me, tal como uma criança que sonha com um novo brinquedo, a viver cada dia como se houvesse sempre um amanhã, ainda que tal seja uma tremenda mentira. Haverá outra forma menos dolorosa de encarar o viver?

Pedra Filosofal - Rómulo de Carvalho/António Gedeão

Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento. Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança. In Movimento Perpétuo, 1956
[Por ter estado este fim-de-semana com alguém que esteve sempre muito próximo do malogrado poeta, apeteceu-me publicar este seu verso, já que tantas são as memórias que me traz dos meus tempos de escola]

sábado, 25 de outubro de 2008

Palavras na madrugada

Em princípio, actividade é o contrário de passividade. Fazer com que as coisas aconteçam, numa atitude oposta à de esperar que os acontecimentos se desenrolem. A nossa vida oscila entre estes dois tempos. E, enquanto não percebermos que a oposição só existe à superficíe, paira no ar uma tensão. É, porém, possível conhecer a tranquilidade que para lá dela se encontra. De manhã à noite somos obrigados a fazer coisas. Sem parar. Sem apreciar aquilo que fazemos. Nem avaliar se vale a pena fazê-lo. Vivemos um dia-a-dia compartilhado em momentos agradáveis e outros desagradáveis, sem consciência do fio condutor que, ligando-os uns aos outros, nos permite um distanciamento em relação ao que vamos obtendo. Uma noção da pouca importância absoluta de qualquer desses momentos - que, no entanto, na altura em que os estamos a viver, sempre nos pareceram eternos. E, numa sociedade em que nada fazer é sinónimo de preguiça, de falta de sentido de responsabilidade ou de competência, não ter o tempo preenchido traz para muita gente ansiedade. Quantas vezes não agredimos a vida e perguntamos-lhe porquê, querendo à força encontrar uma explicação, alguma justificação, para algumas das nossas dores sem tamanho? Deixar fluir a vida, não significa de maneira nenhuma ficar por sistema à espera que alguém nos resolva os problemas. Só que, por vezes, há pesos que nos caem em cima e que nos obrigam a entregar as armas. A única coisa que, nesses momentos difíceis, nos é pedido é que, mesmo sem muitas vezes compreender o porquê do que está a acontecer - e logo a nós! -, o aceitemos. Apenas isso...
Sem noite, o dia seria menos luminoso e sem dia, a noite demasiado silenciosa. Palavras geradas por pensamentos como estes, fluem-me às 5.48, porque uma insónia, que me habita há já alguns anos, fez-me compulsivamente ligar o computador, abrir uma folha do Word, e começar a rabiscar, quase em automático, coisas que se avolumam na minha mente e que só esperam a oportunidade para se fazerem ouvir. Quem sabe, algumas delas, são directamente responsáveis por, nesta madrugada lenta, por estas horas ainda tão tenras, através da janela do escritório mergulhado em silêncios, ver-me na companhia de uma lua timída, sozinha, destoando na imensidão de um céu demasiado escuro e vácuo de estrelas. Resta-me concluir que a visão do mundo é tão limitada pela nossa mente que é improvável que nos consinta ver o absoluto. Agora vou apagar as luzes, desligar o PC, e tornar ao quarto de dormir. Pesam-me os olhos. Talvez se devorando mais algumas páginas da biografia de Alexandre O'Neill, o sono se abeire novamente de mim.
PS. Logo à noitinha muda a hora e, desde então, de manhã, vamos poder ficar mais uma hora no aconchego da caminha.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Reviver não é viver de novo.

Todos nós possuímos uma considerável colecção de memórias que nos enformam, que fazem de nós aquilo que hoje somos, aquilo em que nos tornámos. A partir de uma certa idade, não necessariamente da minha, pois ainda sou demasiado novo para passar a vida em revista – ainda que esta constatação seja pouquíssimo fiável e permeável a certas contingências – somos, sobretudo, um repositório imenso de memórias. Se a saúde não nos trair, se a amnésia não nos levar as recordações da meninice e da juventude, é com um prazer enorme que trazemos à colação certos momentos maravilhosos que passaram por nós. Quando era mais jovem, confesso, não prezava tanto a experiência dos velhos. Achava-os uns chatos, uma cambada de saudosistas, sempre a repetir até à exaustão factos passados, como se o presente e o futuro pouco ou nada contassem e a vida, para eles, tivesse parado por ali, naquele preciso instante. Olhava-os como se fossem uma espécie de súmulas itinerantes, sempre prontos para falar da vida que por eles passou, como se o presente servisse somente para isso mesmo e a morte fosse o momento breve que os esperava. Baralho-me no meio das lembranças, já um pouco descosidas, e recordo tantas sensações, momentos, que parecem não terem sido meus. Tive acaso já outro corpo, outra vida? Vivi uma ou várias existências? Nem sei! Sinto que o país, o mundo, está mudando aparentemente depressa, não só para mim, pois estou convencido que muita gente ainda hoje vive neste e noutro tempo. Sei, no entanto, que por baixo, no subsolo das consciências e das novas práticas sociais, pouca coisa mudou. Talvez hajam pessoas que evoluem mais do que outras, que se adaptam melhor à voragem do progresso, a um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia e pela apetência por valores demasiado materiais. Talvez que o vendaval que a Abrilada desencadeou na alvorada da minha juventude não volte mais, ou torne só de quando em quando, mas já não arranca os grandes dos seus pedestais e, no fundo, entre estes e os antigos há cumplicidades inconfessáveis, maneiras peculiares de estar na vida e na riqueza. Foram lampejos de Justiça e aproximação à Igualdade que, por demasiado contrários à natureza humana, cruel, mesquinha, umbilical, nem tão cedo hão-de voltar. Desde muito novo que tive o gosto pelo coleccionismo. Guardava postais ilustrados, fotografias antigas, moedas, selos, cartas de pen-friends, bilhetes de cinema, ingressos de concertos-rock, porta-chaves, borrachas, canetas de tinta permanente, relógios, mas a única “tara” que se manteve até aos dias de hoje foi o gosto por coleccionar livros. Se estivesse ao alcance do meu poder económico e tivesse a mesma disponibilidade para ler de outrora, estou certo que a minha biblioteca nunca cessaria de aumentar. Por motivos de honestidade intelectual – que sinto dever a mim mesmo – faço os possíveis por só comprar os livros que leio, ainda que não sejam lidos pela ordem exacta porque são comprados. Mantenho com a leitura uma cumplicidade algo idêntica à que mantenho com a escrita. Sinto que ambas as actividades fazem parte de mim, forram-me o interior, e explicam muito daquilo que eu sou. Interrogo-me às vezes sobre as razões que me levam a escrever, seja prosa, seja poesia, ou textos demasiado ensaístas que saem à deriva do pensamento e pouco, ou nada, podem importar aos outros, senão a mim mesmo. Nunca experimentei nenhum sentido de missão ou grandeza no acto de escrever, até porque conheço os patamares que consigo alcançar; nem tão pouco quis alguma vez redimir a humanidade, nem mesmo, creio eu, salvar a minha alma através desta forma de catarse. O que sempre me fascinou na escrita foi a possibilidade de dialogar comigo mesmo e, sobretudo, rever-me nas palavras, ainda que para uma considerável percentagem das pessoas que me lêem, elas pouco ou nenhum sentido façam. Concebo a escrita mais como um monólogo do que como um diálogo, embora esteja consciente do seu poder comunicativo. A atracção pelas memórias é em mim um pulsar irresistível. Passo de um sonho a outro, de uma vida a outra vida. Porque não sou liso nem linear. Tenho alguns sentimentos de justiça, mas serei tudo menos um sacerdote tout court. Nem um cidadão exemplar, nem um mau cidadão. Nem um bom chefe de família, nem um mau chefe de família. Em mim, sinto, convivem e dilaceram-se forças opostas. Umas vezes sou poeta, bucólico, aprendiz de escritor, irreal, até; outras vezes a razão acerca-se de mim e empresta-me um espelho côncavo para que admire de perto o quão ridículo consigo ser. Das memórias que guardo, e são tantas, prefiro recordar as que não me deixaram máculas. As mais tenras e inocentes que afloraram a minha breve meninice. Recordo, com a recidiva nostálgica dos velhos andrajosos e gastos, o cenário de um dia de mercado em Almada: Uma criança que não teria mais de sete anos de idade, trajando calções de sarja beije, meias de lã grossas metidas em botas de couro e um boné tipo inglês enfiado na cabeça, de mão dada com a mãe. A mãe, por sua vez, usava quase sempre óculos de sol escuros – “óculos de gata” – e um lenço na cabeça a condizer com a gabardina azul escura cintada. Os sapatos eram da mesma cor, com salto de agulha, como era chique à época. Ao redor do mercado, pelas ruas adjacentes, postavam-se os vendedores que não tinham sido bafejados pela sorte de terem conseguido uma banca no interior. A vendedora de bananas usava uns brincos de oiro tão pesados que já tinha as orelhas com o dobro do tamanho. Tinha varizes grossas nas pernas, enfermidade que tentava esconder usando umas meias de lã tipo nazarena. Encontrava-se sempre no mesmo lugar: a escada de pedra que dava acesso ao portão de um velho armazém. Não tinha balança pois vendia as bananas à dúzia ou à meia dúzia e estava sempre com frio. Não muito longe, o amola-tesouras assobiava a flauta peculiar ao mesmo tempo que, com um pedal próprio, fazia rodar a pedra de amolar aprestada na parte traseira da sua bicicleta. Dezenas de carroças de burros e machos, vindos das terras da Costa, carregados de leguminosas, dominavam grande parte do redondel. Lá dentro o mundo fervilhava de emoções, gritos e pregões, a que se juntava uma mescla de odores indescritível. A mãe escolhia o coelho ou a galinha que lhe parecia mais gorducho e saudável - segundo um faro empírico muito fluente nos anos sessenta do século passado, ainda a anos-luz da ASAE - e o animal era morto e esfolado de imediato, sem direito a apelo ou recurso, e à vista de toda a gente, fossem graúdos ou miúdos. Geralmente, depois das compras, a mãe comprava-me sempre um carrinho de ferro da “match box” e depois seguíamos para casa. Durante o caminho de regresso passávamos quase sempre pela padaria, e é talvez esse o odor que mais guardo da minha efémera infância: os papo-secos acabados de sair do forno a lenha a amontoarem-se uns em cima dos outros. Trocavam-se notas e moedas com a mesma ligeireza com que se tocava o pão com as mãos. Lembro-me que, sem a mãe reparar, por vezes, dava uma espreitadela para dentro do saco ensanguentado onde jazia o coelho esfolado de olhos salientes – uma sombra pálida e tenebrosa do coelhinho branco e bonitinho que, minutos antes, mexia freneticamente o nariz, agachado numa gaiola de madeira, inocente da sorte que o esperava. Eu via este degradante espectáculo num estado de grande perplexidade e confusão emocional, próprios de uma criança de sete anos, mas não tecia quaisquer comentários. Nunca fui capaz de discernir claramente o que sentia, se repulsa, se fascínio, perante aquele cenário de morte/alimento. Não recordo tantas coisas como gostaria e essa mazela, entre outras imperfeições, nunca poderia ter feito de mim um escritor – um escritor é, sobretudo, alguém capaz de transmitir com mestria, memórias e sensações de forma única, sejam elas reais ou enfabuladas. Na minha mente há um tumulto de avanços e recuos, sensações ardidas, mas esse dia em que jantámos o coelho branquinho, era, lembro-me bem, um dia ventoso de Inverno. A chuva havia empoçado o nosso quintal, onde havia flores e plantas arrancadas por algum diabo rancoroso, e a água escapava-se em cascata pelos algerozes fazendo um ruído ensurdecedor na calçada. À noite, a Maria, por exigência da mãe, sempre fardada a preceito, serviu-nos o jantar e o coelho estufado estava delicioso. Ela ainda era jovem mas já tinha um dedo especial para a cozinha. Recordo-me que a fomos buscar ao Baixo Alentejo, ainda a cachopa era menor, e que passados alguns anos fugiu com um pedreiro casado e pai de três filhos. Guardo desses tempos a sensação maior, doce e única, de ir de mão dada com a minha mãe e sentir-me seguro e amado; e, acima de tudo, livre de todo o mal que me pudesse acontecer. Fui, no entanto, criança por pouco tempo. Precisava de mais tempo, coisa que a vida não mo permitiu.

domingo, 19 de outubro de 2008

Janela indiscreta

(Quinta das Lágrimas - Coimbra - Golf Club - Outubro 2008)

Praia do Pedrogão

(Contra-luz - Praia do Pedrogão - Outubro - 2008)

O mundo em mim

(Pedrinhas multicolores - Praia-Norte - Nazaré - Outubro 2008)
É quando olho a tristeza que percebo que ela faz parte de mim. Sempre fez. É quando penso que fujo dela que ela mais me aperta e me puxa a si. Choro com a vontade própria de uma criança que deseja um mundo inteiro. Abraço a tristeza, abraço-te, também, se me abraçares e entranhares no brilho baço do meu pensamento. Preciso do aconchego do teu colo vestido de lágrimas e prantos solitários, onde o silêncio é o mote de cada instante. Preciso olhar a mágoa e sentir o grito que em mim assombra o teu triste sorriso. Olha-me nos olhos e abarca-me nas tuas mãos. Que interessa o tempo quando a alma é eterna, quando o sentimento é linha traçada sem começo nem fim? Não consigo esticar o céu, não cabe em mim o tamanho da noite, do seu toque negro, nem o espaço interessa quando o que sou é nada dentro de outro nada feito de nada. Aperta-me as mãos e faz-me chorar contigo em corrente lenta contrária ao rio da vida. Imagina-me uma pedrinha azul, a única, no meio das outras que se tentam misturar comigo e fazer-me parecer igual a elas. Eu sei que sou diferente, não necessariamente melhor, antes pelo contrário, e cada dia que passa esse sentimento mais me desassossega. Talvez careça esconjurar demasiadas coisas, ver-me livre de muitos sedimentos que se me colaram ao longo da vida, mas a idade já não me permite. O tempo é fugaz e curiosamente sempre me tramou.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

América do Sul - Uma viagem anunciada

Como já vem sendo hábito, guardei para o final do ano metade dos dias de férias a que tenho direito. Desta vez, para não variar muito, viajarei de novo para a América do Sul, para zonas onde o alvorecer do Verão ainda está para acontecer. Em muita coisa, sobretudo nas estações climatéricas, eles andam mesmo ao contrário de nós. Por exemplo, nas zonas mais a sul do Brasil, no Paraguai e no norte da Argentina, a Primavera começou no mesmíssimo dia em que para os europeus começou o Outono; e ter dois Verões num ano é uma dádiva que, se me for possível, não quero perder. Começarei por Madrid - a Ibéria, para quem não saiba, talvez devido ao imenso fluxo de passageiros que mantém com esta zona planetária, é a companhia aérea onde se conseguem as melhores promoções - e depois seguirei rumo ao continente sul-americano. Perdi-me de amores pelo colorido daquelas gentes, pelo seu calor festivo e constante, pelo bem receber e positivismo que emanam. Eles, ao contrário de nós, depressivos congénitos, profetas da desgraça, filhos do Fado e das malquerenças da vida, para quem já nem o afogar-se em consumos basta, ainda riem - quantas vezes sem terem motivos para tal. É tudo uma questão de atitude. Enquanto nós europeus "civilizadissímos" achamos que é coisa de péssimo tom conhecer os vizinhos do lado, confraternizar com os condóminos do prédio e organizar churrasquinhos no quintal, ou mesmo na parte dianteira do edificío, os latino-americanos, e comummente os brasileiros, acham que a sociabilidade intensa faz parte da vida e que quase tudo é motivo de festejo. Eu não sou nada assim, talvez me situe até nas antípodas do ser que confraterniza com facilidade. Mas naquele ambiente tudo é diferente e, malgrado as chagas do crime, violência e corrupção, aliados a estados de pobreza congénita que assolam grande parte da população, posso-vos jurar a pés juntos que eles são muito mais felizes do que nós. Têm essa capacidade e esse espiríto.
Em fala directa com o Rio de Janeiro com pessoas que me são chegadas, sei que o tom da imprensa tem sido de decepção, dor, surpresa, para comentar os lados sombrios da emigração brasileira em Portugal. Há, inclusive, um certo sentimento de vergonha por parte das gentes de lá, por causa da má imagem que uns quantos fora-da-lei transmitem do povo brasileiro. A consciência absoluta da crise económica mundial, que afecta em primeira linha os povos economicamente mais débeis, vem engrossando a corrente contínua de gente que deixa o Brasil, pelo legítimo direito à liberdade de tentar melhores condições de vida, num outro espaço de crescimento e paz. Direito que, aliás, cada vez mais portugueses exercem quando optam por procurar melhores condições de vida num qualquer país europeu. No plano da emigração dos brasileiros para cá, assistiu-se a movimentos com algum paralelismo nos números absolutos, como se vê pelos cerca de 80.000 portugueses que emigraram para o Brasil, Argentina e Venezuela, nos idos anos cinquenta do século vinte. E podem crer que os "portugas" foram muito bem recebidos por lá e são muito queridos pela maioria das gentes. Muitos deles fizeram fortuna, estabeleceram-se, casaram, tiveram filhos, netos, e só remotamente recordam uma longínqua aldeia beirã que um dia trocaram pelo calor tropical.

Para esconjurar sentimentos de tristeza que a perda recente de um amigo me trouxeram, e porque a vida tem de ser vivida e continuada, apesar de tudo, nada melhor do que apimentar as ideias com um plano de férias, ainda que falte quase um mês para o almejado acontecimento. Vou ressuscitar o Verão, sentir de novo os quentinhos do sol a doirarem-me a pele, o brilho da luz na crista das ondas e vestir-me como um mendigo que é, sem sombra de dúvida, das coisas que mais gozo me dá fazer.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Para o M

Cacilheiro no Tejo - Lisboa - Almada - Outubro 2008

Faz muito tempo que não ia a Almada, cidade onde morei desde tenra idade até ao fim da minha adolescência. Soube que, há quatro meses, um amigo de longa data, minado por uma doença terrível, encontrava-se na antecâmara da morte. Condiscípulos na escola primária e posteriormente no ensino secundário, nunca deixámos de estar juntos, até que ele se ficou pelo propedêutico e eu continuei os estudos para a Universidade. Quase sempre nos encontrávamos no findar das aulas, íamos beber um copo juntos, ouvir música, falar das nossas vidas e em geral dos problemas e anseios que atormentam a mente de jovens com a nossa idade. A ignorância e, sobretudo, a inocência, faziam-nos falar de tudo. Foi naquele tempo que fiz públicos alguns dos meus versos e, vagueando pelas ruas, reliamo-los os dois com uma ilusão que nunca mais voltará. A nossa amizade era valente. Ambos artistas por temperamento, os nossos sonhos floreavam-se de projectos literários a longo prazo e líamos e comentávamos textos, com um copo de cerveja numa mão e um cigarro na outra. E, sobretudo, riamos. Riamos muito. Eu, já à data, no fundo dos meus olhos tinha sempre uma tristeza, talvez a herança de uma meninice embebida de sofrimento. Ele, pelo contrário, dizia alarvidades, ria desbragadamente até ao choro, e fazia-me rir e esquecer todas as maleitas. Hoje que ele vai partir, e eu fico, sei que encarou a doença que lhe esfacelou os pulmões com um ar de resignação alegre, como se a morte fosse para ele libertação, mas não compreendo o motivo. A única justificação que encontro reside no facto de ele ter sido sempre crente, pois nas últimas visitas que lhe fiz, passou em nossas conversas, como numa pantalha, toda a amizade que tínhamos mantido como uma lâmpada acesa. Disse-me crer em Deus todo poderoso. Disse-me, também, que a única mulher que tinha amado em toda a sua vida era casada; e que esse amor era mais forte do que todas as suas convicções e crenças. E eu sei de quem se trata e esse segredo morrerá com ele, e também comigo.

A foto do Tejo ao cair da tarde, com a Ponte 25 de Abril ao fundo, homenageia as longas conversas que mantínhamos no miradouro do Jardim do Castelo de Almada, nas noites quentes de Verão, com o luzaréu de Lisboa iluminando a água e os nossos rostos, sob o ruído de fundo do rodado dos automóveis sobre o tabuleiro da ponte. Ambos falávamos de poesia, de amor e, sobretudo, de um mundo transcendental que a autoridade dos implumes conhecimentos de Filosofia nos conferia. De tal sorte era a nossa soberba que nos aventurávamos em ensaios intermináveis com a convicção absoluta de que, finalmente, tínhamos ganho o mundo das ideias só para nós. Ele era Platão, eu Emmanuel Kant; o que não significa que não trocássemos de posição de quando em quando.

M., eu ainda fico por cá e jamais te esquecerei, simplesmente não consigo é escrever mais uma linha que seja sobre a nossa grande amizade sem que os lábios me tremam e as lágrimas me tramem.

PS. Espero que o meu retorno a este espaço de escrita - ainda que nunca tenha deixado de publicar textos algo datados para ilustrar fotos de posts - não tenha sido somente por necessidade de catarse e surjam, também, alguns escritos com luz. Quem sabe, por este andar, não fico um dia como aquele amante, vencedor da própria morte, que a amada já estava morta e ele ainda lhe escrevia cartas de amor.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Negro

Hoje, já muito cansado do começo das frioleiras deste Outono amarelo e cárneo, onde toda a vida que dantes regurgitava na copa das árvores esmoreceu, senti pela primeira vez que, cedo em demasia, a luz vai-se embora. Lá em cima, o céu cinzento-carregado, quase plúmbeo, como duas mãos desertas de ternura, ameaça quase sempre com sentenças de chuva. São quase dezanove horas e já se vêem os dentes da noite. Noite que dentro de instantes vai fervilhar de gritos, insultos, gargalhadas; e silêncios absurdos, também. Hoje, em especial, a minha cabeça escalda. Tive um dia de extrema contradição. Ainda guardo cá dentro tantas palavras que não saem e me doem. Palavras ou gritos? Talvez gritos, sim, talvez golfadas de protestos. Por vezes sinto que ando a desinteressar-me completamente desta tarefa, árdua e chata, de viver. Depois vejo as coisas sob outro prisma e penso que viver, em em si mesmo, é um acto de grande coragem. Começou a longa noite. O Outono, depois o Inverno, o frio, as chuvadas intermináveis; os dias cada vez mais curtos; a ausência do meu querido Sol. Este tempo tem para mim um riso de feiticeira: A velha história das noites matreiras que matam os dias ainda jovens. As luzes eléctricas ao cair da tarde, a recolher os cansaços da gente que torna a casa; as flores doentes do dia que se vai; as sombras que se estendem no asfalto das ruas, nas paredes das casas; a ausência da cor. Ao morrer do dia, apetece-me por vezes subir bem alto, até ao cimo do castelo, para conseguir ver nos telhados, nalguma água furtada, o fogo do sol que ainda flameja, aqui e além, em tempestades de ouro. A cidade desliza para a noite e em breve virá o luar iluminar-lhe os seios. É quase hora da paragem, do ritual do jantar, que para alguns não existe. Só a côdea do desespero, ou uma vontade indómita de se deitar com o estômago vazio, igual a si mesmo.
[Estas palavras, cor do breu, escaparam-se-me numa mesa de café enquanto aguardava que o crepúsculo reinasse por completo. Fechei o meu caderninho negro da "Âmbar", enrolei-o antes de o meter no bolso, poisei a esferográfica e, por escassos segundos, cerrei os olhos cansados. Do alto da igreja matriz tinha começado o repicar dos sinos. Levantei-me, paguei a conta, e comecei a descer vagarosamente o empedrado da rua, enquanto a morrinha do dia se dissolvia em gotas de luz no negrume lustroso dos paralelos. Mentalmente, trautei uma melodia qualquer, como se fora o assobio do tempo pelo infinito. Sei que entrei no carro e dirigi-me para casa em automático.]