terça-feira, 30 de junho de 2009

Drácula azul - um new look

Hoje acordei cedissímo e, mal me vi ao espelho, não me reconheci no meu novo "look" - estranho, aquilo que a pilosidade, ou a falta dela, modifica nas feições de uma pessoa. Há muitos anos que não cortava a barba por completo. Foi então que me senti levemente vampiro, ávido de sangue, não de sangue plebeu, qual seiva comum, mas sim de fluídos azuláceos - a minha cor dilecta. Enfim, para dizer a verdade, senti-me um Drácula azul, com a consciência perfeita que se tivesse descansado mais e, porventura, não me tivesse deitado tão tarde, patetices como estas jamais sairiam da minha mente. Mas dizem que faz bem alijar estas maluqueiras logo pela manhã e sobretudo em fóruns inócuos. Tem seguramente a vantagem de não as vertemos em lugares menos convenientes e vamos para o trabalho com a vaga sensação de que somos "gente vulgar" e gozamos de uma normalidade insuspeita.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Fugazes pensamentos

(Desenho em carvão de José Aguiar - por cortesia)
Estamos no tempo certo para reforçar a pujança dos pequenos gestos, nesta era de endeusamento dos inúteis. Com frequência se observa aqui e acolá o endeusamento de coisa nenhuma, a idolatração do vazio de ideias, a veneração obscena de mentecaptos a quem sobra visibilidade tão-somente porque alguém os transformou em personagens de uma ópera bufa a que assistimos sem censura. E muitos são os que os tomam por modelo num esvaziamento célere da inteligência e lhes imitam os gestos e os repetem, e mais empobrecidos e distantes vão ficando de si mesmos. É urgente validarmos cada momento como único e indelével. É tempo de retomarmos a solidariedade como estrutura e edifício da relação entre os homens. É tempo de vermos no amor, no carinho, na estética, nas artes, no regresso à natureza e à espiritualidade, a condição maior da nossa felicidade. É tempo de nos convencermos de que vale a pena sermos bons e nos darmos com pessoas maiusculas, e que esse é definitivamente o caminho da redenção.
NB. E porque a cultura edifíca, hoje, na Arquivo, em Leiria, espero poder estar presente no "À conversa com o escritor angolano, José Eduardo Agualusa", a propósito do seu último romance "Barroco Tropical".

quarta-feira, 24 de junho de 2009

De volta a uma história muito simples...

(Caramachão em flor - Barreiro)

De volta a uma história muito simples...
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À memória do meu pai e da minha mãe, a quem devo toda a sensibilidade de que sou capaz. A quem agradeço particularmente o facto de nunca terem suportado ver-me infeliz. E para o meu irmão.
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Carcavelos, Setembro de 1988
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1. Cresci num lugar bonito, onde o mistério dos rostos foi tantas vezes responsável por um ar (meu) desconsolado e por uma necessidade imperiosa de solidão. Lembro de vez em quando a preto e branco, algumas das características do lugar: o murmurar das velhas quando andam sozinhas pelas ruas e o ar descomprometido que estampam no rosto quando, sorrateiramente, levam debaixo do avental um prato de qualquer coisa à vizinha mais amiga, a hora da soalheira aproveitada até à última réstia de sol para cozer as meias, a hora desconcertante em que os sinos dobram as mortes, que por mais insignificantes que sejam, provocam prantos análogos às outras, em que os gritos e as frases de despedida confundem, entristecem e amedrontam de forma única. Uma das primeiras imagens que me ocorre, é a da mudança para aquela que viria a ser a única casa que em toda a vida senti como minha. E o sentimento de ternura mais antigo de ternura, foi aquele que existiu entre mim e o meu gato cinzento. Por mais melancólica que seja a infância das pessoas, existe sempre um quê menos absorto que emborca as imagens e os sons, deixando vazar para fora do enlevo o que é mais desolador. Ao recuar na memória, é ao retrato mental daquela rua que atribuo tal desmérito. Era dividida ao meio por uma azinhaga. As casas, seguidas umas às outras, faziam lembrar as muralhas de um castelo que eu tinha visto num livro. E não tinha fim. Dela prosseguia um caminho de terra, com duas ou três casas pequenas a meio, que se perdia numa curva. Mas, após um olhar rápido à rua enquanto a atravessava, aquilo que verdadeiramente me entreteu o olhar, foram aqueles três sorrisos. Estavam sentadas as três em cadeiras iguais ao lado de uma porta aberta e havia cestos no chão, abarrotados de tecidos de todas as cores. Não me lembro se falaram, a única coisa que recordo é que tinham as três, os olhos pregados em mim e sorriam, adivinhando-se naquele sorriso uma futura relação veemente, tantas vezes motivo de escapadelas para as suas casas, onde, em redor de grandes lareiras eu ouvia sem pestanejar, histórias inquietantes. E olhava para todos. E, não podia perceber como era possível que existissem famílias tão grandes! A lembrança da minha entrada na casa pela primeira vez, desapareceu-me completamente, sem deixar qualquer sinal de alegria ou desencanto. Apenas fixei para sempre a parte exterior – branca e amarela, com uma enorme planta trepadeira que escondia parte da parede. Na parte de trás havia um quintal com laranjeiras e um poço, que tinha uma ligação subterrânea (e que só eu conhecia), com o mar. A minha família era eu, um pai e uma mãe que riam quando tinham que rir, e um irmão, grande e bonito, a quem eu virava e revirava as gavetas do quarto, na esperança de encontrar provas que o idolatrassem ainda mais. Se me perguntarem hoje qual é a estação do ano que mais gosto, eu não sei responder. Naquele tempo sim. As memórias que ficaram daquelas noites quentes de Agosto, elegem essa estação. À entrada da rua, com a porta entreaberta, distinguíamos o vulto de um homem que a luz inconstante e trémula da candeia teimava em não deixar ver o rosto. Tocava flauta a noite inteira. No poial, os outros homens, sentados um para cada lado, de chapéus pretos na cabeça, escutavam e abanavam muitas vezes com a cabeça “que não”. Debaixo do poste de luz, no lado oposto, as mulheres acabavam de remendar a roupa dos homens e conversavam mais do que durante o dia. E, nós formávamos um grupo de crianças verdadeiramente…indescritível. Era eu e eles – todos irmãos uns dos outros. Estávamos sempre felizes. Ficávamos, por tudo e por nada, felizes, e era tão raro sair daquela rua. Eu sabia que existia pelo menos mais uma rua no mundo, porque tinha vivido lá. Eles não. Tinham a certeza de que só aquela rua existia, de que só aquelas mulheres existiam, de que só aqueles homens, que víamos à noite, sentados uns para cada lado, existiam.
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2. O meu pai. Recordo os pequenos orgulhos, o olhar nunca insatisfeito. Ninguém me amou nunca daquela maneira. E, insistia em mostrá-lo sempre, a todos. Ah! Poder dizer na vida que fomos amados assim! Como quem faz um pacto, um juramento para a vida inteira – cuidarei sempre de ti! O homem mais belo do mundo. Fecho os meus olhos de vez em quando e, em abstracções quase perfeitas trago-o de volta ao sol. E um dia, trá-lo-ei para sempre. No dia em que nasci teve um sorriso feliz. E ensinou-me o nome de todas as estrelas quando eu abri os olhos. As minhas mãos conheceram-lhe as mãos e os meus olhos conheceram-lhe os olhos. E fomos cúmplices, quando em segredo me quis dar o mundo. Segredou-me ao ouvido – és a minha filha, é para ti. E eu sorria, sorria muito naquele tempo. Na verdade estava sempre a sorrir. E, portanto, poderei dizer que esta expressão inerte e dura que se apoderou de mim, é recente e adquirida. Não sei ao certo o que sentimos no dia da morte dos pais, quando aparece assim de repente, sem hesitar nem um pouco. Era Domingo, e poderíamos pensar que era um dia de Outono. O meu quarto era grande e eu vivia lá dentro sozinha. Desejei não ter que sair de lá nunca mais. Onde está a mãe? Eu, não suportarei nunca vê-la chorar. Não, não digam mal das cores que escolhi para o meu quarto. Façam-me o favor de sair. A última noite. Ficou sozinho. Quis fazer-lhe companhia do lado de fora da porta, mas estava tanto frio. Espreitei vezes sem conta pelo buraco da fechadura. E achei irónico, por ser uma daquelas coisas que todos os pais dizem para não fazermos nunca. Tinham posto velas no chão por toda a parte. A sua imagem – o único homem que me amou na vida, estendido no chão! E eu ali, completamente vencida por um cenário quase místico, inacreditável, quase grotesco, à espera do dia seguinte para lhe dar só mais um beijo e pedir-lhe que não fosse. Para sempre não! Nessa noite de Dezembro, pressenti que o meu olhar nunca mais poderia ser entendido por ninguém. Dias mais tarde, com alguma emoção, debrucei-me e escrevi: “O nome era bonito: Maria do Mar…mas ninguém lhe chamava assim. Fazia lembrar uma personagem áurea, daquelas que costumam entrar em todos os contos de fadas. Os traços do rosto muito acentuados e partidos ao meio, os olhos de um azul quase vermelho, os lábios firmes, sempre, sempre fechados. Vestia-se normalmente de roxo mas também gostava de branco – ao contrário das viúvas dos outros pescadores, que se vestiam sempre de negro. À noite ficava até tarde na praia. Não por achar o mar bonito, mas por gostar de ouvir o vento quando não se ouve mais nada. Lembra-se vagamente do dia em que o seu homem não voltou: as outras mulheres gritavam, levantavam os braços implorando à tempestade que se fosse. Chamavam constantemente por um nome – Santa Teresinha (sabia lá ela quem era). Os olhos das crianças muito abertos, espantados. O som das guitarras destoava, e ao fundo…o mar, que engolia e fazia à pressa a digestão dos fantasmas. Nunca procurou sentir o que as outras mulheres sentiam… O nome era bonito: Maria do mar…mas, todos lhe chamavam Maria-vai-com-as-outras”. Nas recordações que perduram, bordei, sobre um fundo de linho branco, o seu nome em cores suaves, numa caligrafia cuidada. E salpiquei o pano com água de rosas. Sei que sim. Continuarei para sempre a procurá-lo entre todos os homens que se cruzem comigo, na rua e na vida.
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3. Desde que tenho memória que me chamam assim. A lembrança, talvez a mais melancólica, que tenho de mim, é a de, sozinha, à hora em que todos dormiam a sesta (quando o sol faz maleitas), esperar o chiar das carroças, para às escondidas me derrangar, e ir assim, até que Deus quisesse. Tinha a certeza de que só eu existia de verdade: Começávamos a brincar quando o sol se queixava do reumático e se curvava. Já noite, com a barriga a dar horas e os pés mais negros do que a outra terra, ouvíamos as mães todas a bradar (havia tanto mistério no bradar das mães). Mais tarde, no aconchego da casa amarela, a avó arengava ladainhas enfadonhas para eu adormecer. E eu só gostava de uma: a do menino grão de milho. Tive a maior prática em roubar as laranjas que as mulheres penduravam à porta da rua, para anunciar que havia para venda. A primeira vez que entrei no cemitério, não percebi nada, mas achei as campas dos bebes as mais bonitas de todas porque pareciam de brincar. Pelo S. João a minha capela de flores era sempre feita à pressa e ficava-me sempre grande. Acabava por descer até ao pescoço e servir de colar. Lembro-me de alguma diferença nos rituais de Domingo. De vestirmos uma roupa especial, antes da missa; da irritação permanente e da inveja por não ir tomar a hóstia, durante a missa, da correria para a catequese, depois da missa. Cheguei a ter medo do som da chuva a tombar do lado de lá do escuro, e adorava o perfume da terra molhada (sempre me cheirou a não sei o quê). Tive um segredo durante muito tempo: sabia de onde vinham os bebes. Tinham-me dito ao ouvido (como se dizem todos os segredos) na escola. E o dia de Reis era o meu preferido (a mãe tinha sempre uma romã para comermos no dia de Reis). Arco-da-velha – o maior enlevo. Bonecas sem cabelo – o maior desencanto. E tudo era tão simples como isto! As infâncias não são nem felizes, nem infelizes. São infâncias! É típico das crianças a ousadia e insensatez, É típico das crianças, o apego às mães, porque é por causa das mães que as infâncias são assim: Azuis. Eu quis ser exactamente como aquela mãe. Ter um olhar de bondade e uma postura de poetisa em todas as horas do tempo. Aprendi o significado da palavra surpresa no dia em que me preparou uma à hora de almoço. E nunca mais esqueci o significado e o sabor. Sonho com ela quase todas as noites. E o sonho é sempre diferente. Novos pormenores, novos motivos de apego e de esperança. Sem qualquer tipo de resistência: Eu fui vencida! E sei que podemos sentir a partida das mães com muita ternura, e que tudo se passa ao som de uma caixinha de música, que nos faz adormecer. Nunca bradou o meu nome como as outras mães. Pronunciava-o apenas docemente. E preparava as melhores festas de anos. Estava sempre a chover, mas vinham sempre todos, porque quando somos crianças, gostamos de olhar para os olhos compreensivos das outras mães! É verdadeiramente difícil descrever pessoas e sítios e momentos especiais. Requer uma magia, um talento, uma vontade exclusiva…Somos invadidos por qualquer coisa que não sei o que é. É uma espécie de água morna que nos aquece as mãos. Fecho os olhos, os lábios sorriem, É um sentimento perfeito, bonito e único. É como ter sido feliz. É ter sido feliz!
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4. Fazíamos grandes rodas e brincávamos ao senhor marquês todos os dias. Prendíamos os casacos à cabeça para fingir que eram cabelos compridos e mudávamos de penteado com uma frequência incrível, para não nos aborrecermos. Dividíamos os espaços e os brinquedos e imaginávamos filhos invisíveis. Eu tinha sempre um filho. Apenas um. Tinha os contornos dos olhos do meu irmão e chamava-se como ele. Demos grandes passeios por aqueles campos fora, onde eu, umas vezes mãe, outras vezes fadas, outras índias ou ser do espaço, passava os meus dias. Onde estavam árvores eu não via árvores. Cada dia o cenário era diferente. E aquele espaço era exactamente aquilo que eu queria que fosse. Volto lá sempre que posso – ao meu feudo. Por conseguinte, não tenho mais nada de meu. Havia flores por toda a parte e a palha seca reflectia as cores do sol e os movimentos da lua de uma maneira que nunca serei capaz de descrever. O recitativo tem início nos momentos em que, como agora, sinto vontade de abraçar o meu filho inventado. Era mais velho do que eu e fugiu de casa no dia em que nasci. De cada vez que eu tentava perceber o “porque é que seria”, pedia à mãe ou às tias que repetissem a história. Elas respiravam fundo e pediam a Deus que fosse a última vez, ao mesmo tempo que tentavam uma explicação convincente e firme. Podia fazer sol. Podia brilhar o rocio nas nossas laranjeiras e a água do poço ser gelo. Tanto fazia. Todos os sentidos me empurravam: vais segui-lo. Vais esperá-lo. Talvez hoje ele te pegue ao colo e ensaiem os dois gargalhadas até tarde. Ele é um acrobata. Tem equilíbrio nas cordas. E ensina-te a ter equilíbrio nos seus joelhos. Queres ser como ele! Cresceu tão depressa! Mudou de escola. Mais tarde partiu para longe…e eu sempre na retaguarda com a boneca ao colo a observá-los aos três à volta da mesa, a olhar, como que à procura de outras soluções, para uma tigela com ovos, para o cesto das maçãs. As maçãs… Conheci e senti a sua ausência em todas as partes da casa e no olhar da mãe. O pai apoiava o queixo na mão direita e olhava longínquo para o fim da rua. Também cresci. Tinha entrado para a escola e sentia uma espécie de paixão pelas letras do meu nome. Sabia ler. Ele voltava aos fins-de-semana e trazia-me presentes. O primeiro foi um livro. Tinha figuras coloridas e eu pintei as partes brancas com lápis de cor. O segundo foi um livro. E é concerteza daqui que me vem o fascínio por histórias inventadas. Diria mesmo que, sem saber, o meu irmão é o responsável pelo envolvimento que mantenho com os livros. Obrigou-me mais tarde a ler o primeiro romance e eu nunca mais parei de ler romances. E de os reler. Mas falava de ausência. Senti a sua ausência como quem carrega nas mãos o próprio corpo e tem pela primeira vez a noção de peso. E não gosta. Para uma criança, a ausência repentina de alguém que faz parte de um mundo montado com muito cuidado, é particularmente difícil. Por isso, no dia em que voltou, vivenciei a experiência de felicidade. Entendia que ele era muito especial. Não, não era igual aos outros rapazes. Tinha algo que o diferenciava de toda a gente. Poderia dizer ou pensar que era a minha consciência estética…mas não. O que ele tinha de especial era intrínseco à sua própria existência. O meu maior sonho concretizou-se um dia. Existiu um tempo em que frequentámos a mesma escola. Guiou-me nos corredores, ensinou-me tudo. Era o meu Anjo da Guarda. Os grandes amores são sempre imperfeitos. Mas o meu amor por ele, ainda que pedindo por socorro durante os grandes desencontros da vida, foi sempre sólido. Como que presos por um cordão umbilical que nenhum objecto cortante, nem mesmo o vidro mais fino, será capaz de cortar.
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PS É quase noite. Estou sozinha. Tenho um vestido de veludo. Não sei a cor. E uso luvas. Trago o cabelo apanhado. É muito preto, o meu cabelo. Ao longe tocam harpa, não sei quem será. Vou entrando com lentidão pelo mar adentro. Cheira a sal e a algas e há muitas gaivotas. Levanto os braços e estou a sorrir. Deito, por um momento a cabeça, num movimento que não revela qualquer esforço da minha parte, no colo dos peixes. A água apresenta um brilho invulgar. Tem uma cobertura de madre pérola e distingue-se agora um cheiro selvagem a flores silvestres, trazido pelo vento, do lado do lugar onde nasci. Na areia cresceu lavanda e agora a areia é azul. Da cor dos meus olhos, dos meus sonhos, da minha vida. A minha vida é azul. Continuo a caminhar em direcção às ondas. Procuro harmonia. Hei-de reencontrá-los a todos, antes de alcançar o fundo deste mar.

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[Texto lindissímo, escrito há 21 anos pela Ni que, com a sua permissão e depois de alguma insistência da minha parte, finalmente publico no Madrigal. A Ni diz-me que desistiu de escrever porque se sente uma "escritora falhada" - o que é uma inverdade absurda! Pena é que gente com muito menos lustre, seja por propensão latente para o auto-convencimento, seja por gozar de incentivos maiores - mormente o ruído de fundo provocado por aplausos constantes, a propósito de tudo e de nada - sinta, mais do que ela, que merece continuar. Espero que este "empurrão" sirva para devolver à Ni a vontade de voltar à escrita. Um beijo mt grande para ti e volta, sim?!]

NB. Estupidamente, à data, só publiquei a 1ª parte do mesmo, facto que agora, embora tardiamente, remedeio.

A partida dos amantes

(Ferragudo - Portimão - Foto da autoria de Isabel Patronilho)
É uma escuna ancorada e vamos os dois dentro dela, sossegados, ansiosos, iluminados pela claridade ténue do enterro do sol, embalados nas águas cálidas, doiradas, no plácido estertor de mais uma tarde de Verão. Às vezes ficamos assustados pelas vagas sensações do Inverno, mas é dentro do barco que atravessaremos as marés do coração; tu e eu, somente. Tanta coisa deixámos para trás: os trapos, a casa, quase tudo; mas sabemos que em cada um dos nossos corações dorme uma rosa; a flor que lá plantámos; e é a sua augusta beleza que nos protege da teimosia em acrescentarmos esperança a cada coisa que perdemos. Beijamo-nos fervorosamente, com os lábios fendidos do sol, do vento e do sal, como se nos estivéssemos despedindo um do outro, quando na verdade o nosso olhar imenso, como um vasto continente parado, diz adeus aos desgostos antigos e às alegrias estremecidas de que ficou quase nada. Agora temo-nos um ao outro, porque é dentro de nós que está a verdade. É dentro de nós que se esconde o oceano dos sorrisos.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sem comentários

Eleita a melhor fotografia do século pela National Geography.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O vôo

(Lagoa de Albufeira - Sesimbra "Final da tarde"- Foto de Isabel Patronilho)
Hoje abri a janela voei bem alto, beijei as nuvens, escrevi o teu nome com os raios do sol e quando escureceu, deitei-me na lua nua e sonhei contigo. Olha só como é frágil! Frágil pena; frágil duna; frágil ser; frágeis olhos que só olham para ti! Tanta fragilidade... E o medo de se quebrar tal qual cristal caído e nunca mais se juntar? Sangra peito até que eu morra. Derrama tudo para que eu durma. Não quero mais chorar. Não quero mais lembrar. Quero fugir. Levantar voo. Ficar em paz. Somente eu, rasando o mar, o céu e as falésias.

domingo, 21 de junho de 2009

A natureza em exultação

(Herdade da Apostiça - Sesimbra) "Gotas de resina escorrendo através de um fio de uma teia de aranha..." Autora: Isabel Patronilho
O belo, como todos os conceitos difíceis, está muitas vezes para lá do que se vê, do construtivismo, do naturalismo da forma ou da cor. O belo, por vezes, está gravado no coração e na mente das pessoas para quem a importância da estética é um elemento fundamental. Há quem ache que o belo tem um carácter essencial que se presume, tão indizivelmente como tudo o que é importante, e que por isso mesmo, diz muito mais sobre aquele que contempla do que sobre o objecto de admiração. Daí a afirmação recorrente de que a beleza está nos olhos de quem ama. Se for assim, quer dizer, se a beleza for o sintoma de uma rendição afectiva, então entramos num outro registo valorativo em que o sensorial manda. Um sensorial personalizado que dá atenção ao que se vê, mas também ao que se cheira, ao que se tacteia, ao que se ouve e ao que se saboreia. E até por esse carácter raro e escasso, o belo que encontramos, ou nos encontra, sobrevive em nós e formata um outro olhar, definitivo. Este instântaneo da Isabel - que assentiu na proposta de me autorizar a publicar no blog algumas fotos do seu imenso portfólio, todas da minha escolha e com comentários livres - se para a natureza representa um momento trivial, é fruto do olhar atento de quem soube captar a beleza e o detalhe do inesperado. E é desta beleza que eu falo: a beleza que mora nos olhos de quem a vê - de quem a consegue ver.

"Entardeceres"

"Entardeceres" - Lagoa de Albufeira - Sesimbra [Foto da autoria da minha amiga Isabel Patronilho]
Os "Entardeceres" são, talvez, dos momentos mais belos do dia, quando o sol desmaia no céu e deixa atrás de si uma despedida de matizes variadas, que se demoram até que a noite, insidiosa, ávida por marcar a sua presença, lentamente vai cobrindo tudo com o seu manto negro. Depois, chegam as estrelinhas e os planetas e pintalgam o astral com infinitos pontinhos cintilantes a perder de vista. Num final de tarde, deixarmo-nos extasiar por um espectáculo assim - o pôr-do-sol sobre as águas serenas de uma laguna - equivale à consciência firme de que a profusão de sentimentos bons, que por vezes nos invadem a alma, podem ter expressão estética nas belezas que a natureza em cada momento nos oferece e que, a nós, basta-nos apenas olhar com olhos de ver. Entardecer é também uma metáfora para o declinío da vida. E a necessidade de consolação, de amor, de ternura, existe em todos nós, em qualquer idade. Por mais fundo que tenhamos ido numa forma de estar objectiva e pragmática, resiste sempre qualquer coisa de outros tempos, de uma infância distante em que a própria dimensão e a inerente capacidade de perceber o mundo e percepcionar os fenómenos nos acordavam sobressaltos, despertavam fantasmas, traziam medos. Todos queremos um colo. Um colo doce, terno, enorme, seguro. Um colo que cheire bem e faça bem e nos abrigue de todas as intempéries. E o entardecer da vida não muda a nossa génese, antes a apura. E que importa se a beleza é nossa durante um segundo, ou fracções de segundo, usando a linguagem fotográfica? A felicidade não só se situa à margem do tempo como nega toda a relação deste com a vida. Por definição, a satisfação de uma necessidade anula-a. Todas as nossas necessidades, das mais básicas às mais complexas, do sono ao belo e da sede à consolação, sofrem deste processo de intermitência que consiste primeiro num desejo intenso e depois numa acalmia breve. Foi este belíssimo instantâneo da minha amiga Isabel, mulher dotada de uma estética invulgar, coincidente com a sua fascinante beleza exterior e interior, que, nesta manhã dominical, tão linda, radiante e formosa, como há muito tempo não se via uma assim, me suscitou estas palavras avulsas. E ponho-me a pensar: quantas vezes não tropeçamos no inútil, no medíocre, na vulgaridade e somos quase levados a concluir que já não existem outras realidades e nada vale a pena; mas outras vezes, mais raro, porém, tropeçamos no belo, no invulgar e, porque não, na paixão que tardava em vir. Tudo acontecimentos inusitados que nos tocam agradavelmente, como fossemos as crianças que finalmente desembrulham os presentes porque há tanto ansiavam.
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NB. A Lagoa de Albufeira faz parte dos locais dilectos da minha infância e juventude e já pertence ao espólio do meu imaginário, tantas as peripécias que por lá passei.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

5 minutos inesquecíveis

www.tubewatcher.tv/182 Para quem ama voar como eu, deixo aqui um vídeo em HD, absolutamente extraordinário.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O fim do CUOTIDIANO

Lamento imenso o anunciado fim do blog Cuotidiano, um espaço onde há mais de três anos eu era presença assídua, embora raramente comentasse, como aliás acontece amiúde em muitos outros blogs. Cada autor é livre de um dia abandonar por completo a blogosfera ou, quem sabe, criar outro blog e seguir um estilo de escrita completamente diferente. O Cuotidiano foi para mim um marco no que concerne à aprendizagem do que podem ser a imaginação e o sentido de humor completamente delirantes, levados às últimas consequências ou às fronteiras do inimaginável – eu seria incapaz de escrever tão bem assim, quer do ponto de vista do processo criativo, quer na escolha tão delicíosa dos conteúdos; e, talvez por isso mesmo, admiro bastante estilos e percursos de escrita completamente diferentes do meu. Nunca conheci pessoalmente o autor do blog, pese embora tenhamos trocado alguns galhardetes e dois ou três e-mails nestes últimos anos. Sei que, com toda a probabilidade, ele nunca leria estas minhas palavras, uma vez que nunca frequentou o meu espaço de escrita, por isso lhas vou deixar em comentário. Não queria deixar de prestar a minha homenagem à sua escrita, onde o corrosivo, o delírio, o excesso, a lascívia, a graça, a doçura e a arte de bem escrever se mesclavam ecumenicamente como só o seu autor o sabia fazer.

Bem hajas, Cuotidiano. Até um dia, ou até sempre!..

Teste do Amor

Para saber quem o ama de verdade
Faça o seguinte teste: 1 - Tranque o seu cão e a sua mulher na mala do carro. 2 - Aguarde exactamente uma hora (uma hora mesmo, senão o teste não dá certo). 3 - Abra a mala do carro. 4 - Veja quem está feliz por o ver novamente...
NB. Não tenho mulher, nem cão, mas garantiram-me que o teste é infalível e que também resulta no sexo oposto, ou seja: se trancarmos na mala do carro o marido e o cão, o resultado é igualmente matemático - com tantos "love tests", idas à bruxa, sortilégios, preces, oráculos, afinal existe uma forma assertiva, imbatível, com uma fiabilidade a rondar os 100%, capaz de medir a força do amor que têm - ou não - por nós. Estamos à espera do quê?

domingo, 14 de junho de 2009

Barragem do Cabril - Pedrogão Grande

(Barragem do Cabril - margens do Zêzere - Junho 2009)
Hoje de manhã fui dar uma voltinha de cerca de 140 kms - ida e vinda - até à Barragem do Cabril, nas margens do Zêzere, perto de Pedrogão Grande. Desde a saída de Pombal, na direcção de Ansião, até lá chegar, a paisagem florestal vai-se tornando cada vez mais deslumbrante, bem como as vistas sobre o rio Zêzere, as pontes altíssimas e os túneis, que vão aparecendo inesperadamente pelo caminho. Junto à barragem, há restaurantes óptimos - casas de madeira tipícas da região transformadas em locais gastronómicos -, a possibilidade da prática de desportos náuticos, tais como: canoagem, gaivotas, barcos a remos ou a motor e motos de água. Enfim, um ambiente maravilhoso de floresta e rio. Ainda percorri cerca de 30 kms sob chuva mas, felizmente, com a deslocação do ar, a roupa secou rapidamente e o passeio, no cômputo geral, foi bastante agradável. Um pouco mais abaixo, ficam as Aldeias do Xisto da Serra da Sertã, que já conheço. Qualquer dia, palavra de honra, com os conhecimentos turistícos que tenho capitalizado nos últimos tempos, posso servir de guia a alguém que queira conhecer lugares belos nestas terras lusas do meio - a vida está difícil e é sempre bom encarar um plano B. Passear sozinho tem, de resto, esta virtude: podemos sempre voltar aos lugares que descobrimos com alguém e deslumbrar a nossa companhia com o estonteamento de uma beleza que previamente conhecemos. É decerto o que farei.

Sobre a esperança - parcas linhas

O pior é sempre possível mas não é fatal que isso aconteça e, nessa medida, é sempre permitido ter esperança. O tempo, de certa maneira, é uma criação do possível, já que a nossa acção pode sempre criar outras possibilidades; e um dos grandes erros das utopias que se formam na nossa mente, é justamente o de fixar, através da imaginação, o "futuro ideal", o termo perfeito da nossa história e até os meios para lá chegarmos. Não concebemos outros caminhos, porque julgamos que não existem, e caimos na resignação do não ter conseguido a única coisa que julgávamos possível querermos. A esperança que ora me invade e que cultivo, incita-me a compreender que o agora não é a totalidade do possível e que ninguém pode considerar-se legitimamente dono do saber, nem pensar que pode apoderar-se do poder sobre o futuro. E é justamente a esperança que me leva a negar a sacralização do presente como algo imutável, ou premonitório de resultados por mim não desejados. Neste Domingo enevoado, cinéreo, com o céu a querer romper-se em lágrimas, escrevo, logo pela manhã, nesta espécie de "línguagem dos loucos", que tanto me caracteriza, talvez porque não conheça a mórbida coerência dos lúcidos, nem consiga sair-me de outra forma.

sábado, 13 de junho de 2009

Rio Maior - a terra do famigerado leão

A convite e pedido de uma pessoa amiga, que me solicitou ajuda por ter um gato morto há vários dias no quintal e não ter coragem para se desfazer sozinha do animal, cá vou eu a caminho de Rio Maior. Trata-se de uma vila que fica 50 kms a sul de Leiria, mesmo no sopé das Serras d'Aire e Candeeiros, os maciços montanhosos que todos os dias avisto, ao longe, da minha varanda, recortados no azul do céu; umas vezes iluminados pelo sol, outras vezes, como silhuetas vagas erguidas no silêncio da noite, acompanhadas dos moinhos de energia eólica, na zona de Porto de Mós, todos muito juntinhos como se fossem ventoinhas gigantes um dia lá colocadas por habitantes de outro planeta. A tarde parece querer enfarruscar-se e o céu adquiriu uma tonalidade cinza, daí ter optado por ir de automóvel. Não faz muito tempo, um pouco a sul dessas bandas, logo a seguir a Alcoentre, vindo eu do Alentejo, apanhei um temporal de chuva e granizo e tive de fazer bastantes quilómetros até Leiria sob condições adversas. Mota e chuva não combinam com as minhas preferências, quer no que toca à segurança, quer no que respeita ao conforto, portanto, hoje é dia para viajar de carro, já que o Verão parece ter-se instalado numa clausura de humor instável: umas vezes sorri, outras vezes chora, sem que ninguém lhe consiga perceber os motivos. Enfim, uma birra pegada que já ninguém lhe atura, muito menos eu.
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NB. Quem, da minha geração, como é evidente, não se lembra da famosa reportagem do falecido Fernando Pessa sobre o presumível Leão de Rio Maior? Uma fera que, ao que consta, andava à solta, aterrorizando as populações das aldeias vizinhas, muitas vezes avistada e relatada por testemunhas que descreviam o animal com o maior dos detalhes, mas que nunca foi capturada? Será que os riomaiorenses precisavam de um Nessie para transformar a sua pacata vilória num pólo de atracção e curiosidade turistícas? A verdade sobre o que realmente aconteceu jaz algures nos meandros do imaginário das gentes mais velhas. Parece que estou a ver desfiar na minha mente, ainda na velha RTP, as imagens a preto-e-branco dos aldeãos, de botas de cano alto e caçadeira aperrada, todos à cata da fera malvada que conseguiu aterrorizar durante mais de uma semana a pacata população local. À época, o apontamento de reportagem do Pessa, constituiu um dos maiores momentos televisivos, quer pelo inexcedível sentido de humor do repórter, quer pela sua inimitável capacidade de comunicar e se entrosar com os autócnes. As saudades e o tempo passado dão lugar a um repositório cada vez maior de memórias. Não será essa uma das mais-valias do rodar dos anos e dos percursos vividos?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O voo da gaivota

(Praia da Vieira de Leiria)

A necessidade de ao escrever ser original, inovar, é uma constante em todos quantos sentem que essa forma de expressão os habita; e às vezes fazemo-lo, não porque tenhamos alguma coisa para dizer, mas porque gostamos de nos escutar a nós mesmos, com a consciência vaga de que seremos lidos. A dimensão da genialidade, do pensamento que emerge e inova, que corta com qualquer coisa estabelecida e aponta novos caminhos e novos devires, é hoje extremamente difícil. Por um lado, por mais que nos esforcemos, é muito difícil inventar, mas sobretudo porque vivemos num mundo plural em que coexistem transversalmente toda a gama de concepções, em que qualquer coisa e o seu contrário merecem espaço, tempo e atenção. E, para lá de todos os nossos limites, há o medo do ridículo, o medo de, ao pretender ser diferente, ao tentar inventar ou inovar, não fazer mais do que mostrar uma imensa e pretensiosa ignorância. Todos percebemos que o acesso generalizado a tanta informação, a tantos espaços de escrita com textos de qualidade inegável e inigualável, vulnerabiliza extraordinariamente os pretensos escreventes menores. Quando leio textos sublimes, escritos por génios, invadem-me dois sentimentos que diria quase inconciliáveis: se por um lado sinto uma admiração profunda e uma vontade de aprender – é com os melhores que o devemos fazer! - por outro, deprime-me um pouco saber que a minha fasquia situa-se em limites substancialmente inferiores. No entanto, a vontade indomável de continuar a escrever, por si só, creio que justifica a insistência. Vivemos numa época de descuro da genialidade, não porque não hajam propostas inovadoras, mas porque há um estilo de funcionamento social que implica uma naturalização muito rápida das coisas. Aparece uma nova ideia e essa ideia é imediatamente adaptada, integrada, naturalizada. De geração para geração, e de ano para ano, há uma acumulação do efémero que nos permite aceitar e integrar a novidade que vem, o que implica que o que foi moda o ano passado, já não o seja este ano, e assim sucessivamente. Como, afinal, somos humanos, e precisamos de referências, e como as referências do nosso tempo são concomitantes a nós próprios e as consumimos a uma velocidade assustadora, acabamos sempre por regressar àqueles que escaparam a esse tempo acelerado. Regressamos aos clássicos, àqueles que no seu tempo e na sua época, criaram, inventaram, pariram ideias e produziram textos que perduraram e chegaram intactos até nós. Por isso mesmo, Dostoievski, Eça, Camilo, Proust, são leituras recorrentes que, em determinados momentos, me conduzem inexoravelmente à necessidade da probidade de que a genialidade tout court existe! Talvez que a profusão das minhas muitas leituras comece a nublar-me na destrinça entre o bom e o genial. Escrever sempre foi para mim uma atitude libertária, que tantas vezes tenho exprimido em metáfora: o voo errante de uma gaivota sobre as escarpas aguçadas de uma arriba rente ao mar. Eu existo desta forma. E existir não é sinónimo de ser. As pedras e as casas são e contudo não existem. A existência implica, na acepção mais filosófica que concebo, a consciência de nós mesmos. Nesta óptica, nós não somos mais do que aquilo que fazemos ou, por outras palavras, um projecto que vive subjectivamente e que nós paulatinamente completamos, tornando-nos responsáveis pelo rumo que imprimimos às nossas vidas. E creio que, mesmo arriscando a redundância, não há sentidos fora do que se sente, porque se nasce acidentalmente e se morre irremediavelmente. Um dia.

Navegar é preciso

("Navegar é preciso, viver também é preciso...")

No paso nada

(Buenos Aires - "Una calle surreal" - Dezembro 2008)
Um pequeno contratempo de saúde, entretanto solucionado, deixou-me afastado por uns dias deste espaço. Hoje, sexta-feira, dia em que finalmente pude vir trabalhar, encontrei uma manhã nevoenta, aziaga, mais digna de um prenúncio de Inverno do que sabendo-me às portas do Verão. As minhas férias são já para o próximo mês e é porventura esse o meu primeiro pensamento positivo de hoje. No hiato ora relatado no paso nada.

domingo, 7 de junho de 2009

Absoluto

("Mulher azul" - tela de Augusto Lima - por cortesia)
Há muitas caixas de muitos tamanhos e muitas cores. Estão fechadas, contêm mistérios. Estão sobre a erva, sobre os mares e rios, sobre a terra, sobre as areias. Fui em busca daquelas caixas que contêm mistérios. Tive uma e outra nas mãos porém, nunca pôde abri-las. No final, senti a morte, recostei-me sobre a erva vi muitas caixas que continham mistérios. Estavam fechadas. Vi o céu, os mares, os rios e toquei a erva. Era verde e húmida e senti-me terra, erva, mar e céu. Vi espaços de luz ouvi a música da claridade, senti os amanheceres, a paz do brilho da manhã, a vida palpitando. E fui uma luz clara uma nova luz. E senti o meu amor por ti! E converti-me em água transbordada. A terra abria-se à minha passagem, banhei infinitos amanheceres e não me detive. E a luz sempre brilhou e sempre houve um novo amanhecer, envolto por aquela cortina de veludo anil de onde eu te mandava beijos num adeus envolto em fiapos de tule. * A ti!

sábado, 6 de junho de 2009

I want to ride my bike!

Se eu fosse um nativo da velha Albion diria para mim mesmo - pois não há ninguém por perto para me escutar - com ar impertigado, em absoluta afasia emocional e, naturalmente, de forma pausada e serena - very british: "Shit! It's raining cats and dogs and I can't ride my bike!" - mas como sou um portuga, nado e criado em terras lusas, remotamente descendente de um tal Viriato, que, a long time ago, andava de tanga pelos montes e vales das cercanias de Viseu à cata de romanos para lhes tirar a pele e as farpelas, digo de uma forma mais enfática e entendível:"Que grande merda! Está a chover como o caraças e logo hoje que queria dar uma volta de mota! Dasss!" - E assim toda a gente me entenderia, pese embora a boçalidade e os ditoches de mau gosto não serem o meu forte. Fico-me por casa a escutar Bach, enquanto bebo o cafezinho gostoso da manhã, com fiapos de leite, acompanhado de requeijão magro e adormeço os olhos nas vidraças da janela do meu escritório, à semelhança dos pensamentos que me invadem nesta hora ainda tão matinal, já cobertas de múltiplos canais pluviais que escorrem em caudal e se fundem uns nos outros.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Uma conversa demorada

Não é fácil exprimirmos o que sentimos em todas as circunstâncias. Não é só um problema da língua, do ser difícil, traiçoeira, complexa, contraditória, ou as outras coisas todas. O dizermos o que nos vai na alma não passa de uma velha metáfora, despida quantas vezes de espiritualismo, mas pungente na nossa necessidade de afirmarmos, permanentemente, uma existência subjectiva e, de algum modo, transcendente em relação a uma entidade que nos espreita do outro lado do espelho e que, tantas vezes, não identificamos nem reconhecemos como sendo o destinatário dos nossos expatriados pensamentos. O que nos vai na alma, ou, por palavras, o que sentimos, é um caudal iníquo e contraditório em que se misturam de forma aleatória, quando não descontrolada, sensações, pensamentos, desejos, fantasmas, fantasias, medos vagos e outras coisas de igual ambiguidade. Os sentimentos propriamente ditos, aquele fluxo que medeia entre o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a tranquilidade e a inquietação, o desespero e a esperança, a inveja e a gratidão, habitam-nos como uma segunda pele e dão-nos, além do mais, algum sentido de existência e de coerência. Sabemos todos algumas coisas dos nossos demónios. Eu sei que preciso de fazer uma pausa para falar com eles - uma conversa em particular, como é evidente.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Stonehenge Festival - 25 de Julho 2009

(Stonehenge Festival - Fonte: Internet)
Hoje, alguns motoqueiros da BMW Motorrad, fizeram-me um desafio completamente louco: ir ao Stonehenge Festival, que começa no dia 25 de Julho próximo, integrado num grupo de 15 motas. O roteiro-plano dos lunáticos cinquentões é mais ou menos o seguinte: Leiria - Salamanca - San Sebastien - Pas de Calais. Uma vez em Pas de Calais, embarcaríamos as motas no ferry para Dover e, de seguida, seguiriamos através da verdejante e romântica paisagem do Wessex até alcançarmos o Condado de Wiltshire, onde se situa o lugar mítico. Trata-se de um espaço tumular, circular, constituído por 30 monólitos e é o monumento megalítico mais visitado de Inglaterra. Reina solitário numa planície verdejante a perder de vista, e continua a atrair milhares de pessoas de todos os lugares do planeta, em especial aquando do solstício de Inverno. Estive em Salisbury e também nesse lugar fantástico, há cerca de 25 anos, sempre em campismo, com uma enorme mochila às costas e um sorriso atado nos lábios, durante um dos meus saudosos interrails. Mas o convite que me foi feito não tem como propósito nenhuma expedição arqueológica ou uma vontade indómita de recriar ritos ou práticas ancestrais. O motivo principal da viagem, para além do passeio em si, claro, é a participação no famoso Festival de Stonehenge, um lugar de predilecção para amantes da música, em especial para os saudosistas do fenómeno hyppie. Joe Cocker, The Human League, Elvis Costello, entre tantos, são presenças garantidas. Resta saber se terei: resistência lombar para fazer perto de 2500 kms (só a ida); disponibilidade financeira (o Reino Unido é, com excepção dos países nórdicos, um dos países europeus mais caros que conheço); e, mais importante, disposição para conduzir tanto, uma vez que tenho planeada uma viagem muito mais "Enduro": uma ida de ferry até à Ilha da Madeira, desde Portimão, para apreciar as curvas sinuosas e a paisagem deslumbrante da Pérola do Atlântico. Mas, se bem me conheço, este tipo de decisões serão tomadas quase em cima da data prevista e sempre ao sabor das circunstâncias. Mas lá que fiquei a matutar no assunto, fiquei."Ka gandas malucos!"