terça-feira, 30 de outubro de 2007

A nice pair of...

O desejo crescia em mim, mas desta vez foi diferente. Nem sei como aconteceu. Entreguei-me a uma tal fragilidade que me assusta. Mas soube-me bem esta sedução primeira, esta fixação do olhar. E não me apressei a acordar outros sentidos. Mirei-os, jazendo no meio dos outros, discretos, contidos de formas. Avancei um passo na direcção da sequência assim exposta e vi mais de perto o objecto do meu desejo, a oferecer-se, a desafiar-me. Conheço as intenções da decorada simetria de espelhos que ampliam o espaço. Sei bem que foram inventados para estimular a imaginação, para provocar a vaidade. No interior da loja, sucumbi à tentação e paguei o preço que me pediram. Sai para a rua e já os levava calçados, para se irem habituando aos pés. Mal sabiam eles o sofrimento que os esperava sob o meu jugo. Esqueço-me do que aconteceu depois. Nada de diferente do costume. Daí a pouco, apenas um escorregar em demasia no empedrado me fez recordar que havia comprado uns sapatos novos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

C vai casar...

C, uma colega de trabalho, ainda muito novinha, vai casar para o mês que vem. A mocinha exala felicidade e não fala de outra coisa. A propósito do seu casamento, conversa puxa conversa, gerou-se uma oportunidade para opinações díspares. Falou-se sobre os raros momentos de felicidade plena, na vertigem dos dias que passam, e discutiu-se os perigos que ameçam os casais mais promissores. Deixaram de ser os pecados contra o 6º e o 9º mandamentos os mais terríveis para a estabilidade de um casal, e talvez por isso se fale mais de "crises existenciais" vividas a dois - se é que alguém algum dia me vai conseguir explicar bem o que isso é, sem medo que tal desabafo seja inconveniente em público. Os motivos que abalam os casamentos não têm a ver com adultério, luxúria, avareza ou desperdicío, alcolismo ou preguiça. Nem sequer com maus tratos (e quantos maltratados existem nas mais perfeitas familias!). Têm a ver, em vez disso, com uma nova forma de escravatura: o transtorno do direito à privacidade e a individualidade. Uma conclusão brilhante e lógica que resultou da conversa. Mas não será o casamento uma espécie de "pacto social" ou, antes, uma "alienação consentida" da soberania (a individualidade) em prol da construção de uma vida a dois, onde a partilha é a regra e a individualidade a excepção? Porque que casam pessoas que sabem de antemão que não conseguem viver sem a sua "individualidade"? Porque farão, nesse caso, sofrer de ilusão os que, voluntariamente, estão dispostos a abdicar do espaço d'Ego em prol da construção de uma vida a dois onde a componente casal é a regra e o cariz solitário a excepção? Talvez julguem que o parceiro pode ser o tal "rato albino" ideal para mais uma experiência nas suas vidas, sabendo à partida que o alvoroço da individualidade é, mais do que uma escolha pessoalissíma, um traço de personalidade e uma predestinação à qual não podem fugir. A essas pessoas, em nome da felicidade, devia ser legalmente proibido casar. Sejas tu muito feliz, C, mais o teu noivo policía de rondas.

Do amor ao conforto entre outras coisas

A temperatura tem descido consideravelmente e este fim-de-semana, pela primeira vez este ano, liguei o aquecedor durante a noite. Nestas coisas de caloríferos, pesa-me sempre na consciência a perspectiva terrífica de ter de me deparar com uma conta de luz gigantesca no fim do mês, mas o desconforto do frio acabou por me convencer e dormi como um anjinho rendido ao aconchego dos quentinhos. Para quem como eu se vê privado durante a maior parte do tempo do conforto caseiro, é sempre um privilégio deleitar-me com as curtas estadas no lar. Não fazer nada, excepto ficar refastelado no sofá a fazer zapping na televisão e, de quando em quando, dar umas cochiladas gostosas é algo tão bom que estou certo de que só quem nunca experimentou tal actividade - seja por falta de oportunidade ou por outro motivo qualquer - não sabe o prazer que perde. Realmente, quantas vezes a nossa cabeça se esvai em estertores hiperactivos que nos levam a querer fazer milhentas coisas ao mesmo tempo, umas sucedendo-se às outras, sem que nos detenhamos o tempo necessário numa só actividade: não fazer nada, por exemplo. A maioria do tempo não chegamos sequer a extrair a satisfação devida daquilo que nos propusemos fazer, para não falar nos recursos económicos gastos sem que haja um retorno de prazer proporcional ao dinheiro e tempo despendidos.
Até agora estas palavras mais parecem o discurso balofo de alguém que já entrou na fase "Garfield" da vida e que se desdobra em mimos e apologias às delícias turcas que um bom sofá frente a um aparelho de televisão podem proporcionar. Talvez haja nisso alguma verdade, mas todos nós sentimos falta daquilo que desejamos e não temos, ou que temos mas em quantidade insuficiente. E isto aplica-se a tudo na vida, não excluindo o conforto. Hoje só me apetece falar de conforto, coisas fofinhas e aconchegantes, quem sabe se em virtude da perspectiva de em breve ir adquirir uma casa mais ampla, com lareira, aquecimento central, aquecedores de toalhas nas casas-de-banho e todas esses adereços modernos que, nos meus tempos de inter-railer «backpacker», só o imaginar tais necessidades me faria perder de gozo. Longe vão os tempos em que trilhava a Europa com a casa às costas, dormindo nos assentos dos comboios, nas praias, nos campings, nos albergues da juventude, iniciando a aventura em Santa Apolónia, com quarenta e poucos contos metidos numa bolsa presa à cintura; o bilhete de inter-rail e o passaporte bem acondicionados junto ao corpo, a tenda, o saco-cama, algumas conservas e alimentos de recurso; os olhos rebrilhando e um enorme sorriso de motivação plantado no rosto, atento ao apito lúgubre que anunciava a partida do Sud-Express rumo a Austerlitz. O dinheiro era esticado até aos limites do impossível e, mais fome menos fome, passado um mês, lá vinha eu, com menos uns quilitos no corpo e uns quilitos a mais na mochila, insaciado de aventuras e a planear um bis para o ano seguinte. Foi nestas condições que o filho da minha mãe conheceu, ainda em idade primaveril, toda a Europa ocidental e um pouco da Turquia e dos Balcãs.
As necessidades de conforto vão variando e andam como apensos dos diversos estádios da vida. Não sei se hoje teria espiríto aventureiro qb para dormir num banco de jardim em Biarritz ou numa praia do sul de França; ou se conseguiria plantar-me na Dam Platz em Amesterdão pedido alguns guildens para ajudar à compra de dois yogurths de meio litro. Não sei se conseguiria extrair algum prazer em dormir sobre uma espuma com poucos centímetros de espessura, enrolado num saco-cama a cheirar a bafo de onça, sem me importar com a fauna que costuma sempre acompanhar os interiores das tendas dos campistas de longo curso. Não sei se me apeteceria entabular conversa com todo o "backpacker" de cabeleira loira que entrasse no habitáculo manhoso da minha carruagem de segunda classe e fazer-lhe as costumeiras perguntas:«Where are you from?»; «What do you do for living?»; «Where are you travelling to?.» De repente, depois de pequenas e imperceptíveis metamorfoses, descubro-me dentro da ficção que, na minha vida, já foi o motivo (em si) de quase todos os dias: viajar e planejar a próxima viagem.
Hoje, creio que não há nada melhor do que a distância do tempo para se ter uma visão objectiva e desapaixonada sobre condutas anteriores. E aqui ando eu, outra vez, a navegar (talvez seja agora melhor a metáfora do que aplicada a outros assuntos) no pensamento. Já ando de novo a deitar-me no fundo divã de algumas memórias e quero ser o eterno chato, sempre a contar coisas do passado - recordar é viver! Acabei de abrir uma caixa de biscoitos chamados "Cookie's Choc". Admirei a componente decorativa da caixa e a perfeita arrumação do conteúdo. Escolhi um "cookie" redondinho coberto de chocolate e dei-lhe uma trincada. Parei um pouco a saborear a bolacha e a olhar para a tampa da caixa, um pouco antes de acabar esta prosa. A minha vida, a minha delicodoce vida, é feita de personagens autênticas, sítios e datas que se confirmam e uma história que mais parece uma sinopse de telenovela em capítulo de estreia. É um exemplo acabado da tal confusão entre ficção e realidade, que tantas vezes anda à solta neste mundo. Seriam estas reminiscências de um snobismo insuportável se não fosse verdade que o passado de cada um é o prenúncio do seu presente, no desfile de ideias que anda dentro de nós, sem parar. Querer o conforto a todo o custo é hoje para mim, sem dúvida, um objectivo. Que mais devo querer senão esperar confortavelmente o advento de um futuro incógnito?

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Eu e a escrita

Tento alcançar na minha escrita a clareza e a simplicidade, embora por vezes com alguma dificuldade. Sei que a precisão do vocabulário, a simplicidade do mesmo, quanto maior for, mais inteligível será a palavra escrita, mais sensível será a mensagem do que escrevo e, porventura, maior o número de leitores dispostos a me seguirem. Esta imperiosa clareza e simplicidade que deve ditar todas as regras do bem escrever, a que também se juntam a lógica das concordâncias, os cuidados estilísticos com as palavras que não se devem repetir, e a fuga dos encontros vocabulares mal sonantes, entra muitas vezes em conflito com a certeza imperiosa que sinto de que escrevo, sobretudo, para mim mesmo. Sei que ainda que fosse eu o meu único leitor - o que efectivamente sucede em bastantes escritos fora da visualização pública - ainda assim continuaria esta saga da escrita que me acompanha há tantos anos; e, creio, vive já entranhada em mim. Se há coisa que procuro no acto de escrever é a coerência, a par da eventual correcção das minhas imperfeições, que são a parte irrevogável da fasquia a que consegui aceder. Sei que o valor da ortografia, para além de todas as regras gramaticais, reside noutro campo diferente do vernaculismo. O bom gosto, a correcta «respiração das palavras», a «escolha», é por vezes mais complicada de alcançar do que a ambiciosa pretensão linguistíca, que acaba sempre por cair nas malhas do ridículo e no cadafalso do artificialismo. Eu esforço-me, sempre. Mas confesso que a "escrita de blog" cada vez menos se coaduna com a atitude que gostava de ter em relação ao acto de escrever. Talvez um dia cumpra algum sonho (ainda) mal apagado... Há quem, por simpatia, gosto, ou mera ingenuidade, tenha entendido (um dia) apontar-me méritos que de todo não me merecem. E é sobretudo para essas pessoas em particular que hoje dedico estas palavras noctívagas. ["O que é importante é gostar de se fazer algo, ainda que o resultado seja medíocre ou meramente satisfatório para quem nos julgue. Tal pouco importa. A satisfação está no fazer e isso dar-nos gozo..."] - Um pensamento que de todo não subscrevo nem, obviamente, nunca subscreverei. Penso que quando nos metemos a fazer algo temos obrigação de sermos bons e emparelharmos com os que dominam a "arte", caso contrário há que arrepiar caminho e concentrarmo-nos numa actividade em que consigamos ser melhores do que a mediania, pois só essa atitude é passível de recolher satisfação - Esta (minha) visão perfeccionista, de uma exigência superlativa e, de certo modo, redutora, confesso, tortura-me e impede-me de estar bem com a escrita. Sim, com a escrita.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A felicidade é...

Este ano vou experimentar uma felicidade rara: conhecer o Verão em Dezembro. É verdade. Todos nós precisamos de falar de coisas que nos alegram e motivam. No Rio de Janeiro, cidade tropical, as estações do ano estão nas antípodas das nossas; ou seja, lá já está a ficar quente, pois a Primavera está quase a dar lugar à chegada do Estio. Na Cidade Maravilhosa, em Dezembro, estão mais de 40º positivos. Aqui, por essas alturas, escutamos canções de Natal e tremelicamos de frio com o traseiro o mais possível chegado ao calorífero. Estou desejando que chegue a hora de viajar! Até que enfim, outro pleno Verão, um Verão duas vezes num ano! Lá, durante esses quase vinte dias, não haverá agendas telefónicas, horas marcadas, actos solenes por realizar, nem dias de semana separados por Sábados ou Domingos. Vive-se um sonho, embora curto, é isso. Não há estados de alma, crises depressivas, melancolias, ansiedades. Tudo assim, como se a harmonia e a paz ainda pudessem por uns tempos tomar conta deste mundo. No Brasil, corre sempre uma sensualidade no ar. Há pés nus e corpos despidos na areia, um pouco por todos os lugares; braços com sabor a sal, ombros enxutos, cheiros de iodo, cabelos de maresia, descontração extrema, como se a vida fosse para ser vivida ao momento e nada devesse ser encarado de forma solene. Lá, abro sensações que já pareciam esquecidas dentro de mim. As aventuras de adolescente, as primeiras praias da minha infância, o desvelo no vestir, os chinelos nos pés; as bermudas, o sorvete a escorrer-me pela face, a água de côco geladinha, bebida pelo canudinho ao fiar da tarde, no Leblon. Os passeios à beira-mar, uma maré diferente, cheia de olhar para o outro lado do mundo, no horizonte, onde fica a minha terra-natal. Gosto da mornaça de certas manhãs, da pele queimada, do chuveiro de água doce, de sentir um suor e um calor muito diferentes invadirem-me o corpo todo, da impressão de um vento que surge do lado do mar, de repente, que me apanha sempre de surpresa. Acho que me estou a enamorar pelo Brasil. Não serei o primeiro, nem por certo o último.

Enterro Cigano

Estas fotos foram-me enviadas por mail e reportam-se a um enterro cigano ocorrido algures num país dos Balcãs. Salvo melhor interpretação das mesmas, parece-me que os familiares do defunto/a pretenderam recriar na íntegra o seu quarto de dormir, tendo inclusive chegado ao preciosismo de transportar toda a panóplia de bibelôts que o decoravam. Está-se mesmo a ver que a sepultura vai ser tapada com toda a parafrenália de móveis lá dentro. Para além do macabro das imagens, que é inegável, preocupa-me uma questão de sobremaneira mais pertinente: e se a moda pega? Imaginem eu, por exemplo, que gosto de ler, sepultado com todos os meus livros e as minhas estantes altas; alguém que gostasse de quadros, apertado em molduras de todos os feitios; ou um pianista, enterrado com o seu piano de cauda, inclusive com o banquinho e tudo... Por cá, num enterro cigano, imagino que o finado/a fosse embrulhado em "Lacostes" ou "Mike Davis" de contrafacção, tudo à mistura com CDs sacados da Internet - porque não? Ir para o "outro mundo" com os artigos da banca da Feira do Relógio para ajudar à viagem?! Vou pensar no (meu) assunto...prometo.

Quando a Desidéria quer vender...

A voz dela tinha um gosto de mel e açúcar segredado ao ouvido. A Desidéria era uma mulher opulenta de carnes, densa de sentidos, maliciosa de riso. Atracção absoluta eram os seus domínios, poder senhorial era a sua capacidade de atrair a vista do mais distraído para os seus seios fartos, mal acomodados em decote reduzido. Desidéria, não restavam dúvidas, era uma sábia de cátedra na forma insidiosa como julgava atrair os potenciais compradores para os imóveis de que recebia copiosas comissões. O seu papel de «dame fatal» nunca seria substituído por mestres de decoração, economistas de folgo, arquitectos, designers, ou seres dotados de alguma razoabilidade e experiência, que ajudassem a tomar uma decisão mais consentânea com a vontade e a viabilidade económica do potencial comprador. A missão de Desidéria era a de seduzir o comprador através do "Canto da Sereia", algo a que marinheiros quinhentistas, que habitaram o canto IX dos Lusíadas, mais valentes do que muitos que por aí se arrogam de saber e coragem, sucumbiram. Eu estoicamente resisti. Julgo os "encantos" da Desidéria capazes de molhar, demolhar e moer o desejo de eventuais interessados na sua "mediação imobiliária"; mas, azar o dela, movo-me por critérios que pouco ou nada têm a ver com a sua táctica de guerrilha e verniz vermelho. Fiquei-me apenas pelo sorriso. Congratulei-me com os esforços meritórios de uma mocinha iniciante na profissão a quem, por certo, ensinaram a inscrever essa forma de trabalhar no carnet das suas obrigações, tudo com vista a um bom resultado final, claro! «Aqui tem o meu cartão, Dr. e não se esqueça de me ligar, pois tenho muitos apartamentos e casas em carteira que terei todo o gosto em lhe mostrar!» - Eu, claro, nem por um segundo de tais intenções duvidei!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Piaf - Um Hino ao Amor

Aqui fica o trailer de um filme que ainda não vi mas espero não perder. Piaf, com todas as grandezas e misérias que assombraram a sua mais que atribulada vida.

Por amor

Dei comigo neste preciso instante, talvez por ter acabado de visionar as noticías que acontecem por esse mundo fora, a constatar que estamos vivendo numa época muito semelhante à das grandes epidemias que arrasavam países inteiros, à das grandes guerras e catástrofes que abalaram superficíes imensas da face da Terra. Estamos no centro possível de conflitos politicos, de terrorismo, de bombas, de ameaças nucleares, de potenciais conflitos bélicos, a todo o instante a insinuarem-se nos lugares mais esconsos do planeta. Quanto mais próximos nos sentimos de desvendar os mistérios da criação e os segredos da natureza, quanto mais perfeitas são as tecnologias que nos integram no ritmo vertiginoso dos acontecimentos, mais vulneráveis nos sentimos e mais perdidos na consciência do que somos e queremos, neste milagre de estarmos vivos entre tantos possíveis modos de morte. Apesar de todo o progresso e do crescimento, parecemos regredir aos comportamentos das sociedades primitivas, quando a lei do mais poderoso se impunha pela força, a norma escrita estava longe de existir e o acto de dominação valia mais nas relações humanas do que todos os códigos de honra e lealdade. Deixámos de cultivar a quietude do espírito e a possibilidade de diálogo? E porque raio renunciamos constantemente à nossa capacidade individual de agitar os outros no sentido do entendimento através da inteligência? Talvez nos devessemos isolar um pouco para fortalecer uma energia positiva capaz de nos guindar às ideias de paz, de carinho, e de amor na prática de todos os dias. Sei que é de um lirismo risível um pensamento assim, mas não bastam leis, manifestos, conferências, passeatas, para que sejam denunciados e punidos o desespero, a raiva, o ódio que levam à agressão e à morte. Tudo começa pela atitude individual que tem de dominar os nossos demónios de vingança contra tudo o que de mal acontece. Estou certo de que os níveis de violência colectiva baixarão a partir do momento em que cada um saiba que, pelo seu gesto e testemunho, pode interferir na construção do modelo de sociedade ideal. Digo isto por convicção e amor à causa, não por qualquer ideação politíca, que aqui nem vem ao caso. Esta noite sinto apenas vontade de pedir a todos que tenham mais carinho uns pelos outros. Obrigado.
Boa noite,

A tropas na cidade. E eu?

Hoje, logo pela manhã, perto do lugar onde habitualmente tomo o pequeno-almoço, deparei-me com a cidade invadida por dezenas de rapazolas de bivaque à banda, trajando fardas de camuflado, acompanhando a passo-de-ganso um desfilar sem fim de Berliets e furgões verde-azeitona. Só faltava mesmo a fanfarra, as pessoas à janela, arremessando papelitos multicolores e abanando bandeirinhas, para que Leiria se assemelhasse às ruas de Paris aquando da entrada triunfal das tropas aliadas. Pondo de parte a hipótese de o país ter entrado num conflito bélico [os gauleses só temiam que o céu lhes caísse em cima, eu “receio” que os “nuestros hermanos” um dia nos invadam – o que seria uma bênção divina!], por momentos pensei que a cafeína que havia acabado de ingerir ainda não tivesse surtido efeito e eu tivesse ficado refém das visões típicas dos laivos de sonhos ainda não terminados. Garantiram-me que estávamos na Semana do Exército e que no próximo domingo, essa gloriosa instituição à qual tive a honra de pertencer durante alguns anos, teria o seu próprio dia: “O Dia do Exército”. Fiquei mais descansado com a informação obtida e dediquei algum tempo a observar as tropas que começavam a sitiar a cidade. Os meus anos como militar – foram mais de sete anos passados na instituição – são dos tempos mais enternecedores que a lembrança me trás. Passei à disponibilidade no início dos anos noventa e foi no Exército que conheci as maiores amizades e o verdadeiro sentido da fraternidade. Sempre que vejo estes mocinhos trajados de verde e castanho, uma imensa nostalgia assoma-se de mim, pois na sociedade civil nunca mais consegui reencontrar as tais amizades sadias, desinteressadas, o companheirismo e a bazófia que conheci como graduado miliciano. Vejo as tropas desfilando pela cidade e tudo isto me vem ao espírito, unindo uma diversidade imensa de ingredientes, e em torno da ideia de que nós, ex-militares, sempre que nos encontramos, nunca somos demasiados para contar as experiências que por lá vivemos, ou apenas comentá-las de passagem. A vida militar inscreve-se num dos períodos mais felizes da minha vida e relembrando tudo isto só exprimo um desejo muito grande: o de que possa sempre recordar os bons momentos lá vividos. Foi a tropa que fez de mim o homenzinho que me faltava cá dentro. Fez-me, sobretudo, perceber a inutilidade da dependência dos outros e a utilidade de confiar em mim mesmo e nos recursos que consigo alcançar para a minha própria sobrevivência. Foi na instituição militar que conheci, pela primeira vez, de perto, a dor fisíca e psicológica, o desconforto, a fome, a saudade, a privação e os maiores desconfortos. E, sobretudo, a lição maior que colhi foi a de que todos nós, sem excepção, temos uma capacidade de suportar o padecimento que, de todo, desconhecemos; e lá nos é mostrada pela primeira vez.
Estes privados que escolhi partilhar com quem eventualmente me leia, mostram definitivamente que cada vez mais me convenço que é o cumular de experiências díspares, o afastamento das almofadas de ar familiares, o crescer longe desses resguardos, que nos permite, pela vida fora, perceber outros modos de viver a vida, descobrir novos mundos e administrar as adversidades sem grandes medos, porque se tem cá dentro a alma confortada com a experiência da dureza. A tropa, e pode parecer um lugar comum dito assim, definitivamente fez de mim muito daquilo que hoje sou. No entanto, nem por isso perdi a gentileza, a brandura ou a emotividade, por vezes aflitiva, de que sou forrado. Cada vez gosto mais de estar perto de pessoas de muitos anos, com peles macias e mãos esguias, cabelos fininhos e olhos expressivos a dizer que gostam de mim, simplesmente porque gostam. Elas fazem-me saber menos pesada a solidão, o sofrimento, o abandono, uma realidade de tantas pessoas que existem, com que todos os dias me cruzo, sem saber como dizer-lhes que o amor devia chegar a todos, nesta vida. Por isso, neste Natal, em terras de Vera Cruz, prometo que vou recompensar a saudade de todos os que por lá deixei no pensamento, em tom de doçura e de esperança, em nome de todos os natais que hão-de vir. Foi lá que me senti amado, estimado e acarinhado, e é para perto do amor que o coração me diz que me devo sempre dirigir. Sempre.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Mozart

Mozart, apresentado com um travo forte de comicidade e imaginação. A banda desenhada está fabulosa, ou não fossem os povos do leste europeu os verdadeiros mestres da BD.

A Porcina da FDL

Acabei de encontrar, nas ruas estreitas do centro histórico da cidade, uma colega de faculdade que não via faz imenso tempo. Ela caminhava com um ar descontraído com duas crianças pela mão, que vim a saber que são suas filhas, e tinha ainda aquela expressão de rosto mais versátil e extraordinário que conheci, de tantos rostos com que me cruzei na vida. Os olhos dela ainda eram verdes e luminosos e acompanhavam de brilho as metamorfoses que no seu corpo se haviam produzido com o rodar dos anos. Estava mais gordinha do que quando a conheci, fruto de ter sucumbido às suculências caseiras, mas compensada com aquele ar de felicidade marital estampado no rosto, que se enxergava à distância. Fiquei a saber que é Procuradora Geral-Adjunta em Ourém, casada com um policia e mãe das duas petizes de cabelo em desalinho que não sossegavam um minuto.
Fugazmente e sem anúncio prévio, aparecem-me nas esquinas das ruas, nos jardins, nas lojas, nas livrarias, nos lugares mais incompreensíveis, como se este mundo fosse um grande quintal onde todos nós um dia tivéssemos ido brincar e perdido uns dos outros sem deixar rasto, pessoas que se haviam escapulido na penumbra das minhas memórias. Quem diria que eu ainda haveria de tornar a ver a Porcina da FDL?! Conversámos sobre os percursos profissionais de cada um de nós, a vida privada, os casamentos, as uniões, os desunires, os colegas que mais se destacaram e sobre os outros que, entretanto, já partiram deste mundo. Obriguei-me a uma improvisada viagem ao passado, à relembrança de pessoas e situações vividas há imensos anos, e apercebi-me da orfandade inevitável dos relacionamentos, logo que a distância se coloca de permeio entre as pessoas. Por mais que ambos nos tivéssemos esforçado para recriar o ambiente de sã intimidade estudantil, que anos atrás nos uniu, a verdade é que, pouco tempo depois, não nos restava mais nada para dizer um ao outro do que um conveniente adeus.
Desejei-lhe toda a felicidade do mundo e esbocei um ensaio de sorriso perante o inusitado convite para "aparecer lá por casa". Ambos sabemos destrinçar as frases ditas por mera cortesia, do desejo (in)sincero de nos tornarmos a ver, para voltar à carga sobre assuntos completamente anacrónicos à luz dos quotidianos de cada um de nós. Hoje em dia cada um terá as suas âncoras a segurar-lhe os tempos de navegação e, de resto, que haveria para falar após um hiato de quase dezassete anos? Para mim, por ora, ainda não descobri nada melhor do que largar as rédeas do pensamento nesta prosa modulada e fácil que tanto me atrai. Gostei muito de rever a Porcina e, sobretudo, de a ter encontrado tão feliz; mas aqui para nós que ninguém nos ouve: já nem me lembrava do nome verdadeiro dela e foi a custo que não lhe chamei Porcina!

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Da incompetência, entre tantas coisas

(Cidália, have you been drinking the other day at the Travel Agency?)

Ainda em Julho e sabendo da dificuldade imensa em obter passagens aéreas por alturas do Natal, fiz uma reserva para Dezembro, para o trajecto Lisboa-Rio de Janeiro-Lisboa, numa agência de viagens cujo nome me dispenso de mencionar. Na altura não paguei nada pois nenhuma quantia me foi exigida e apenas fiquei com o print informático comprovativo da reserva, bem como a garantia dada pela funcionária de que, dois meses antes da viagem, telefonar-me-iam para que procedesse à liquidação integral do preço, a fim de ser emitida electronicamente a dita passagem.

Hoje, por razões que reputo inexplicáveis, uma vez que não fazia parte dos meus planos ir à aludida agência, que por sinal fica distante das minhas rondas triviais, um impulso estranho atormentou-me a mente alertando-me que deveria ir até lá, mais não fosse para saber se estava tudo em ordem, apesar de ainda faltarem dois meses para a viagem e por me sentir perfeitamente tranquilo e seguro com as informações na altura prestadas.

Chegado à agência, apenas duas funcionárias se encontravam no atendimento e, como se não bastasse, os clientes presentes eram dois casais: de um lado do balcão, dois velhinhos, pouco alfabetizados e com imensa dificuldade em perceber as instruções da funcionária; no outro atendimento, um casal de noivos demasiado indeciso com a escolha da viagem de núpcias. Depois de já com ar de enfado perguntar se não havia mais ninguém para me atender, ambas as funcionárias sorriram-me e uma delas disse para eu aguardar. Estive vai não vai para desistir. Afinal na minha mente estava tudo bem e só aguardava o contacto da agência para proceder ao pagamento da viagem.

Quase no limite da paciência - esperei mais de cinquenta minutos - o casal de velhinhos lá levantou âncora e navegou para outras paragens. Foi então que a funcionária que os tinha estado a atender, que depois vim a constatar ser a gerente, me convidou a sentar.

Ainda descontraído, disse-lhe que só tinha passado por ali para me certificar de que a reserva da minha passagem aérea estava nos conformes e fiquei lívido quando ela me disse que a mesma tinha sido cancelada, ainda em Julho, por falta de pagamento. Uma vez que se tratava de uma tarifa classe E, mais económica, carecia ter sido paga nas setenta e duas horas que se seguiram à reserva . Se não houvesse lugares vagos, para as datas em que eu pretendia viajar, não havia nada a fazer.

Eu nem queria acreditar no que estava ouvindo. Fiz um esforço para não perder a compostura e apelei à lógica e à melhor das minhas argumentações, nunca descurando a firme vontade de ver o assunto resolvido a meu favor. Mostrei-lhe o comprovativo da reserva, com o meu número de telefone, as datas, o "Confirmado" aposto em maiúsculas no papel com o timbre da agência, o nome da funcionária que me atendeu, bem visível no fim da folha.

Com a voz mais serena que consegui afinar, afirmei-lhe peremptoriamente que só uma coisa me faria sair daquela cadeira: ver o meu assunto resolvido, a passagem emitida e, claro, ao preço que havia contratado em Julho - por alturas natalicías as passagens, sem reserva anterior, acrescem em mais de cinquenta por cento no preço!

«A culpa foi da Cidália que não reparou que a reserva que fez ao Sr. Dr. (não sei das quantas - que presumo fosse eu) fazia parte da classe E, logo tinha de ser paga nas setenta e duas horas seguintes uma vez que a TAP exige que a passagem seja emitida nesse lapso de tempo!» - os diálogos sucediam-se, os telefonemas, o nervosismo estava instalado. Eu aguardava.

Perante a minha irredutível posição em querer ver o assunto resolvido na hora, sucederam-se contactos para Lisboa, para a direcção da agência, para a Cidália - estava de folga, coitada! - e lá me engendraram uma solução algo ardilosa: viajo em classe executiva - naquela em que é possível estender o esqueleto durante as dez horas que dura a viagem! - (nessa ainda havia lugares vagos!), a preços de Julho, da classe E (E, de económica, pois está claro!), nas precisas datas e condições que reservei e contratei, pois caso contrário já só haveria regresso a Lisboa para meados de Janeiro - não que eu me importasse de ficar a torrar no Brasil por um mês!

Da incompetência da Cidália, que ignorou os sucessivos mails da TAP alertando-a para a necessidade de emitir o bilhete nas setenta e duas horas seguintes; que não me avisou do facto, nem nunca me telefonou; que deixou negligentemente a reserva a marinar numa pastinha de plástico sem nunca mais cuidar do assunto, a direcção da agência promete cuidar à posteriori.

No Direito, na parte dedicada à Responsabilidade Civil, há uma figura que se chama Direito de regresso contra quem é subjectivamente responsável pelo dano - responsabilidade subjectiva, já que a responsabilidade objectiva, é, claro está, da própria agência - facto que julgo não carecer ulteriores explicações, mesmo para os leigos no assunto.

Moral da história:

Sempre que tenham razão, não saiam dos vossos lugares, mantenham a cabeça fria, não se amedrontem e esgrimam os vossos argumentos com alguma serenidade. (Respirar fundo antes de começar a falar ajuda). Ficar sentado numa cadeira e dizer com ar decidido: «Só me levanto daqui quando o assunto estiver resolvido!» - é uma forma convincente de adestrar quem de direito a resolver os problemas (que criou e pelos quais é responsável - objectiva ou subjectivamente) e solver os eventuais prejuízos pelos quais lhe cabe responder. A persistência, quando se tem razão, quase sempre compensa.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Palavras da noite

Todos os meus pensamentos, já os trago em mim há muito tempo. Sinto que já era momento de aderir a eles, mas voltam a aparecer-me sempre como sonhos, cada vez em maior quantidade e sinto que não sou ainda capaz de aceitar, vitalmente, a sua justeza. Se os escrevo é sinal que ainda não os aceito totalmente e, mais grave, é porque careço de me ver livre deles. Escrever, mais do que uma atitude estética, é, para mim, como para muitos, uma forma de catarse, um meio de expurgação e/ou ordenação de ideias. O desapego das palavras é tudo quanto me basta e mais valia que as repetisse cá dentro de mim, do que tomar como um imperativo o acto de escrever. Assim, vejo-me livre delas (palavras), quais limos ou algas a impedir o fluxo normal de uma corrente marinha, e deixam de me perturbar até à vinda de novas coisas. Uma fatalidade, creiam-me.
Boa noite, também para mim, pateta sem emenda.

Leve é a (minha) noite

Este fim-de-semana, à semelhança de tantos outros, passei à noitinha pelo Casino Estoril e deixei-me ficar um bom bocado no Du Art Garden, mesmo junto ao palco, creio que na mesma mesa de sempre. Quando estou por lá, rodando nas mãos o useiro copo a verter sumo de laranja com pedras de gelo, não posso deixar de sorrir interiormente e sentir um certo conforto, sempre que os meus olhos se demoram pelo ambiente circundante que me rodeia. Consciente de que não jogo, porque não gosto, não fumo, nem ingiro álcool, por opção própria - não que se trate de algum puritanismo arrivista, nem tão pouco de alguma caretisse aguda ou preocupação desmedida com a minha condição fisíca - sinto que essa "liberdade", desde que a tenho, conferiu-me alguma discricionariedade sobre a minha vida e sobre as opções (boas ou más) que nela tenho tomado. Os vícios, para além de nos arruinarem a saúde em acelerado, tolhem-nos os movimentos e impedem-nos de sermos livres, no exacto sentido da expressão; e uma decisão quanto mais livre tiver sido tomada tanto melhor. Sinto alguma pena, sei que não devia, sempre que os meus olhos descobrem senhoras, muitas delas com idade para serem minhas mães, freneticamente agarradas às máquinas de Poker e Black Jack, embebedando-se com whisky e fumando cigarros uns atrás dos outros. A solidão dos jogadores quase sempre se afivela nestas funestas companhias: o tabaco e o álcool. Que lhes poderia dizer eu, eu que também conheço os silêncios do vazio e a eterna esperança da luz? Acho que o essencial caberia numa carta, numa curta missiva, e sei que teria a meu favor a clareza do sentimento e a verdade da mensagem, apesar da mais que certa pobreza das palavras com que me exprimiria.

O Du Art Garden ganha maior vida a partir das altas horas da noite. É nesses momentos que o grande hall do Casino se enche e os espaços de jogo febrilham de gente. Um odor agri-doce condensa-se no ar, mesclado com estranhos perfumes e cheiro a tabaco, o que por momentos me faz tornar às memórias das antigas tabacarias da Lisboa da minha infância. Esse estranho odor começa a impregnar-me as roupas e é por essas alturas que começo a sentir vontade de ir andando. Cá fora, junto às heráldicas e requintadas mansões do Estoril, empoleirado no paredão à beira-mar, caminho lento, sentido a maresia tocar-me ao de leve na face. Os meus pensares fluem de novo, agora já sem leveza. Será possível restringir a vida ao que se vive no momento presente? Essa tentativa já foi empreendida por alguns escritores. -lo André Gide, por exemplo, no romance Les Nourritures Terrestres, e levou-a às suas últimas consequências. Fazendo o elogio do instante, vivido com a emoção extrema de um absoluto enfim possível. A ideia é sedutora: viver apenas o instante, desapegado de qualquer preocupação com o passado, ignorar o porvir, numa concentração quase total do ser; como se esse instante fosse a manifestação da eternidade. Mas a ilusão depressa se esvai quando o meu pensamento tira consequências disso. O instante é apenas isso: um momento fugaz; e este minímo de consciência do tempo permite-me continuar a caminhar sem me deixar colher por esta inconsciência de pensamento fácil. Tal atitude existencial, que consiste em fechar-se na felicidade do instante, já não me é suportável. E para a poder encarar, sou levado a destruir, se for caso disso, essa liberdade em nome da qual se justificaria a escolha do instante contra a duração. Chego, portanto, sempre à mesma conclusão: tenho de admitir que a minha vida engloba a duração, mais do que a primazia do instante fugaz, imaturo, do fogo-fátuo ou da felicidade de cordel. Também renego a "felicidade dos livros", a sensação de que quantos mais livros ler, quanto mais cultura absorver, mais preparado estarei para o porvir e mais maduro e sensacional serei como pessoa. Completamente errado. A maturidade, nascente em mim, cada dia que passa, fez-me inflectir em muitas formas de ver e pensar as coisas. Cada vez mais me convenço que as experiências de vida díspares, a compreensão dos sentimentos, o sentir o pulsar da vida na sua plenitude, o conhecimento da alegria e da dor, a vivência empírica, enfim, são as fontes de riqueza maiores que alguma vez poderei almejar ter. É isto aquilo que verdadeiramente nos faz crescer e tomar consciência. O refúgio absoluto nos livros, nas "experiências puramente mentais", no ver a vida através dos olhos dos outros, é um erro crasso que já não tornarei a cometer. Ler, passou em definitivo a actividade meramente lúdica nos meus quotidianos. Já não a catalogo como um fermento vital no meu crescimento interior. Foi preciso crescer um pouco mais para poder dizer isto com alguma segurança.

[O Casino visto ao longe ainda é mais bonito. Fulge, na noite, como uma princesa cheia de mistérios e diamantes e a sua luz rebrilha pelos telhados das mansões apalaçadas e pelas copas das árvores centenárias. O Estoril sempre me encanta. Os olhos turvam-se-me e sento-me perto da amurada enquanto observo fiadas de gente que se desloca, de carro e a pé, em todas as direcções. Sei que naquele lugar ninguém dorme e a vida ali não é um mero sonho. Naquele lugar o sonho é sinónimo de vida. Estou com sono e vou deitar-me. São 04.30 minutos da manhã. Daqui a pouco nasce o dia e tenho de ir buscar uma princesa de verdade, que mora num foral mais pobre, um pouco distante daqui. Nós, eu e ela, pertencemos a outros mundos que pouco ou nada têm a ver com isto que me circunda.]

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Caminhos

Por vezes lamentamo-nos dos silêncios que impregnam as nossas vidas. Eu faço-o amiude, mas decerto também não desejaria uma orgia de ruídos cacofónicos, sempre à minha volta, impedindo-me de poder, sequer, sentir-me a mim mesmo. O pior de qualquer coisa é sempre possível, mas não é fatal que isso aconteça. Se nos lançamos na acção, se nos empenhamos, se a motivação existe e há um rumo, se sabemos o lugar para onde queremos ir, podemos esperançar alcançar o que almejamos. Na medida em que o pior não é uma fatalidade é sempre permitido ter esperança. E como o pior pode (quase sempre) ser evitado, é urgente passar à acção e empenharmo-nos naquilo que achamos que nos conduz à felicidade. Para além do optimismo e do pessimismo, há lugar para a Esperança, que é uma coisa algo diferente. Trata-se de viver com "essa atitude" ou, antes, manter os fluidos da motivação sempre a níveis aceitáveis. A esperança apoia-se sempre sobre a confiança no possível ou no que poderá sê-lo. O tempo, de certa maneira, é uma criação do possível e é fácil entender que um dos grandes erros das utopias foi sempre o de tentar fixar, através da imaginação, o futuro ideal, o termo perfeito de qualquer história e até os meios para lá chegar. E isso impede-nos de apreciar com rigor o inesperado, os acontecimentos que transformam os horizontes previsíveis. Mais grave que tudo isto é a tomada de consciência de não sabermos o que nos pode fazer (mais) felizes, nem quais os melhores caminhos a trilhar. Resta-nos então a exuberante satisfação de podermos afirmar com veemência: «Eu não sei bem aquilo que quero, mas estou certo daquilo que definitivamente não quero.» Para mim, só isto já é um começo, seja do que for...

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Voos mais altos precisam-se!

(O nosso jardinzinho visto do espaço)

Em pouco tempo viajei em jacto comercial e hoje em monomotor turbo-hélice. Da próxima vez não me convidem para outros voos que não sejam viagens espaciais. A fazer fé na minha sorte, quem sabe se o próximo utente abastado que me dirigir convites alados, não é um astronauta em trânsito por terras do Lis, com a nave estacionada algures no meio do Pinhal de Leiria? Nem que fosse um E.T., eu na mesma aceitaria! O que eu queria mesmo era ver a minha terra lá do alto, do espaço sideral, para ver se é mesmo azulinha cobalto como por aí dizem...

Madrigal - cavalgando nos céus

Hoje recebi um convite inesperado que acabei por aceitar. Tratava-se apenas de dar uma voltinha pelos céus de Leiria e arredores mas... resultado: acabámos por tomar um rumo distante (foi necessário, via rádio, obter o consentimento da Base Aérea de Monte Real ) que nos levou a sobrevoar a Lagoa da Ervedeira, o Pedrógão, a Figueira da Foz, Aveiro, para finalmente sobrevoarmos Coimbra e aterrarmos no aérodromo municipal de Leiria. "As conversas são como as cerejas", disso não tenho dúvidas. Em amena cavaqueira com um empresário abastado cá da região e após a useira pausa que sempre se segue aos actos formais que pratico, o tema, sabe-se lá porque carga de água, acabou por se centrar nos aviões - adoro tudo quanto se relacione com a aeronáutica! Nem mais. O dito cavalheiro, proprietário de um Cessna novinho em folha, adquirido em leilão nos EUA, a precisar de lubrificar pistãos e rodar uma hélice acabada de montar, fez questão em me presentear, ao final da tarde, com um passeiozinho pelas lindas paisagens da região. Já não é a primeira vez que me desloco nestas geringonças voadoras mas, para quem conhece o verdadeiro prazer de voar, o "reality show" vive-se nestes pássaros de aluminio pintalgados às cores, por dentro tão pouco espaçosos e mal insonorizados que só a custo esticamos a pernas e nos conseguimos ouvir uns aos outros. Foi um final de tarde diferente, um passeio que durou quase uma hora, mas consegui sentir-me um cavaleiro dos céus, embora para o final já só desejasse pousar em segurança naquela pista ridiculamente pequena, que se avistava lá em baixo por entre as árvores. Despedi-me agradecido mas, confesso, gostei de sentir de novo os pés no chão. Ser cavaleiro dos céus é bom, mas só muito de quando em quando.

Alice

A propósito de um teatro de marionetas a que ontem ao final da tarde assisti, integralmente concebido, interpretado e manipulado por Ângela Ribeiro, uma donzela com formação no Chapiteau – a famosa escola circense e de artes de Lisboa – relembrei um conto que muito contribuiu para as efabulações da minha infância. Trata-se tão só da celebérrima história “Alice no País das Maravilhas”, um conto datado do século XIX e que já faz parte do imaginário de crianças de várias gerações. Sobre a inspiração que o originou, fiquei a saber que o seu autor, Lewis Carrol, foi dar um passeio de barco com as irmãs Alice, Lorina e Edith. Em dado momento, Alice, enfadada com o passeio, pediu ao irmão que lhe contasse uma história cheia de nonsense. Carrol começou então a contá-la à medida que a inventava. No fim, Alice pediu ao irmão que lhe escrevesse a história. E assim aconteceu. “Alice no País das Maravilhas” conta o sonho de uma menina. Uma menina que se chamava Alice. Numa tarde de Verão, Alice adormece e sonha com algo muito estranho. Vê um coelho branco, que corria e repetia sem parar – “Vou chegar tarde, vou chegar tarde!” Ficou furiosa e desatou a correr atrás dele…aí começam as aventuras de Alice na terra dos sonhos. E com um Coelho Branco, uma Lagarta em cima de um cogumelo, um Gato que ri, exércitos de baralhos de cartas, um Chapeleiro maluco e uma Rainha de Copas, num universo mágico onde tudo pode acontecer. Junto a mim, havia magotes de crianças às cavalitas dos pais, ou de mãos dadas com as mães. E, tanto quanto me lembre, era eu o único "crescido" que não segurava um petiz pelo braço. Por momentos, cerrando os olhos, e obnubilando certos pormenores de pouca monta, vi-me de novo a criança de olhos vivos, ávida por saber das aventuras da Alice “do outro lado do espelho”, na dimensão mais pura que alguma vez me foi dada conhecer.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Artefacto curioso e útil - Outono/Inverno 2007/2008

(Cama com amortecedores «Monroe»)

Ainda na senda dos artefactos de bom gosto e inegável utilidade, eis que também descobri um modelo originalissímo de cama-de-casal, que igualmente desconheço se já se encontra patenteado, com aspecto de ser capaz de aguentar as diatribes dos casais mais inventivos e exigentes. Desaconselha-se, por certo, a instalação no quarto-de-casal de alguns materiais, tais como: tectos espelhados, aplicações de pladur, ou de outros materiais menos consistentes; e aconselha-se, sim, a utilização de capacetes adequados, pois a força retráctil das molas parece bem capaz de impulsionar qualquer pecador até ao tecto. Tudo isto, obviamente, a uma velocidade ligeiramente inferior à do som.

J.R. 09.10.2007

Um artefacto curioso - Inverno 2007/2008

Agora que o tempo invernoso se aproxima e com ele os dias das grandes chuvadas, nada como um artefacto engenhoso como este para tornar os casais apaixonados inseparáveis, inclusive nos dias das intempéries. Não sei, nem imagino sequer, se o modelo em questão se encontra pantenteado (tenho forma de o saber), mas imagino que, a ser verdade, faria um grande sucesso junto de alguns casais (hiper-românticos) que fazem questão de se abraçarem o mais possível, inclusive durante os seus promenades em dias de chuva. Se a moda pega..!

J.R. 09.10.2007

Giacomo Puccini - "Madame Butterfly"

Giacomo Puccini é um dos meus compositores italianos preferidos. Aqui trata-se da versão apenas musicada da famosa tragédia japonesa «Madame Butterfly». Maria Callas, bem como o recém falecido Luciano Pavarotti, interpretaram como ninguém esta música que, estou certo, ficará para sempre nas memórias musicais de todos quantos apreciam o género.

Debaixo da língua

Vou adiando e adiando o assunto, tenho uma palavra debaixo da língua, e ela, teimosa, recusa-se a saltar cá para fora. «Perdão» é a palavra em questão. Ou «mil perdões», no plural, já com o desmedido desespero de não conseguir um justo equilibrio entre aquilo que acho justo dizer e aquilo que é verdade, mas inacessível para quem não conheça certos códigos e cumplicidades. Sei que esta palavra, o seu significado, representa um acto de contrição imenso. «Perdão» é uma palavra tão curta, tão óbvia, fácil de escrever ou dizer, e tem muito mais peso moral do que futilidade ou leveza. Não é urgente que sobre ela (palavra) tente escrever um ensaio filosófico, mas pode servir de pretexto para que me sinta quitado com a minha consciência e demonstre, sem peias, que não me custa rogar algo que sei que me apazigua. E aqui entre nós, por mais que muitos recusem essa opinião por ver em quem o faz um «fraco», é um vocábulo em cuja força eu continuo a acreditar, que pertence ao universo dos afectos, por pertencer a uma familia de palavras que mora ao lado do coração. Não há nada mais redentor do que pedir perdão. Que ninguém me gargalhe sobre essa atitude, ou se quiser que o faça, pois que faz parte da minha postura querer-me amainado por dentro, ainda que seja risível a forma como o faço, mas importa-me sobretudo saber-me bem com aqueles que me merecem e com quem desejava ficar para sempre, seja na amizade, no amor, ou nas lembranças do coração.

O poder da criança

Um dia queria sair mais cedo de casa, para tornar aos meus recreios de criança, à certeza de rever o mundo com esses olhos. E de novo, montado na "Vilar" de selim alado, às primeiras luazinhas do fiar da tarde, sentir o vento forte amaciar-me o rosto. Depois, lá no alto, sozinho na casa da árvore, agradar-me o coração, com mundo a acontecer lá em baixo,
tendo eu todas as pedrinhas na mão…

(Almada - 1999)

A arte de Rob Gonçalves - sem muitas palavras

Palavras (minhas) para quê? A maravilha, a evocação do imaginário infantil, a magia, o sonho, um ror de adjectivos sem fim não chegariam para qualificar os pensares que estas imagens me causam... gosto muito, muito, muito delas! Eis ROB GONÇALVES, com a sua arte, mestria e esplendor!