Tudo o que me apeteça dizer sem exclusão de temáticas ou conteúdos, através de textos que tanto podem ser crónicas, contos, poesia, ficção, diários, ou meros pensamentos surgidos no momento.
domingo, 31 de outubro de 2010
O acusado
§ Como sempre acontecia todos os dias, chegou à repartição quinze minutos antes da hora da abertura do expediente ao público. Meteu a chave à porta, desligou o alarme, acendeu as luzes, ligou a fotocopiadora, o servidor dos computadores, e deixou entreaberta a porta que serve de acesso aos utentes. Todos os procedimentos, fê-los, como sempre, em modo quase automático. Ainda ensonado e com o cabelo molhado do banho, sentou-se à secretária, começou a revolver a papelada do dia anterior, e não susteve um enorme espirro que se esparramou no ecrã do computador. Enojado, com um bocado de papel mal engelhado, limpou, como pode, o fio de ranho que começava a escorrer como um rio pelo vidro. A chegada do Outono, com as suas abruptas mudanças de temperatura, sempre tiveram nele um efeito nefasto. Não raro, ainda em Outubro, constipava-se e levava o resfriado até meados da Primavera. Só se curava de vez com a chegada do Verão e sempre com a água do mar.
§ Lentamente, o dia de trabalho dava mostras de arrancar. No adro já se sentia algum reboliço provocado pelo público que, entretanto, começava a aglomerar-se junto à porta. Através da janela embaciada pelo frio da manhã, conseguia descortinar ao longe alguns colegas que iam chegado: o Mendes, com aquele característico andar desengonçado, sempre acompanhado da pasta preta coçada, que toda a gente desconfiava só servir para transportar o lanche; a Marta - hoje vinha de roxo - que, por fixação, usava sempre uma única tonalidade no vestir; a Juliana, com a cara arrepanhada por tantos piercings e a impreterível camisola muito justa, a deixar ver o umbigo e os porcinos pneus laterais. Enfim, estavam prestes a entrar na repartição os figurões com quem trabalhava. Só faltava mesmo chegar o chefe para o bando estar completo. A miríade do sossego de um escritório em silêncio ia terminar.
§ Hoje, com um bocado de sorte, pouco ou nada haveria para fazer. Devido à crise, ou ao temporal que se começava a formar, o público para atender não seria muito. Talvez não aparecesse mais ninguém durante a manhã, para além das poucas pessoas que esperavam à porta; e de uma coisa ele tinha a certeza: quanto menos trabalho havia para fazer, menos vontade tinha de fazer fosse o que fosse.
§ Fixou os olhos no monitor do computador e ia respondendo, entre dentes, aos bons dias apressados que os colegas iam dando quando entravam na sala. Agora tinha de ser rápido. Não podia hesitar um segundo. Acedeu à sua conta e-mail e procurou nos rascunhos o esboço de um conto que ia alinhavando nas horas vagas. Esta era uma boa altura para escrevinhar mais umas linhas ou modificar algumas frases. O conto passava-se algures num lugar sem nome, sem origem e sem destino. Era um lugar de passagem, tão de passagem que algumas pessoas já lá tinham estado e não deram por nada. Era um lugar de silêncio. Um lugar impossível e raro. Um lugar cujo preço não podia ser avaliado e onde o mundo parecia estar à beira de nascer. Ainda não tinha avançado na escrita para além da tentativa da descrição do lugar. Havia algo magnetizante que o impedia de seguir em diante, sem deixar bem caracterizado o plateau onde se iam desenrolar as peripécias que andava a engendrar. Ele já sabia que ia ser assim: perdia-se sempre nas descrições, quase a tocar o barroco, que impediam uma ordem ritmada ao conto.
§ Foi talvez tarde demais que se apercebeu da presença do chefe junto de si. Sem qualquer hesitação, o boss, como todos o apelidavam, pediu que ele imprimisse o escrito em que estava a trabalhar e começou a lê-lo em em voz baixa, mas de modo a que ele o escutasse. Ditas por ele, as palavras soavam à mesma liturgia dos formulários enxagues que tanto se orgulhava de bem redigir. Só de pensar no que poderia acontecer a seguir, morria de vergonha e transpirava sem parar. Calou-se, limitando-se a esperar que ele acabasse. O chefe, acabada a leitura, pediu para que, no final do dia, ele fosse ao seu gabinete.
§ Eram cinco e trinta da tarde. Já passava da hora da saída. Tal como profetizara, o dia acabou por ser calmo. No bolso da gabardina levava um manuscrito que o chefe lhe dera, com a incumbência de rever a escrita, de modo a que a participação disciplinar por ele feita contra si, dirigida aos serviços centrais, saísse num português primoroso. Aquela ordem representava o cúmulo do cinismo e da humilhação. Respirou fundo, tentando manter-se calmo, e dirigiu-se para o carro. Felizmente tinha a mulher para amar, o filho para ver crescer, uma família boa para o aconchegar. Que mais podia ele querer? Talvez acreditar que os textos que há anos engendrava faziam algum sentido, para lá das datas e dos lugares em que tinham sidos escritos. Fez marcha atrás e bateu violentamente na dianteira do BMW novo do chefe. Era a sua "pequena" vingança. Com um riso diabólico a pairar-lhe no rosto, seguiu viagem rumo a casa, pensando que a vida é efémera e é preciso vivê-la. Na manhã seguinte outro dia seria e talvez nem fosse trabalhar.
sábado, 30 de outubro de 2010
Livraria Arquivo
A Livraria Arquivo de Leiria, um estabelecimento de referência na promoção de tertúlias e divulgação de novos livros de autores nacionais, tem a agenda de Novembro recheada de coisas apetitosas!
Corrupção
Razão tinha o cínico e sempre actual Maquiavel nos sábios conselhos que dava aos monarcas para manutenção do poder. É verdade que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Felizmente que hoje já não há muitos poderes absolutos que permitam corrupções totais e, sendo assim, consegue-se ir vendo muitos gatos escondidos com o rabo de fora. São relações de poder as que as pessoas experimentam todos os dias nos empregos, nas relações sociais e até nas amorosas. Tem sempre mais poder quem, por deter, ainda que no momento, qualquer coisa que é importante para o outro, é o dominante na relação. Para além obviamente de haver sempre a possibilidade da perda do cargo que se detém, a doença, a velhice ou a morte são limites absolutos a qualquer poder personalizado. Há também a circunstância trágica de que quem detém com volúpia um dado poder também conviver dia a dia com o medo. O imenso e aflito medo da perda.
Não há dia em Portugal em que os cabeçalhos dos jornais não noticiem figuras públicas eventualmente envolvidas em casos de corrupção. À parte a Itália - que tem como "desculpa" o ex ex-libris da milenar máfia -, o nosso país aparece sempre na linha da frente dos países da União Europeia com maior índice de corrupção. A corrupção, quer na forma activa, quer na forma passiva, é uma doença crónica, hereditária, activa e degenerativa, sem cura conhecida. E a única coisa que podemos fazer, aqueles que, por ora, ainda não se deixaram corromper, é combater sem tréguas o fenómeno, não hesitando em denunciar todos os casos que tenhamos conhecimento. Mas o pior de tudo é a acomodação de todos nós - atitude inevitável para quem assiste diariamente às denuncias e sabe de antemão que a culpa vai morrer solteira, pois os acusados são demasiado chiques para conhecerem o meio prisional. Podemos, também, eventualmente, seguir a via brasileira, parodiando os casos de corrupção e, inclusive, acharmos-lhes graça, como fazendo parte integrante da nossa cultura, usos e costumes, e folia nacional.
Não há dia em Portugal em que os cabeçalhos dos jornais não noticiem figuras públicas eventualmente envolvidas em casos de corrupção. À parte a Itália - que tem como "desculpa" o ex ex-libris da milenar máfia -, o nosso país aparece sempre na linha da frente dos países da União Europeia com maior índice de corrupção. A corrupção, quer na forma activa, quer na forma passiva, é uma doença crónica, hereditária, activa e degenerativa, sem cura conhecida. E a única coisa que podemos fazer, aqueles que, por ora, ainda não se deixaram corromper, é combater sem tréguas o fenómeno, não hesitando em denunciar todos os casos que tenhamos conhecimento. Mas o pior de tudo é a acomodação de todos nós - atitude inevitável para quem assiste diariamente às denuncias e sabe de antemão que a culpa vai morrer solteira, pois os acusados são demasiado chiques para conhecerem o meio prisional. Podemos, também, eventualmente, seguir a via brasileira, parodiando os casos de corrupção e, inclusive, acharmos-lhes graça, como fazendo parte integrante da nossa cultura, usos e costumes, e folia nacional.
História de um Letreiro
História de um Letreiro - Prémio do Festival de Cannes
Uma curta metragem premiada em 2008 no Festival de Cannes (Cannes Festival Award)
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Poema de Fernando Pessoa
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.
BMW - Test Ride
| BMW K 1300 S |
No fim-de-semana passado, a convite do representante da BMW em Coimbra, lá fui eu todo contente para mais um test drive. Durante a parte da manhã, experimentei todos os novos modelos de alta cilindrada da famosa marca bávara, mas foi esta BMW K 1300 S que me deixou siderado. Em escassos minutos, na via rápida, atingi os 255 kms/hora e só abrandei porque já não havia estrada livre que chegasse. É um brinquedo caro (mais de 20.000 euros), uma montra de tecnologia, um verdadeiro míssil, sem dúvida, mas não a queria para mim. Posições de condução que obriguem a ficar deitado sobre o depósito, bancos estreitos e desconfortáveis, consumos astronómicos, e potência em demasia, não fazem parte da minha faceta de moto-turista. Não trocava a minha Aprilia por uma coisa destas. Isto é mais para os putos motoqueiros ricos que, fartos de viver, anseiam por ir falar rapidamente com o São Pedro.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Pedro Paixão
Foi com grata surpresa minha que, depois de o ter visto no programa "Lado B", e de andar a fazer umas pesquisas no google sobre a sua pessoa, descobri um blogue sobre o Pedro Paixão - textos e cartas de amor a Helena Águas - mais conhecida como Lena d'Água. Infelizmente o blogue já não tem postagens desde o ano passado, mas, ainda assim, vale a pena ser lido e explorado. O Pedro, de entre os escritores portugueses contemporâneos, é talvez aquele cuja escrita mais aprecio. A temática do amor, nele uma fixação, e uma narração em catadupa, reflexo de um autor sanguíneo, bipolar, que escreve ao ritmo de uma respiração intensa e desordenada, sempre me fascinaram. Mas, melhor do que falar do Pedro Paixão, é lermos os seus livros - creio que já os li todos - e sentirmos apaixonados pela sua escrita.
Porque as cabras abortam
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| F-16 Falcon Fighter e F-18 Super Hornet (imagens retiradas da Internet) |
São pássaros iguais aos que as imagens retratam, que têm vindo a ser apontados como os directos responsáveis por um número crescente e indiscriminado de abortos, e mortes súbitas, entre o gado caprino da região de Leiria. Os voos a baixa altitude e com quebra da barreira de som, indispensáveis para que a rapaziada da Base Aérea de Monte Real, na linha da frente da nossa defesa aérea, esteja preparada para eventuais cenários de conflitos, têm sido nefastos para a pastorícia da região. Não admira, assim, que o Estado Maior da Força Aérea, provado que ficou o nexo de causalidade entre os voos rasantes e os abortos espontâneos das donas cabras, se visse moral e juridicamente obrigado a indemnizar os criadores dos ditos caprinos. Usando da jurisprudência entretanto fixada no caso das cabras, serei eu, na qualidade de cidadão trabalhador, com direito ao repouso, quem vai intentar uma acção judicial contra a FAP, por violação da Lei do Ruído e dos regulamentos camarários que proíbem fazer barulho entre as 22h00 e as 07h00 da manhã. Uma vez que, também eu, tenho de provar o nexo de causalidade entre a minha insónia e o ruído provocado pelos aviões, vou pedir ao tribunal que ordene à FAP a remessa dos planos de voos nocturnos, ao menos aqueles que têm o bairro onde vivo por passagem obrigatória em voo rasante. É que a mim, à semelhança das cabras, também se me aborta a vontade de trabalhar depois de uma noite mal dormida.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Da página em branco
Por vezes temos uma ideia na cabeça que queremos desenvolver através da escrita. Pode ser um pensamento que surgiu à hora do almoço, depois da jornada de trabalho, ou algo que anda a ruminar há algum tempo na nossa mente; mas chegada a hora de escrever, outra coisa diferente, ambígua, até, jorra-nos dos dedos. Começamos a escrever e a nossa mente divaga, já que a nossa existência é feita de um contínuo de pequenos acontecimentos, a maioria sem grande importância nem impacto. De vez em quando, muito de vez em quando, o fluir dos dias agiganta-se, abrilhanta-se e, então, dizemos que aconteceu algo de especial e guardamos datas na memória, sentimentos quentes e ternos ou assustados e infelizes algures dentro de nós. Alguns encaram com leveza os dias que correm. Lembram-se dos tempos da infância e sorriem condescendentes com o que foram. Partilham com os amigos histórias improváveis, exageradas, cheias de feitos e de graças e divertem-se com isso. Olham para sonhos que não se cumpriram e objectivos que não se alcançaram e o coração não se aperta nem descem véus de angústia ou derrota. Para outros, o passado, o futuro e, sobretudo, o presente desgastam. Há uma queixa fina e virulenta, uma espécie de lamuria, que se torna numa inquietação permanente e sem objecto que corrói, que transforma todos os momentos em tempo perdido, como se a felicidade e a vida estivessem sempre noutro lugar. Viver pachorrento ou inquieto, tranquilo ou perturbado, não é bem uma opção. Em cima de um temperamento que nos calha em sina, acumulam-se experiências e formas de lidar com o que nos acontece, que nos transforma exactamente no que somos: nós mesmos, únicos, diferentes, extraordinários por isso. Somos quem somos, por acaso e sem escolha, já que não nos soubemos fazer de outra maneira. O que nos afirma como únicos é, no entanto, a nossa forma particular de dizer não e, a partir daí, reconstruir-mos o (nosso) mundo - se é que ainda vamos a tempo. Temos de fazer um esforço, sermos pro-activos, e não estarmos sempre à espera de uma melhoria das contingências exteriores para fazermos algo por nós. Mas tudo isto, depois de escrito, soa a receita fácil, já que é impossível fazer a nossa vida retornar à pureza dúctil de uma página em branco. E, uma vez mais, como se vê, para o escritor é mais fácil prescrever soluções generalistas (para os outros) do que as considerar para si mesmo.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Da importância da lenha
Não tarda muito, começo a comprar lenha para o meu fogão de sala. Preguiçoso como sempre, durante o Verão, não acartei lenha dos pinhais perto de minha casa e agora, como de resto todos os anos, lá vou eu andar a comprar carradas de sobro e azinho para empilhar na garagem. Já me consigo imaginar refastelado no sofá, sentindo o crepitar das chamas, vendo um filme ou lendo um livro, apenas tapado com a manta da TAP que gamei durante a última viagem ao Brasil. Gosto da dança das labaredas. Hipnotiza-me. Faz-me sentir feliz. E acho que são estas pequenas coisas que nos alimentam e servem de escudo protector às contrariedades quotidianas, pois ajudam a amortecer o impacto das frustrações que nos atingem. De vez em quando, raramente mesmo, acontecem grandes coisas que nos despertam e emocionam. Se quisermos dar-nos ao trabalho de sistematizar os grandes eventos da nossa vida, conseguiremos, com alguma boa vontade, preencher meia página de tópicos resumidos sobre os nossos acontecimentos memoráveis. Por outro lado, se o propósito for o de estabelecer os acontecimentos infelizes, que marcaram as grandes desgraças que nos tocaram à porta, a outra meia página costuma chegar. E colocados por isso no mais banal território em que as preocupações se repartem entre questões de saúde menor, falta de dinheiro para o que se gostaria, desencontros relacionais previsíveis e rotinas cansativas mas securizantes, resta-nos inventar a cor e fazer das pequenas coisas, que nos são acessíveis, agradáveis passatempos e interessantes estímulos. Por isso, que venha a lenha!
O mau jesus
| Braga - Bom Jesus - Outubro de 2010 |
As pessoas "como deve ser" querem-se ocupadas, sempre ocupadas, com coisas gloriosas. Devem fazer coisas, de preferência, úteis. Devem ser diligentes, atentas e interessadas, acordar cedo e ter um toquezinho histérico ou hiperactivo logo pela manhã, para demonstrar, para exibir o tempo todo, atitudes de voluntarismo, vitalidade e energia. Pessoas lentas e desmotivadas como eu, pouco expeditas no que às tarefas que lhe desagradam respeita, ou só contemplativas, arriscam-se a passar por madrionas, que é a alcunha familiar dessa preguiça nefasta. Confesso-me um daqueles "profissionais" que trabuca para a manduca. Prefiro, de longe, ler, escrever, viajar, conduzir motas, e fotografar o entardecer. Onde mora a gloriosa opção de ver a relva a crescer? Ou a doce volúpia de não fazer nada, ou só fazer o que se gosta?
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Alison - Elvis Costello
Da única vez que o vi ao vivo, há alguns anos atrás, em Southenford, recordo especialmente esta belissíma canção.
Espelho meu
A partir de uma certa idade, parece que o processo que dita o nosso envelhecimento multiplica-se de forma geométrica; e, em cada dia que passa, quando nos olhamos no espelho, achamo-nos mais envelhecidos. Dando por adquirida a verdade de que a fonte da eterna juventude nunca passou de uma enfabulação literária, temos de aceitar que o encarquilhar da face, o branquear dos cabelos, a proeminência do ventre e a perda gradual da energia, são realidades com as quais temos de lidar; e, sobretudo, encará-las como fazendo parte de um processo gradual ao qual nenhum de nós consegue escapar.
Dizem, talvez para amortecer o desânimo que nos toca, que envelhecer tem os seus encantos e que os ganhos de maturidade e experiência de vida, de certo modo, contrabalançam o que se perde em vivacidade. O ideal seria, sim, conservarmos a juventude e a experiência, entretanto adquirida. É por isso que existem os ginásios, que se têm multiplicado como cogumelos, muito frequentados por cinquentões e cinquentonas, obstinados em não aceitar as sequelas naturais causadas pelo processo de envelhecimento.
Nada tenho contra os ginastas cinquentenários e saúdo todas as práticas em prol da saúde. Que isso fique bem claro. Acho, sim, patética, a atitude de certos figurões e figuronas, alguns bem conhecidos na nossa praça, que se pintalgam de loiro platinado, colocam perucas e capachinhos, fazem enxertos capilares, usam jeans rasgados e, acima de tudo, adoram serem retocados pela magia do photoshop. São pessoas que renegam infantilmente a idade que têm e nem se apercebem o quão ridículas ficam ao fazê-lo. Há várias formas de encararmos a chegada da “idade da razão”, umas mais positivas do que outras, mas ficamos com uma tremenda necessidade de nos sentirmos seguros, que de resto é constitutiva dos seres humanos.
A perda da beleza é, sem dúvida, mais do que nos homens, o maior pavor das mulheres. E o que é belo, como todos os conceitos difíceis, está muitas vezes para lá do que se vê. Há quem ache que o belo tem um carácter essencial que se presume, tão indefectivelmente como tudo o que é importante, e que, por isso mesmo, diz muito mais sobre aquele que contempla do que sobre o objecto de admiração. Daí a afirmação de que a beleza está nos olhos daquele que ama. Se for assim, quer dizer, se a beleza for o sintoma de uma rendição afectiva, então entramos num outro registo valorativo em que o sensorial manda.
Mas para lá da subjectivação do que seja ou não belo, existe certamente um conceito objectivo do que seja a beleza e a fealdade; ou seja: ninguém pode, sem usar de má fé, dizer que determinada actriz, eleita popularmente como uma sex simbol, é objectivamente feia. E é no retorno da (nossa) imagem, que o espelho nos dá todos os dias pela manhã, que reside o grosso de todos os nossos pavores: “espelho meu, há alguém mais feio do que eu?”
domingo, 17 de outubro de 2010
Apologia das duas rodas
| Sameiro - Braga - Outubro de 2010 |
Não é segredo, para quem há muito me conheça, que, desde muito novo, nutro uma grande paixão pelas motas, apesar de já ter sofrido algumas quedas, felizmente poucas e sempre sem gravidade. Há uma plêiade de defensores do transporte automóvel, como sendo mais seguro, que acham que conduzir motas é o mesmo que reservar um lugar antecipado no cemitério mais próximo, ou no Centro de Reabilitação de Alcoitão. Penso que se trata de um absoluto exagero. Não nego que conduzir motociclos é mais perigoso do que conduzir automóveis, até pela extrema vulnerabilidade dos motociclistas face aos incontáveis perigos que os espreitam na estrada - as barras de protecção das autoestradas, aquando da queda de um motociclista, já se têm revelado meios eficazes de decepação -; e também pelo desrespeito absoluto que os "enlatados" - epíteto que nós damos aos que se deslocam de automóvel - sentem por nós. Mas, e as estatísticas não o desmentem, a maior parte dos acidentes de mota têm origem em falha humana, pois os motociclos, caso respeitemos as limitações e especificações do modelo em questão, bem como as regras básicas de condução, não são tão inseguros e instáveis como à primeira vista se possa pensar. As motas não foram concebidas para caírem, nem para saírem da estrada numa curva apertada, a não ser que tenhamos descurado substancialidades; além disso, os modelos actuais vem equipados com dispositivos de travagem, e amortecedores, muito superiores aos que se usavam há uns anos atrás.
Para os que não sabem, seja porque nunca tiveram oportunidade de experimentar, ou simplesmente porque têm medo de o fazer, a sensação de viajar de mota é muito comparável à que sentimos quando montamos um cavalo. As diferenças são que temos mais velocidade à nossa disposição e somos os únicos responsáveis por todas as manobras que o veículo faça. Conduzir uma mota de grande cilindrada, mais do que outra coisa qualquer, é um acto de pilotagem, pois requer destreza, coordenação, bons reflexos e, sobretudo, uma grande dose de bom senso. À parte isso, tudo o resto é prazer. Sentir as diferenças climáticas, e os odores, de todos os lugares por onde passamos, é uma experiência única. É por isso que apetece rematar com aquela frase, que ninguém sabe quem a criou, mas que todos nós, motociclistas, utilizamos sempre que queremos ilustrar a sensação que é viajar de mota: "de carro nós vemos a paisagem; de mota, fazemos parte dela".
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Algumas considerações sobre os lugares-comuns ou a importância da originalidade
1. Cada vez mais embirro com o nome do meu blogue: Madrigal. A principio - corria o ano de 2005 quando o criei, primeiro na plataforma do MSN, depois no Sapo - julguei ser um nome apropriado para alguém que, pela primeira vez, dava a conhecer, a gente anónima, a sua poesia; depois, comecei a achá-lo de uma banalidade tremenda. Lembro-me, por ser para mim uma novidade tecnológica, de carregar, do Youtube, vídeos, uns atrás dos outros, bem como bonecada animada de todas as sortes e feitios. A escrita quase que era obnibulada pelo deslumbre das funcionalidades. Para cúmulo, vim a descobrir que já exista, pelo menos, um blogue com o mesmo nome, para além da sua vulgaridade em apelidos castelhanos, mexicanos, chilenos, paraguaios, uruguaios e argentinos; bem como em nomes de estabelecimentos comerciais. Constatei que até uma padaria Madrigal existe algures em terras de Vera Cruz! aqui. Com o passar do tempo, o ecletismo começou a tomar conta do blogue, uma vez que os textos entretanto publicados, fazendo jus ao escrito no sub-título, já não obedeciam a nenhuma temática especial, para além das flutuações de humor do seu autor. Por diversas vezes me senti tentado a mudar-lhe o nome e o endereço, mas a platataforma do blogger não o permite e a única solução seria a de criar, de raíz, um novo blogue público, coisa que não me apetece. Para evitar este tipo de situações - à data não me lembrei de procurar no Google por nomes iguais -, podia-se criar, à semelhança do que acontece aquando da constituição de pessoas colectivas, uma base de dados com os nomes atribuídos aos blogues. E, sempre que alguém quisesse criar um novo blogue, caso o nome escolhido fosse de algum modo confundível com outros blogues ou marcas de cariz comercial, seria de imediato rejeitado e o seu autor convidado a escolher outro nome.
2. Detesto a minha eventual confundibilidade. Mas quem não a detesta? Odeio sempre que alguém me diz: "Você é tão parecido com uma pessoa que eu conheço!" - e não são tão poucas as vezes que me acham parecido com alguém. A preocupação com a originalidade, o cunho próprio, é um dos tributos que prestamos à nossa vaidade, já que a nossa auto-estima precisa de certos carburantes para se inflamar. Mas, continuando o monólogo, afirmo que temos grandes escribas na blogosfera, com méritos reconhecidos, para além das prosas internautas, que não se coíbem de rechear os seus textos com palavrões; ou rematar-lhes o final com frases a raiar o pornográfico. É um pouco como quem (não) quer dizer: "Escrevo bem, sou culto/a, como podem facilmente observar, mas também consigo descer ao grau zero da escrita. A minha versatilidade como escritor é tamanha que me permite estes up and downs sem nunca perder o esplendor." Mas porque raio os palavrões, pergunto-me? A língua portuguesa é tão rica, os vocábulos tantos, que, mesmo em prol da ênfase, das tão preciosas ironias, e do sal qb, não deixam de ser desajustadas as parvidades. Reforça-se o meu convencimento de que elas não servem para outra coisa senão para chocar e pregar o leitor ao desfiar do texto. Miguel Esteves Cardoso, Pedro Mexia, Pedro Vieira, Ana Rebelo, entre outros tantos, são exemplos de escreventes, de qualidade superior, que não dispensam a recorrência ao palavrão para aprimorar os seus textos. Não precisavam de usar tanto o linguarejar baixo e gratuito, já que a sua qualidade como escritores é uma evidência..
3. Dizer mal de tudo e de todos, é uma forma primária de afirmação. Dizer asneiras no final de uma frase bem estruturada, para alumar o interesse do leitor, não deixa de ser, outrossim, uma forma primária de afirmação. Por mais considerandos que se façam sobre isto, é uma evidência que todos os escreventes, desde que não elaborem textos para arrumar na gaveta - o purgatório da maioria destes escritos antes de conhecerem o seu destino final: o caixote do lixo -, têm consciência de que vão ser lidos, ainda que por poucos. Sempre achei que há uma dose de narcisismo insuportável nos grandes escritores e nos grandes poetas. Como sempre, a obra é melhor do que o homem, porque não desnuda as falhas do seu carácter e a sua, por vezes, tremendamente aborrecida, trivialidade. Escondemo-nos atrás dos nossos escritos, verdadeiros reposteiros da integralidade do nosso Eu, para só deixarmos passar a luz que entendemos, depois de coada pelo alvedrio da nossa vontade. É por estas e por outras que tão comummente dissociamos a pessoa da obra - Lobo Antunes é insuportável como pessoa, mas genial enquanto escritor; e, muitas vezes, por detrás de um ser tímido, de olhar baço, está alguém capaz de grande desenvoltura extrovertida no momento de escrever.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
DALIDA et ALAIN DELON - Paroles, paroles
Vi há pouco tempo este vídeo e não resisti. Relembro esta canção da Dalida, dos tempos da minha mais tenra infância.
Valha-nos Deus com tantas moscas!
Uma praga de moscas parece ter-se definitivamente instalado em Leiria. Desde há uns dias a esta parte, há moscas por tudo o que é sítio. No emprego, as moscas, não raro, instalam-se, com exercícios acrobáticos incríveis, no monitor do meu computador; e como são ágeis como tudo, voam antes que eu as esmague com o Código Civil. Se tentasse o assassinato da moscaria com a versão anotada do dito código, provavelmente, por esta hora, já estaria a fazer contas à vida, com a perspectiva de ter de pagar ao erário público um monitor novinho em folha. Dizem que a origem de tanta mosca deve-se ao facto de existirem muitas explorações de suínos nas redondezas, mas eu acho que a culpa é deste tempo outonal que as convida para o recato das repartições públicas. Com a crise económica que se instalou, a repartição onde trabalho tem cada vez menos utentes - não há palhaços, não há circo! -, e estamos "às moscas", no sentido literal da expressão. No emprego, as minhas colegas, à semelhança do que fez o chefe, e porque são copionas e manteigueiras, já arranjaram mata-moscas. Uma delas, com uma subserviência que enternece, herdou do chefe o antigo mata-moscas, já ratado de tanta cacetada nas moscas, e recusa-se a utilizar outro - objecto que o chefe utilizou é oiro! Mas não é só no trabalho que eu noto uma inusitada invasão de moscaria. Em casa é a mesmíssima coisa. Chego à sala, deparo-me com duas moscas pousadas no ecrã da televisão. Ligo o computador, passado algum tempo, sinto a presença de uma mosca a querer cuscar o que eu escrevo. Não sei se é uma das moscas da sala se é uma nova mosca que preferiu o escritório. Começo a convencer-me que alguém rogou uma praga a esta cidade, ou disse aos seus habitantes: "Vão-se encher de moscas!"
Falamos das moscas domésticas porque são as moscas mais comuns; e é um facto que os repelentes insectos podem pousar em comida, contaminando-a com bactérias, e propagarem inúmeras doenças. Como o ciclo de vida da mosca dura de 25 a 30 dias, se não lhes dermos caça estamos tramados. Eu, à falta de um camaleão, que seria sem dúvida a forma mais consentânea e ecologista de liquidar a moscaria, já me muni de uma revista enrolada e finjo-me de morto quando elas se aproximam de mim. Ainda falho a maior parte das vezes que desfiro a cacetada letal, até porque, por alguma experiência adquirida das vezes que estive no Brasil, para me proteger do mosquito da Dengue, especializei-me sobretudo no assassinato de pernilongos. Mas sinto que estou a melhorar em cada momento que passa. Na verdade, até é uma boa terapia para o stress a matança de moscas, sobretudo se tivermos a mestria suficiente para imaginarmos que o alvo da nossa ira é alguém de quem não gostamos.Truz! E lá vai sicrano! Truz! E lá vai beltrano! E assim, em cada cacetada letal que desferimos no moscardo, é menos um, ou uma, idiota, que nos tira do sério, que deixa os mundo dos vivos. Experimentem lá e depois digam-me se aqui o Madrigal não recomenda boas terapêuticas?
Guerra Junqueiro - "Pátria" - 1896
E no entanto o país, meu Senhor,
é uma beleza! Uma beleza! Encantador!
Trinta portos ideais, um céu azul marinho,
A melhor fruta, a melhor caça, o melhor vinho,
Balsâmicos vergéis, serranias frondosas,
Clima primaveril de mandriões e rosas,
Uma beleza! Que lhe falta? Unicamente
Oiro,vida, alegria, outro povo, outra gente.
Raça estúpida e má, que por fortuna agora
Torna habitável este encanto…indo-se embora!
Deixe morrer, deixe emigrar, deixe estoirar:
Dois boqueirões de esgoto,- o cemitério e o mar.
Que precisamos nós? Libras! Libras, dinheiro!
Libras d’oiro a luzir! Onde as há? No estrangeiro?
Muito bem; o remédio é claríssimo, é visto;
Obrigar o estrangeiro a tomar conta disto.
Impérios d’além-mar, alquilam-se, ou então
Sorteados,- em rifa, ou à praça,- em leilão.
E o continente é dá-lo a um banqueiro judeu,
Para um casino monstro e um bordel europeu,
Fazer desta cloaca, onde a miséria habita,
Um paraíso por acções,-cosmopolita.
…………………………………………….”
“Pátria” -1896-
é uma beleza! Uma beleza! Encantador!
Trinta portos ideais, um céu azul marinho,
A melhor fruta, a melhor caça, o melhor vinho,
Balsâmicos vergéis, serranias frondosas,
Clima primaveril de mandriões e rosas,
Uma beleza! Que lhe falta? Unicamente
Oiro,vida, alegria, outro povo, outra gente.
Raça estúpida e má, que por fortuna agora
Torna habitável este encanto…indo-se embora!
Deixe morrer, deixe emigrar, deixe estoirar:
Dois boqueirões de esgoto,- o cemitério e o mar.
Que precisamos nós? Libras! Libras, dinheiro!
Libras d’oiro a luzir! Onde as há? No estrangeiro?
Muito bem; o remédio é claríssimo, é visto;
Obrigar o estrangeiro a tomar conta disto.
Impérios d’além-mar, alquilam-se, ou então
Sorteados,- em rifa, ou à praça,- em leilão.
E o continente é dá-lo a um banqueiro judeu,
Para um casino monstro e um bordel europeu,
Fazer desta cloaca, onde a miséria habita,
Um paraíso por acções,-cosmopolita.
…………………………………………….”
“Pátria” -1896-
Guerra Junqueiro (1850-1923)
( A poesia de Guerra Junqueiro vai sempre bem e actual com os tempos que correm)
Ana de Amsterdam
"Sou Ana de cabo a tenente Sou Ana de toda patente, das Índias Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada Sou Ana, obrigada Até amanhã, sou Ana Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos Sou Ana de Amsterdam."
Amiga
"Li, algures, que, em 20% dos casos, a depressão se torna numa doença crónica sem remissão. Ao contrário do que o doutor LM diz, a minha depressão não é reactiva. Engana-se redondamente o doutor LM que fuma charuto e está sempre excessivamente bronzeado. A minha depressão é crónica. A tristeza em mim é um estado latente. Conheço-a desde sempre. Cresceu comigo. É uma espécie de minha melhor amiga. Cuja presença me incomoda. Que se impõe nos meus dias. De vez em quando, a amiga-tristeza hiberna dentro do meu corpo durante longos períodos. Acomoda-se num canto qualquer e deixa-se adormecer, enroscada. Oiço-lhe o ressonar, brando e húmido, de animal manso. Não me incomoda, mas sei que está lá. Nesses momentos quase me sinto normal (seja lá o que isso for, não me quero normal, nunca quis, sou demasiado maníaca, megalómana, para me satisfazer com a normalidade, associo a normalidade à mediania e eu, de longe, prefiro ser medíocre a ser mediana). Outras vezes, a amiga-tristeza desperta e, como um animal acicatado, transforma-se em fúria, ira e dor. É uma dor invisível, de tal forma intensa que se sobrepõe a tudo e a todos. Como se mata uma amiga, a melhor, que vive dentro de nós? A resposta é fácil, aceitável até. Basta que se retire a carga dramática, trôpega de lamentos, urros aflitos e brados lacrimosos."
in Ana de Amsterdam
(No Blogue, Ana de Amsterdam, Ana Cácia Rebelo, mais do que se expôr sem pruridos, ensina-nos, com ironia quanto baste, através das suas crónicas, a escrever fluentemente. A sua prosa, cuja cadência narrativa é adequada e elegante, é uma boa influência para todos os que, como eu, se aventuram, embora em fasquias menos elevadas, pelos meandros da escrita. Melhor do que emitir opiniões, necessariamente subjectivas, sobre a sua prosa, é ler os seus escritos. Façam-no por favor.)
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Da relatividade das coisas
Se acreditássemos piamente em tudo que se diz na imprensa escrita, na rádio e nos canais televisivos, viveríamos hoje em abrigos nucleares, não saberíamos que o sol continua a brilhar no planeta, crentes que estávamos que o mundo que conhecemos já tinha acabado de vez. Por mais pessimistas que sejam as previsões macro-económicas, por piores que sejam as estatísticas de crescimento económico, os cenários de aumento das desigualdades, da precariedade e do desemprego, que significado terá tudo isso perante a eminência da morte? Se retirarmos os óculos de fantasiar e olharmos para as coisas como elas são, logo veremos que o Outono é o prenúncio do Inverno e este, por sua vez, é o prenúncio da Primavera. E, tal como as estações, toda a natureza das coisas obedece a esta fatalidade cíclica. Normal é que passada a tempestade venha a bonança e que depois da vida venha a morte. Para quê tanta preocupação se a vida é uma vela ao vento que se apaga com um sopro menos suave? Creio que uma das nossas maiores fatalidades é a de julgarmos que somos eternos, daí não conseguirmos enxergar a relatividade das coisas. Seriamos muito mais solidários, com um coração mais piedoso, se alguém conseguisse incutir-nos na cabeça, de uma vez por todas, que esta coisa de viver é uma passagem só de ida, com duração aleatória e sem bis no final.
A escolha
Ontem à noite, a seguir ao jornal da TVI, deixei-me ficar no sofá para ver uma reportagem extremamente interessante sobre a morte assistida. A peça focava o calvário de alguns doentes cancerosos terminais, muitos deles sem acesso a cuidados paliativos, cujo desejo comum era o de poderem escolher livremente a hora e a forma da sua morte. Em Portugal, como se sabe, a eutanásia, bem como a morte assistida, são puníveis pela legislação penal. O direito de decidir do modo e do momento do fim da própria vida, ainda que as pessoas estejam em condições de escolher com liberdade, é absolutamente negado.
Sabemos que os cuidados médicos modernos têm sido capazes de prolongar a vida humana para além de limites impensáveis há algum tempo. Muitos doentes, que há vinte anos teriam uma sobrevivência muito curta, podem hoje viver muitos anos, com muitas limitações e, por vezes, com grande sofrimento físico e moral. A possibilidade de prolongar a vida aos doentes deve obrigar-nos a disponibilizar sempre os meios que para tal forem necessários, mas não nos dá o direito de obrigar seres humanos a uma existência de tortura sem fim à vista.
Existe na Suiça, país impoluto no que respeita a dogmas religiosos e éticos, uma associação denominada “Dignitas” que, mediante o pagamento de uma certa quantia, cerca de seis mil euros, pratica a morte assistida ou seja, fornece o pentobarbital sódico, substância de eleição das mortes assistidas na Suíça, que o paciente, ele próprio, ingere pondo assim fim ao seu sofrimento. Estima-se que a “Dignitas” já tenha ajudado mais de mil pessoas de todo o mundo a morrer.
Na reportagem, o que mais me impressionou foi o caso de Craig Ewert, 59 anos e a sofrer de uma doença neurológica motora, que autorizou o realizador John Zaritsk a filmar um documentário sobre a sua morte na clínica suíça em 2006. Nos escassos minutos que durou a filmagem, viu-se que o doente terminal estava completamente lúcido, no que respeita à sua vontade de morrer e colocar um ponto final ao sofrimento. Dilacerante foi, em especial, o momento em que ele e a sua mulher dizem comovidos a expressão “amo-te!” e se despedem, desejando-lhe ela “boa viagem!”
Na reportagem, o que mais me impressionou foi o caso de Craig Ewert, 59 anos e a sofrer de uma doença neurológica motora, que autorizou o realizador John Zaritsk a filmar um documentário sobre a sua morte na clínica suíça em 2006. Nos escassos minutos que durou a filmagem, viu-se que o doente terminal estava completamente lúcido, no que respeita à sua vontade de morrer e colocar um ponto final ao sofrimento. Dilacerante foi, em especial, o momento em que ele e a sua mulher dizem comovidos a expressão “amo-te!” e se despedem, desejando-lhe ela “boa viagem!”
Acho que é indispensável iniciar-se um debate atempado sobre a questão da morte assistida e da eutanásia. É, seguramente, a mais difícil questão ética dos próximos tempos e tem de ser profundamente debatida a nível nacional e, provavelmente, europeu. Qualquer opção deve ter em conta o superior direito à vida, mas também o imenso sofrimento e desespero de alguns doentes. Qualquer decisão deve resultar de uma reflexão profunda, prolongada e cuidadosa. De forma mais simples, parece estar aberta a porta para um tipo de turismo que lembra aquele que, há algumas décadas ocorria para a Holanda, então o único país europeu tolerante para com o consumo de drogas. Teremos agora o turismo da morte assistida? Por outro lado, teremos de morrer de acordo com a concepção estatal de «boa morte», qualquer que seja o filme de terror que estejamos a vivenciar?
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Agostinho da Silva (um excerto)
"Nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que, depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence."
[Agostinho da Silva - Cartas a Um Jovem Filósofo]
Das razões da insónia
Esta noite que passou pouco ou nada dormi e tenho várias explicações para que a insónia se tivesse instalado na minha alcova, que passo a elencar: Na noite de Sábado para Domingo, como há muito tempo não sucedia, fui a um forrobodó que durou até de madrugada. De manhã, ao invés de ficar na cama até mais tarde, resolvi acordar bem cedo para deambular meio despido e embriagado de sono pela casa. Domingo à tarde, no aconchego no sofá, embalado pelo som da televisão, tirei a desforra do sono perdido com uma soneca de várias horas; e à noite, como não podia deixar de ser, não tinha sono. Por mais que me esforçasse, não conseguia encontrar o botão vital que nos desliga da consciência. Para cúmulo, durante a madrugada, para além do vendaval de chuva que abanava os estores da janela contra a vidraça, o casalinho do apartamento ao lado resolveu acordar com desejos libidinosos. Na verdade, a princípio até tentei achar graça aos gemidos confrangedores e ao barulho da cama a bater contra a parede, mas ao fim de algum tempo comecei a convencer-me que o jovem casal era um tenaz praticante do sexo tântrico: nada de ejaculações precoces nem pressas, toca a fazer amor com todos os sentidos, pois os vizinhos do lado são pacientes e entendem estas coisas. Perante o dilema de escrever sobre isto ou não, apeteceu-me resvalar para a devassa da intimidade do aludido casal e desabafar, com as olheiras profundas que hoje moldam o meu rosto, estas linhas, na esperança que a minha insone noite tenha, para eles, valido a pena. Queira Deus que o sexo tântrico (deles) tenha um calendário bastante espaçado, pois, com franqueza, não sei se conseguiria aguentar nos próximos tempos outra noite assim.
domingo, 10 de outubro de 2010
Mototurismo em Salamanca

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No meu périplo de dez dias por Espanha, revisitei Salamanca, uma das cidades espanholas mais ricas em monumentos da Idade Média, do Renascimento, e das épocas clássica e barroca. Destacam-se as Catedrais, o Palácio de La Salina, o Palácio de Anaya, o Palácio de Monterrey, a Casa das Conchas, o Convento das Dueñas e a Torre do Clavero. O Museu Diocesano, o Museu Catedralício, o Museu Universitário e o Museu das Dueñas, são outras referências culturais da cidade. A actual vida quotidiana de Salamanca centra-se na Universidade e na Plaza Mayor, edificada em estilo Barroco no século XVIII - centro e símbolo universal da cidade.
Salamanca, a cidade universitária espanhola por excelência, é, sobretudo, conhecida em todo o mundo pelo seu riquíssimo património cultural. Sem dúvida que se trata de uma urbe de (re)visita obrigatória, até pela proximidade que dista da cidade da Guarda e da fronteira de Vilar Formoso.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
O valor do silêncio
Acabou o Verão e voltaram os dias despidos, com luminosidade baça, e a chuva miudinha que teima em não abrandar. Há muito tempo que não conhecia dias assim e começo a achar que o maior dos problemas de quem tem tendência para a nostalgia, é justamente a incapacidade de viver numa modernidade que nos retira o melhor que já tivemos, sem nos dar quase nada em troca. Agora já me apetece estar fechado em casa, protegido pelos vidros duplos e curtir somente o silêncio. E num lugar de silêncio que seja real e não se confunda com estados de espírito, que seja aquele que fica no instante preciso em que, no meio de nada, nada se ouve. Nem uma motorizada ruidosa que passa ao longe. Nem um cão que ladra, por razão nenhuma, na quintarola das traseiras do prédio. Nem uma folha que roça noutra folha. Nem o trinar dos pássaros na copa frondosa das árvores. Nada rigorosamente nada. É por isso que amo as noites que não têm ruídos, nem interferências, nem interrupções. Eu gostava de ser feito de silêncios, de camadas de silêncios sobrepostas umas sobre as outras, e cada vez mais acredito que um homem é o ruído que faz. Na voragem do tempo, ou da falta dele, já nem nos apercebemos do intenso valor do silêncio, esse lugar raro que tanto prezo e que queria que fosse meu mais vezes.
domingo, 3 de outubro de 2010
Três ou quatro parágrafos à solta
Voltar a publicar algo passados quase seis meses, causa-me constrangimento e a impressão de ser preciso justificar tanta ausência perante seja quem for. Mas não existem outras justificações plausíveis que não sejam o desinteresse e a desmotivação. Não publicar no blogue durante quase meio ano, é também a manifestação de que existem outras coisas para fazer na vida para além do bloguismo. Mas o bichinho fica sempre cá dentro e é uma questão de tempo até que a vontade de retornar a este mundo meio incógnito nos assombre de novo.
Até ao momento ainda só escrevi nove linhas, o que não é nada mau para quem faz tanto tempo não postava nada nem tão pouco navegava na blogosfera. O que terei andado a fazer entretanto? Para além de um moto-tour recente de dez dias por terras de Espanha, e de ter os cabelos ainda mas brancos, todo o resto bem pode caber na trivial espuma dos dias. Aguardo por uma laparoscopia - procedimento cirúrgico minimamente invasivo realizado sob efeito de anestesia - para remoção da vesícula biliar; e, apesar das palmadinhas nas costas e das garantias de que não dói nada e que a recuperação é rapidíssima, não consigo evitar um certo mal estar por saber que me vão fazer quatro "furinhos" no abdómen, ainda que sob o efeito de uma anestesia geral. Na verdade, não me canso de falar com ex-laparoscopizados para sossegar esta ânsia que me invade.
Cada vez que leio um bom livro, perco a vontade de escrever o que quer que seja que ultrapasse a efemeridade de um jornal. Entro nas livrarias, vejo a imensidão de livros e autores, e verifico que qualquer ser humano - que saiba juntar letras com a mínima perícia - publica livros. Do aldrabão da astrologia ao talentoso jornalista, do pretenso poeta de trazer por casa, que julga possuir a sensibilidade e a estética de fazer magia com as palavras, ao prosador nato, de tudo se encontra nas livrarias, como se uma enxurrada de letras sem depuração tivesse sido despejada sobre os escaparates. A ideia que me foi incutida desde a tenra infância de que o livro como objecto fica para a eternidade, quase morreu em mim. Ainda não cheguei à fase de deitar os livros para o lixo - um dos piores tormentos que povoam o meu imaginário de coisas terríficas -, mas a minha descrença em relação à qualidade daquilo que hoje se publica quintuplicou. Por estas e por outras, não consigo acabar de ler um bom romance e julgar-me capaz de escrever um romance mais do que miserável, mas admira-me a audácia de certos gentios que publicam prosas e pretensos versos, crentes de que a sua mediocridade poderá será sublimada pelo poder efectivo da publicitação e dos elogios fáceis.
Dizer mal das coisas é uma tendência que nos toca a todos e eu não sou excepção. Afinal todos temos dentro de nós uma colecção de revoltas mortinhas por andarem à rédea solta. Tento caminhar por entre as opiniões, lamentando o efeito de massa que, de quando em quando, se apodera de nós, mas com a firme convicção que uma dose generosa de crer individual nos distingue e permite que tenhamos alguma marca. Sempre admirei as pessoas que conseguem ter uma única maneira de estar na vida. Sempre admirei os optimistas e invejo a pendular regularidade dos estados de espírito, do humor, da forma como encaram cada dia. Às vezes dou comigo com a sensação de que ainda pertenço à classe dos pessimistas crónicos, do género daqueles que gostam de se sentir envelhecidos, que obrigam os outros a aterrar e a constatar que o mundo em que vivemos é essencialmente uma merda. Mas felizmente que hoje já sou muito menos assim. Já não sou o paradigma do homem que não consegue ver o lado bom do mundo e que encontra defeitos em tudo e em todos. No entanto, uma certa exigência, uma fasquia elevada, ainda faz parte do meu modo de ser e continuo incrédulo como artes e manhas tornam fácil a eleição da mediocridade às luzes da ribalta.
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