domingo, 30 de agosto de 2009

Medidas de combate à descoordenação

Quando se fala em noitadas e em dança, a minha imaginação comummente viaja até ao ambiente das discotecas, ou das danceterias [um vocábulo usado no Brasil e que recentemente entrou no nosso léxico], onde corpos suados, embalados pelo glamour vago de odores a perfume, mesclados por suores intensos, se movimentam em frenesim sob as luzes intensas de uma pista de dança. Não sei dançar. É um facto e nem vale a pena escamotear a verdade. Nos meus 15/16 anos, dançava, sim, os slows, nos saudosos bailes de garagem, ao som de um gira-discos, com uma moeda em cima da agulha para fazer peso, não fosse a mesma saltar devido ao abaulamento constante dos long-plays. Era das raras e imperdíveis oportunidades que havia para podermos ter lindas raparigas nos braços. Dançar slows era uma tarefa simples e não carecia de grande coordenação ou, sequer, de conhecimentos rudimentares de dança. Agarrava-se a moça pela cintura, o mais chegado a nós que ela deixasse, e depois era só escutar a música e movimentarmo-nos o menos possível: um passo para lá, um passo para cá, os lábios encostados à cara dela, ou ao pescoço. Enfim, uma demasia de sensualidades!
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Depois de me terem dito por diversas vezes que é uma pena eu não saber dançar, estou finalmente convencido a fazer alguma coisa para mudar esta minha grande incapacidade. Está na hora de dar ouvidos às pessoas, pois já são demasiadas a dizer a mesma coisa. Deste modo, em Setembro, pela segunda vez, pois já lá estive há dois anos e desisti logo na primeira aula, vou recomeçar a frequentar as lições de Danças de Salão da Prof. Olívia, no Ateneu de Leiria. Convenci-me de que a minha descoordenação motora era um caso clínico irremediável, mas dizem-me que não é nada disso e que a persistência acabará por quebrar a rigidez post mortem que exibo cada vez que ensaio passos de dança. Uma vez mais, garantem-me, o sucesso reside na persistência. Feliz com a perspectiva, já me estou a imaginar um dançarino de Salsa, Rumba, Tango, Foxtrot, Kizomba, entre outras coisas, totalmente viciado nos ritmos, magricelas como um cão – dizem que a dança, se levada a sério, faz perder peso mais rapidamente do que a maioria das actividades fisícas! –, com gel no cabelo e a esvoaçar ao som frenético da música. Depois, claro, espera-me a estreia dos meus afinados dotes numa qualquer danceteria, das muitas que pululam nas cercanias de Leiria. Um blaser doirado, com uma camisa glamour style a condizer, com colarinhos obrigatoriamente ululantes e sapatos brancos, nuns pés forrados por elegantes peúgas turcas de etnia branca, são os adereços que vão compor o meu look. Ah! Claro! Talvez um pouco de gel forte no cabelo, para eriçar as réstias, me faça sentir ainda mais confiante. Esperem para ver, pois, cada vez mais despudorado, pressinto que estou a chegar à idade do vale (quase) tudo.

Eu e o Twitter(ismo)

O Twitter é uma espécie de rede que permite aos usuários enviar e receber actualizações pessoais de outros contactos (em textos de até 140 caracteres, conhecidos como “tweets”), através da própria Web, por SMS, mobile phone, ou por meio de softwares especifícos. As actualizações são exibidas no perfil do usuário em tempo real e também enviadas a outros usuários que tenham assinado para recebê-las. O Twitter existe há pouco tempo mas já ganhou extensa notabilidade e popularidade por todo mundo. É descrito como o “SMS da Internet”. Por mera curiosidade, aderi a mais esta moda fantasiosa e, até ao momento, a sensação que tenho de que se trata de uma espécie de Big Brother da blogosfera, para alimentar um intrínseco afã voyeurista, não mudou. Acredito que suscite uma natural curiosidade saber o dia-a-dia, ou as novidades em tempo real, de personagens notórias e conhecidas, mas não creio que se passe o mesmo no que a gente comum diga respeito, como é o meu caso. Ainda não consegui encontrar no fenómeno uma utilidade tão grande, capaz de fazer jus à imensa popularidade que granjeou, mas a prudência aconselha-me a tentar conhecer melhor a nova ferramenta, pois quem sabe não haverão utilidades que escaparam à minha observação. Até lá, vou divertir-me um pouco mais com o meu Twitter, para que quem me leia saiba, em tempo real, que acabei neste preciso instante de matar uma melga que me andava a zumbir aos ouvidos e que o vizinho do 5º andar começou de novo a berrar com a mulher. Depois digam-me se isto tem algum interesse, sim?

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A propósito das motas

(Harley Davindson 883)
Tenho um vizinho novo, um puto porreiro, com idade para ser meu filho, que se chama Ricardo e é motard como eu. Enquanto eu tenho uma Scooter Yamaha 50 e uma BMW F 650 GS, ele tem uma Harley 883, uma Honda CBR RR 900 e uma Honda 500. Logo que nos conhecemos, um destes fins-de-semana, junto ao portão da minha garagem, arranjámos rapidamente tema de conversa, ou não fosse ambos comungarmos a maluqueira das motas. No resto, é a diferença de idades que nos assola: ele tem 29 aninhos, o cabelo comprido e, creio, algumas tatuagens. Eu sou mais casual wear, a atirar para o clássico/careta, o cabelo curto e grisalho. Creio que se o Ricardo não me tivesse visto um destes dias chegar montado no meu alazão negro, nunca teríamos passado do comedido "bom dia! boa tarde!" Acho curioso como este gosto comum consegue empatizar de imediato pessoas que, de outro modo, provavelmente nunca chegariam à fala. Não me imagino a dirigir-me à minha vizinha do terceiro andar para lhe fazer perguntas sobre o seu Peugeot 306, agora que também eu comprei um carro da mesma marca. O que pensaria a senhora de mim? Que eu me estava a "atirar"? No pessoal das motas a coisa é diferente e pese embora eu não esteja pelos ajustes com as vestimentas ritualizadas dos motards, nem alinhe nas suas patuscas concentrações bimbo style, a sensação de pertença a uma tribo é demasiado vincada.
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O motociclismo é uma paixão secreta que só quem é cavaleiro do asfalto, amante da velocidade, da liberdade e do vento, lhe consegue sorver o prazer. Se me fosse pedido para apontar algo diferenciador e positivo que distinga os automobilistas dos motociclistas - já que dos condutores de outros meios de transporte não me sinto habilitado para tecer comentários - salientaria sem dúvida alguma o espírito solidário dos segundos. Quando há um acidente ou uma avaria em que intervenha um motociclista, os primeiros a parar para prestar ajuda são sempre os comparsas das duas rodas. E, na estrada, é comum o cumprimento entre motociclistas, quer seja fazendo sinais de luzes, ou simplesmente levantando a mão num gesto de saudação. Os automobilistas, como é sabido, preferem mostrar outro tipo de gestos menos simpáticos, de resto já bastante vulgarizados pelo uso. E quando há um acidente ou abrandam só para para cuscar, ou exasperam porque o trânsito ficou menos fluído e querem é pirar-se. De resto, à maioria deles não passa pela cabeça parar só porque algum automobilista ou motociclista teve uma pane ou um acidente e ficou na berma da estrada. O egoísmo, a falta de bondade e solidariedade, infelizmente, estão quase sempre presentes. Por isso, os motards são uma raça à parte.
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Hoje, ao final da tarde, fui encontrar o Ricardo na garagem, vestido com um fato-macaco, entretido a desmanchar a dianteira da Harley para lhe colocar uns faróis de nevoeiro. Depois de arrumar o meu carro, falámos de motas, como não podia deixar de ser, e emprestei-lhe o meu carregador de baterias. O rapazito ficou radiante por eu ter um disponível, pois já se tinha mentalizado que tinha de ir arranjar um longe daqui. Deste modo ainda hoje vai poder ver a sua Harley a trabalhar com os luzaréus novinhos em folha, o que me deixou feliz. Já fui convidado para uma voltinha inaugural, embora, confesso, não seja um tipo de mota que me fascine. Mas mais importante do que as motas e as conversas que surgem à volta delas, é eu ter feito um amigo. Um amigo novinho, é certo, mas a idade não deve influir na amizade e é a mim que cabe fazer um esforço de adaptação - um up grade na minha forma de estar e pensar, como é trivial hoje dizer - para ultrapassar o eventual "conflito geracional". Quem está a caminhar para velho, tanto quanto me é dado constatar, sou eu e a Harley do Ricardo. Se a Harley de 1989 já anda a fazer tratamentos de rejuvenescimento, porque não eu que sou de 1961?

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sobre a beleza

Por vezes ponho-me a tentar definir o que é a beleza mas nunca chego a conclusão alguma. Os moralistas dizem que ela é necessariamente interior e que a outra, a beleza fisíca, é desprezível. Outros, mais certeiros, dizem que ela obedece a determinados critérios, que fazem com que, pelo menos a maioria, esteja de acordo com aquilo que os olhos vêem; ou seja: há bitolas universais que catalogam o que é feio e o que é belo e no espaço intermédio, na mediana, que é onde se situa a maioria de nós, uns são julgados mais belos do que outros. Eu penso que para descobrir a beleza interior passa-se por uma enormidade de trabalhos e é preciso por vezes uma grande vontade para lá chegar. A beleza exterior, em contrapartida, não se busca. Está lá. Vê-se. E ninguém chega à beleza interior sem antes se sentir seduzido por uma outra forma de beleza, seja por uma certa forma de arranjo pessoal, uma forma de estar que cativa, um sorriso, um olhar, o tom da voz, uma certa expressão. Mas numa coisa estou de acordo com a "escola moralista". É que se não houver algo de muito tocante a acompanhar a beleza de cada um, esta dificilmente se aguenta, pois não há beleza, por maior que seja, que consiga preencher o vazio de um interior sem alma. Isso é algo perfeitamente desadequado. Melhor, a meu ver, é as duas coisas, na medida do possível, andarem juntas, pois a agradabilidade deve ser tão integral quanto possível.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Dinner for one

Dinner for one
Para quem tem paciência e gosto para ver puro humor inglês, aqui fica uma pérola do mesmo.
NB. Para colocar a música do blog no silêncio, existe um botão no lado esquerdo, na parte inferior da aplicação, que serve justamente para isso.

De dentro para fora

(Na penumbra da minha cozinha - 2009)
Estou na penumbra da minha cozinha donde consigo divisar os prédios fronteiriços ao meu. Raramente me sento nesta mesa para escrever. A cozinha é um lugar de passagem, funcional, que nunca me inspirou para outras tarefas que não fossem as gastronómicas. Sempre preferi quedar-me na secretária, junto à janela do escritório, onde posso desfrutar a visão familiar da quadra de vacas castanhas, mordiscando sem cessar a erva do imenso prado verde. Há pouco tempo semearam algo juntamente com o pasto, pois uns avejões negros, que não são corvos nem gralhas, faz horas que estão entretidos a debicar a terra. Há certos animais, e não só os ruminantes, que vivem exclusivamente para comer. A sua essencialidade resume-se a isso: comer para se manterem vivos. A mim, neste momento, apeteceu-me ter por companhia uma visão estática e deixar-me ficar assim, como se também eu fosse um animal que se subsume no ruminar de pensamentos. Sei que se sair da cozinha e for para a outra ponta da casa, ao abrir a janela do escritório, vejo a serra ao longe e oiço o barulho de um pequeno riacho cuja água acaba aprisionada no pomar; mas prefiro estar sentado e imaginar tudo isso sempre que fecho os olhos. Já sinto saudades do bulício da grande cidade, da ausência das monotonias, da oferta cultural diversificada, mas, sabes, também gosto do silêncio e do cheiro do campo, sempre que abro as ventanias das janelas e respiro o ar que vem de fora. Gostava de poder diversificar mais, dividir-me entre a província e a capital, quando o tédio ou a saturação me assolam. E tu? Até quando vais continuar com esse ritmo frenético de trabalho? Quando é que resolves parar e vir para aqui olhar as flores e ouvir os animais? Vem depressa e deixa, tu também, vir ao de cima a pele que está debaixo da carapuça. Solta essa outra pessoa, corça selvagem incapaz de ser domada, e deixa-a bem visível. Não tenhas medo, porque a acreditar no que dizem os entendidos, a segunda pele é que é a verdadeira. E nós dois, como sabes, sempre pugnámos pela verdade.

domingo, 23 de agosto de 2009

Comunicado Azul

Tudo azul após super-dose de Viagra

Britânico começou a ver tudo em tons de azul. Diz agora que a sua vida parece «filme azul»

"Um britânico afirma que está a ver tudo azul após ter tomado uma dose muito grande de Viagra. John Pettigrew, de 58 anos, de Brighton (Inglaterra), diz que a sua vida parece um «filme azul» após os comprimidos para melhorar o seu desempenho sexual terem danificado a sua visão.

Segundo o jornal The Sun, Pettigrew admitiu que não seguiu as recomendações que constavam na embalagem do medicamento e que, embora se tenha divertido muito depois do ingeri-lo, abriria mão de todas as relações sexuais do mundo para poder voltar a ver uma caixa de correio vermelha novamente.

Divorciado, o britânico afirmou que adquiriu o Viagra pela Internet quando percebeu que não tinha o mesmo desempenho sexual após um ano de abstinência.

Ao princípio, Pettigrew não percebeu nenhum efeito secundário, no entanto, há mais de 15 dias que vê tudo azul. Agora, tem feito exames para descobrir se os danos são permanentes.

A fabricante do Viagra, a Pfizer, disse ao jornal The Sun que alerta que alguns homens podem começar a ver com um tom azulado após a ingestão excessiva do medicamento.

In IOL - Agosto 2009

Comunicado

Apesar de o azul ser a minha cor predilecta e assumidamente ter uma certa fixação pelas suas diferentes matizes, afirmo que nunca na minha vida tomei Viagra e a minha visão é perfeitamente policromática - às vezes, condescendo, um pouco mais a preto e branco do que seria desejável, mas nunca azul! Agradeço aos meus eventuais leitores/as que, caso também tenham lido notícia, não façam quaisquer suposições erradas devido à minha assumida preferência. O meu mundo está pintando a diversas cores, pese embora o azul me fascine. No entanto, não queria estar no lugar deste britânico que, coitado, foi condenado à ditadura do Azul-Pfizer. Resta dizer que afinal nem tudo é mau para ele, pois a sua vida azulou-se de uma forma que ele já não concebia. O resto são efeitos secundários. Um preço azul, já que não há almoços grátis.

Madrigal

Beijos indígos

(Pôr-do-sol - Praia dos Salgados - Nazaré - Agosto 2009)
  • Minha mão no teu cabelo
  • No coração, a tortura
  • Que estraga um momento belo
  • Na nossa pele o desejo
  • Duma carícia sem fim
  • A troca de um amor assim
  • Selada no calor de um beijo
  • Silêncio, quietude, firmeza
  • Tudo parece paixão
  • De uma infinita beleza...
  • Mas eis no beijo sonhado
  • Uma lágrima rolando
  • Deixando um sabor salgado...
  • Por isso, saber amar é tão doce
  • Que faz bem ao coração
  • É andar, como se fosse
  • Com uma candeia na mão
  • Candeia que traz até nós
  • Aquela que nos reclama
  • E vê a luz em nossa voz
  • Sem dar por isso, essa chama
  • Ilumina a nós, e a vós
  • E até a quem nos não ama

sábado, 22 de agosto de 2009

Saudade

Não sei dizer o que é saudade, com palavras simples e banais, para recordar uma verdade, não encontro definições iguais. Saudade é ter um vazio no coração? É sentir no peito um desejo imenso? Será reviver uma emoção e querer da vida um renovado incenso? Ora sinto um doce prazer, ou me invade uma dor profunda, que a realidade me vem trazer. O sentimento de ser ou não ser a cada momento mais me afunda, neste mal enorme de não te ver. Só deixarei de pensar em ti quando um pintor conseguir pintar o barulho de uma lágrima caindo. Achas que isto não é saudade?

Sonâmbulo

Este tédio que me envolve. Este vácuo que me rodeia. Este sentir que me dissolve. Tudo que a vida planeia. Este esquecer de mim. Este procurar no vento. Este nevoeiro sem fim. A toldar o pensamento. Este vegetar que eu sou. Este sumir no espaço. É o que, dormente, eu dou. Este durar que desfaço... Este fim para onde vou. Eu, sonâmbulo, o faço.

Doce ilusão

À beira do rio, sentado. Esperei por ti, sorridente. O meu coração exultava. Cheinho de amor, fremente. O meu peito florido. Um ramo viçoso na mão. Sonhador, o meu ar tímido... Postos os olhos no chão ... As águas do rio passaram. E sem saberem levaram. Os sonhos de uma paixão. Só estas flores ficaram. Das más horas que passaram. Numa tão doce ilusão...

Tão longe

(Pombo a contra-luz - Coimbra - Agosto 2009)
Tão longe, a lembrar. O que eu quisera. E aquela quimera. Que uma pessoa espera. Quando pensa a sonhar. O sonho trazido. Por lestos ventos. A meus pensamentos. São estranhos relentos. Tornados brasido. Minha alma louca. De tanto amar. É um balançar. A fazer encurtar. Minha vida pouca. E tão longe estando. Do desejo vão. O meu coração. De emoção em emoção. Continua sonhando...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

De regresso ao trabalho - os desabafos de um tecnocrata do século XXI

Depois de um mês de férias um tanto atribuladas, talvez as mais caras da minha vida, eu que já mal me recordava do caminho para o cabo das tormentas, tornei ao serviço onde me aguardavam momentos de stress. E o pior nem tem sido o excesso de trabalho, ou as horas extra que, não raro, se prolongam até à chegada da noite; ou a falta crónica de funcionários em número razoável para assegurarem o cabal desempenho de tarefas tão diversificadas, o que nos obriga a ser uma espécie de "one man band". O pior tem sido, sim, a falência constante das ferramentas tecnológicas com que todos os dias temos de nos governar e a imensa frustração e desânimo que isso nos causa. Isto assim não é bom, nem para os utentes nem para nós. E a culpa vai inteirinha para o desajuste que se verifica entre as expectativas que foram criadas pela administração junto dos cidadãos e a fiabilidade mais do duvidosa das aplicações informáticas que suportam o SIMPLEX [as aplicações informáticas não foram pensadas para realidades tão complexas e multifacetadas como o Direito, nas suas diversas vertentes, e mostram-se incapazes de resolverem diversas situações com recurso ao simplismo dos modelos "true or false" com que se querem transformar os procedimentos técnico jurídicos. Hoje, sem planos de contingência para a quase integralidade dos procedimentos, que deveriam prever a possibilidade da elaboração manual de certos actos, com a sua informatização à posteriori, nas situações, infelizmente, recorrentes, em que o sistema está off, perdeu-se a segurança juridíca de outrora; e, não tarda, os tribunais entupirão, tanta a trafulhice que é potencialmente passível de acontecer]
Exemplo: Hoje em dia, no contrato de celebração do casamento civil, quiçá dos contratos mais solenes e importantes do nosso ordenamento juridíco, não só pela carga emotiva que encerram, mas sobretudo pelos efeitos patrimoniais e sucessórios que dele advêm, no momento da sua celebração, os nubentes não assinam papel algum, nem há lugar a testemunhas. Tudo é feito com recurso ao preenchimento e selecção de campos na respectiva aplicação informática - que, se estiver off, o que infelizmente é recorrente, não há lugar à concretização do acto, pois a lei não prevê outra forma de o celebrar. Resultado: os nubentes e os respectivos convidados podem ir para casa com duas opções: a) ou aguardam que o sistema esteja in; b) ou, pior, agendam uma nova data, dia e hora, para casarem, de preferência quando a aplicação informática esteja operacional.
É difícil, se não impossível, explicar aos utentes de uma repartição pública, constantemente bombardeados com a ideia da simplificação - SIMPLEX - e os anúncios periódicos do enterro definitivo da burocracia e que faltaram aos seus afazeres profissionais para concretizarem um contrato importante nas suas vidas, que o sistema está off, a Internet está lenta, a aplicação caiu de novo e as solicitações são impossíveis de satisfazer. Adivinhem quem escuta as iras e os lamentos do público? Adivinhem quem vê o trabalho acumular-se e as marcações sobreporem-se? Adivinhem quem está cheio de stress e a carecer urgentemente de novas férias?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Kika - a gata bicolor

(Kika em pose sensual - for your eyes only)
Não pedi autorização à dona da Kika para publicar uma foto da bichana, porque não houve ocasião para isso, e penso não estar a cometer nenhum delito de devassa da intimidade da gatinha. É por causa da minha eterna paixão pelos gatos, em especial por ter tido uma gata angorá branca, pela qual vivi enamorado desde os meus seis aos quinze anos, que me apeteceu eleger a Kika à categoria de gata blogável. Só conheço a bichana por fotografia, ao contrário da sua dona, mas a particularidade dela ter um olho de cada cor torna-a uma felina de beleza rara. Consta que é tão meiga e fofa como aparenta - deve ser por via de algum processo de osmose que se fabrica lá por casa. Prometo que numa próxima oportunidade vou perguntar.

sábado, 15 de agosto de 2009

Uma história fingida

(Duas matizes - S. Pedro de Moel - Agosto de 2009)
Era um final de tarde, daqueles em que os raios solares sem mantêm com uma intensidade tal que a noite não se adivinha. A praia ainda tinha algumas pessoas que, lentamente, empilhavam roupas e toalhas para retornarem a casa. As gaivotas, a princípio tímidas, começavam a conquistar o areal à beira-mar. O meu corpo, inerte, oferecia-se ao céu num abandono total. Por momentos, semicerrei os olhos e vi a contra-luz duas mulheres ainda jovens, que seguiam com atenção as brincadeiras das filhas à beira da água. Uma das petizes fez um bolo de areia e veio junto da mãe dar-lho para ela comer. A mãe agarrou a cabeça da filha e acariciou-a com imensa doçura, enquanto a pequena esbracejava, ria e dava pulinhos de contente. O meu corpo ensonado começava a retomar a energia. Os olhos abriram-se por completo e levantei-me para entrar na água cujo frio me proporcionou um enorme bem-estar. Nadei uns minutos e estendi-me de novo na areia. Sei que fui das últimas pessoas a abandonar a praia. Eram quase vinte horas e o que verdadeiramente me apetecia era dormir ali, ao relento, entregando o meu corpo à volúpia dos últimos raios solares. Um fio de água descia, irreprimível, pelo canto do meu olho direito. A princípio julguei que era uma gota de suor, mas cedo percebi que era uma lágrima. Com um gesto lasso, limpei a lágrima que teimava em querer saltar e ergui-me. Há-de passar, pensei, mas só quando deixar de ter pena daquilo que não valeu a pena. "O amor não existe; o que existe são provas de amor..."

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Quem quer casar com o António Lobo Antunes?

(António Lobo Antunes - o noivo)
Hoje acordei devagar, com o som suave de um ding dong, pensando que estava a sonhar, quando me apercebi que era alguém a tocar à campainha da porta da entrada. Remexi-me no calor da cama, entreabri um olho e olhei para o relógio que marcava 08h30 da manhã. Àquela hora só podia ser a D. Emília, a minha nova empregada doméstica, que, sabendo-me de férias e em casa, tem um pudor imenso em utilizar a chave que lhe dei: " - Dr. Jorge, eu toco sempre antes de meter a chave à porta, não vá o senhor estar acompanhado, ou querer estar à vontade, e só depois de esperar uns minutos é que abro a porta. Já com os outros patrões faço assim e sempre me dei bem. O respeito é uma coisa muito bonita!" Não sei quantas vezes já a ouvi dizer-me isto, e, por momentos, confesso, senti uma certa raivazinha pela D. Emília, pois planeara dormir manhã adentro e ela não abdica, em momento algum, das suas valorosas convicções, preferindo fazer-me levantar da cama para lhe abrir a porta, quando ela mesma possui uma chave. Enfim, foi um pensamento fugaz, não coado pelo filtro da minha razoabilidade, pois até gosto muito da senhora e da qualidade das tarefas que ela desempenha cá em casa. Se há coisa que a idade paulatinamente me tem vindo a ensinar é de que temos de aceitar e tolerar os outros tal qual eles são, para que, também nós, com esse exemplo de comportamento, sejamos aceites com as nossas peculariedades.
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Entretanto, olhei de novo para o relógio. Eram 09h30. Entre cogitações e sonolência, tinha passado uma hora. Os ruídos da rua ouviam-se agora mais nítidos e a claridade entrava pelas frinchas da persiana mal fechada. Saltei da cama, com a sensação de que, mesmo que o quizesse, não conseguiria dormir mais, liguei a música, hesitei entre o duche e o banho, mas optei pelo primeiro. Antes de entrar na banheira, sorri interiormente ao pensar no artigo de jornal que havia lido ontem. António Lobo Antunes vai casar. Então não é que o magarefe, que gasta montanhas de palavras em crónicas e entrevistas a papaguear que ninguém é indispensável à nossa felicidade; que afirma peremptoriamente que ela reside dentro de nós, na nossa imensa capacidade de sentir; que diz que a escrita lhe toma o tempo todo do mundo e infeliz da mulher que queira estar ao seu lado, apaixonou-se por uma doutoranda brasileira, com idade para ser sua neta, e vai casar de novo? A mocinha há muito que prepara um doutoramento baseado na obra do escritor e desde então sempre nutriu por ele uma paixão platónica; e a estada recente de Lobo Antunes no Rio de Janeiro fê-los cair nos braços um do outro. Uma inevitabilidade. Mais romântico do que isto só as líricas das baladas de Ivo Pessoa, que espero que ele passe a escutar a partir de hoje na companhia da sua discente.
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Enquanto enrolava a toalha à minha volta e me preparava para tomar o pequeno-almoço, pensei quão contraditórios são os homens, mesmo os intelectualmente mais brilhantes. Antunes equivocou-se. É humano. E também é humano revermos, com humildade, as nossas convicções e os nosso dogmas, pois quantas vezes a verdade de hoje é a inverdade de amanhã? Fico contente por as "razões" terem estado sempre do meu lado - agora estão do nosso lado, do meu e do dele - pois sempre pensei e senti que a felicidade plena é impossível de ser alcançada sem a partilha dos momentos mais importantes da vida, com alguém por quem sintamos amor e paixão. Esse epifenómeno dos mecanismos de substituição, das intensidades que logramos alcançar através da realização de metas pessoais que nos afagam a auto-estima, das amizades-substituição, das "amizades coloridas", não são mais do que paliativos para a falta do essencial e que em nada substituem a felicidade avassaladora do amor e da paixão. Ainda bem que és humano e, como tal, incoerente, Lobo Antunes. Que sejas imensamente feliz, dure o tempo que a tua felicidade durar.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Eu quero um Trabant!

Trabant - 2 cilindros - 400 c.c. (made in ex-DDR)
Mercedes E 220 D - 4 cilindros - 2200 c.c. (made in Germany)
Esta coisa dos carros serem uns melhores do que os outros é muito relativo. Por exemplo, neste momento preferia ter um Trabant do que o meu Mercedes Benz, no estado em que se encontra, pois as probabilidades do primeiro conseguir satisfazer as minhas necessidades de deslocação são incomparavelmente maiores do que as possibilidades que revela o segundo. Em Dresden ainda há muitos Trabants: carritos de 2 cilindros, sem air bags, multivávulas, ou injecção electrónica, com uma mecânica tão simples quanto a de um ciclomotor mas, ao que dizem, fiável. O Trabant foi produzido pela Sachsenring, em Zwickau, na antiga Alemanha Oriental, entre 1957 e 1991. Em tradução livre, Trabant quer dizer companheiro de viagem. O Trabi, como era carinhosamente chamado pelos alemães, tem uma carroceria de plástico (não reciclável), similar à fibra de vidro, mas de fabricação mais barata e viável para larga escala e o seu desempenho não é famoso, pois atinge uma velocidade máxima de 100 kms/hora e apresenta consumos na ordem dos 11 litros em estrada e 14 litros em cidade, por cada 100 kms percorridos; isto apesar do seu peso não ir além dos 600 kgs, contra os cerca de 2000 kgs do meu Mercedes - ou do que resta dele.
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Estima-se que ainda existam mais de 200 mil Trabants em circulação e já começam a ser cobiçados pelos coleccionadores de todo o mundo. Por esta e por outras razões, vou procurar o telefone do hotel onde pernoitei em Desden e pedir ao recepcionista que me indique uma forma de adquirir um desses carritos. Não se diz vox populi, e resulta sempre chique? - "Vou buscar um carro lá fora, à Alemanha!" Não estará na hora de moi fazer o mesmo? O meu único medo é que depois me comecem a chamar trabantino, mas isso com o tempo passa.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Madrigal’s Turbo Europe Mini-Tour (And it’s almost tragically ending…)

[Leiria - Madrid - Barcelona - Narbonne - Génova - Brescia - Viena de Austria - Bratislava - Praga - Cracóvia - Dresden - Dachau - Munique - Aix-en-Provence - Barcelona - Lisboa (avião) - Leiria (táxi)]
1. Aeroporto de Barcelona. Air Bus A320 da Vueling que me transportou para Lisboa depois do acidente.
2. O estado do meu Mercedes depois de ter rebentado o pneumático traseiro a 130 kms/hora, na auto-estrada que liga o sul de França a Barcelona. Felizmente que viajei sempre só, pois o impacto foi todo no lado direito. De qualquer forma, o habitáculo ficou intacto e saí do carro sem uma única beliscadura. Se fosse um veículo mais pequeno, não estaria aqui para contar a história. Outros teriam de o fazer por mim.
3. Em Bratislava, capital da Eslováquia, junto a uma manifestação de arte de rua peculiar. Pedi a um autócne que passava por ali e ele prontificou-se a fotografar-me.
4. Auto-retrato evocativo dos 5800 kms que me levaram sozinho por essas estradas da Europa, até ao desfecho quase trágico.
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Viajar é porventura uma das formas mais sublimes de aquisição de conhecimento e de desbravamento mental que conheço. Desde que me lembro de ser gente, no sentido de ter algum dinheiro (fosse ele muito ou pouco) e autonomia, que viajar tem sido uma constante na minha vida. Quer à boleia, em inter-rails, quer mais tarde de carro, de barco ou de avião, sempre as viagens ocuparam no meu horizonte um lugar especial. Tempos houveram em que juntava dinheiro durante o ano inteiro para, chegadas as férias, ter disponibilidade financeira para viajar. Nunca dei por mal empregue qualquer dinheiro gasto em viagens e posso sentir-me grato com essa opção de vida que tomei, pois enriqueceu-me mais do que algum dia pudesse imaginar. A pessoa que eu sou, o modo como penso e perspectivo o que me rodeia, é, em muito, resultado da influência que o hábito precoce de viajar provocou dentro de mim. Sou um aspirante a globetrotter assumido e espero que as melhores viagens da minha vida ainda estejam para vir. Viajar é sentir! E, por enquanto, vou vivendo e viajando como posso. As fronteiras separam o que não pode estar unido, dando um peso definitivo à diferença e à identidade. Eu, por outro lado, anseio a diferença e a identidade. É isso que me move e faz mexer as minhas entranhas mais profundas. É isso que me faz conquistar mais alma, que me faz admirar os outros e desejar abraçar o mundo e senti-lo a respirar. Quem poderá dizer o contrário, de que viajar não é sentir?
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Todos dizem que gostam de viajar. Não conheço ninguém capaz de afirmar peremptoriamente que prefere ficar no sofá a ler livros sobre viagens, ou roteiros turísticos, a experienciar o prazer de viajar e conhecer costumes, terras e gentes diferentes. O certo é que, chegada a hora de viajar, a maioria opta por gastar os recursos económicos disponíveis em bens materiais, coisas palpáveis: um sofá novo para a sala, um frigorífico maior, ou, porque não, outro LCD, desta vez para colocar na marquise? E é por estas e por outras que, sempre que se trata de combinar uma viagem, nunca posso esperar dos outros uma disponibilidade genuína para gastar dinheiro nessa opção. Refiro-me a uma vontade tão forte quanto a minha para levar a cabo aquilo que conscientemente fui concebendo como uma esclarecida opção de vida: borrifar-me para as materialidades supérfluas (creio que tenho tudo quanto necessito para viver, porventura até mais do que o suficiente) e gastar os recursos económicos disponíveis no prazer que propicia o contacto com as realidades extra-muros. Se isso me faz feliz, que outro sentido poderá ter a vida se não a vivermos com alegria e virmos alguns dos nossos objectivos pessoais conquistados? Alguém acredita que pode levar os seus bens pessoais para a Terra do Nunca? Eu gostava, no dia em que a morte me levar, de partir inundado de memórias e com a consciência de ter levado uma vida arredado de metáforas próximas da Alegoria da Caverna - uma forma de viver foleira, que repudio, já que de tudo o que se diz ser platónico só creio mesmo no amor…
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Há pessoas que ainda não tomaram consciência de que a nossa meteórica existência é para ser efectivamente vivida e não apenas contemplada ou degustada através das leituras ou relatos de experiências alheias. Cabe-nos a nós ser actores no plateau desta efémera passagem pela vida e não meros observadores daquilo que os outros fazem e que nós, porventura, também gostaríamos de fazer. O Mundo é como se fora um imenso livro do qual aqueles que nunca saem de casa lêem apenas uma página.
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[Recordo, a este propósito, de um livro que li e gostei bastante: “Confesso que vivi!”, de Gabriel Garcia Marquez, onde o autor, num registo descaradamente autobiográfico, faz a apologia da intensidade que deve presidir ao acto de viver. Eu acrescento: viver com qualidade, com saúde, e não partir um dia com o poluto desgosto de não ter cumprido anseios e percorrido trajectos que mereciam tê-lo sido – e não o foram muitas vezes por causa de preconceitos estúpidos, irracionais, em nada coincidentes com a felicidade que nos proporciona sermos, na medida do possível e sem interferências externas, os fautores principais dos nossos desígnios]
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Não foram estas as férias que inicialmente houvera planeado fazer e foi à última da hora que a ideia de fazer um mini-tour a solo, pelo leste europeu, ganhou forma e concretização na minha mente. A viagem teve um desfecho abrupto, uma vez que tinha sido planeada para ser um trajecto com mais de 7000 quilómetros, mas acabou depois de percorridos 5800 kms, aquando do caminho de regresso, na auto-estrada que liga o sul de França a Barcelona.
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Não sou religioso, mas creio severamente que uma providência divina quis que eu vivesse mais uns tempos e saísse sem uma beliscadura do aparatoso acidente. Alguém me disse, há pouquíssimo tempo, que eu ainda tenho algumas coisas para fazer aqui antes de iniciar a tal viagem final. E se calhar é mesmo essa a verdade.

Dachau - Campo de Concentração

1. A porta da entrada principal do Campo de Concentração com os seus caracteristícos dizeres sinistros, de um sarcasmo inimaginável: "Arbeit Macht Frei", em tradução livre: o trabalho liberta, ou o trabalho conduz à liberdade; quando todos nós sabemos que se entrava por aquela mesma porta e, não raro, saía-se pela chaminé do forno crematório.
2. Placa evocativa das ignomínias que aconteceram naquele lugar entre 1933 e 1945. Posteriormente, muitos foram os templos, das mais diversas confissões religiosas, que se ergueram no interior do Lager. A celebração de cerimónias religiosas no Campo é comum e Dachau é hoje considerado, por muitas religiões, um lugar santificado e de evocação dos mártires da barbárie nazi. 3. Vista geral das construções principais, onde se situavam as celas de punição, os serviços administrativos e as instalações dos guardas.
4. O interior sinistro dos famosos "chuveiros de desinfestação", onde os internados eram gaseados com o Ziclon B, uma mistura de cloro e potássio de cianeto, especialmente preparada para o efeito.
5. O lugar onde outrora existiram as camaratas, que chegaram a albergar mais de 7000 prisioneiros.
6. A Parada onde era feita diariamente a contagem dos reclusos. Caso faltasse alguém por motivo de fuga, como forma punitiva, eram fuziladas, indiscriminadamente, dez pessoas. Muitos foram os que pereceram durante a contagem, de tão fracos que se encontravam, pois o tifo, entre muitas outras doenças que grassavam no Campo, encarregava-se de lhes ceifar a vida e poupar-lhes os muitos tormentos que os aguardavam.

domingo, 9 de agosto de 2009

Perhaps Love - John Denver

No universo das baladas de amor, "Perhaps Love" é talvez das mais belas que conheço. As líricas e a doçura da voz do cantor, resultam num registo musical tão belo que se torna arrepiante. O amor é, nele, um modo de viver e de sentir. É um ponto de vista um pouco mais elevado, um pouco mais largo. Nas suas líricas e na sua música, descobrimos o infinito e horizontes sem limites. John Denver, no seu género, foi um dos mais geniais intérpretes e autores de letras para canções west style - country. Morreu aos comandos do seu avião particular, despenhando-se no mar. Diz-se que o cantor tinha um "problema mal resolvido" com a bebida o que, convenhamos, não é de todo conciliável com a pilotagem de aeronaves.

Anthony Hopkins e o seu Bentley Azur

Perto da Aire de Saint Tropez, o Mercedes acendeu a luz alaranjada da reserva e teve de ser atestado. Já na estação de serviço, à minha frente, um fulano com ar de quem dá gorjetas de 500 euros no Casino de Monte Carlo, atestava um Bentley novinho em folha, com matrícula do Luxemburgo. No banco do pendura, a seu lado, uma loira platinada, de óculos escuros da Guchi e lenço na cabeça, entretinha-se a retocar a maquilhagem no espelho da pala solar, enquanto aguardava serenamente que o bólide arrecadasse os mais de 100 litros de combustível que alimentam os dois turbos do motor. Quando o dono do veículo olhou de frente para mim, reconheci Sir John Hopkins, gordo como um nabo, trajado de branco e com um one size fits all na cabeça. Instintivamente, deixei que a minha Kodak instântanea registasse o acontecimento. Depois, cada um de nós seguiu o seu destino, sem um cumprimento, sem um adeus, já que seguramente nos vamos rever na tela do cinema.

sábado, 8 de agosto de 2009

GALERIA DE IMAGENS Raul Solnado Uma vida a fazer rir - Caras.pt

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Morreu Raul Solnado.... a guerra acabou mesmo!

(Fonte: Internet)

Há noticias que não queremos ler ou ouvir, morreu um homem de um tempo em que se fazia humor, morreu Raul Solnado, depois de muitas guerras a brincar, esta guerra era a sério, e infelizmente ... esta ele não ganhou.

"O actor Raul Solnado morreu hoje às 10h50, aos 79 anos, na sequência da evolução de um quadro clínico Cardio-Vascular grave, informou a Direcção Clinica do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Raul Augusto de Almeida Solnado nasceu em Lisboa a 19 de Outubro de 1929. Entrou no mundo do teatro em 1947, enquanto actor amador, no Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Guilherme Cossul."

In Diário de Notícias

John Denver - Take Me Home - Country Roads

John Denver faleceu em 1997 num acidente de aviação. Esta é porventura uma das suas mais conhecidas canções, o West Virginia Blues, "Take me home - country roads", aqui interpretada num conhecido programa de televisão japonês, em 1983, acompanhado por Kohsetsu Minami, para nós ocidentais, um ilustre desconhecido.

Entre Munique e Garmisch Partenkirchen - O Tirol austríaco e os Alpes

A chegada da noite à zona alpina, depois de uma intensa chuvada, deixa o verde mais verde na imensidão dos prados e bosques a perder de vista, enquanto uma estranha luz coada e prateada inunda o asfalto. Mesmo em Julho, há neve nos cumes mais elevados e a água do degelo corre alegremente em cachoeiras pela montanha abaixo. Em certos troços da estrada, não raro, cervídeos atravessam-na na diagonal para rapidamente desaparecerem no emaranhado da densa vegetação. Felizmente para mim, nenhum bambi ou veado se lembrou de se suicidar nesse início de noite, mas matei um esquilo que me apareceu repentinamente no asfalto e se deixou ficar imóvel, sem esboçar qualquer intenção de se desviar, como que rendido a uma morte por si desejada; e que, de resto, lhe chegou célere. Nessa noite, antes de dormir, ainda pensei na morte do animal e na pena que senti por isso ter acontecido, mas foi tudo tão rápido...

Viena em tons de sépia

Ao final da tarde, muitos turistas endinheirados gostam de passear de charrette, com uma garrafa de champagne dentro de um termo com gelo, pelo magnificente centro de Viena. Mas é à noite, sob uma iluminação planejada com mestria absoluta, que a cidade melhor se revela na sofisticada beleza dos seus cafés e praças acolhedoras. Do mais sublime que alguma vez vi.

Bergasse 19

Em 2006 comemoraram-se 150 anos desde o nascimento de Freud (1856-1939), fundador da psicanálise e cientista internacionalmente renomado do século XX. Berggasse 19, onde Sigmund Freud trabalhou e viveu com sua família de 1891 a 1938, é seguramente um dos endereços mais famosos do mundo. Esta morada típica do final do século XIX abriga o “Museu Sigmund Freud”, reconhecido em todo o mundo como um local histórico singular. Foi uma mera coincidência ter ficado hospedado num hotel situado na mesma rua e, naturalmente, o museu foi das minhas primeiras visitas em Viena. Desde muito novo, comecei a ler Freud e psicanálise em geral, pois foi uma temática que sempre me fascinou, e senti uma enorme satisfação por ter estado naquele lugar, na casa onde morou, escreveu todas as suas obras, e consultou tantos pacientes, um homem daquela dimensão.
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Muito bem preservados, encontram-se a biblioteca e o escritório de Freud, o seu divã psicanalítico e a sua colecção de antiguidades, bem como uma vasta livraria com títulos diversos. Ainda bem que Sigmund Freud não conheceu na totalidade as agruras do nazismo, pois forçado a deixar a Áustria, entretanto anexada pelo III Reich, exilou-se em Londres onde viria a falecer. Ana Freud, sua filha e psicanalista de crianças, continuou o seu trabalho neste mesmo lugar até 1982, data da sua morte.

Bratislava - Eslováquia

Uma cidade limpa, de dimensões pequenas, se comparada com Praga, mas muito mais interessante e melhor organizada do que a sua congénere. Nota positiva para os seus habitantes, muito mais simpáticos do que os checos de Praga, que, apesar de só conhecerem o método do Marcel Marceau para falarem com os turistas, fazem um esforço considerável por agradar e bem receber os que gastam lá os euros. Aceitam a nossa moeda como meio de pagamento e fazem uma conversão automática para a moeda local - com ganhos evidentes no câmbio a seu favor, mas ainda assim tudo muito barato. Bratislava, com as suas ruelas e edifícios pitorescos, é um lugar agradável e que sem dúvida merece uma visita atenta. A Eslováquia, apesar de mais pobre, segundo dizem, é muito mais bem organizada e interessante do que a sua irmã bastarda, República Checa.

A Torre do Relógio - Estação Central - Praga

Uma arquitecura fabulosa em estado de deterioração avançado. A estação ferroviária principal da cidade onde tantas vezes Franz Kafka se deliciava a escrever, entretido pelos ruídos caracteristícos dos comboios que lhe insuflavam a verve. Um espaço que merece uma visita atenta, tanta a nostalgia que nos provocam os frescos nos murais internos e a própria arquitectura interior. Nota negativa, uma vez mais, para o deplorável estado de conservação de um monumento centenário.

Praga - turistas & trânsito caótico

Praga transporta-nos invariavelmente o imaginário até à "Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera, mas não a achei uma cidade tão adorável quanto os mitos urbanos a propagandeiam. É uma urbe atafulhada de turistas, com um trânsito caótico, cujas belezas soçobram rapidamente por comparação com Viena ou Dresden. Além disso, os checos, e também os eslovacos, para além do seu imperceptível linguarejar e com a excepção de reduzidas castas intelectuais, não falam línguas ocidentais. O ensino do inglês e do francês, linguas imperialistas por defeito, nunca foi uma prioridade para os regimes autoritários de leste. Na esteira do método do Professor Marcelo, dou nota negativa às auto-estradas, em estado deplorável, à higiene que deixa muito a desejar e também à minha crónica falta de paciência para estar num país que não aceita euros e onde tenho de fazer de Marcel Marceau a todo o tempo. Mas quem não quer euros, por amor de Deus?! Porque me obrigam a ir cambiar umas coroas ordinárias para comer umas sanduiches de proveniência manhosa? Depois de percorrer a Áustria, entrar na Eslováquia e depois na República Checa, é como sair da Cova da Moura, na Amadora e entrar directamente nas Quintas do Estoril. Os resquicíos do socialismo à moda soviética ainda são por demais evidentes e não é por se lhes dizer que estão na UE que as coisas mudaram na totalidade. A mentalidade das pessoas, tanto quanto sei, ainda não se muda por decreto; ou então sou eu quem já não percebe nada disto.