quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Elvis Costello and Burt Bacharach in Austin Powers 2

Elvis Costello, acompanhado, no piano, pelo autor e intérprete originário da famosa balada, Burt Bacharach, nesta comédia hilariante que vale sempre a pena rever.

Elvis Costello - I'll Never Fall In Love Again

Na interpretação de Elvis Costello, a famosissíma canção que à época a todos encantou e, apesar dos anos, continua a encantar. Escutá-la no Du Art Garden do Casino Estoril, interpretada pela delicodoce e portentosa voz do Pedro Malagueira, acompanhado pela magnifíca orquestra residente, é viajar aos anos 60 e obviamente sonhar.

A tua atenção

Olha para os meus olhos, Eu mostro-te tudo o que sou: A malsã desesperança, No fundo do meu âmago, A anátema de me sentir, As lágrimas que não rompem... Toca-me aos mãos ao de leve, Com suavidade, Carinho doce, Como se me amasses. Levita-me do fundo, Eu sou essa estrela que perdeu o brilho. Fecha agora os olhos devagar, E sente a fantasia do meu sonho, Leve como a brisa que passa, Um beijo que lhe dá a mão, O términos nos teus lábios, Depois, só mesmo o desejo de partir...

Jorge Rebelo

(Barreiro, 2005)

As velhas velas

As velhas velas bruxuleiam opróbrios indizíveis, aos fiéis das azinheiras que as têm por verdadeiras; as velhas velas não são puras, credíveis, pois sempre que a voragem das chamas as consomem nas lareiras, à sanha insana de lucros incontáveis, dessangrando os pecúlios de peregrinos sem eiras, transformando a estearina em novas formas temíveis, surgem novas velas, em forma de pés, mãos; rostos das beiras; velas que já foram mãos, pés, rostos, de gentes perecíveis, nas mãos de crentes de outras romeiras.
(Barreiro 2001)

Pensamento incendiado

Ó nuvem laranja, fogo posto, flibusteira, Vendaval do diferente, Agosto em ferro, fagulha eterna, Suja-me com o sumo da tua língua. Vomita-me calor e bebe o frio que há em mim. (Mexe-te! Vem depressa e distrai-me a quente) Dá-me a têmpera, entesa-me os músculos, Ginastica-me a vontade de te querer. Estás diferente? Reverberarei com os sopros do teu deserto de dor, E não sentirei mais do que pena? (Não me orgulho do mal que te fizer doer...)
(Barreiro, 2002)

Um vulgar titã

Tibieza que não espana o pó, Dos insucessos flagrantes, esmeraldinos, Colecciona martírios de meter dó, Na prateleira dos mesmos desatinos. [Ó Titã, da desventura invencível, Se a cada hora não fosses um verdugo, Mas antes uma teta aprazível, Queria, noite e dia, mamar do teu suco!] A ameba respira, existe, dança, No corpo dos gigantes do desamor, E não há quem a veja em mudança, Só porque tu, Titã, destilas mais calor.

Jorge Rebelo

(Barreiro, 2001)

Língua viperina

A língua exânime de tanto taramelar, Novelas de destrambelhos dos comparsas, Ainda excogita novos alentos p'ra continuar, O desfile flamante das desgraças. É o principal órgão de sentir o gosto, E cansada dos amores p'la filologia, Linguaja ainda na fase do mosto, Tomando o ofício de víbora por idolatria. E quanto mais eloquente for a dita, Quando espezinha os adversários, Maior certeza tem de ficar erudita, Nesta história de mentiras e falsários. In dúbio, mate-se a léria de vez, Pois não há certezas seguras, De que o próprio veneno já não o fez, Sempre que ela faz suas as mordeduras. (Barreiro,2001)

Sem título

E foi ao relento daquele morrão de tarde, Quando os telhados eram já sulcos sobre a terra, E as estrelas pontos gastos no deserto da noite, Que, com um sopro leve, sem cuidar das trevas, O meu torso sonâmbulo, deitado sob a gula da erva, Ergueu-se para apagar as réstias de luz, Que já tiritavam com o frio da memória de ti...
(Barreiro,2001)

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Uma melga de vassoura?!

Esta é uma imagem furtiva, por mim captada com a ajuda preciosa de uma Olympus digital 7,5 pixels, de uma pretensa melga que tentei liquidar a noite passada, com o providencial auxilio de uma das almofadas que me guardam o sono e protegem o pescoço. Não tendo conseguido realizar os meus nefastos intentos, restou-me apontar-lhe a máquina digital, com o flash ligado ao máximo para a encandear, e qual não foi o meu espanto quando finalmente consegui observar a foto que havia tirado em modo ampliado. Pasme-se! Era uma bruxa pernilongo de regresso a casa, montada numa vassoura de modelo ultrapassado! Ficaram-me como lembrança dois chupões, um perto do pescoço e outro junto ao lábio superior que, à falta de melhor tema para comentários mundanos, já fizeram sucesso qb.

Momentos

Sem saber porquê, e talvez por tudo e por nada, senti uma satisfação desmedida logo que respirei o ar puro da manhã. O bem-estar não me veio de uma noite bem dormida ou de ter-me agradado com a minha própria imagem no espelho da casa-de-banho. O bem-estar veio-me certamente da lembrança de um elogio que ontem recebi e até agora me dispõe bem. Neste final de tarde, cheguei a casa, tirei os sapatos e estendi-me sobre a cama, a saborear a sensação de que estou de bem com o mundo. A sensação é tão forte que, por medo de perdê-la, deixo-me ficar assim imóvel, de olhos abertos, no intenso e desculpabilizado prazer de não fazer rigorosamente nada. Saborear o silêncio e saber que a agitação só acontece lá fora. O alívio de não ter compromissos para o fim do dia, nem obrigações de hora marcada para a noite. Esquecer que existem preocupações, ansiedades de prazos, dores de cansaço. Não haver nem um som de rádio, um toque de telefone e nem sequer uma imagem de televisão, ou algum sinal do mundo exterior, a invadir a harmonia entre o meu espírito e o meu corpo – um absoluto estado de graça. Penso que os estados de verdadeira felicidade nunca me pedem licença para se instalar. Aparecem de surpresa, em forma de uma euforia interior que fermenta o corpo. Eles nunca me surgem por força de jogos intelectuais, programas mundanos, viagens sumptuosas, perspectivas de luxos asiáticos, festas divertidíssimas. Sinto-me feliz porque sim. Porque a linha do horizonte existe; porque posso beber água, tendo sede; andar a pé à beira do rio, ou mesmo adormecer agora mesmo nesta cama macia. São tudo coisas perto de mim, no acontecer de cada dia, ao alcance da minha concretização. O importante é reaprender que talvez isso baste para me fazer sentir feliz. Talvez...

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Um passeio singelo

Por vezes os passeios singelos são os mais prazenteiros e não obrigatoriamente os que nos fazem gastar rios de dinheiro, percorrendo centenas de quilómetros para demandar um lugar pretensamente mágico. Obrigado a adiar uma viagem ao Funchal e desmotivado com um pós-concebido plano B, optei por uma terceira via: deixar-me ficar pelas redondezas. Felizmente para mim, moro num lugar cercado por belezas imensas e num curto raio geográfico consigo amainar o espírito com lugares inconcebivelmente aprazíveis. Este fim-de-semana, por exemplo, decidi deixar o carro num dos muitos parques de estacionamento da Fertagus e, coisa que não fazia há muito tempo, fui até Lisboa de comboio. Deixar o meu Corsa sossegado e partir à redescoberta da capital em transportes públicos, ou mesmo a pé, revela-me sempre o «outro lado das coisas» – a observação detalhada de lugares: os becos esconsos, as janelas, as portadas e os arcos; os pombos esvoaçando por cima dos monumentos; as gentes idosas à janela; a roupa colorida nos estendais, tudo pormenores ternos, delícias, que de outro modo me passariam por completo ao lado. Mas, voltando às minhas deambulações, ia eu dizendo... as carruagens do comboio, imaculadamente limpas, estavam quase vazias – era um comboio de silêncios com um ar condicionado tão fresquinho que apetecia! – e foi num ápice que se venceu o trajecto desde a estação inicial até à ponte e depois até Lisboa. A vista do cimo da Ponte 25 de Abril nunca pára de me deslumbrar. Lá em baixo, as águas do Tejo trajavam-se de pequenas cristas brancas e estrelas argênteas que cintilavam diante dos meus olhos, para depois refulgir um pouco por toda a parte. Alguns barcos à vela minúsculos navegavam, uns para montante, outros para juzante, todos ao sabor da mesma brisa terna e suave que eu já havia sentido antes de embarcar. Para os lados de Alcântara, dois navios de cruzeiro azuis e brancos, deixando escapar fuminhos brancos pela chaminé, por entre apitos longos e lúgubres, atracavam no cais de Alcântara sem se importarem com as revoadas de andorinhas que rasavam os conveses. Nos varandins das gigantescas naves, àquela hora de preâmbulo da tarde, não se avistava vivalma, facto que me deixou um pouco intrigado. [É diferente do trivial usar os transportes públicos, em pleno mês de Agosto, numa Lisboa completamente tomada pelos turistas. Esvaziada do bulício habitual dos meses votados ao trabalho e às actividades escolares, a grande cidade mostra-se mais calma e disponível para nos enfeitiçar com os seus encantos. A tarde solarenga e azul ajudou a tornar o passeio ainda mais agradável.] Saí na estação Roma-Areeiro e desci até às galerias do metropolitano na direcção da linha vermelha que conduz ao Parque das Nações. No átrio da estação do metro, deparei-me com novas hordas de turistas, em tudo iguaizinhos aos que já havia observado na gare de chegada do comboio: cabeças loiras, trajando calções tipo safari cor-do-deserto, mochila às costas, pele com vermelhidão acentuada provocada pelas intensidades solares do sul. O inglês era a língua dominante. Por vezes, também se viam alguns espanhóis e italianos.
No Parque das Nações, aos fins-de-semana, na calçada junto ao rio, reinventa-se o «Passeio Público» queirosiano que fez as delícias dos lisboetas no século XIX. São famílias inteiras que por lá passam: mães empurrando carrinhos de bebé, crianças montadas em bicicletas coloridas, pares de namorados, solitários, idosos, todos andando com vagar nos dois sentidos, sob a copa apaziguadora dos pinheiros, com os olhos descansados sobre o rio. Ao longe, navegando na direcção do poente, uma Falua restaurada, convertida em barco excursionista, fazia o encanto dos turistas. Eu também lá estava e caminhava numa das direcções. Que propósito teria em mente?
[Por certo também pertencerei a alguns dos vários esterótipos de pessoas com quem por lá me deparei. Prometo que irei pensar maduramente sobre este assunto.]

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Blue

Sinto-me blue, mais ou menos desta tonalidade. Não sei dizer em concreto o número do pantone, mas creio que se situará algures entre o azul cobalto e o azul ferrete. Dormir, como alternativa, é a panaceia recorrente que me ocorre sempre que se trata de mitigar os blues que pintam os céus do meu mundo. É pois isso mesmo que vou fazer.

Tempo se perde

Os corpos tornam à terra como semente, nutriente das árvores, das plantas, das flores, vivificando os animais para que deles me alimente; é dos corpos, afinal, que eu sorvo os sabores, E se este processo cíclico é assim tão irrevogável, porquê não houvéramos de comer os corpos antes de levedarem na terra esta delonga lamentável?.. ----------------------------------------------------- Proponho este abreviado, ainda que por uns instantes.
(Barreiro 1999)

Eu e vós

Não fordes vós, mulheres, não fordes vós, Todo o enfastioso padecimento, Que dia-a-dia me enferma por dentro, Teria parado de neviscar linhas no meu cós? Não fordes vós, mulherame que me enxameia, Seria o forro da minh'alma nefelibata mais feliz, Tal como outrora o era, quando petiz? Seria eu capaz de me deitar sem vós por ceia? Não fordes vós, mulheres, quem seria eu? Um anuente ao trabalho consagrado, Privado do prazer de vós, desapegado? ---------------------------------------------------- Vós sois a dúlcida maleita que ferventa meu coração. (Não fordes vós luxuriar os meus ocasos, Há muito a luzença teria esmorecido, Pois só vós sois o remédio dúctil conhecido, Para sarar este... e outros casos.) Não fordes vós damas mui queridas, Não fordes vós, da vida, o primaz bendito, Teria o equinócio de Março, porventura, algum sentido, No verdeal pródigo das minhas idas e vindas? Não fordes vós mulheres, que seria da poesia? Um mar raso de água, um sol que não fulge, um céu sem cor, Tão descrente da possibilidade de um neófito amor, Que não pesaria nestas palavras quanto vos oferecia?
(Barreiro 1999)

O paladar das férias

Este fim-de-semana, a convite de uma pessoa amiga, pensei ir até ao Funchal, mas a hipótese gorou-se por motivos alheios à minha vontade. No entanto, aproveitando a anunciada subida da temperatura e as réstias deste Verão sem memória, apraz-me pensar que vou na mesma para fora. "Fugir", ainda que por dois dias, alivia-me como se fora um retempero capaz de amortizar o desgaste constante do fiar dos dias. Alegra-me pensar numa perspectiva a médio prazo: enquanto que quase todos já gozaram as suas merecidas férias, em Dezembro, na segunda quinzena e até final do ano, se tudo correr como prevejo, rumo de novo ao Brasil para retomar a continuação de alguns sonhos que por lá encontrei.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Livros - Tigre de Papel

É raro escrever sobre os livros que leio e nem consigo engendrar uma explicação decente para o facto. Talvez julgue que a escolha das leituras faz parte do percurso íntimo que cada um de nós deve traçar sem que a influência dos «conselhos» dos outros devam em algum momento contrariar as nossas tendências instintivas de leitura. De qualquer modo, julgo que é uma prática salutar aconselhar boas leituras, quer ao nível dos conteúdos quer da riqueza vocabular. Neste momento estou a ler um romance de um conceituado escritor francês, o Tigre de Papel, de Olivier Rolin. Trata-se de um livro que nos conta a vida, que ele próprio partilhou, de todos os jovens maoistas e trotskistas que nos anos sessenta marcaram a ferro e fogo os melhores tempos da sua juventude.
[Não me foi indiferente o facto desta obra ter sido considerada o grande acontecimento literário de 2002 em França e finalista - embora não vencedora - do Prémio Goncourt, quando era apontada como sendo a favorita por grande parte da critica francesa].
A rememoração do Maio de 1968, a França em ebulição, as revoltas estudantis, o clima revolucionário tout court que se vivia - ambiente que de algum modo terá também ele influenciado, ao menos em parte, a coragem libertária e de contestação que fez eco em Portugal e deu origem ao 25 de Abril (muito desmerecida em todos os estudos que têm sido feitos sobre o tema) - leva-nos ao passado, numa viagem por Paris, onde ainda abundavam os Citroen DS; numa época em que não havia internet, telemóveis ou TV por cabo e a televisão era a preto e branco. No Vietnam, jovens imberbes americanos eram chacinados no combate com os comunistas, a China era vermelha para sempre e Che Guevara já começava a ganhar foros de mito.
Alain Delon, o famoso actor francês de filmes série noire, que tanto aprecio, conhece por estas alturas os seus momentos áureos. A leitura deste livro tem-me feito sentir consonante com uma época que sempre me fascinou, talvez por ter antecedido a minha pré-adolescência e alguns rasgos de tudo isto tenham passado por mim, sem que a minha maturidade nascente os tenha podido agarrar.

À conversa com a minha sombra

A minha sombra vai à frente, eu vou de seguida. Sou eu quem está sempre no seu encalce, ainda que por vezes se diga ou pense o contrário. Que quererei eu dizer com isto? - Calei-me perante a minha própria pergunta, pois sei que sou um peregrino que se perdeu da sua própria sombra, mas ficou mais límpido porque ganhou em seriedade. Perdoo finalmente a mim mesmo a pergunta de há pouco - de resto, já a esqueci - pois nem sempre me apetece falar com juízo.

Fátima. Pedimos a sua compreensão.

Num dos vários percursos que faço com regularidade, em torno da cidade que me acolhe durante os dias da semana, dei comigo num final de tarde em Fátima. Por ter gostado deste anúncio sóbrio, pleno de racionalidade, pouco consonante com a mistíca do lugar, retratei-o para a posteridade. Afinal os iluminados escrivãos da Reitoria do Santuário, conseguem descansar o afã dos peregrinos que se acotovelam uns aos outros em filas intermináveis, para queimar os nacos de estearina compostos por velas (algumas com o seu tamanho), pernas, braços, cabeças e simbolos de outras partes do corpo, no tocheiro. Sossegam-nos com a promessa de que ainda que quase todas as oferendas vão para a pira - a vala comum das ofertas de estearina - a promessa fica à mesma cumprida. Podem pois os peregrinos restar tranquilos que a sua imaculada intenção é que conta. O lugar onde a estearina é depositada para ser incinerada pouco importa no que respeita à concretização dos seus merecidos anseios.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Cem mistérios pelas estradas de Sintra

(Palácio dos Milhões - Quinta da Regaleira)
Este fim-de-semana, após uma visita demorada à exposição fotográfica no Museu da Electricidade – World Press Photo 2007 –, quis o destino que continuasse o meu passeio pela estrada marginal que leva a Cascais, uma das estradas mais lindas do mundo, maravilhando o olhar com o azuláceo do mar e a visão das casas afidalgadas dos finais do século dezanove e da primeira década do século passado que bordejam todo o percurso. À entrada do Estoril, mudei o rumo da viagem – os meus passeios nunca obedecem a contingências lógicas que não sejam a soberania das minhas vontades súbitas – e rolei até Sintra. Chegado às portas da vila, consegui estacionar o meu corcel num dos diversos parques dissuasores existentes, decidido a andar a pé ou num dos múltiplos transportes ecológicos que o município colocou à disposição dos visitantes. Sem dúvida que valeu a pena a opção.
Sintra nunca me cansa. É um lugar onde em cada visita descubro novos encantos, odores inebriantes saídos das flores e da vegetação luxuriante, tudo surpresas que, ainda que já as houvesse tido, por certo a mente delas se quis esquecer só para as poder saborear de novo. Desta vez a opção, de entre as múltiplas que por lá existem, foi uma nova visita à Quinta da Regaleira. Trata-se de um lugar com espírito próprio, um conjunto de edificações com origem nos primórdios de Século XX, ao sabor do ideário romântico, nascendo abruptamente no meio da floresta luxuriante, resultado da concretização dos sonhos mitíco-mágicos do seu proprietário, António Augusto Carvalho Monteira – homem detentor de uma fortuna fabulosa que, à época, adquiriu o lugar à Viscondessa da Regaleira – aliados ao talento do arquitecto-cenógrafo italiano Luigi Manini. A imaginação destas duas personalidades invulgares concebeu, por um lado, o somatório revivalista das mais variadas correntes artísticas – com particular destaque para o estilos Gótico, Manuelino e Renascencentista – e, por outro, a glorificação da história nacional influenciada pelas tradições míticas e esotéricas.
A Quinta da Regaleira é um lugar para nos sentirmos. Não basta contar-lhe a memória, a paisagem e os mistérios que encerra. É urgente fechar os olhos, estando no centro daquele lugar, e deixarmo-nos embalar pelo sussurro do vento afagando a copa das árvores centenárias, dos fincos gigantes, e fazer um esforço para destrinçá-lo do trinar aflautado das aves; depois, é tempo de reabrir os olhos e apreciar lá no alto o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena, recortados no azul ferrete do céu de Agosto, como se alguém os tivesse desenhado e não existissem de verdade. De novo de volta ao passeio, por entre a cenografia dos jardins e das suas construções adjacentes, merece a visita ao Palácio dos Milhões, a construção cardinal de todo o complexo, uma verdadeira mansão filosofal de inspiração alquímica, com salas dotadas de uma decoração fabulosa e um estado de conservação vestal que faz corar de inveja outros tesouros nacionais.
Para culminar a visita, há que invocar a aventura dos Cavaleiros Templários, ou os ideais dos mestres da Maçonaria, para descer ao monumental Poço Iniciático por uma imensa escadaria em espiral. E, lá no fundo, com os pés assentes numa estrela de oito pontas, sentirmo-nos como se estivéssemos imersos no ventre da Terra. De seguida, resta atravessar as trevas das grutas labirínticas, até ganhar de novo a luz, reflectida em lagos surpreendentes, e saciar a sede na esplanada do terraço do palácio, com vista para a Serra, demorando sempre o olhar neste engalanado de duendes e fadas que espreitam em cada canto e em cada sussurro das árvores. «Sintra me encanta!», ouvi sair da boca de um “nuestro hermano” enquanto descia até junto do meu corcel cinza prata. Sorri interiormente. A estrada sinuosa até Colares, na direcção da Praia das Maçãs e das Azenhas do Mar, foi conduzida contra a luz de um sol que teimava desmaiar a todo o instante sobre as águas do Atlântico. Depois da ventania que cercou o Cabo da Roca, a ponta mais ocidental da Europa – escreveu Afonso Lopes Vieira, na esteira de Camões, e a lápide o rememora: «Aqui, onde a terra acaba e o mar começa…» –, rumei ao porto seguro da minha casa, onde contava saldar o dia com um jantar frugal, mas acabei por deglutir uma lasagna suculenta, por certo cozinhada com um receituário obtido de segredos maçónicos. Estava, de resto, uma verdadeira delícia, apesar de ainda hoje me pesar no estômago...

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

World Press Photo 2007

O Museu da Electricidade recebe pela primeira vez as exposições das fotos vencedoras do World Press Photo 2007, prémio de prestígio internacional e o 7º Prémio Fotojornalismo VISÃOBES, o maior galardão nacional que distingue o que de melhor se faz em fotografia para imprensa. A exposição é composta por dezenas de imagens que retratam os momentos mais marcantes de 2006. Esta é sem dúvida uma óptima sugestão para o início do fim-de-semana.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

How Addicted to Blogging Are You?

Só peço sinceridade a todos quantos queiram responder:
1) Quantas horas por dia passas na internet?
2) Quantos links para outros blogs tens no teu próprio blog?
3) Já experimentaste estar mais de uma semana sem consultar o teu ou outros blogs?
4) Consideras-te aditivado à internet?
5) Foste sincero por completo nas respostas?
Obs. Este questionário foi completamente ficcionado por mim e não tem nada de cientifíco, porém estou seguro que caso as respostas dadas representem quantidades julgadas acima do tolerável (cada um deverá quantificar essa razoabilidade), tal será uma boa forma de todos nós ganharmos consciência da existência de uma dependência real, que insidiosamente entrou nas nossas vidas e teima em nela se entranhar cada vez mais. O perigo reside tão somente naquilo que abdicamos em prol deste «addicted to blogging» que, acreditem ou não, já tem consultas de especialidade nos EUA.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Richard Clayderman 1999 - ao vivo em Tokyo. Um "Classic Medley"

Richard Clayderman, injustamente apelidado pelos puritanos da música excelsa, onde pugnam nomes como o do Maestro Vitorino de Almeida entre outros, como sendo «um pianista pimba», toca muitissímo bem piano, como já tive oportunidade de constatar numa performance a que assisti no Casino Estoril. O facto de ser um intérprete, não um maestro ou um criador, não lhe retira os méritos.

Natália

És a seiva da mulher inconformada, És a flor esperança que as palavras embelezou, És o chicote altivo da poesia declamada, És muito do que eu queria ser e não sou. Há noites que são feitas nos teus braços, No chão das estrelas que dançam nuas, As varandas de Abril são doces regaços, No reino álgido das palavras cruas. Quando às vezes visto a tua camisa de vento, Suada do fétido libertário da palavra, O eco destemido e forte do teu canto, Diz-me que era eu que um dia te encontrava. Ó Natália, Mátria vera, Botequim do mar, Vejo-te no mastro grande das velas de papiro, Aquela que aos marítimos gritava: Soprem o luar! Não fora a noite dar um último suspiro.
(Barreiro 2005)

Dr. Jekyll versus Mr. Hide

Às vezes, com o timbre do exagero que me é peculiar, comparo a minha vida à saga do herói do famoso conto de horror do escocês, Robert Louis Stevenson - «The strange case of Dr. Jekyll and Mr Hyde» - um estilo de novela gótica que ganhou fama no século dezanove. Ao mesmo tempo que escreveu contos que ficarão para sempre na memória das crianças – e o que mais fortes recordações me trás é sem dúvidas «A Ilha do Tesouro» –, Stevenson conseguiu imortalizar-se na literatura com essa bizarra saga de um médico que cria uma droga poderosíssima capaz de o transformar, a principio por vontade própria e mais tarde involuntariamente, no monstro Mr. Hide.
A minha vida, agarrando nas memórias literárias da minha juventude, padece um pouco dessa dialéctica, se me é permitido hiperbolizar de tal forma as circunstâncias com que há muito a concebo. E a sugestão que este estranho desdobramento me motiva, é a convicção que me assola de que uma personalidade dual existe em potência em cada um de nós. Não se trata de confessar em público que sou esquizofrénico ou que padeço de algum desdobramento sério de personalidade que mereça constar no glossário das valências médicas apropriadas. Que eu saiba isso não é verdade. Apenas aconteceu apetecer-me, sem censura ou quaisquer freios, como é meu timbre e me apraz fazê-lo, comparar as sete horas diárias da minha vida profissional com o apelo que sinto por outro género de actividades que, caso as tomasse como cardinais nas horas do meu dia-a-dia, não conseguiria alcançar sequer o meu preliminar sustento.
Antes de dormir, faço sempre a mesma higiene ritualista: lavo os dentes, faço gargarejos com tantum verde, lavo a cara, ensaboo as orelhas e muitas vezes tomo um segundo banho. De seguida, naturalmente, vejo-me ao espelho. A imagem que ele me devolve é a do Dr. Jekyll (na versão portuguesa – um tal Dr. Madrigal); e deito-me com a sensação de segurança que é com ele que vou dormir. De manhã, quando acordo, quase não me reconheço. Uma máscara de tensão plantou-se na minha cara. Saio para a rua contrariado, passo o dia inteiro com o ensejo de deixar de ser Mr. Hide - o tal jurista de trazer por casa – para voltar ao meu caro sonhador de relentos, Dr. Madrigal. E não vejo a hora de conseguir encontrar o elixir com que consiga suster este desdobramento involuntário, completamente alheio à minha vontade, fora do meu alcance, uma descarada «prostituição de sustento» que, quase todos os dias, me deixa um travo amargo nos lábios.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ayer

Hoje, noite de pergaminhos, Fadário de vácuos sem estrelas, Penso que ainda vives só no teu catre de rendas, Trajada de branco, entre os nardos e os jasmins, E ainda oiço na minha memória o repuxo fresco Do teu jardim japonês e o débil trinar do canário d'oiro, Que ao final da tarde recolhias antes de chegar o frio, Destas memórias que me doem como charcos de agonia, Vejo-te nua numa alva mortalha de silêncios, Onde o meu corpo balsâmico um dia viveu proclamado E passado este tempo, que nem existiu, é tão difícil dizer que te amo… Jorge Rebelo (Barreiro 2007)

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Chris Montez - The More I See You

É, seguramente, a segunda vez que publico este vídeo de Chris Montez - «The more I see you» - mas acontece que assisti recentemente à performance desta música, interpretada pela orquestra do Casino Estoril, e...adorei! As canções bonitas, que nos invadem de alegria e bons sentimentos, são intemporais. Nesse campo, os idos anos sessenta ainda são uma referência mitíca.

Noite nua

Nesta noite sem lua,
Sob o hálito fresco das árvores,
Deito-me ao cantar das cigarras,
E agasalho-me com o orvalho.
Levo a mão à minha boca E busco nela as pégadas dos teus lábios, Enquanto a noite canta despida, Num ar que dói e me fere com elegância. (algures este ano)

Um estremecimento

A vida é esta insolvência Que encoleriza e envelhece E é preciso um ror de paciência Para aturá-la como acontece, Mas clareiras compensam Pinhais de tédio, redondos, Que amiúde me alcançam, Em estertores hediondos, Agarro, então, no meu viver E agito-o assim de repente, Perguntando-lhe se vou fenecer, De tanto viver o presente.
(Barreiro-2004)

Uma analepse na algibeira da vida

Fecho os olhos e ainda te vejo. Como esquecer aquele momento, Em que o teu corpo visitou as minhas entranhas, Tua consciência encontrou a minha essência, Teu suor misturou-se na minha saliva, Meu coração aberto nas tuas mãos... Amor, como esquecer Cada palavra dita, Cada gesto de carinho ardente, Teu olhar fitando o meu, Os teus beijos seduzindo a minha boca, O teu querer dominando o meu ser... Na vida mergulhamos nas emoções, Nos sentimentos, E com eles partimos rumo a grandes empreitadas, E é isso que nos faz sentir gente, Seres de alma e coração. E nada é mais quente que um abraço, Um envolvimento de carícias. Nada é mais profundo que um beijo apaixonado, Nada era tão doce quanto o teu sorriso... Juntos, queremos afundar-nos, Nas águas desse oceano de amor e desejo, Onde cada onda de energia que vejo, É a sublimação dos nossos corpos unidos, É o impulso de artérias numa deliciosa dança. E isso tudo não se pede, apenas flúi, com vontade... Agora, com sono, vou dormir numa nuvem feita de ti, Projectar-me no astral sem fim e, amanhã, Estarei mais rico e pleno de vida. Amanhã serei mais consciência, essência e amor... Até amanhã, até sempre, amor que já foste...
(algures este ano...)

Fala-me de tudo

Fala-me da tua desesperança, dessa fé que emudeceu... O teu coração ensandeceu? Onde está a tua luz de criança? E a música que aos domingos, p'la manhã, pleiteavas? Sim, esses acordes lindos! Dizias-me, com tanto ardor, que o amor tinha vindo para ficar, como um suspiro numa noite de luar, Que eu era o retrato adormecido no fundo dos teus olhos, e só esperavas ter anoitecido, para ter veres livre dos escolhos... Escuta, minha linda, amor, ainda amavas que uma gaivota te levasse o céu de Lisboa em cor? Gostavas que as aves do céu trinassem a nossa despedida, envoltas num imenso véu, feito, justamente, à nossa medida? Sim, amor, sou eu de novo, a insana voz que procura o seu próprio lamento, neste perene e inevitável momento em que tu e eu, para sempre, restamos sós.

(Barreiro - 2004)

Duas Luas

Duas Luas no dia 27 de Agosto. Todo o Mundo está à espera. O Planeta Marte será o mais brilhante no início da noite. Parecerá tão grande quanto a Lua cheia. Isto acontecerá no dia 27 de Agosto quando o planeta Marte ficar a 3.465 mil milhas da Terra. Vejamos o céu no dia 27 de Agosto às 12.30 am. Parecerá que a Terra tem duas luas. A próxima vez que ele ficará tão perto da Terra será em 2287. Ninguém que neste dia observe o fenómeno tornará a vê-lo...

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Os segredos e a vida

Para mim, uma deliciosa ocupação é deixar amadurecer um segredo e sentir o prazer inebriante de saboreá-lo a sós; mas quantas vezes a degustação desse prazer me entristece e me atira para o devaneio. O esquecimento é a melhor cortina de seda que me ocorre diante de um segredo, mas traz sempre consigo a dolorosa responsabilidade de não o poder esquecer. Guardo alguns segredos. Às vezes sinto-me, inclusive, uma espécie de repositório de segredos: uns meus, outros de pessoas que me são, ou, em algum momento, foram chegadas. Não me refiro, naturalmente, à informação que está por detrás das passwords, essa hipérbole actual própria de uma criação de Polichinelos burocratas mais caídos na absoluta desgraça do que noutra coisa qualquer. Nasci com o eclodir da guerra colonial e pertenço à ínclita geração dos iniciados nos primeiros cadernos de caligrafia e amestrados nos alfabetos por ditados, cópias e redacções. Leio páginas de livros melhor do que comandos electrónicos e senti algumas dificuldades em acompanhar o galopante avanço das novíssimas tecnologias. Fui treinado para descobrir sinónimos em dicionários, definições em enciclopédias, ensaios de erudição em almanaques. Sou de um tempo em que todas essas coisas se julgavam ferramentas de sobrevivência para o futuro que pudesse acontecer. E, afinal, descubro-me ensarilhado entre aptidões, que me diziam ser obrigatórias, e este novo mundo de instrumentos visionários, que apenas as histórias de ficção científica me permitiam imaginar. De repente, depois de pequenas e imperceptíveis metamorfoses, encontro-me dentro dessa ficção, na vida real de todos os meus dias. Passa-me pela cabeça o tempo que perdi a decorar tabuadas, nomes de rios, serras, linhas de caminho-de-ferro, declinações e fórmulas químicas. Mal eu sabia que havia de chegar a altura em que tudo isso seria absolutamente desnecessário para a prática comum da civilidade. Hoje em dia quase tudo se resume ao preenchimento de campos informáticos e ao domínio das ditas aplicações, que tendem a estender a sua fervorosa ditadura a todos os campos da actividade humana. O neologismo «info-excluídos» entrou no léxico da competição laboral e quem não dominar com desenvoltura os ficheiros zipados, os scanners, os downloads e toda a panóplia dessas novas ferramentas, resta-lhe deixar-se ultrapassar pela voragem dos mais novos que, sequiosos de vencer e conquistar, vêm em passo de corrida ansiosos por provar que podem destronar os mais velhos das suas ciências rotineiras e caídas em desuso. A minha capacidade para arrecadar passwords está perto de atingir o limite do suportável: é o código do alarme da repartição; são as palavras-chave para ter acesso às diferentes aplicações informáticas; a senha para iniciar o computador no ambiente de trabalho; o código do cofre; a senha para ter acesso ao telefone! Se a isto somarem as senhas que tenho para uso pessoal, desde o Multibanco, ao blog onde escrevo, passando pelas diversas caixas de correio electrónico, verifico facilmente que vivo num mundo de segredos onde se, porventura, me esquecer de alguma das palavras mágicas – os diversos abracadabras que se me colam como sanguessugas indispensáveis – fico ao relento de quase todas as dinâmicas que actualmente compõem as facetas da minha vida. Apetecia-me ensaiar um regresso às origens, no sentido mais enfático da expressão, e tornar a um tempo em que imperava a rotina dos momentos comezinhos. Sinto vontade de me estender numa cama, acompanhado de uma sanduíche de marmelada e um copo de leite com Nesquick, reler todos os livros da Enid Blyton, a começar pelas aventuras dos Sete, e deixar-me de segredos para sempre, que não fossem as maravilhas que esses tempos – que não voltam mais – efabularam a minha mente de preciosidades imensas. Esses, sim, eram os verdadeiros segredos, o néctar da imaginação, que me transportavam até às pontes que conduziam directamente ao sonho e à felicidade. Jorge Rebelo 07.08.2007

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Degas - tempo para ler, tempo para pensar...

Jorge Rebelo
07.08.2007

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Eu sou...

Quando me virem, Bem, não sou eu... Quando me ouvirem, Bem, não sou eu... Quando me lerem, Bem, não sei se sou eu... Quando me sentirem, Bem, confesso que sou eu! Jorge Rebelo
1998 - Barreiro

Um pensamento sem moderação

[Apaguei a lua e deitei-me.]
Fazer pensar é um intuito mediato de qualquer escritor, porque quando se escreve outra coisa não se faz no imediato que não seja pensar em voz alta. Procurar leituras amenas, filmes cor-de-rosa, finais doces e felizes que nos libertam das preocupações, das realizações complexas, desprendidas do temor, mostra a natureza das pessoas que tendem mais para a passividade do sonho, do devaneio, do que para a vida actuante e corajosa. Imaginar também é pensar. Concretizar um pensamento e um desejo é um acto de integralidade e coragem. O problema do amor apresenta-se singularmente a cada ser humano, com a nudez estrutural que nenhum enunciado reveste ou disfarça suficientemente: não pode ser evitado nem pode ser resolvido por mandato. Há, porém, outro estádio, ou outra instância a considerar. Quando pareça resolvido negativamente, seja pela renúncia ou pela sublimação; ou quando pareça resolvido positivamente, pela assunção, o problema do amor reaparece sempre a exigir mais perfeitos termos de satisfação, sossego e tranquilidade. O amor inquieta, perturba, atormenta durante a vida inteira o ser humano que, com tal dor, vai pagando o preço do seu ideal de perfeição. Ninguém se encontra satisfeito com a situação prática por que optou e aqueles que sinceramente se dizem felizes com as consequências da solução que adoptaram, mais não fazem do que proclamar o vencimento da ausência do amor que verdadeiramente desejavam em prol da vitória de uma virtude superior – virtude essa que não lhes basta, apenas os sustenta e confere uma aparência de sentido a algo sem viabilidade de ter sentido algum que não esse. Jorge Rebelo 06.08.2007

Ego sum qui sum

Serei eu, quando me virem, um zombie. Não zombeis de mim, pobre zombie, Que destoa do vaudeville da cousa bela, Urbi et orbi um zombie para a gamela, Do repasto nerval e sôfrego de outra zombie, A dilecta iguaria da sanha dela. Serei eu já névoa espessa rente ao solo, Obscuro e neógamo com a sua ausência, A ferver pelo querubim da sua presença? Zombie inveterado, não importa se me imolo, Na questiúncula de ser zombie malquerença, Agora que regressei da vida ao colo. [Na anáfora azulada do fumo do meu cigarro, o elíptico despojo de um veneno amorfo ascendente, amofinou-me com a bestialidade de figuras tétricas: uma falena, um anacoreta, um halo incandescente, todos subindo sem rebuço no tecto da sala, quase assimétricas.] E no serôdio desta noite sacerdotal e rugida, pensei-me um rouxinol rúbeo que de súbito se calou, farto de agastar a voz para o ronco do eco da vida, gorjeares trinchados por um desnorte que o vento abafou, com o sentido quixotesco de uma soturna vontade de partida. Fiquei quedado com a acumulação de tantas frases loucas, como um prurido que só a mim me atingiu e prosterna, e profano a semântica com esta senda de notas soltas, assumindo de pleno, com frialdade, a sua origem paterna, (Serei eu quem beija, às vezes sem sentir, demasiadas ou poucas ...) Jorge Rebelo Barreiro 1998 - Poesia alternativa

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Festival dos Oceanos

Festival dos Oceanos 28 Julho a 12 de Agosto O Festival dos Oceanos, promovido pelo Turismo de Lisboa, anima a zona ribeirinha da capital com uma programação intensa: um desfile histórico de fatos-de-banho, ateliês de areia, esculturas de gelo, marionetas voadoras, muita música, dança e teatro preenchem a agenda da iniciativa, presente no Parque das Nações, centro histórico de Lisboa e Belém. A abrir o festival, o desfile Ocean Parade percorre a cidade. Também previstas estão a exposição Ciclo da Água - baseada no espólio do célebre oceanógrafo Jacques Cousteau - e uma conferência com participação de especialistas da National Geographic. A fechar, um espectáculo pirotécnico e a construção da maior onda humana do mundo (com cerca de 10 mil pessoas esperadas).
(E eu que não tinha programa para este fim-de-semana!)
Jorge Rebelo
03-08-2007