terça-feira, 29 de agosto de 2017

Naquele Cais



Naquele Cais...

Morri de tanto esperar...
Onde marcaste o encontro, do nosso desencontro!

Sentada naquele banco frio
Olhando para o vazio
Vejo-te em tudo o que passa
Mas quem passa não és tu!

Porque me deixaste só?

Neste silêncio que gela
No meio de tanta gente
Só tenho por companhia
As imagens que eu queria
Da tua presença ... ausente!

De coração apertado 
E com um nó na garganta
As lágrimas molham-me o rosto
Levanto-me do banco frio
Retiro o olhar do vazio
E parto para o lado oposto

E agora sem destino
Vou por aí, não vencida
Meio perdida, por ti esquecida
Continuarei a procurar-te
Um dia hei- de encontrar-te
Em qualquer um Cais... da vida!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Cai o pano

É com uma certa mágoa que abandono a escrita no Madrigal, mas as circunstâncias não me deixaram outra alternativa. Nunca gostei do nome do blogue. Sempre o achei pretensioso e evocativo de alguém que em tempos se julgou capaz de ser poeta. No entanto, com o rodar dos anos,  fui-me habituando a ele, como se fosse uma segunda pele, um espaço mimoso, um jornal, o meu diário possível de ser partilhado, a minha catarse. Sempre cultivei outros espaços de escrita, anónimos, com outras temáticas, mas nunca com impressões tão pessoais. Com este, já é o terceiro blogue que abandono no espaço cibernético, para que fiquem quietos, apenas pairando, como testemunhos silentes dos textos que neles publiquei - pelo menos enquanto o blogger não os erradicar.  É muito esquisito e triste escrever um post de despedida, mas a minha partida é, neste caso, plena de reticências, uma vez que não tenciono abandonar uma coisa que há muito faz parte de mim: a escrita. Saio apenas do Madrigal, discreta e calmamente, neste dia  timidamente ensolarado onde as sombras se infiltram pelas brechas da minha alma, e o melhor caminho é sentar-me no chão e absorver o ar envolvente. Vou ali como quem vai até ao jardim ver se o orvalho já secou nas pétalas das flores, e quando voltar já será com certeza noutro lugar... 

A todos os que aqui algum dia me leram -  a grande maioria pessoas cujas vidas ignoro em absoluto - deixo o meu muito obrigado e um abraço fraterno.

Jorge

domingo, 16 de janeiro de 2011

Uma vida a correr...

Ocupamos de tal maneira o tempo que passamos na vida, que ficamos com a sensação de que ele não chega para nada. Nunca temos tempo suficiente para fazer tudo aquilo que queremos. No entanto, quando ousamos parar um pouco, talvez, no fundo de nós, algo nos pergunte: Para quê esta pressa, esta necessidade de fazer tantas coisas? O que é que, afinal, isso me traz de importante?; e, sobretudo, onde é que acaba por  me levar? Uma das grandes preocupações do nosso "estilo de vida moderno" é não perder tempo. Aproveitar ao máximo todos os minutos. Chegar a tempo, ganhar tempo, mesmo sem saber de quê nem para quê. Quando não havia electricidade, aquilo que fazíamos era mais comandado pela luz do sol do que por outras pressões exteriores ou obrigações a cumprir - embora muitas das criações mais geniais da literatura universal tenham sido escritas à luz de candelabros de velas ou de lamparinas de azeite. Mas é um facto que o dia era mais vivido enquanto tal, e a noite mais sentida como noite. E o facto de cada um desses tempos opostos e complementares nos permitir descansar do outro trazia-nos um certo equilíbrio. 

O computador veio tornar possível elaborar muitos mais textos do que quando usava a máquina de escrever,  ou a caneta. E esta máquina fabulosa, quando ligada à Internet, pode dispensar-me de qualquer contacto real com os destinatários dos meus textos. Hoje em dia, com a automação de muitas tarefas e o facilitismo que era suposto elas nos proporcionarem, em vez de ganharmos tempo para o lazer, o ócio, passamos o dia, a semana, o tempo todo a acelerar, a produzir. Em vez de desfrutar da vida, que é só uma, irrepetível, com termo incerto, consumimo-la. Acontece que o tempo não se perde nem se ganha, ele simplesmente passa e a única coisa que nos convida é que o aproveitemos, não no sentido de fazer o maior número de coisas possíveis, mas no de o gozar. O respirar. O viver. O deleitarmo-nos preguiçosamente e com detalhe numa actividade, fica muitas vezes prejudicado pelo afã de fazer muita coisa. E às vezes esta necessidade frenética de nos mantermos sempre ocupados, mais não é do que uma forma sub-consciente de anestesiarmos pensamentos, infelicidades, ausências, e/ou colmatarmos carências de outra ordem. O melhor que temos a fazer é aproveitarmos para dar um novo rumo à nossa vida, esquecendo que ela é finita, e concebendo os nossos sonhos como concretizações ainda capazes de ter lugar na réstia do tempo. Mas para tal é necessário apelar à coragem, à incomodidade, pois sem estes atributos a funcionarem em pleno não conseguimos mudar seja o que for.

"How To Break Up" Tales Of Mere Existence

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Madrigal em Quarentena

Aldeia do Piódão - Novembro de 2010
Fiquei curioso como uma simples frase, escrita por um pensador romano há mais de mil anos, possa ter gerado tanta polémica. Talvez o sentido actualissímo da questão - a eterna questiúncula entre optar por ter uma reacção maior do que a provocação ou, pelo contrário, mostrar superioridade através da imperturbabilidade - tenha atiçado as nossas mentes. Mas de facto é algo que não deixa de ser verdadeiro e que nos acompanha na maioria das interacções que estabelecemos no quotidiano, seja no local de trabalho, na escola, no hospital, na universidade ou, inclusive, num mero espaço de lazer entre amigos. São demasiadas as mulheres que se queixam amiúde do avanço da idade, porque que lhes rouba a beleza, porque lhes trás rugas, peles moles, porque faz com que se sintam menos atraentes aos olhos do sexo oposto. Os divãs dos psicanalistas enchem-se de musas e de homens, incapazes de lidar com a voragem do tempo, frustres,  sem conseguir tirar partido daquilo que a meia-idade tem de melhor: o ganho em capital de experiência, a possibilidade, única, de conseguirem, finalmente, fazer sínteses e súmulas da vida; a previsibilidade das coisas; e, sobretudo, o domínio do saber-mor da ciência: o conhecimento da causa-efeito, para prevenir, para não descuidar, para não sofrer. Desperdiçamos grande parte da nossa energia com coisas que pertencem ao passado ou investindo tudo no futuro. Entretanto, o único tempo real que existe é o presente, apesar de fugaz, imparável, incapaz de ser sustido, como uma lufada de vento numa  destas manhãs enevoadas. Mas aquilo que se está a passar no preciso instante em que aqui estamos - o agora - é o que mais importa; e é apreciando-o bem que vamos podendo estar contentes com o que somos e temos. Ou seja, felizes na medida do possível. Bem-estar interior é um passo em frente no caminho da mudança para melhor, então porquê levar uma vida carregada de azedumes, exponenciando cóleras, reagindo a atitudes primatas de comparsas que o que esperam de nós é a desorientação para, com mais sucesso, nos atingirem, logo que exponhamos o flanco?

Muito mais do que um mero gesto de cortesia que, desde pequenos, nos é apresentado como fazendo parte da "boa educação", agradecer aquilo que a vida nos dá torna mais fluída a energia que existe no interior de nós mesmos. E esse sentimento de apreciação grata, relativamente aos benefícios recebidos, é uma expressão da alma. Por mim falo. A cólera aumenta os níveis de colesterol, dilata a possibilidade de se vir a padecer de um acidente vascular cerebral, ou de um enfarte do miocárdio. O inevitável, mais do que tudo, é uma verdade semântica; então para quê consumirmos as nossas preciosas energias com seres medíocres que outra coisa não pretendem senão despoletar-nos uma reacção: o estímulo (provocação) - resposta (cólera). Porque não contrariar o efeito (por eles) desejado e deixar que um sorriso daviniano anoiteça no nosso semblante? Eu não quero a guerra, muito menos se estiver instalada dentro de mim. E há sempre muito a fazer para evitar ou amortizar um conflito. Afinal o que mais importa é a forma como nós nos vemos, não as considerações que os outros tecem sobre nós. Se a nossa estima estiver bem cuidada, com uma roupa bem engomadinha, uns sapatinhos a condizer, ou um perfume delirante, tudo é mais suportável. E no dia em que as coisas não forem assim, é sinal que está na hora de mudar, nem que para isso seja preciso pedir ajuda. Agora vamos todos ver uns landscapes. Vá, fechem os olhos, façam uma forçazinha! 

Por uns tempos, cai o pano sobre o Madrigal. O blogue entrou logo no inicio deste ano em quarentena.
 

domingo, 2 de janeiro de 2011

Minutos antes...

Aveiro - 1 de Janeiro 2011 - minutos antes de me atirar à água...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Burt Bacharach - Raindrops Keep Falling On My Head

O mar fala de ti

Marrocos ao longe - Setembro de 2010

 O mar fala de ti - Por Mafalda Arnauth


 




Eu nasci nalgum lugar
donde se avista o mar
tecendo o horizonte
E ouvindo o mar gemer
Nasci como a água a correr
da fonte

E eu vivi noutro lugar
onde se escuta o mar
batendo contra o cais
Mas vivi, não sei porquê
como um barco à mercê
dos temporais.

Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
que te levei ao mar quando te vi
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
quem dele se perdeu
assim que te perdi.

Vou morrer nalgum lugar
de onde possa avistar
a onda que me tente
a morrer livre e sem pressa
como um rio que regressa
à nascente.

Talvez ali seja o lugar
onde eu possa afirmar
que me fiz mais humano
quando, por perder o pé,
senti que a alma é
um oceano.

Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
que te levei ao mar quando te vi
Eu sei que o mar não me escolheu
Eu sei que o mar fala de ti
Mas ele sabe que fui eu
quem dele se perdeu
assim que te perdi.

Letra de Tiago Torres da Silva e música de Ernesto Leite

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Deixem-me dormir!

Oiço muita gente comentar que vai passar o Réveillon aqui e acolá, em casinos, em hotéis, em discotecas, em danceterias, ou em casa de amigos. Também já escutei algumas pessoas dizendo que vão celebrar o fim-de-ano de forma 'originalíssima': batendo em tachos e panelas à janela, em uníssono com os vizinhos da frente, para que ninguém fique imune à sua esfuziante alegria - fazem-me lembrar aquela celebérrima questão do Juca Chaves: 'A hiena é um animal que, além dos seus próprios excrementos, come carne morta; e ri do quê?'. Ainda não escutei ninguém dizer que planeia passar a noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, da forma serena que para mim mesmo planeei: na cama, aconchegado no calor do edredão de penas e, se possível, acompanhado de um bom livro. O Réveillon é um evento que acontece quando uma cultura celebra o fim de um ano e o começo do próximo. E todas as culturas que têm calendários anuais celebram o "Ano-Novo". Réveillon é um termo oriundo do verbo francês réveiller, que em português significa "despertar". Ora, a mim o que mais me chateia é que alguns foliões possam  efectivamente despertar o meu sono e eu nada possa fazer, já que parece existir uma cláusula de salvaguarda consuetudinária, com respeito à Lei do Ruído, que, nesta data, os absolve do pagamento de coimas. Mas, afinal, vão celebrar o quê? As diabólicas medidas de austeridade, o desemprego e empobrecimento assustador para a população que daí advém? Deixem-me, sim, dormir em paz e sonhar com um novo ano onde nada disso vá acontecer. Essa é a minha grande fantasia para essa friorenta noite que se avizinha.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

As máquinas com este frio não se querem paradas

Este fim-de-semana, apesar do frio intenso que se tem feito sentir, decidi, mais não fosse para não deixar descarregar a bateria, uma vez que há mais de duas semanas que não punha a mota a trabalhar, dar um giro pelas redondezas;  mas o pior dos meus temores concretizou-se: chegado à garagem, já todo equipado para sair, a bichinha não pegou. Como não é viável empurrar uma mota com mais de 220 kgs até à oficina, e percebendo eu népia de carregadores de baterias, tudo para mim coisas esotéricas,  lá tive de chamar uma furgoneta especial para a transportar para o representante da marca. 

Especialistas que são na venda e reparação de motas multi-marcas, e também na  prática de preços exorbitantes, do representante, já me foram avisando por telefone: 'Olhe, dr., pode não ser só da bateria... pode ser uma avaria na parte eléctrica, na peça *****, mas uma bateria nova vai ter de levar com toda a certeza; e também uma ficha para manter a bateria ligada ao carregador sempre que passe algum tempo sem  a colocar a trabalhar. As máquinas com este frio não se querem paradas! Quando soubermos alguma coisa de concreto ligamos-lhe'. 

Esta conversa teve lugar na segunda-feira ao fim do dia e até hoje nunca mais me deram noticias sobre o estado de saúde da mota. Os pessimistas por (de)formação, como julgo ser o meu caso, estão quase sempre mais próximos da verdade do que os optimistas crónicos, por isso não imagino que outra coisa possa estar a acontecer que não seja estar a dita empresa a preparar-se para adicionar, na folha-de-obra que eu assinei, uma conta choruda de euros. 

Há quem tenha como passatempo a caça, a pesca, o jogo, a bebida, ou  o futebol.  Uns hobbies são mais caros ou mais nefastos para a saúde do que outros,  mas todos são entretenimentos legítimos de quem trabalha para os poder manter. E apesar das máquinas com este frio não se quererem paradas, com os tempos negros que se avizinham, em caso de necessidade, não tenho quaisquer dúvidas sobre onde começarei por abdicar.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O livro de cabeceira (para manusear com a ponta dos dedos)

Sinopse:

"Numa manhã de 1945, um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, A Sombra do Vento (2004) é sobretudo uma trágica história de amor cujo eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página". *

Publicações D. Quixote


* Já liguei o aquecimento no quarto-de-dormir, coloquei um segundo cobertor sobre o edredão, e  vou tentar enganar este frio horrível, mantendo-me todo enrolado, somente com alguns dedos da mão direita de fora - que espero seja suficiente para conseguir passar as folhas do livro sem ter de as soprar, ou ainda mais frio iria sentir. Esta noite, deito-me com as galinhas e na companhia do romance do catalão Carlos Ruiz Zafón. Amanhã, ao acordar, logo vejo se sonhei que me aventurava sozinho pelas Ramblas ao anoitecer.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Saldanha Sanches - figura do ano 2010

A Mizé e o seu Zé Luís
Fiquei naturalmente contente de saber que o meu antigo Professor de Finanças Públicas,  o carismático  José Saldanha Sanches, marido de Maria José Morgado, recentemente falecido, vai ser nomeado figura do ano 2010. Acho que a escolha não poderia ter sido melhor, pois faz jus a uma vida inteira dedicada ao ensino e ao combate pelas desigualdades sociais, qualidades que fizeram dele um paladino da justiça, admirado por todos os quadrantes políticos e sociais. Nunca esquecerei o Professor Saldanha Sanches, nem as suas famosas  prelecções no Anfiteatro I da FDL, com a sua dicção difícil e o olhar entabuado por uma  miopia residente, que não chegavam para esconder a face de um homem bom e inteligente, com uma frontalidade ímpar. Só com gente da estirpe de Saldanha Sanches será possível construir um país mais justo e não tanto com a casta hoje dominante. Por último, transcrevo aqui o testemunho sentido da sua mulher, que o acompanhou nas suas últimas horas.



Zé Luís: começámos esta tua última viagem (tu gostavas de viagens) na cama 56 dos serviços de cirurgia 1 do Hospital de Santa Maria. Lia-te poesia e um dia parámos neste poema da Sophia de Mello Breyner:

“Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A Força dos teus sonhos é tão forte,
Que tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”.

Assim foi.

No teu visionário e intenso mundo, a voracidade de um cancro traiçoeiro não te consumiu a alegria, a coragem, a liberdade. Entraste pela morte dentro de olhos abertos. O mundo que habitavas era rico de ideias, de sonhos, de projectos, de honradez e carinho. Percebemos o que ia acontecer quando no fundo do teu olhar sorridente brilhava uma estrela de tristeza. Quando te deixava ao fim do dia na cama 56 e te trazia no coração enquanto descia a Alameda da Cidade Universitária a respirar o teu ar da Universidade, das aulas e dos alunos que adoravas, do futuro em que acreditavas sempre.

Foste intolerável com a corrupção, com os cobardes e oportunistas. Não suportavas facilidades. Resististe à sordidez, à subserviência, à canalhice disfarçada de respeitabilidade e morreste como sempre viveste – livre.

Uma palavra para aqueles que te acompanharam nesta última viagem: para os melhores médicos do mundo, para as melhores equipas de enfermagem e de apoio, num exemplo de inexcedível dedicação ao serviço médico público. Vivi com emoção diária o carinho com que te cuidaram. Uma palavra de gratidão sentida para o Professor Luís Costa e para o Paulo Costa. E para um velho amigo de sempre o Miguel. Também para Laura e para o Jorge e para a minha mãe e toda a família que nunca te deixou. Por fim uma palavra para aqueles amigos que inventaram uma barricada contra a morte no serviço de cirurgia 1, cama 56, e te ajudaram a escrever, a pensar, a continuar a trabalhar: o João Gama, o João Pereira e senhor Albuquerque, cada um à sua maneira.

Suspiraste nos meus braços pela última vez cerca da 1,15 da madrugada do dia 14 de Maio. Vai faltar-me a tua mão a agarrar na minha enquanto passeávamos e conversávamos. Provavelmente uma saudade ridícula, perante a força do exemplo e da obra que nos deixaste e me foi trazido por todos aqueles que te homenagearam – a quem deixo a tua eterna gratidão.

Tenham a coragem de continuar.

16.05.2010 - Maria José Morgado

A apologia dos livros, num Natal à lareira


Eu sou um bibliófilo assumido e um leitor compulsivo. Adoro livros, tenho que ler quase todos os dias e tenho uma biblioteca grande que aumenta sempre e sempre. Acho a maior tristeza ver uma casa sem livros. Não posso falar simplesmente do meu gosto pela leitura, porque em matéria de livros o meu caso é muito mais grave: é um amor que vem desde a infância, que me tem acompanhado a vida inteira e é incurável. Não se trata, portanto, de um interesse periférico, e o prazer que me tem proporcionado faz com que eu procure, permanentemente, levar mais pessoas a também desfrutá-lo. Daí eu aproveitar qualquer oportunidade para inocular o vírus do amor ao livro em todos os possíveis leitores.

O prazer que um livro pode proporcionar tem múltiplos aspectos e abre horizontes ilimitados, no entanto ainda é mais fácil promover a leitura na infância do que na juventude ou na idade adulta, uma vez que a televisão e a Internet absorveram a maior parte do tempo vago das pessoas. Isso é uma pena, pois a concentração provocada pela leitura, desperta muito mais a imaginação e a criatividade do que a imagem fugaz de um ecrán ou as informações facilitadoras da web. O que quero dizer é que tanto a televisão como a Internet têm o inconveniente de vir como pratos feitos, não exigindo criação, reflexão ou análise, ao passo que um livro pode desencadear um processo mental bem menos efémero, indo muito além de ser um instrumento essencial de informação.

Se o livro, antes da televisão e do computador, atingia um número limitado de pessoas, o facto é bem mais preocupante nos nossos dias, mas um esforço em favor da leitura ainda pode dar bons frutos. O livro transmite pensamentos, traduz emoções, estimula a imaginação e o sonho, permite que as nossas vivências quotidianas se transformem num mundo cheio de encantos e seduções, dando à vida um sentido intelectual e espiritual de inestimável valor. O romance, a poesia, o drama e a comédia, permitem ao leitor identificar-se com personagens ideais, amparar as suas angústias e inquietações. Poder-se-ia dizer que tudo isso também pode ser proporcionado pela televisão, mas a imagem dos modernos meios de comunicação é fugidia, ao passo que o livro, companheiro de todas as horas, tem uma facilidade de acesso e de uso insuperáveis. Reconheço que o perigo da obsessão existe e deve ser combatido, mas os livros e os outros meios de comunicação não são, necessariamente, excludentes e o prazer da leitura deveria ser proclamado por todos os meios e modos, especialmente pelos media, que com isso pagariam boa parte de seus pecados.

A minha experiência em matéria de leitura, começou cedo. O que não consegui, nem quis, foi estabelecer uma leitura metódica, com objectivos determinados. Fui sempre um leitor indisciplinado, achando que o livro foi feito para nós e não nós para o livro. Portanto, sempre me bastou, para ler uma obra, que ela me interessasse, sem me preocupar se era importante ou não. Com isso, perdi certamente muito tempo lendo coisas de que nem sequer me lembro, mas não lamento pois na hora, provavelmente, senti prazer e consolidei o hábito da leitura. Nunca consegui acompanhar a opinião de Thomas Mann, de que a leitura dos bons livros deveria ser proibida, porque existem os óptimos. Em primeiro lugar porque o conceito de óptimo é muito relativo, e depois porque há muitas outras razões para se ler um livro, além da sua qualidade literária intrínseca. É claro que há limites que não se consegue transpor. O principal é o tempo. Por mais que se leia, não se consegue ler tudo e uma certa selectividade se impõe. Mas cada um deve fazer as suas próprias escolhas, procurando não se ater a critérios rígidos, nem se considerar culpado por ocasionais desvios, passando de Flaubert a Astérix ou de Shakespeare a Stephen King. O mundo da leitura deve ser um mundo de liberdade intelectual. E este Natal, invariavelmente, as minhas prendas incluíram livros. Livros ao gosto de quem os lê.

Kenny G - "The Shadow of your Smile"

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Até parecia mal deixar passar o evento

Memórias do Rio de Janeiro

Morro do Pão de Açúcar - vista do alto
Arranha-céus na Avenida Rio Branco
 Rio de Janeiro, onde a opulência convive com a miséria

Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil.
Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n’alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente.

"Cidade Maravilhosa " André Filho 1934

Cristo Redentor - as favelas nos morros

Foi na década de 60 do século passado, os afamados anos dourados, que nasceu a Bossa Nova. Os cariocas conviviam o dia-dia nas areias de Copacabana com o grupo que a originou: Menescal, Boscoli, Carlos Lira, João Gilberto, Nara Leão, que, por sua vez, se cruzavam nos bares de Ipanema com Vinicius de Morais e Tom Jobim. De tantas mulheres bonitas, a Garota de Ipanema foi apenas um símbolo para todas as demais. Nessa época, ainda se andava por todo lado sem risco algum. Ir aos ensaios das escolas de samba era uma rotina comum, tanto que não houve um personagem vip sequer que não tenha sambado na Mangueira. O Rio continua lindo, mas, infelizmente, só na sua plástica. Pela falta de novos talentos esvai-se a memória e o único remanescente desta época mágica e assíduo frequentador da orla da praia, é a estátua de Carlos Drumonnd de Andrade, lamentavelmente acompanhado de uma “vaca mimosa”. Quando o Rio era cantado em verso e prosa, a sua beleza não se limitava tão somente à sua natureza, mas sim à  irreverência de um povo romântico, alegre, bonacheirão e também bonito, o que o diferenciava de todo o resto do país. Hoje o Rio de Janeiro é: baile funky, favelas, tiros, bandidos, PMs, ambulantes, prostitutas, gringos, drogados e tarjas pretas vendidos sem receita médica. Os cenários típicos são: bares, terreiros de umbanda e botecos. Assim, vê-se de tudo um pouco. 
 Morro do Pão de Açúcar - visto da Praia Vermelha
As saudades do Verão já apertam e em Fevereiro próximo, se Deus quiser, vou de novo cometer a proeza de gozar duas épocas estivais num único ano. Não falta muito até que possa de novo saborear águas tão quentes que não provocam choque térmico quando se sai da areia e se mergulha no mar. Não falta muito para sorver pelo canudinho águas de côco geladinhas, numa esplanada do Calçadão de Copacabana. Não falta muito para comer churrasquinhos no centro da cidade, acompanhados de sucos de manga-laranja geladinhos; e, de seguida, viajar no Bonde de Santa Teresa, com passagem no viaduto da pitoresca zona da Lapa - lugar de jazz e boémia infinita. Não falta muito para revisitar a 'Rua dos Sebos', à cata de  boa literatura em segunda mão - da última vez que estive no Rio trouxe um malão carregado de livros a cheirar a bolor. Não falta muito para vaguear pela Rua da Alfândega - o maior mercado ao ar livre do Rio de Janeiro - com o olho preparado para encontrar coisas 'boas e baratas'. Não falta muito para ir cuscar o cartaz do Canecão para ver os artistas que estão anunciados. Não falta muito para ver as folias carnavalescas e os Blocos de Carnaval desfilarem pelas ruas da cidade. Não falta muito para ver os barbeiros de rua a trabalhar com afinco as carapinhas dos mulatos que querem ir todos jóia para o baile funky da Mineira. Não falta muito para ver os bicheiros - o Jogo do Bicho é uma lotaria ilegal que prolifera por todo o Brasil - com banca em tudo o que é ruela da cidade à espera de clientes. Não falta muito para  tornar a viajar nas Volkswagen Kombi, de cor branca, com os seus irresistíveis faróis de halogeno, ornados por  longas pestanas (localmente apelidadas Kombies, são os transportes populares alternativos das cidades brasileiras).  Não falta muito para voltar a tomar atenção especial na forma como me visto, e como  transporto o dinheiro, sempre que me desloco pelas ruas do Rio de Janeiro - quanto mais discreto for o aspecto, sem quaisquer manifestações de riqueza, maiores são as hipóteses de não ser abordado por um bandido. Não falta muito para ser de novo confrontado com um país onde quase nada é levado a sério e em que todas as práticas sociais mais parecem um 'never ending carnival'. Não falta muito para tornar a assistir aos frequentes apagões da luz eléctrica e a cortes nas linhas telefónicas, que deixam zonas residenciais inteiras às escuras, sem telefone ou Internet. Não falta muito para que, logo que a noite cai, veja exércitos de sem-abrigo acampados debaixo de tudo o que é ponte ou viaduto. Não falta muito para ver de novo pessoas a revirar caixotes do lixo, na mira de encontrarem algo que aplaque a fome que as consome. Não falta muito para tornar a assistir ao espectáculo trágico-cómico das favelas, que estão descendo dos morros para infectarem com miséria, e altíssimas taxas de criminalidade, a parte baixa da cidade, habitada pela quase insignificante classe média. Não falta muito para rever o espectáculo de son et lumiére das balas tracejantes, trocadas entre os morros, rasgando o céu nocturno de uma cidade onde tudo é 'normal'. 
Copacabana em dia enevoado
Um artigo popular na Rua da Alfândega

Uma lanchonete popular
A preocupação com o tráfico de aves por partes dos 'gringos'
O silêncio da indiferença - Avenida Rio Branco
Podemos apaixonar-nos pelo Rio de Janeiro, mas nunca temos noção da real dimensão da cidade.  É preciso passar lá grandes temporadas para que essa percepção ganhe contornos parecidos com a realidade. O Rio ainda é uma fábrica de modismos em muitos aspectos - sobretudo os que podem ser divulgados pela  TV, em novelas que quase sempre se passam por lá. O carioca, esse ser variado, continua a ser visto pelo resto do país como referência - seja como exemplo de modernidade, seja como um idiota envaidecido. Com a transferência da capital para Brasília em 1960, o Rio perdeu parte  da sua vida política, mas continua a ser a vitrina do Brasil. Na verdade, não sei bem qual é a perspectiva que pessoas de outros países têm do Rio, além dos clichés básicos sobre a beleza da cidade e a violência causada pelo tráfico. Mas o Rio também é a generosidade e o bem receber das suas gentes, o charme dos seus morros em forma de cone, o mar e a fama que tem de possuir as mais belas mulheres do mundo. É, podem crer,  uma mescla muito difícil de digerir.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Divulgação aos escreventes

Uma nova  revista semestral para 2011, que publica contos seleccionados. Quem queira por à prova o seu talento como contista, e sujeitar-se ao escrutínio dos editores da revista, quem sabe não verá o seu conto publicado.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Algumas considerações de final de ano

§ O Natal aproxima-se tão rapidamente que até assusta. A pobreza das decorações e das iluminações nas ruas, dantes tão mimosas por esta altura do ano, fruto dos cortes substanciais nos orçamentos das autarquias locais, faz temer o pior. A Aldeia de Natal da cidade de Leiria parece a caricatura da realizada no ano passado. Daqui a pouco estamos no fim do ano e esperam-nos novas más notícias para os tempos que se avizinham. O governo, entretanto, perdeu o pudor que até agora tinha mantido e já vai anunciando que não descura a hipótese de ter de recorrer a novas medidas de austeridade. É por todos sabido que a pertença à UE implica grandes cedências de soberania por parte dos estados aderentes, pelo que muita da legislação nacional é fruto de decisões tomadas a um nível supra nacional. Por isso, não resta muita margem de manobra aos governos nacionais que, independentemente da sua família política, têm de acatar sem reservas o que for decidido a nível europeu. Estaremos nós preparados para o embate que se avizinha? Isso depende da dureza das novas medidas que estão para vir. Ao que parece, dando crédito aos rumores que circulam na imprensa, o aumento da flexibilização laboral é uma das áreas onde vão acontecer medidas legislativas substanciais. Curiosamente, os media internacionais têm veiculado muitas notícias sobre o que vai acontecer em Portugal, notícias essas que têm sido rapidamente desmentidas pelo nosso governo, mas que se vem a apurar mais tarde corresponderem à verdade. O nosso governo, como sempre, em nome do não alarmismo social, tem preferido dar as más notícias a conta gotas, e de preferência numa posição de facto consumado. É, no fundo, não mais do que a expressão daquele estilo rasteiro, manhoso e filibusteiro, a que o socratismo nos tem vindo a habituar.

§ Tem estado tanto frio e chuva que nem tenho tido coragem para sair de mota. Apesar de possuir equipamento para as intempéries, onde se inclui uma parafernália de acessórios tais como: camisolas térmicas, impermeáveis, passa-montanhas, luvas e botas Gore Tex, entre outros, não sou um motard fundamentalista - como muitos que conheço -, nem tão pouco abomino os automóveis. Passear de mota tem de ser uma coisa prazenteira e acho que as temperaturas têm estado demasiado baixas para que se possa extrair algum gozo disso. Conheço motociclistas que, a menos que tenham de transportar a família, por sistema não utilizam o automóvel. Para eles o carro tornou-se um segundo veículo, um transporte de recurso, que só utilizam quando a mota é completamente inepta para o efeito. Estes hard motards - um fenómeno recorrente entre os adeptos ferrenhos de actividades desportivas ou de outra índole - só consideram verdadeiros motociclistas aqueles que, sejam quais forem as condições atmosféricas, se deslocam sempre de mota. Aos restantes apelidam-nos de motards ocasionais, como se fossem seres incompletos ou indignos de pertencer à sua tribo. E são estas as coisas que nos federalismos, associativismos, e outros ismos, mais me chateiam. Porque raio teria eu de ter prazer em deslocar-me de mota, em pleno período invernal, sob nevões intensos, à concentração motard "Os Pinguins", em Valladolid? Ou acampar durante o Inverno, no sopé da Serra da Estrela, com temperaturas negativas? Definitivamente, não encaro os passeios de mota como actividades radicais. Gosto de viajar em segurança, sem excessos de velocidade, apreciando a paisagem e, sobretudo, que o piso em que me desloco, em duas rodas, esteja seguro, e não sob uma camada de gelo, que é trambolhão pela certa. Vaya con Dios à Valladolid, motoqueros radicales! Jo me quedo en casa (dito assim em portunhol para ver se melhor me entendem!)

§ Neste ano, quase a findar, ou porque me deixo dormir mais cedo, ou porque esqueço os óculos no escritório ou na sala, ou porque a voragem de ler anda mais aplacada, li poucos livros, comparativamente a períodos anteriores da minha vida em que consumia uma média de dois/três livros por semana. A sede de cultura livresca não se apodera de mim como outrora, e já não padeço do medo de morrer sem ter lido todos os livros que gostaria. Há definitivamente outras coisas agradáveis para fazer na vida para além da escrita e da leitura. Não muitas mais, mas que as há, há - parafraseando o final da famosa frase galega acerca da crença em bruxas. Viajar muito, caso a saúde e a economia o permitam, está entre os meus planos de vida; e no viajar estão inclusas muitas actividades, tais como a fotografia, as visitas a museus, as exposições de pintura, o arejamento do inglês e do francês, as culinárias surpreendentes, ou tão só o deleite da partilha dos seus costumes com a gente local. Ler é sempre um "ver a vida através dos olhos de outrem." Não há nada que substitua o sensorial, nem nenhuma actividade intelectual abstracta - no caso, a leitura - que se possa comparar à vivência pessoal de um acontecimento. Por mais livros que eu pudesse ter lido sobre Auschwitz-Birkenau, e não foram tão poucos assim, nada se compara à visita in loco que fiz o ano passado a esse lugar mítico, hoje o maior memorial ao Holocausto. Ler é uma forma económica de viajar, mas também um gozo intelectual tremendo e uma fonte inesgotável de conhecimento, e não fora as muitas leituras sobre o fenómeno dos Lager - Campos de Concentração Nazis -, nunca teria conseguido interpretar tão bem a visita que fiz ao antigo campo de extermínio. Neste caso as duas coisas completaram-se maravilhosamente, como a narrativa e a ilustração.

§ Mas, ainda falando de livros, gostaria de destacar vinte obras de autores portugueses, que li este ano, com imenso prazer, e que naturalmente recomendo: de Pedro Paixão - Paixão por Xangai e Imagens Proibidas; de Agustina Bessa Luís - A Ronda da Noite; de Inês Pedrosa - A Eternidade e o Desejo; de António Lobo Antunes - Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?; de Nuno Júdice - Meditação Sobre Ruínas; de Olav Bilac - A Alma Inquieta; de Eça de Queirós - Cartas de Amor; de Sophia de Mello Breyner Andressen - Obra Poética; de Maria Gabriela Llansol - Um Falcão no Punho; de Fernando Dacosta - O Viúvo-Memórias do Fim do Império; de Joana Amaral Dias - Maníacos de Qualidade; de Gonçalo M. Tavares - Histórias Falsas e Um Homem Klaus Klump; de Ana Paula Castro - Sou Jornalista você é Árabe; de Fernando Pessoa - Os Portugueses; Os Portugueses - A Maçonaria; de Walter Hugo Mãe e Jorge Reis - A Alma não é Pequena: 100 poemas portugueses para SMS; de José Viale Moutinho - Os Melhores Contos Portugueses do Século XIX; de Eugénio de Andrade - Poemas Portugueses para a Juventude; e de Virgílio Ferreira - Até ao Fim.

Li outros livros de autores nacionais e estrangeiros, fossem eles de ficção ou não, bem como jornais, revistas, crónicas, colectâneas de poesia e, sobretudo, muitos textos escritos em blogues. Realço, no entanto, das minhas leituras deste ano que finda, estes vinte livros - escritos em português e por portugueses, - por terem sido particularmente bem escritos, e também por me ter dado imenso prazer a sua leitura. No que respeita aos livros, inclino-me perigosamente para a literatura portuguesa, talvez por achar que isso pode enriquecer a minha escrita. Quanto ao resto, já nem tanto...

sábado, 18 de dezembro de 2010

A beleza ao poder!

Joana Amaral Dias
Ana Drago
O Bloco de Esquerda representa a lufada de ar fresco que a esquerda portuguesa há muito precisava. Ao contrário do Partido Comunista, envelhecido e amarrado a dogmas e discursos de "disco riscado", que já ninguém suporta escutar, os bloquistas atreveram-se de tal forma nos últimos anos, que foram premiados com um aumento substancial do número de deputados no seu grupo parlamentar. O argumento primitivo de que se tratava de um partido "a brincar", sem causas maturadas, utópico e demagogo, que apenas pretendia  ver consignado na lei o uso livre dos charros e as capacidades matrimonial e de adopção das comunidades gay, já não colhe. Também os ecologistas, nos idos anos setenta, foram tratados de forma igual e hoje já ninguém tem coragem para lhes chamar bando de guedelhudos, preocupados com questões de lana caprina. O tempo deu-lhes razão e as preocupações ambientais estão, hoje mais do que nunca, no topo da agenda de qualquer governo responsável. Esta é a prova de que as mentalidades se educam. É preciso tempo, paciência, e, sobretudo, muita persistência. Não me desagradaria ver, num futuro não muito longínquo, a Joana Amaral Dias e a Ana Drago, duas mulheres inteligentes e lindíssimas, ocupando cargos ministeriais. Não digam que o Bloco não escolhe as suas elites femininas a dedo!